1714: Terceiro calhau a contar do Sol

O Sol vai engolir a Terra – garante um cientista português – mas isso não me aquece nem me arrefece, apesar de acreditar piamente que ele esteja cobertinho de razão. Tiago Campante estudou o enquadramento e futuro do Sol, a partir de uma análise de 500 estrelas do tipo solar, e concluiu que dentro de quatro mil milhões de anos a estrela central do nosso sistema vai aumentar de tamanho e de luminosidade de uma tal forma que os seus  raios atingirão a órbita do nosso Planeta, que desaparecerá num horrível Inferno.

Não me atrevendo a duvidar, por um só segundo que seja, do rigor científico da ante-visão deste nosso compatriota, a verdade é que estou mais preocupado com as previsões do World Wide Fund for Nature de que se continuarmos a consumir a este ritmo os recursos naturais, em 2030 vão ser precisas duas Terras.

Há cerca de 90 anos, quando a Humanidade ainda vivia dentro dos limites renováveis do nosso Planeta (gastava apenas metade da capacidade regenerativa da Terra), John Maynard Keynes escreveu uma frase – “No longo prazo estamos todos mortos” – que teima em não sair de moda. Infelizmente, este desabafo tem servido de catecismo a uma série de desmandos, como está demonstrado pelo nível asfixiante da nossa dívida pública.

Apesar de completamente desresponsabilizante relativamente às gerações futuras, a elaboração em cima da máxima keynesiana é, sem dúvida, muito sedutora. Como no longo prazo estamos todos mortos, só nos devemos preocupar com o que a nossa vista alcança. Por isso, podemos endividar-nos e consumir alegremente como se não houvesse amanhã.

O problema é que o Mundo acelerou de tal maneira que o longo prazo se transformou em médio prazo e o curto prazo passou a ser já amanhã. 2030 fica já ali ao virar da esquina e, apesar das maravilhosas invenções que o cérebro humano tem sido capaz de gerar, penso que ninguém acredita que seja possível duplicarmos em menos de 20 anos os recursos naturais deste terceiro calhau a contar do Sol.

Por isso, seria inteligente dedicarmos pelo menos tanta atenção à conferência Rio+20, organizada pela Nações Unidas, como ao desfecho das novas eleições gregas, ao tsunami que varre a Banca espanhola ou à análise da nossa execução orçamental no primeiro trimestre.

Se não formos capazes de inverter os actuais (e vorazes) padrões de consumo, adoptando uma vida mais austera, reduzindo a nossa pegada ecológica e poupando os cada vez mais escassos recursos naturais, a menor das nossas dores de cabeça será o aumento galopante do desemprego e o súbito empobrecimento provocado por uma eventual saída do euro.

O real problema é que a continuarmos assim destruiremos o nosso Planeta no curto espaço de duas ou três gerações. Ou seja, a Terra não durará os quatro mil milhões de anos necessários para ser engolida pelo Sol e dar razão ao nosso cientista.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias, da autoria de Jorge Fiel, em 08.06.12