3590: ALMA revela composição invulgar do cometa interestelar 2I/Borisov

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Impressão de artista do cometa interestelar 2I/Borisov enquanto viaja através do nosso Sistema Solar. Este misterioso visitante, oriundo das profundezas do espaço, é o primeiro cometa de outra estrela identificado de forma conclusiva. O cometa consiste numa aglomeração frouxa de partículas de poeira e gelos, e provavelmente não tem mais do que 975 metros, aproximadamente o comprimento de nove campos de futebol. Gás é ejectado para fora do cometa quando se aproxima do Sol e é aquecido.
Crédito: NRAO/AUI/NSF, S. Dagnello

No ano passado um visitante galáctico entrou no nosso Sistema Solar – o cometa interestelar 2I/Borisov. Quando os astrónomos apontaram o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) em direcção ao cometa nos dias 15 e 16 de Dezembro de 2019, observaram directamente e pela primeira vez as substâncias químicas armazenadas dentro de um objecto pertencente a outro sistema planetário que não o nosso. Esta investigação foi publicada dia 20 de Abril, online, na revista Nature Astronomy.

As observações ALMA de uma equipa internacional de cientistas liderada por Martin Cordiner e Stefanie Milam do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland, revelaram que o gás que saía do cometa continha quantidades invulgarmente altas de monóxido de carbono (CO). A concentração de CO é maior do que a já detectada em qualquer cometa até 2 UA (Unidades Astronómicas) do Sol, isto é, até 300 milhões de quilómetros. A concentração de CO de 2I/Borisov foi estimada entre nove e 26 vezes superior à de um cometa médio do Sistema Solar.

Os astrónomos estão interessados em aprender mais sobre os cometas, porque estes objectos passam a maior parte do tempo a grandes distâncias de qualquer estrela em ambientes muito frios. Ao contrário dos planetas, as suas composições interiores não mudaram significativamente desde que nasceram. Portanto, podiam revelar muito sobre os processos que ocorreram durante o seu nascimento em discos proto-planetários. “É a primeira vez que olhamos para o interior de um cometa não pertencente ao nosso Sistema Solar,” disse o astro-químico Martin Cordiner, “e é dramaticamente diferente da maioria dos outros cometas que já vimos antes.”

O ALMA detectou duas moléculas no gás ejectado pelo cometa: cianeto de hidrogénio (HCN) e monóxido de carbono (CO). Embora a equipa esperasse ver HCN, presente em 2I/Borisov em quantidades semelhantes às encontradas nos cometas do Sistema Solar, ficaram surpresos ao ver grandes quantidades de CO. “O cometa deve ter-se formado a partir de material muito rico em CO gelado, que está presente apenas nas temperaturas mais baixas encontradas no espaço, abaixo dos -250º C,” disse a cientista planetária Stefanie Milam.

“O ALMA foi fundamental para transformar a nossa compreensão da natureza do material cometário no nosso próprio Sistema Solar – e agora com este objecto único oriundo da nossa vizinhança estelar. É apenas graças à sensibilidade sem precedentes do ALMA nos comprimentos de onde sub-milimétricos que podemos caracterizar o gás que sai destes objectos tão únicos,” disse Anthony Remijan do NRAO (National Radio Astronomy Observatory) em Charlottesville, Virgínia, co-autor do estudo.

O monóxido de carbono é uma das moléculas mais comuns no espaço e é encontrado no interior da maioria dos cometas. No entanto, há uma enorme variação na concentração de CO nos cometas e ninguém sabe exactamente porquê. Parte da justificação pode estar relacionada com o local onde, no Sistema Solar, um cometa foi formado; outra parte pode ter a ver com a frequência com que a órbita de um cometa o aproxima do Sol e o leva a libertar os seus gelos mais facilmente evaporados.

“Se os gases que observámos refletem a composição do local de nascimento de 2I/Borisov, então mostram que pode ter sido formado de maneira diferente dos cometas do nosso Sistema Solar, numa região externa e extremamente fria de um sistema planetário distante,” acrescentou Cordiner. Esta região pode ser comparada à fria região de corpos gelados para lá de Neptuno, chamada Cintura de Kuiper.

A equipa só pode especular o tipo de estrela que hospedou o sistema planetário de 2I/Borisov. “A maioria dos discos proto-planetários observados com o ALMA encontra-se em torno de versões mais jovens de estrelas de baixa massa como o Sol,” disse Cordiner. “Muitos destes discos estendem-se bem para lá da região onde se pensa que os nossos próprios cometas se formaram e contêm grandes quantidades de gás e poeira extremamente frios. É possível que 2I/Borisov tenha vindo de um destes discos maiores.”

Devido à sua alta velocidade ao viajar pelo nosso Sistema Solar (33 km/s), os astrónomos suspeitam que 2I/Borisov foi expelido do seu sistema hospedeiro, provavelmente pela interacção com uma estrela passageira ou por um planeta gigante. Passou depois milhões ou milhares de milhões de anos numa viagem fria e solitária pelo espaço interestelar, antes de ser descoberta no dia 30 de Agosto de 2019 pelo astrónomo amador Gennady Borisov.

2I/Borisov é apenas o segundo objecto interestelar a ser detectado no nosso Sistema Solar. O primeiro – 1I/’Oumuamua – foi descoberto em Outubro de 2017, quando já estava na sua rota de saída, dificultando a revelação de detalhes sobre se era um cometa, asteroide ou outra coisa. A presença de uma cabeleira activa de gás e poeira em redor de 2I/Borisov tornou-o no primeiro cometa interestelar confirmado.

Até que outros cometas interestelares sejam observados, a composição invulgar de 2I/Borisov não pode ser facilmente explicada e levanta mais perguntas do que respostas. A sua composição é típica de cometas interestelares? Será que vamos ver mais cometas interestelares nos próximos anos com composições químicas peculiares? O que será que vão revelar sobre como os planetas se formam nos outros sistemas estelares?

“2I/Borisov deu-nos um primeiro vislumbre da química que moldou outro sistema planetário,” disse Milam. “Mas somente quando pudermos comparar o objecto com outros cometas interestelares, é que vamos descobrir se 2I/Borisov é um caso especial, ou se todos os objectos interestelares têm níveis invulgarmente altos de CO.”

Astronomia On-line
24 de Abril de 2020

 

spacenews

 

3219: 2I/Borisov aproxima-se da Terra a mais de 170.000 km/hora

CIÊNCIA

NASA/ESA/J. DePasquale/STScI

2I/Borisov, o primeiro cometa interestelar já confirmado no Sistema Solar, continua a sua viagem e aproxima-se da Terra a 177.000 quilómetros por hora, segundo novos dados do Telescópio Espacial Hubble. 2I/Borisov

No próximo dia 28 de Dezembro, o cometa, que foi descoberto no fim de Agosto pelo astrónomo amador russo Guennadi Borísov, passará na sua distância mínima ao nosso planeta, a cerca de 289,8 milhões de quilómetros, avança a SciNews.

Depois, continuará o seu caminho rumo ao outro lado do nosso sistema planetário.

A velocidade do 2I/Borisov aumentou após passar o perélio – o ponto da sua trajectória mais próximo do Sol, atingindo os 177.000 quilómetros por hora. Este é o cometa mais rápido já observado. Por norma, estes corpos viajam a metade desta velocidade.

De acordo com os cientistas, a sua velocidade, bem como a sua trajectória incomum, indicam sem dúvidas que se trata de um corpo que veio de fora do Sistema Solar.

Além disso, o 2I/Borisov tem ainda uma peculiaridade que o diferencia de outros objectos semelhantes: a sua trajectória aproxima-se mais de uma linha recta do que de uma eclipse, o que o distingue claramente dos corpos do nosso Sistema Solar.

Os cientistas não sabem ainda de que sistema estelar é oriundo o 2I/Borisov, apesar de terem conseguido definir com bastante precisão a sua trajectória.

Pouco depois da sua descoberta, uma equipa de astrónomos da Polónia apontou o sistema binário Kruger 60, na constelação de Cepheus, como local de formação deste corpo. Contudo, uma verificação posterior levada a cabo pelos mesmos autores refutou a teoria.

Alguns cientistas acreditam que o 2I/Borisov vai “morrer” ainda antes de chegar à Terra, defendendo que o cometa se vai desintegrar ao aproximar-se do Sol.

O cometa interestelar pode ser “assassinado” antes de chegar à Terra

Um visitante interestelar, que está a atravessar o nosso Sistema Solar, pode estar próximo de “morrer”, uma vez que provavelmente…

ZAP //

Por ZAP
18 Dezembro, 2019

 

spacenews

 

2936: Há água no cometa interestelar que entrou no Sistema Solar

CIÊNCIA

NASA/ESA/J. DePasquale/STScI

Dois meses depois da observação do primeiro cometa interestelar no Sistema Solar, os astrónomos continuam a descobrir mais mistérios do 2l/Borisov.

As últimas observações revelaram a primeira detecção de água neste objecto. No artigo disponível no ArXiv, investigadores norte-americanos recolheram imagens de alta qualidade do cometa e conseguiram detectar emissões de oxigénio – um sinal clássico da presença de água – nas ejecções de gás do objecto.

Para já, o único elemento confirmado que foi detectado no Borisov é cianeto. O rácio entre a quantidade de cianeto e a libertação da água é entre três e nove partes por mil. Esse intervalo varia da média de um cometa típico e de um ligeiramente mais activo.

O cometa está a ser constantemente monitorizado em muitos observatórios, para que estes valores sejam refinados nas próximas semanas.

Mesmo que Borisov seja um cometa mais activo em comparação com a média do Sistema Solar, ainda está alinhado com as evidências que sugerem que, apesar de não ser originário do Sistema Solar, não é tão diferente de outros corpos gelados que estudamos até agora. Isto tem consequências importantes, de acordo com o IFLScience, uma vez que sugere que o mecanismo de formação de cometas deverá ser bastante semelhante nos diferentes sistemas estelares.

Recentemente, o astrónomo amador Guennadi Borísov, residente na Crimeia, detectou o cometa em 30 de Agosto usando um telescópio de 0,65 metros de diâmetro fabricado por ele próprio. Este cometa é o segundo objeto interestelar descoberto na história.

Estudos recentes revelaram que o Borisov vem de um sistema binário de estrelas anãs vermelhas localizado a 13,15 anos-luz de distância do Sol. O sistema, onde ainda não foram encontrados exoplanetas, é conhecido como Kruger 60 e localiza-se na constelação de Cepheus.

Espera-se que o 2I/Borisov se aproxime do nosso planeta em 10 de Dezembro, a uma distância de cerca de 1,8 unidades astronómicas. O cometa permanecerá dentro do Sistema Solar durante cerca de seis meses. De acordo com uma simulação da trajectória esperada do cometa, o objecto celeste passaria entre as órbitas de Júpiter e Marte.

O primeiro objecto interestelar detectado, o Oumuamua ou “Mensageiro das Estrelas”, está rodeado de mistérios desde o dia em que foi descoberto por astrónomos da Universidade do Hawai, em Outubro de 2017.

Depois de constatar mudanças na velocidade do seu movimento, o Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian sugeriu que o asteróide poderia ser uma “sonda” enviada à Terra intencionalmente por uma “civilização alienígena”.

No último ano, o mundo da astronomia debruçou-se no estudo do corpo celeste e as mais várias teorias já foram apresentadas em artigos científicos: desde o seu passado violento, passando pela possibilidade de ser um sistema binário, e até o provável local de onde veio o Oumuamua.

Investigadores também sugeriram que milhares de objetos semelhantes ao Oumuamua podem estar presos no Sistema Solar.

O Oumuamua parece ter vindo da direcção da estrela brilhante Vega, mas, de acordo com o Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, os cientistas não acreditam que esse é o local de onde o objecto veio originalmente, sugerindo que provavelmente veio de um recém-formado sistema estelar.

ZAP //

Por ZAP
31 Outubro, 2019