3640: O mistério do meteorito que causou uma praga no Peru continua por desvendar

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

gamene / Flickr

O meteorito de Carancas tem intrigado os especialistas desde que caiu no Peru em 2007. A forma como conseguiu alcançar a Terra sem queimar e a doença que inexplicavelmente varreu uma vila próxima permanece um mistério desde então.

Em 15 de Setembro de 2007, a pequena vila de Carancas, no Peru, recebeu um visitante inesperado. A princípio, os locais que inspeccionaram o misterioso acidente não encontraram nada, excepto uma cratera de seis metros de profundidade e 29 metros de largura, que rapidamente se encheu de água subterrânea do lençol freático da zona.

De acordo com o All That’s Interesting, a rocha espacial que cavou a cratera acabou por ser um meteorito do tamanho de uma pequena mesa de jantar que pesava cerca de 12 toneladas. Uma análise de fragmentos da rocha espacial encontrou minerais como olivina, piroxeno e feldspato.

Antes de impactar a Terra às 11h45, testemunhas dizem que viram a rocha ardente a atravessar os céus.

Os cientistas determinaram que o meteorito tinha saído de um cinturão de asteróides a cerca de 177 milhões de quilómetros de distância da Terra, entre Marte e Júpiter. Foi um dos maiores meteoritos a pousar na Terra recentemente. O meteorito viajou a cerca de 16 mil quilómetros por hora quando atingiu a Terra.

A sabedoria convencional supunha que a maioria dos meteoros fragmenta e queima antes de chegar à superfície da Terra. Porém, o meteorito que aterrou em Carancas permaneceu inexplicavelmente intacto.

O meteorito de Carancas é o único impacto de condrito conhecido na História.

Mas os mistérios não terminam por aí. As primeiras pessoas a chegaram à cratera de Carancas foram locais. Curiosos, os moradores recolheram fragmentos de rocha que se tinham quebrado no impacto.

A água na cratera estava a ferver e um forte cheiro de enxofre espalhou-se no ar. Os fragmentos também pareciam emitir fumo.

Horas depois, começaram a surgir os primeiros relatos de pessoas na vila a adoecer.  Havia rumores de que os fragmentos de meteoritos, que muitos locais tinham guardado, eram tóxicos – ou mesmo amaldiçoados. Os moradores começaram a reclamar de náuseas, tonturas, dor de cabeça e vómitos sem nenhuma causa clara.

“Muitas pessoas da cidade de Carancas ficaram doentes. Têm dores de cabeça, problemas oculares, pele irritada, náuseas e vómitos ”, disse, na época, Nestor Quispe, presidente do município ao qual Carancas pertence, em declarações à BBC. “Acho que também há um certo medo psicológico na comunidade.”

Havia também relatos de gado a sangrar pelo nariz – e mesmo a morrer repentinamente.

Os moradores começaram a temer também que o suprimento de água local já não fosse seguro para beber.

As teorias da doença do meteorito de Carancas

As superstições em torno dos corpos celestes remontam à história antiga entre diferentes culturas.

Os astecas associaram o deus Quetzalcoatl ao planeta Vénus, que acreditavam ter previsto o futuro, enquanto os romanos atribuíam a vitória sobre Aníbal à posse de um fragmento de meteoro que veneravam como a “Agulha de Cibele”.

Nos registos históricos da Grécia e da China, eventos de “pedras que caíam” eram documentados e acreditava-se que influenciavam os assuntos do mundo.

As crenças desapareceram à medida que a teologia e a ciência medievais avançaram.

Em Carancas, a aparência do meteorito acendeu medos supersticiosos. O responsável de Carancas, Maximiliano Trujillo, suspeitava que as doenças fossem pelo menos parcialmente causadas pela superstição, por isso convocou uma reunião pública com cerca de 800 pessoas para ouvir explicações de cientistas sobre o meteorito.

Alguns não ficaram, convencidos, optando por acreditar que a rocha espacial tinha sido convocada pelos deuses como um mau presságio para o futuro.

Trujillo pediu a Marcial Laura Aruquipa, um dos dois últimos xamãs da vila, que realizasse um sacrifício ritual na esperança de convencer os moradores de que o meteorito não representava perigo.  Para manter as pessoas a salvo de outros efeitos do meteorito, Trujillo construiu uma cerca ao redor da cratera.

Alguns especialistas determinaram que a causa provável da misteriosa doença do meteorito de Carancas era o arsénio que tinha penetrado nas águas subterrâneas e vaporizado após o impacto. O arsénio entrou no ar como um gás e fez com que os mais próximos do meteorito ficassem doentes. Outros apontaram que os meteoritos que colidem com a Terra não costumam emitir uma temperatura alta ou odor.

Assim, embora o caso tenha sido encerrado para alguns, continua a ser um enigma para outros.

ZAP //

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5 Maio, 2020

 

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3639: Caem na Terra 16 toneladas de rochas espaciais todos os anos

CIÊNCIA/GEOLOGIA

Edwin Aldrin / NASA
Pegada do astronauta Edwin Aldrin na Lua

Caem na Terra, em média, 16 toneladas de rochas espaciais, revelou uma nova investigação que analisou meteoritos encontrados na Antárctida. 

O clima, a superfície branca e o movimento do fluxo de gelo fazem da Antárctida uma boa localização para preservar e detectar rochas oriundas do Espaço, explicam os cientistas no novo estudo, cujos resultados foram publicados na revista Geology.

“A grande maioria dos objectos que atinge a Terra é realmente pequena. Estamos a falar de objectos que, quando atingem o solo, os seus fragmentos somam mais de 50 gramas. Portanto, normalmente, têm entre 10 a 50 quilogramas no total. Objectos maiores do que estes são realmente muito muito raros”, disse à BBC Geoff Evatt, matemático da Universidade de Manchester, no Reino Unido, e autor do estudo, citado pela BBC.

O estudo permitiu à equipa extrapolar os dados e aplicá-lo num ambiente global para deduzirem onde é que a maioria dos meteoritos acaba por cair.

Segundo os investigadores, este mapeamento pode ajudar a criar um melhor plano de contingência para a eventualidade de uma rocha espacial vier em direcção à Terra.

“A nossa modelagem também nos permite reavaliar o risco para a Terra de maiores impactos de meteoritos: é 12% maior no Equador e 27% mais baixo nos pólos do que se o fluxo fosse globalmente uniforme”, aponta o estudo.

“O investimento na metodologia fornece uma ferramenta valiosa para planear novas missões de recolha de meteoritos em regiões não visitadas da Antárctida”.

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4 Maio, 2020

 

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3638: Em tempos de pandemia, a última Super Lua do ano vai iluminar os céus

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

giumaiolini / Flickr

Na próxima quinta-feira, as atenções vão virar-se para os céus: a última Super Lua poderá ser observada no próximo dia 7 de Maio.

Na próxima quinta-feira, dia 7 de Maio, poderá observar mais uma Super Lua, que será a última de 2020, de acordo com o Observatório Astronómico de Lisboa.

“A Lua nascerá a parecer maior do que o habitual, não apenas devido à ocorrência de Super Lua, mas também porque estando mais próxima do horizonte vê-se mais ampliada”, anuncia o Observatório Astronómico de Lisboa (OAL).

A Lua entrará no perigeu na quarta-feira, pelas 03:02, e na sua fase de Lua Cheia na quinta-feira, dia 7, pelas 11h45. A melhor altura para esta Lua ser observada será no dia 7, pela altura do seu nascimento, que está previsto para as 20h50 em Lisboa e Coimbra, 20.53 no Porto, 21.11 no Funchal e 20.58 em Ponta Delgada (hora local).

“O local ideal para se observar a Super Lua é aquele que tenha o horizonte desimpedido na direcção E, pois a Lua nasce com o azimute 70º contado de Sul para Este”, adianta o Observatório.

Este mês ocorrem ainda duas chuvas de meteoros, a das Aquáridas (19 de Abril a 28 de Maio) e a das Ariétidas (14 de Maio a 24 de Junho), mas não estarão reunidas as condições ideais para observação a olho nu.

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4 Maio, 2020

 

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3637: NASA vai procurar água na Lua com lasers espaciais

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

NASA / JPL-Caltech
Lunar Flashlight

A NASA projectou um CubeSat de seis unidades, projectado para procurar gelo na superfície da Lua usando lasers especiais.

A sonda, apelidada de Lunar Flashlight, vai usar lasers infravermelhos para iluminar regiões polares sombrias, enquanto que um reflectómetro de bordo irá medir a reflexão e a composição da superfície lunar. Esta lanterna a laser tem como principal objectivo detectar o gelo superficial encontrado no fundo das crateras lunares.

Apesar de os cientistas suspeitarem de que há gelo no interior das crateras mais frias e escuras da Lua, todas as conclusões obtidas até agora foram ambíguas. Barbara Cohen, investigadora da missão no Goddard Space Flight Center, explicou que, se a intenção é enviar astronautas para “desenterrar” o gelo, “é melhor ter a certeza de que ele existe”.

O projecto levado a cabo pelo Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA é a primeira missão que vai procurar gelo na Lua com a ajuda de lasers. Além disso, será também a primeira nave planetária a usar um propulsor “verde”, um novo tipo de combustível mais seguro.

A Lunar Flashlight irá passar dois meses na Lua, onde irá mergulhar no Pólo Sul para iluminar com os seus lasers as regiões mais sombrias. As crateras mais escuras, encontradas nos Pólos Norte e Sul da Lua, podem ser “armadilhas frias” que acumulam moléculas de gelo, derivadas de cometas e asteróides que afectaram a superfície lunar.

Assim que os lasers colidirem com a rocha lunar, a luz irá reflectir na nave e indicar a ausência de gelo. No entanto, se a luz for absorvida significa que estes “bolsos” lunares contêm água.

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5 Maio, 2020

 

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3636: Este planeta super-quente não tem céus azuis

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Impressão de artista do exoplaneta super-quente WASP-79b, localizado a 780 anos-luz de distância. O planeta orbita extremamente perto de uma estrela muito mais quente que o nosso Sol. O planeta é maior que Júpiter e a sua atmosfera nublada muito profunda “borbulha” a quase 1650º C – a temperatura do vidro derretido. O Telescópio Espacial Hubble e outros observatórios mediram como a luz estelar é filtrada através da atmosfera do planeta, permitindo a análise da sua composição química. O Hubble detectou a presença de vapor de água.
Crédito: NASA, ESA e L. Hustak (STScI)

A previsão meteorológica para o planeta gigante, super-quente, do tamanho de Júpiter, WASP-79b, é humidade, nuvens dispersas, chuva de ferro e céus amarelos.

O Telescópio Espacial Hubble da NASA reuniu forças com o Telescópio Magellan II do Consórcio Magellan no Chile para analisar a atmosfera deste planeta, que orbita uma estrela que é mais quente e brilhante do que o nosso Sol e está localizada a uma distância de 780 anos-luz da Terra na direcção da constelação de Erídano. Entre os exoplanetas, planetas que orbitam outras estrelas que não o Sol, WASP-79b está entre os maiores já observados.

A surpresa nos resultados publicados recentemente é que o céu do planeta não tem evidências de um fenómeno atmosférico chamado dispersão de Rayleigh, onde certas cores da luz são dispersadas por partículas muito finas de poeira na atmosfera superior. A dispersão de Rayleigh é o que torna o céu da Terra azul ao espalhar os comprimentos de onda mais curtos (mais azuis) da luz solar.

Os investigadores dizem que, dado que WASP-79b não parece ter este fenómeno, o céu diurno provavelmente será amarelado.

“Este é um forte indício de um processo atmosférico desconhecido que não estamos a contabilizar nos nossos modelos físicos. Eu mostrei o espectro de WASP-79b a vários colegas, e o seu consenso é que ‘isso é estranho,'” disse Kristin Showalter Sotzen do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins em Laurel, no estado norte-americano de Maryland.

A equipa gostaria de encontrar outros planetas com uma condição semelhante a fim de aprender mais.

“Como é a primeira vez que vemos isto, não temos muita certeza de qual é a causa,” disse Sotzen. “Precisamos de ficar atentos a outros planetas como este porque podem ser indicativos de processos atmosféricos desconhecidos que actualmente não compreendemos. Como temos apenas um planeta como exemplo, não sabemos se é um fenómeno atmosférico ligado à evolução do planeta.”

Os Júpiteres quentes orbitam tão perto das suas estrelas que a sabedoria convencional diz que migraram para dentro em direcção a uma íntima órbita, depois de “engolirem” gás frio nas frias regiões exteriores de um sistema planetário. WASP-79b completa uma órbita em apenas três dias e meio. Mas este planeta está numa órbita polar invulgar em torno da estrela, o que contraria as teorias dos cientistas sobre como os planetas se formam – especialmente os Júpiteres quentes.

Os novos resultados podem potencialmente fornecer pistas adicionais para a história de planetas semelhantes. Alguns Júpiteres quentes parecem ter atmosferas nubladas enquanto outros parecem ter atmosferas limpas. Se for como outros Júpiteres quentes, WASP-79b pode ter nuvens dispersas e o ferro elevado a grandes altitudes pode precipitar como chuva.

WASP-79b tem o dobro da massa de Júpiter e é tão quente que possui uma extensa atmosfera, ideal para estudar a luz estelar que é filtrada e “raspa” a atmosfera a caminho da Terra.

Para estudar o planeta, a equipa usou um espectrógrafo – um instrumento que analisa os comprimentos de onda da luz para observar composições químicas – acoplado ao Telescópio Magellan II no Observatório Las Campanas, no Chile. Eles esperavam ver uma diminuição na quantidade de luz estelar azul devido à dispersão de Rayleigh. Em vez disso, viram a tendência oposta. Os comprimentos de onda mais curtos e azuis da luz parecem ser mais transparentes, indicando menos absorção e dispersão pela atmosfera. Este resultado foi consistente entre as observações independentes de WASP-79b levadas a cabo com o satélite TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA.

WASP-79b também foi observado como parte do programa PanCET (Panchromatic Comparative Exoplanet Treasury) do Telescópio Espacial Hubble, e essas observações mostraram que há vapor de água na atmosfera de WASP-79b. Com base nesta descoberta, o planeta gigante foi seleccionado como um alvo de Ciência Antecipada do futuro Telescópio Espacial James Webb da NASA. Espera-se que o Webb forneça bastantes dados espectrais em comprimentos de onda infravermelhos mais longos. Estas observações podem revelar mais evidências de vapor de água na atmosfera do planeta e vão fornecer uma visão mais detalhada da composição química do planeta, o que poderá ajudar a revelar a fonte subjacente do espectro peculiar.

Astronomia On-line
5 de Maio de 2020

 

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3635: Northolt Branch Observatories

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

The NEOCP object, C16NPA1, that we observed recently has been designated 2020 JH. It is an Apollo-type asteroid with a diameter of 122-273 metres.

2020 JH was first observed at Catalina Sky Survey on May 2nd. It made a close approach on May 1st, at a distance of 0.0666 au (9.9 million km) from Earth.

We observed it when it was visible at +18.4 mag, moving at 28 “/min through the constellation of Ursa Major.
https://minorplanetcenter.net/mpec/K20/K20J32.html

O objecto NEOCP, C16NPA1, que observamos recentemente foi designado 2020 JH. É um asteroide tipo Apollo com um diâmetro de 122-273 metros.

2020 JH foi observado pela primeira vez no Catalina Sky Survey em 2 de Maio. Ele fez uma aproximação estreita no dia 1 de Maio, a uma distância de 0.0666 au (9.9 milhões de km) da Terra.

Observamos-lo quando era visível em + 18.4 mag, movendo-se a 28 “/ min através da constelação de Ursa Maior.
https://minorplanetcenter.net/mpec/K20/K20J32.html

Northolt Branch Observatories
Asteroid Day
NEOShield-2
Qhyccd

 

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3634: Astrónomos capturam imagens raras de discos de formação planetária

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Os discos proto-planetários em torno das estrelas R CrA (esquerda) e HD45677 (direita), capturadas com Interferómetro do Very Large Telescope do ESO. As órbitas foram acrescentadas para referência. A estrela serve o mesmo propósito, dado que a sua luz foi filtrada para obter uma imagem mais detalhada do disco.
Crédito: Jacques Kluska et al.

Uma equipa internacional de astrónomos capturou quinze imagens das orlas internas de discos de formação planetária localizados a centenas de anos-luz de distância. Estes discos de poeira e gás, parecidos em forma a um disco de música, formam-se em torno de estrelas jovens. As imagens lançam uma nova luz sobre como os sistemas planetários são formados. Foram publicadas na revista Astronomy & Astrophysics.

Para entender como os sistemas planetários, incluindo o nosso, tomam forma, precisamos de estudar as suas origens. Os discos de formação planetária, ou proto-planetários, são formados em uníssono com a estrela que rodeiam. Os grãos de poeira nos discos podem crescer para corpos maiores, o que acaba levando à formação de planetas. Pensa-se que os planetas rochosos como a Terra se formem nas regiões interiores dos discos proto-planetários, a menos de cinco unidades astronómicas (cinco vezes a distância Terra-Sol) da estrela em torno da qual o disco se formou.

Antes deste novo estudo já tinham sido obtidas várias imagens destes discos com os maiores telescópios individuais, mas estes não conseguem capturar os seus melhores detalhes. “Nestas fotos, as regiões mais próximas da estrela, onde os planetas rochosos se formam, cobrem apenas alguns pixeis,” diz o autor principal Jacques Kluska de KU Leuven (Universidade Católica de Leuven), Bélgica. “Precisávamos visualizar estes detalhes para poder identificar padrões que pudessem trair a formação planetária e caracterizar as propriedades dos discos.” Isto exigiu uma técnica de observação completamente diferente. “Estou emocionado por termos agora pela primeira vez quinze destas imagens,” continua Kluska.

Reconstrução de imagem

Kluska e seus colegas criaram as imagens no ESO do Chile usando uma técnica chamada interferometria infravermelha. Usando o instrumento PIONIER do ESO, combinaram a luz recolhida por quatro telescópio no VLT (Very Large Telescope) a fim de capturar os discos em detalhe. No entanto, esta técnica não fornece uma imagem da fonte observada. Os detalhes dos discos precisam de ser recuperados com uma técnica de reconstrução matemática. Esta técnica é semelhante ao modo como a primeira imagem de um buraco negro foi capturada. “Tivemos que remover a luz da estrela, pois dificultava o nível de detalhe que podíamos ver nos discos,” explica Kluska.

“Distinguir detalhes à escala das órbitas dos planetas rochosos como a Terra, ou até à de Júpiter (como se pode ver nas imagens) – uma fracção da distância Terra-Sol – é equivalente a ser capaz de ver um ser humano na Lua ou a distinguir um cabelo a uma distância de 10 km,” realça Jean-Philippe Berger da UGA (Université Grenoble Alpes) que, como investigador principal, esteve encarregue do trabalho com o instrumento PIONIER. “A interferometria infravermelha está a tornar-se rotineiramente usada para descobrir os mais pequenos detalhes dos objectos astronómicos. A combinação desta técnica com a matemática avançada finalmente permite-nos transformar os resultados destas observações em imagens.”

Irregularidades

Alguns aspectos destacam-se imediatamente nas imagens. “Podemos ver que alguns pontos são mais brilhantes ou menos brilhantes: isto sugere processos que podem levar à formação de planetas. Por exemplo: pode haver instabilidades no disco que podem levar a vórtices onde o disco acumula grãos de poeira espacial e que podem crescer e evoluir para um planeta.”

A equipa irá fazer pesquisas adicionais para identificar o que pode estar por trás destas irregularidades. Kluska também vai realizar novas observações para obter ainda mais detalhes e testemunhar directamente a formação planetária nas regiões dentro dos discos que estão mais próximas das estrelas. Adicionalmente, Kluska está a liderar uma equipa que começou a estudar 11 discos em torno de outros tipos mais antigos de estrelas, também cercadas por discos de poeira, pois pensa-se que estes também possam produzir planetas.

Astronomia On-line
5 de Maio de 2020

 

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3633: O Sol, em comparação com outras estrelas, é monótono

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Não muito activo: comparação das variações de brilho do Sol com aquelas de uma estrela parecida com o Sol.
Crédito: MPS/hormesdesign.de

O Sol é uma estrela em constante mudança: às vezes, inúmeras manchas solares cobrem a sua superfície visível; por outras, a superfície está completamente “vazia”. No entanto, pelos padrões cósmicos, o Sol é extraordinariamente monótono. Este é o resultado de um novo estudo apresentado por investigadores sob a liderança do Instituto Max Planck para Investigação do Sistema Solar na edição mais recente da revista Science. Pela primeira vez, os cientistas compararam o Sol com centenas de outras estrelas com períodos de rotação semelhantes e outras propriedades fundamentais. A maioria delas apresentou variações muito mais fortes. Isto levanta a questão de saber se a monotonia do Sol é uma característica básica ou se a nossa estrela está apenas a passar por uma fase invulgarmente calma há já vários milénios.

A extensão com que a actividade solar (e, portanto, o número de manchas solares e o brilho solar) varia pode ser reconstruida usando vários métodos – pelo menos durante um certo período de tempo. Desde 1610, por exemplo, há registos confiáveis de manchas solares que cobrem o Sol; a distribuição de variedades radioactivas de carbono e berílio em anéis de árvores e núcleos de gelo permite-nos tirar conclusões sobre o nível da actividade solar nos últimos 9000 anos. Durante este período de tempo, os cientistas encontram flutuações regularmente recorrentes de força comparável, como nas últimas décadas. “No entanto, quando comparados com toda a vida útil do Sol, 9000 anos é como um piscar de olhos,” diz o Dr. Timo Reinhold, cientista do Instituto Max Planck e autor principal do estudo. Afinal, a nossa estrela tem quase 4,6 mil milhões de anos. “É concebível que o Sol esteja a passar por uma fase silenciosa com a duração de milhares de anos e, portanto, tenhamos uma imagem distorcida da nossa estrela,” acrescenta.

Tendo em conta que não há como descobrir como o Sol era nos tempos primitivos, os cientistas só podem recorrer às estrelas: juntamente com colegas da Universidade de Nova Gales do Sul, Austrália, e da Escola de Pesquisa Espacial na Coreia do Sul, os investigadores do Instituto Max Planck investigaram se o Sol se comporta “normalmente” em comparação com outras estrelas. Isto pode ajudar a classificar a sua actividade actual.

Para esse fim, os investigadores seleccionaram estrelas candidatas que se parecem com Sol em termos de propriedades decisivas. Além da temperatura da superfície, da idade e da proporção de elementos mais pesados do que o hidrogénio e hélio, os cientistas observaram, sobretudo, o período de rotação. “A velocidade com que uma estrela gira em torno do seu próprio eixo é uma variável crucial,” explica o Dr. Sami Solanki, director do Instituto Max Planck e co-autor da nova publicação. A rotação de uma estrela contribui para a criação do seu campo magnético num processo de dínamo no seu interior. “O campo magnético é a força motriz responsável por todas as flutuações na actividade,” diz Solanki. O estado do campo magnético determina com que frequência o Sol emite radiação energética e lança partículas velozes para o espaço em erupções violentas, quão numerosas as manchas solares escuras e regiões brilhantes à sua superfície são – e, portanto, também com que intensidade o Sol brilha.

Um catálogo compreensivo que contém os períodos de rotação de milhares de estrelas está disponível há apenas alguns anos. Tem por base dados de medição do Telescópio Espacial Kepler da NASA, que registou as flutuações de brilho de aproximadamente 150.000 estrelas de sequência principal (ou seja, aquelas que estão a meio das suas vidas) de 2009 a 2013. Os investigadores vasculharam esta enorme amostra e seleccionaram as estrelas que completam uma rotação em 20 a 30 dias. O Sol completa uma volta sob si próprio a cada mais ou menos 24,5 dias. Os investigadores conseguiram refinar ainda mais esta amostra usando dados do Telescópio Espacial Gaia da ESA. No final, restaram 369 estrelas, que também se assemelham ao Sol noutras propriedades fundamentais.

A análise exacta das variações de brilho destas estrelas, de 2009 a 2013, revelam uma imagem clara. Enquanto entre as fases activas e inactivas a irradiação solar flutuou em média apenas 0,07%, as outras estrelas apresentaram variações muito maiores. As suas flutuações eram tipicamente cerca de cinco vezes mais fortes. “Ficámos muito surpreendidos que a maioria das estrelas semelhantes ao Sol sejam muito mais activas que o Sol,” diz o Dr. Alexander Shapiro do Instituto Max Planck, que chefia o grupo de investigação “Ligando as Variabilidades Solar e Estelares”.

No entanto, não é possível determinar o período de rotação de todas as estrelas observadas pelo telescópio Kepler. Para fazer isso, os cientistas têm que encontrar certas quedas que reaparecem periodicamente na curva de luz da estrela. Estas diminuições de brilho podem ser rastreadas até às manchas estelares que escurecem a superfície solar, que giram para fora do campo de visão do telescópio e que depois reaparecem após um período fixo de tempo. “Para muitas estrelas, estes escurecimentos periódicos não podem ser detectados; perdem-se no ruído dos dados medidos e nas flutuações de brilho subjacentes,” explica Reinhold. Visto através do telescópio Kepler, nem mesmo o Sol conseguiria revelar o seu período de rotação.

Assim sendo os cientistas também estudaram mais de 2500 estrelas parecidas com o Sol com períodos de rotação desconhecidos. O seu brilho flutuou muito menos do que o do outro grupo.

Estes resultados permitem duas interpretações. Poderá haver uma diferença fundamental ainda inexplicável entre estrelas com períodos de rotação conhecidos e desconhecidos. “É igualmente concebível que estrelas com períodos de rotação conhecidos e parecidos ao do Sol nos mostrem as flutuações fundamentais na actividade de que o Sol é capaz,” diz Shapiro. Isso significaria que a nossa estrela tem permanecido invulgarmente fraca ao longo dos últimos 9000 anos e que em escalas de tempo muito grandes também sejam possíveis fases com flutuações muito maiores.

Não há, no entanto, motivo de preocupação. No futuro próximo, não há indicação de tal “hiperactividade” solar. Pelo contrário: durante a última década, o Sol tem-se mostrado bastante fraco, mesmo pelos seus próprios baixos padrões. As previsões de actividade para os próximos 11 anos indicam que isso não mudará em breve.

Astronomia On-line
5 de Maio de 2020

 

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