3421: MAVEN explora Marte a fim de compreender a interferência de rádio na Terra

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Gráfico que ilustra sinais de rádio de uma estação remota (linha roxa curva) a interferir com uma estação local (torre preta) depois de serem reflectidos de uma camada de plasma na ionosfera.
Crédito: NASA Goddard/CI lab

A sonda MAVEN (Mars Atmosphere and Volatile EvolutioN) da NASA descobriu “camadas” e “fendas” na parte electricamente carregada da atmosfera superior (a ionosfera) de Marte. O fenómeno é muito comum na Terra e causa interrupções imprevisíveis nas radiocomunicações. No entanto, não as compreendemos completamente porque formam-se a altitudes que são muito difíceis de explorar na Terra. A descoberta inesperada da MAVEN mostra que Marte é um laboratório único para explorar e melhor entender este fenómeno altamente perturbador.

“As camadas estão tão próximas, acima das nossas cabeças na Terra, e podem ser detectadas por qualquer pessoa com um rádio, mas ainda são bastante misteriosas,” diz Glyn Collinson, do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland, autor principal de um artigo sobre esta investigação publicado na edição de 3 de Fevereiro da revista Nature Astronomy. “Quem haveria de pensar que uma das melhores maneiras de as entender seria lançar um satélite a milhões de quilómetros, para Marte?”

Se a sua estação de rádio favorita já encravou ou foi substituída por outra estação, uma causa provável são camadas de gás com carga eléctrica, chamado “plasma”, na região mais alta da atmosfera, de nome “ionosfera”. Formadas repentinamente e com a duração de várias horas, estas camadas agem como espelhos gigantes no céu, fazendo com que os distantes sinais de rádio sejam reflectidos para lá do horizonte, onde podem interferir nas transmissões locais, como duas pessoas que tentam conversar entre si. As camadas também podem provocar interferência nas comunicações de rádio dos aviões e de navios, além de cegar o radar militar.

Na Terra, as camadas formam-se a uma altitude de aproximadamente 100 km, onde o ar é muito fino para um avião voar, mas demasiado espesso para um satélite orbitar. A única maneira de as alcançar é com um foguetão, mas estas missões durante apenas dezenas de minutos antes de caírem de volta para a Terra. “Sabemos que existem há mais de 80 anos, mas sabemos muito pouco sobre o que acontece no seu interior, porque nenhum satélite pode ficar baixo o suficiente para alcançar as camadas,” diz Collinson, “pelo menos, nenhum satélite na Terra.”

Em Marte, as naves espaciais como a MAVEN podem orbitar a altitudes mais baixas e podem amostrar estas características directamente. A MAVEN transporta vários instrumentos científicos que medem plasmas na atmosfera e no espaço ao redor de Marte. Medições recentes de um destes instrumentos detectaram picos repentinos inesperados na abundância de plasma enquanto voava através da ionosfera marciana. Joe Grebowsky, ex-cientista do projecto MAVEN em Goddard, reconheceu imediatamente o pico da sua experiência anterior com voos de foguetões através das camadas da Terra. A MAVEN não apenas tinha descoberto que camadas idênticas podem ocorrer noutros planetas que não a Terra, mas os novos resultados revelam que Marte fornece o que a Terra não consegue, um lugar onde podemos explorar estas camadas com satélites.

“As baixas altitudes observáveis pela MAVEN vão preencher uma grande lacuna no nosso entendimento desta região de Marte e da Terra, com descobertas realmente significativas por fazer,” salienta Grebowsky, co-autor do artigo.

As observações da MAVEN já estão a derrubar algumas das nossas ideias existentes sobre o fenómeno: a MAVEN descobriu que as camadas também têm um espelho oposto, uma “fenda”, onde o plasma é menos abundante. A existência de tais “brechas” na natureza era completamente desconhecida antes da sua descoberta em Marte pela MAVEN, e derruba os modelos científicos existentes que dizem que não se podem formar. Além disso, ao contrário da Terra, onde as camadas têm vida curta e imprevisível, as camadas marcianas são surpreendentemente duradouras e persistentes.

Estas novas descobertas já nos deram uma melhor compreensão dos fenómenos fundamentais que sustentam estas camadas e futuras explorações marcianas vão permitir construir melhores modelos científicos de como se formam. Embora, assim como o clima, não possamos impedir que se formem, talvez um dia as novas informações de Marte possam ajudar a prevê-las na Terra, o que significa uma comunicação de rádio mais confiável para todos nós.

Astronomia On-line
7 de Fevereiro de 2020

spacenews

 

 

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