Gabão 2023 – “Françafrique 1959”

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🇵🇹 OPINIÃO

Os acontecimentos desta semana no Gabão marcam o sétimo golpe militar em África, desde 2020 (atenção, o Mali teve “dois golpes dentro do Golpe” e o Burquina teve “um golpe dentro do Golpe!”). O “Gabão 2023” explica-se num parágrafo!

No passado sábado 26, o Gabão teve eleições presidenciais, para uma esperada terceira vitória consecutiva do candidato-Presidente (PR) Ali Bongo Ondimba, no cargo desde 2009.

As condições habituais para a “chapelada eleitoral” estavam criadas. Corte total da Internet durante três dias, incluindo o de voto e proibição da presença de jornalistas estrangeiros e de observadores eleitorais, nomeadamente da União Europeia, que não puderam validar os resultados e a condução do processo.

O timing dos militares foi o anúncio dos resultados na quarta-feira 30, que confirmavam a vitória do PR Bongo com 64,27% dos votos. Os militares não decidiram terminar com uma presidência que durava desde 2009, mas com um regime que dura desde 1967!

Porquê? Porque a “dinastia Bongo” tinha planos para ganhar a alcunha de “Coreia do Norte Africana”, ao programar colocar o neto do PR Omar Bongo (1967-2009) na cadeira que fora do avô e do pai. Ou seja, os gaboneses prospectivavam os próximos 50 anos, como viveram os últimos. Disseram basta!

Aproveitaram os ventos de propaganda anti-francesa que sopram África adentro e resolveram fazer aquilo que ouvem muitas vezes o homem branco dizer nos fóruns internacionais, “soluções africanas para problemas africanos!”

Não tendo nada a ver com os golpes no Mali, Burquina, nem com os russos, no entanto o golpe no Gabão procura exactamente o que os citados, mais o Níger procura. “Mentiras novas”, alternativas “às natas azedas” e opções face à colonial “tábua de queijos”, sempre franceses, sempre iguais.

Em suma, do Mali ao Gabão, a rejeição africana da década de 20 é à “Françafrique de Foccard e De Gaulle”. Essa é que é essa!

O termo “Françafrique” foi cunhado em vários livros pelo activista de direitos humanos François-Xavier Verschave, nos quais explica o esquema encontrado pelo Empresário-Conselheiro Presidencial Jacques Foccard e o PR Charles de Gaulle (por 1959-60), para manterem o controlo económico e geoestratégico das colónias a descolonizar.

“O mais longo escândalo da República”, segundo Verschave, que vê também neste modelo de imposição de dependências “uma organização criminosa que funciona através de uma nebulosa de actores económicos, políticos e militares, em França e em África, organizados em redes e grupos de lóbi empenhados em se apropriarem de recursos naturais e fundos canalizados para o desenvolvimento/bem público”.

O Gabão e a família Bongo, foram um dos pilares da Françafrique, sobretudo quando na década de 1970 se descobriu petróleo no país.

O instrumento francês que serviu de trela aos gaboneses foi a Elf-Gabon, subsidiária da Elf-Aquitaine e que durante décadas agiu como governo-sombra, em benefício dos interesses franceses.

Outro bom exemplo de outro “instrumento-trela” utilizado na África Ocidental, é o Franco CFA (colónias francesas em África, explícito!). 50% do bolo Franco CFA, está no Banco Central Francês, forma de manter controlo sobre a gestão diária dos países aderentes à UEMOA (Union Economique et Monetaire Ouest Africaine, oito associados de Bissau ao Benim).

Esta onda de golpes explica-se através da seguinte imagem, “a bola do colonialismo há muito que bateu na parede e agora está-nos a rebentar na cara!”

Nesse sentido e no seguimento do fim de uma “presidência de 1967”, os PR”s Paul Biya dos Camarões (desde 1982) e Teodoro Obiang da lusófona Guiné-Equatorial (desde 1979), não deverão andar a dormir descansados!

Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

DN
Raúl M. Braga Pires
01 Setembro 2023 — 00:25


Ex-Combatente da Guerra do Ultramar, Web-designer,
Investigator, Astronomer and Digital Content Creator



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