A mulher da Fava-Rica virá?

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Esperámos todos por ela, a mulher da fava-rica, mas há muito que ninguém a vê nas ruas de Lisboa. A sopa, essa, ainda sobrevive na Mouraria.

É uma sopa que “não tem mistério”, garante a D. Filomena, já nós vamos quase no final do almoço. “Compra-se a fava descascada e seca, põe-se de molho de um dia para o outro, e tempera-se fora do lume”. A tigela com a sopa densa, de cor clara, tinha-nos chegado à mesa acompanhada por uma pequena colher com alho cru picado, e por uma garrafa de azeite para os temperos. “Quem quiser, pode pôr um bocadinho de coentros”.

Não tem, de facto, mistério. Mas tem história. É uma sopa que nos transporta para o tempo em que os trabalhadores de Lisboa acordavam de madrugada e comiam uma sopa quentinha, trazida pelas mulheres da fava-rica, numa panela protegida dentro de um cesto de verga, à cabeça. E transporta-nos para essa frase, que tanto ouvimos sem a percebermos bem: “…até vir a mulher da fava-rica”.

Ouvia-a muito, em pequena, da minha avó. “Vamos ficar aqui à espera até vir a mulher da fava-rica”. E, por muito que esperássemos, nunca se materializavam – nem a mulher nem a fava-rica. Parece que a frase quer dizer simplesmente que as pessoas gostavam tanto da sopa que estavam dispostas a esperar o tempo que fosse preciso por ela. E a mulher, nesses tempos antigos, acabava mesmo por aparecer, apregoando: faaaava-riiica!

Depois o pregão deixou de se ouvir, e as mulheres da fava-rica sobreviveram apenas em velhas fotos e gravuras. Como a “senhora Deolinda Neves, ilustre vendedora de fava-rica à população que cerca a Rua Capitão Roby”, fotografada na revista Flama, numa imagem agora reproduzida no blogue Rua dos Dias Que Voam. Com “dois filhos e quatro netos”, Deolinda fazia “da concha e da panela o seu emblema profissional”, vendendo vinte litros de fava-rica todos os domingos.

Hoje, quem quiser comer sopa de fava-rica em Lisboa tem de ir ao restaurante O Forno do Alfarrabista, num beco pequenino do lado esquerdo de quem sobe a Rua dos Cavaleiros vindo do Martim Moniz. Mas é preciso telefonar de véspera para a D. Filomena pôr as favas de molho. É que a sopa já esteve na lista, mas não tinha tanta saída como antigamente.

Foi um galego, Manolo Carrera, durante muito tempo director do Hotel Mundial, quem um dia decidiu que chegara a hora de recuperar a fava-rica. Apresentou a receita – que a sua mãe sabia fazer, e que ensinou a D. Filomena – num concurso gastronómico de Lisboa, no início dos anos 90, e ganhou. O sucesso animou o filho, Tiago, a abrir na Praça do Martim Moniz o Quiosque da Fava-Rica, que por ali esteve doze anos, até ser encerrado no ano passado.

Mas a sopa não se mudou para longe. Manolo e Filomena começaram a explorar o restaurante no pequeno Beco dos Cavaleiros, um local propriedade de outro galego, Salvino Garcia Pardelhas. É João, o neto de Salvino, que nos aponta agora uma fotografia na parede do restaurante. Era ali, na sala ao lado, onde acabámos de comer a fava-rica, que o avô trabalhava em dois poderosos fornos, onde fazia farinhas – de amendoim, de fava, de alfarroba, quando ainda se usava a alfarroba. Lá está ele, na imagem, agarrado a um tabuleiro – pesavam entre 30 a 40 quilos, conta o neto -, com uma grande balança e os fornos ao fundo; e numa foto ao lado, bebendo um copito, na zona que funcionou noutros tempos como adega cooperativa.

E assim se juntam as histórias de dois galegos vindos para Lisboa ainda rapazes novos, e que por lá foram ficando – Salvino já tem hoje mais de 80 anos, e Manolo, mais novo, voltou há pouco tempo para a Galiza. São dois entre os muitos galegos que desde o século XVI foram trabalhar para Lisboa, primeiro como aguadeiros, vendendo água de casa em casa quando ainda não existia o Aqueduto das Águas Livres, depois em muitas carvoarias/tabernas espalhadas pela cidade e, por fim, em restaurantes.

Foram famílias galegas que fundaram o Gambrinus, a Ginginha da Praça de São Domingos, o English Bar, o Restaurante Mónaco. Transformaram a gastronomia de Lisboa, numa história que está ainda por contar. A fava-rica, essa, se não se perdeu no tempo foi precisamente pela paixão de um galego por comidas de antigamente. Talvez não precisemos, nos dias de hoje, de uma sopa tão revigorante, mas se quiserem conhecer-lhe o sabor já sabem onde podem ir.

Não vale é a pena esperar pela mulher da fava-rica. Ela já não virá.

Público
12/08/2012 – 00:00
Texto de Alexandra Prado Coelho e Ilustração de João Catarino

A mulher da fava-rica

fava-ricaDois filhos e quatro netos a senhora Deolinda Neves, ilustre fornecedora de fava rica à população que cerca a Rua Capitão Roby. Nasceu em Lisboa e por aí vai vivendo: há 30 anos faz da concha e da panela o seu emblema profissional. Cada medida vale cinco tostões: ela compra por 3$50 cada um dos vinte litros de fava rica que vende aos domingos. Mas, p’ra isso, é peciso ter “pergão suável” diz.

Revista Flama

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