Tratamento do cancro da tiróide: o “hoje” é encorajador?

SAÚDE PÚBLICA/CANCRO DA TIRÓIDE

No Dia da Sensibilização para o Cancro da Tiróide, a 24 de Setembro, é importante lembrar que o diagnóstico de malignidade origina um turbilhão de emoções que precisam de ser bem digeridas e compreendidas. No caso do cancro da tiróide é essencial a ajuda no esclarecimento com a transmissão de informação clara e com rigor científico pelo Endocrinologista.

Os nódulos da tiróide são muito frequentes na população portuguesa. Estima-se que 4 a 7% da população tenha um nódulo palpável, mas se o diagnóstico for por ecografia, estes números atingem os 30 a 60%. No entanto, apenas cerca de 5% a 10% dos nódulos da tiróide são um cancro. De uma forma geral, podemos afirmar que o cancro da tiróide é pouco frequente, sendo diagnosticados em Portugal cerca de 500 novos casos por ano – e é 3 a 4 vezes mais habitual no sexo feminino.

Quero destacar que, apesar de a incidência do cancro da tiróide em Portugal e no mundo estar a aumentar, provavelmente associado ao desenvolvimento tecnológico que permite o diagnóstico em fases mais precoces, a mortalidade mantém-se felizmente baixa.

Apesar dos carcinomas da tiróide não serem todos iguais, a maioria tem cura ou um excelente prognóstico e não está associado a sofrimento físico. Esta é a mensagem tranquilizadora que procuro passar ao dar o diagnóstico e no decorrer do acompanhamento do doente.

O mais frequente é o carcinoma diferenciado da tiróide, que inclui o carcinoma papilar (representa 70 a 80% de todos os cancros da tiróide) e o carcinoma folicular (representa entre 10 a 15%). O prognóstico é muito bom, com taxas de mortalidade inferiores a 1%, ou seja, a maior parte dos doentes são curados após o primeiro tratamento.

É fundamental que o tratamento seja realizado num centro especializado, com uma equipa multidisciplinar, que discuta a situação clínica em particular e defina toda a estratégia a adoptar. A cirurgia é a primeira opção terapêutica, para a grande maioria dos carcinomas, sendo que a sua extensão irá depender da extensão da doença, da idade do doente, da presença de nódulos bilaterais e das doenças associadas. A experiência do cirurgião é essencial para o sucesso do tratamento.

Nos últimos anos, perante cancros milimétricos – e em situações pontuais – já se começa a optar por fazer apenas a vigilância do nódulo, por sabermos que a probabilidade de o cancro aumentar e agravar, é muito baixa. Mas atenção: esta opção só deverá ser realizada em centros especializados.

Após a cirurgia é necessário repor a hormona tiroideia, com medicação para o resto da vida, que mantém o bem-estar do doente. Esta medicação tem dois benefícios: por um lado, substituir a hormona que a tiróide produziria; por outro, suprimir qualquer estímulo para o crescimento das suas células. Daí que este tratamento se denomine terapêutica supressiva. O grau de supressão, avaliado com a realização de análises, dependerá das características do tumor, da idade do doente e das doenças associadas.

A cirurgia é curativa em grande parte dos carcinomas diferenciados da tiróide. No entanto, em determinados casos, é necessário efectuar tratamento com iodo radioactivo. Este é um tratamento realizado há várias décadas, seguro e eficaz, que consiste em ingerir uma pequena quantidade de iodo radioactivo, para destruir o tecido tiroideu (benigno ou maligno) que não tenha sido removido com a cirurgia. Relativamente à Quimioterapia e Radioterapia, geralmente não são utilizadas, com excepção dos doentes de casos mais graves, nos quais os pacientes já não são sensíveis ao iodo radioactivo.

Apesar da eficácia do tratamento, a doença pode reaparecer em alguns casos, sobretudo nos gânglios linfáticos cervicais ou na região cervical onde se encontrava a glândula, ou, mais raramente, pode surgir noutras partes do corpo. Por esse motivo, é fundamental o acompanhamento a longo prazo por uma equipa especializada. Realço que, mesmo nestas situações de recidiva, o cancro pode ser tratado!

Já está em investigação o mecanismo que permite às células malignas perderem a capacidade de captarem o iodo radioactivo e a forma como se poderá reverter este processo. O sucesso desta descoberta vai permitir melhorar o tratamento desta pequena percentagem de casos de pior prognóstico.

Por tudo isto, sim, os dias de hoje são encorajadores. Deixo um apelo: se notar o aparecimento de um nódulo cervical procure imediatamente um médico endocrinologista, já que o diagnóstico precoce é o maior aliado no sucesso do tratamento.

Coordenadora da Unidade de Endocrinologia do Hospital CUF Descobertas – CUF oncologia

Diário de Notícias
Inês Sapinho
24 Setembro 2021 — 00:01

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