Médicos de família e de saúde pública dizem ao governo: “É impossível fazer tudo o que pedem”

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Na semana em que o país ultrapassou os 2 mil casos diários de covid-19, o governo ouviu especialistas para apurar da sensibilidade para novo confinamento, mas os profissionais dos cuidados primários e da saúde pública dizem que a questão volta a ser a mesma: falta de recursos. Há milhares de inquéritos em atraso e cada vez mais tarefas para as unidades.

Vacinação continua a ser quase exclusivamente assegurada por profissionais dos cuidados primários.
© Rita Chantre Global Imagens

A Organização Mundial da Saúde na Europa lançou ontem um novo alerta: vai haver uma nova vaga. E apelou à disciplina dos cidadãos e das autoridades. Em Portugal, o mesmo tem sido pedido por muitos especialistas, médicos, epidemiologistas, pneumologistas e intensivistas que começam a ver encher enfermarias e unidades de cuidados intensivos. Por agora, ainda há resposta hospitalar, como garantiram os médicos ouvidos nesta semana pelo governo sobre a hipótese de um novo confinamento, mas quem está na primeira linha do combate à covid-19, como os profissionais da saúde pública e da medicina geral e familiar, continua a queixar-se da falta de reforços, voltando a lançar um alerta: “É impossível fazer tudo o que nos pedem.”

Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), assumiu ao DN que as unidades de cuidados primários estão “com muita dificuldade em lidar com tudo. Temos vindo a alertar consecutivamente ao longo dos últimos meses, mas parece que ninguém nos ouve ou que não nos quer ouvir”, reforçando: “É impossível os médicos de família fazerem tudo o que têm para fazer e tudo o que nos pedem. Estamos sempre a trabalhar no limite e sempre que há o alívio de uma qualquer tarefa é logo encontrada outra para substituir essa e sobrecarregar-nos ainda mais.”

O presidente da Associação Portuguesa dos Médicos de Saúde Pública (APMSP), Ricardo Mexia, argumenta por sua vez que a realidade que se vive é a mesma de sempre, quando se inicia uma nova vaga: falta de profissionais para fazer rastreios e inquéritos epidemiológicos, “havendo já centenas, para não dizer milhares, em atraso”.

Cuidados primários: das vacinas a testes de rastreio

Do lado dos cuidados primários, o médico Nuno Jacinto sublinha que, “a cada dia que passa temos mais uma tarefa. Veja isto, e para dar um exemplo concreto, foi alterado o prazo para a vacinação da segunda dose da AstraZeneca, de 12 para oito semanas. É preciso remarcar milhares de pessoas para a vacinação. Centralmente foi decidido que não havia capacidade para aqueles serviços fazerem esta tarefa. Portanto, quem tem de o fazer? Os profissionais dos centros de saúde, precisamente quem está no terreno e quem já tem múltiplas tarefas. Fazemos isso quando? Não faz sentido nenhum.”

O médico relembra que, desde o início da pandemia, o governo fala do reforço de profissionais no Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas nos cuidados primários, salvo raras excepções, “continuamos a ser os mesmos nas unidades. E agora temos mais casos de doentes infectados para acompanhar, mais contactos para vigiar, continuamos com o trace covid (método de identificação dos casos de covid), com a vacinação e com as áreas destinadas ao apoio respiratório (ADR). Em nenhuma destas tarefas tivemos reforço. A vacinação continua a ser feita quase exclusivamente pelos nossos enfermeiros, médicos e assistentes técnicos. E, para além disto, continuam a pedir-nos que retomemos a actividade programada, que vigiemos grupos de risco, que façamos rastreios e, agora, ainda nos pedem que façamos testes rápidos aos utentes que assim o desejarem”, desabafa Nuno Jacinto.

“Não conseguimos dar a resposta que nos é pedida e muito menos aquela que os doentes merecem, não só os doentes covid como os não covid.”

“É claro que fazemos testes de rastreio se o utente quiser, mas, em primeiro lugar, é preciso que as unidades tenham testes para fazer, porque nem todas têm. Depois, há que assumir que se estou a fazer um teste, não estou em consulta ou a ver grupos de risco, como os diabéticos, ou outros doentes. Enquanto não olharem para nós como um recurso que, para além de ser humano, tem um limite e precisa de ter o trabalho minimamente estruturado, nada irá mudar.”

O representante dos médicos de família fala pela classe mas também por todos os profissionais que integram estas unidades,, sublinhando que “as tarefas continuam a ser atiradas umas para cima das outras e a pensarem que quem está nas unidades consegue resolver tudo, mas isso é impossível. Chega uma altura que há tarefas que vão ficando cada vez mais para trás. E já nem falamos de horas extraordinárias, porque a questão é que já não há tempo para fazer tudo”.

Cuidados primários estão pior agora do que há um ano

Questionado pelo DN sobre se os cuidados primários estão agora pior do que há um ano no combate à pandemia, o presidente da APMGF diz: “Provavelmente estamos piores que há um ano, porque a juntar a tudo o que tínhamos para fazer há, de novo, um aumento do número de casos, temos a vacinação, que é uma tarefa hercúlea, e ainda nos pedem para retomar a actividade assistencial. Não é possível, mesmo com portarias para incentivos. Não é possível fazer omeletas sem ovos. Chega um momento em que a corda parte”, assume este dirigente.

Mas recorde-se que o governo, pela voz do secretário de Estado adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, no dia 29 de Maio, anunciou ter reforçado o SNS, desde o início da pandemia, com cerca de 3 mil profissionais, 125 médicos e 900 enfermeiros, 205 técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica e mais de 1350 assistentes operacionais, garantindo que agora “estamos mais preparados, mais capacitados, com maior resposta no SNS, quer para actividade covid quer para actividade não covid”. Para o processo de vacinação também foi feita uma estimativa: seriam precisos cerca de mais 1.700 profissionais que seriam contratados.

Vêm aí as férias e nada se sabe sobre o que irá acontecer

Nos cuidados primários, Nuno Jacinto gostaria de saber onde estão estes reforços, porque “estamos todos cada vez mais cansados e, aparentemente, isso também não é tido em conta. Vem aí um novo período de férias e ninguém sabe o que vai acontecer”. O médico lembrou que, neste ano, “houve muitos colegas que se reformaram e que ainda nada se sabe sobre os concursos para novos especialistas, que estavam anunciados para Junho ou Julho, com o objectivo de os substituir” – mas, ontem mesmo, o governo anunciou que estes concursos vão avançar.

No entanto, há algo que os médicos de família sabem – “é que não conseguimos dar a resposta que nos é pedida e muito menos aquela que os doentes merecem, não só os doentes covid como os não covid”.

Sobre o que têm a propor, o presidente da APMGF diz que é o mesmo que têm vindo a fazer há muito. Ou seja, que “os centros de vacinação tenham outros profissionais e não só os dos cuidados primários, que outros profissionais assumam o trace covid, bem como as áreas dedicadas aos doentes respiratórios”. Mais. “Todas as tarefas burocráticas que estão em cima dos cuidados primários, como a alteração de convocatórias para as vacinas, podem ser feitas centralmente. Acredito que seja mais fácil reforçar uma equipa que tenha esta tarefa centralmente do que substituir médicos e enfermeiros, que são pessoal altamente diferenciado e necessário para outros cuidados.”

Milhares de inquéritos em atraso e reforços tardam

Do lado da saúde pública, o presidente da APMSP, Ricardo Mexia, diz que fica até surpreendido quando ainda se coloca a questão sobre o que se pode ou deve fazer numa fase como a que estamos a viver agora, porque “já vivemos isto várias vezes. Não percebo as dúvidas que possam existir. Estamos a assistir a um aumento de casos há mais de cinco semanas na região de Lisboa e agora no Porto, mas o reforço de meios para o rastreio e para a realização de inquéritos epidemiológicos tarda em chegar. Falámos nisto em Março do ano passado, em Outubro, em Janeiro deste ano e agora voltamos à mesma questão. Todos sabemos que quando há um aumento de casos que se tem de reforçar os rastreadores para que se quebrem as cadeias de transmissão, o que ainda não foi feito”.

E o resultado está à vista. “Há já centenas de inquéritos em atraso para não dizer milhares, mas esse número concreto quem tem de o divulgar é a tutela. E se os inquéritos ficam para trás, isso significa que há pessoas que continuam a infectar outras e a propagar a doença.”

“Quando os casos começaram a subir, devia ter-se mobilizado logo mais rastreadores. É das medidas que deviam ter sido repostas, sob pena de continuarmos a ter cadeias de transmissão não controladas e um aumento substancial do número de casos.”

No relatório de 19 de Junho sobre as Linhas Vermelhas, a Direcção-Geral da Saúde e o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge assumiam que havia, pelo menos, mil inquéritos epidemiológicos em atraso. O DN solicitou à DGS um novo balanço, mas não obteve resposta.

O problema, segundo Ricardo Mexia, é que “até os meios que foram mobilizados em Janeiro e Fevereiro para esta tarefa foram rapidamente desmobilizados e já não estão nos locais”.

Na altura, recorde-se, foram mobilizados militares dos três ramos das Forças Armadas, para apoiar a realização dos inquéritos epidemiológicos, em pouco mais de um mês, estes tinham contabilizado cerca de 300 mil inquéritos, segundo dados oficiais divulgados em Fevereiro, mas, como diz o presidente da APMSP, “já não estão lá. E, se calhar, não tinham de estar, porque os números não o justificavam em Março e em Abril, mas quando os casos começaram a subir era das medidas que rapidamente deviam ter sido repostas, sob pena de continuarmos a ter cadeias de transmissão não controladas e um aumento substancial do número de casos”, reforçando: “Já devíamos ter aprendido com os erros do passado.”

O presidente da APMSP assume ao DN que as regiões com maior dificuldade em resolver este problema são a de Lisboa e Vale do Tejo e a do Algarve, mas considera que a solução agora já “nem é sequer novo confinamento. São os meios. Esta é e sempre foi a questão central. E se não estamos a assistir a um agravamento nos internamentos e na mortalidade é porque a população mais vulnerável já está protegida com a vacina, senão teríamos desfechos mais negativos”.

Ricardo Mexia, tal como o têm feito outros especialistas, lança também um apelo à população. “A percepção das pessoas é a de que a pandemia acabou. Os números provam que não. Ou seja, podemos não ir para confinamento e manter algumas actividades abertas, mas desde que as pessoas cumpram as regras de protecção, usem máscara, mantenham distanciamento e higienizem as mãos. Se não, nunca mais acabamos com isto.” Por fim, o médico epidemiologista diz também que, nesta altura, “não é preciso ser-se inovador para inventar a roda. Já vivemos estas fases várias vezes. É só preciso accionar os meios necessários”.

Nesta altura, Portugal volta a registar milhares de casos diários. Há epidemiologistas que dizem estarmos já na quarta vaga. A OMS Europa faz alerta aos países e pede disciplina, mas por cá os médicos dos cuidados primários e de saúde pública queixam-se de que ainda não são ouvidos e de que falta reforçar as suas equipas.

Diário de Notícias

 

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Um comentário em “Médicos de família e de saúde pública dizem ao governo: “É impossível fazer tudo o que pedem””

  1. Tenho muita “pena” dos tadinhos dos médicos de família. Dou o meu exemplo concreto. Há cerca de dois meses atrás, tive 3 dias com uma forte dor lombar. Contactada a médica de família, receitou-me Paracetamol de 8 em 8 horas, durante 3 dias e fazer uma ecografia renal, dado que podia ser uma crise renal. Isto por tele-chamada. Passados os 3 dias da crise e já sem as dores associadas, contactei a USF para informar a médica (por e-mail dado que telefone, nem pensar). tendo sido marcada uma tele-consulta para o próximo dia 10 de Julho, ou seja, mais de DOIS MESES DEPOIS da crise que me assolou. Neste espaço de tempo, apenas aguentei-me com o Paracetamol, não tendo sido efectuada mais nenhuma diligência por parte da médica, mesmo com conhecimento (por e-mail). que tinha várias análises com valores acima do que se considera “normal”. Considerando esta situação de negligência médica, será por causa do Covid que aconteceu e os doentes não-covid ficam ao sabor sabe-se lá de quê? Desculpas esfarrapadas não faltam. O problema é só e apenas dos doentes que não possuem capacidade financeira para se dirigirem a uma clínica particular e têm de suportar todo este tipo de actuação. Se morrerem, nos entretantos, é menos um a quem têm de pagar-se a pensão de reforma (referindo-me aos idosos pensionistas).

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