534: Auto-anticorpos estão a gerar casos mais graves de covid-19

 

SAÚDE/COVID-19

Estudo da Universidade de Yale pode ser importante na procura de um medicamento eficaz para a doença. O sistema imunológico está a ser “minado por fogo amigo”, consideram os autores.

Porto, 08/07/2020 – Nos cuidados intensivos do Hospital de São João os profissionais de saúde preparam-se para a segunda vaga de Covid 19. (Leonel de Castro/Global Imagens)
© Leonel de Castro/Global Imagens

O sistema imunológico está a ser “minado por fogo amigo”, causando níveis graves e prolongados de covid-19, segundo um estudo da da Universidade de Yale (EUA). Os investigadores descobriram que os pacientes infectados com o novo coronavírus tinham um grande número de anticorpos rebeldes (mal direccionados), que, em vez de lutar contra o vírus invasor, comprometeram o próprio sistema imunológico dos infectados. Os auto-anticorpos podem explicar as diferentes reacções à infecção por covid-19.

Os cientistas compararam as respostas imunológicas em pacientes infectados e pessoas não infectadas.E descobriram dezenas de anticorpos rebeldes nos infectados, que bloquearam as defesas antivirais, eliminaram células imunológicas úteis e atacaram o corpo em várias frentes, desde o cérebro, vasos sanguíneos e o trato gastro-intestinal. Como? Os anticorpos desactivam os vírus ao se colarem a proteínas na superfície do vírus, mas os auto-anticorpos têm o formato incorrecto e ligam-se erroneamente a proteínas que estão presentes ou foram libertadas por células humanas.

E quanto mais auto-anticorpos os pacientes tinham no sangue, pior era a doença. “Os pacientes da covid-19 produzem auto-anticorpos que realmente interferem nas respostas imunológicas contra o vírus“, disse Aaron Ring, imuno-biologista de Yale e autor do estudo. “Acreditamos que esses auto-anticorpos são prejudiciais aos pacientes com covid-19”, referiu Ring, acrescentando que os efeitos prejudiciais podem continuar após a redução da infecção, deixando os doentes com problemas médicos mais duradouros.

“Como os anticorpos podem persistir por muito tempo, é concebível que contribuam para o desenvolvimento de doenças de covid-19 por mais tempo”, adianta o investigador, que, em parceria com Akiko Iwasaki, professora de imuno-biologia em Yale, examinou 194 pacientes e funcionários de hospitais com várias gravidades de infecção por covid-19.

O estudo ainda não foi publicado em nenhuma revista científica e carece de análise por outros cientistas, mas revela “aumentos dramáticos nas reactividades de auto-anticorpos” e pode ajudar na procura de um medicamento, segundo os autores.

Interferons, Células B e T atacadas

Mais de 5% dos pacientes hospitalizados tinham auto-anticorpos que enfraqueciam um elo importante da defesa imunológica concebida por proteínas chamadas interferons – que ajudam a activar o sistema imunológico assim que uma infecção é detectada. Esses pacientes desenvolveram doenças mais graves, enquanto outros tinham auto-anticorpos direccionados às células B, as fábricas celulares que produzem anticorpos para combater o vírus, e um paciente tinha auto-anticorpos que pareciam eliminar muitas de suas células T.

Os cientistas acreditam por isso que a infecção por covid-19 piora quando muitos anticorpos rebeldes diferentes surgem no mesmo paciente. Os testes em ratos com alguns dos auto-anticorpos confirmaram que os animais ficaram mais susceptíveis à infecção e com maior probabilidade de morrer da doença. “A soma agregada dessas respostas pode explicar uma parte significativa da variação clínica nos pacientes”, segundo os autores.

Danny Altmann, professor de imuno-biologia do Imperial College de Londres, que não esteve envolvido no estudo, explicou ao The Guardian, que os auto-anticorpos podem explicar a variedade de sintomas de covid e a longa duração da infecção em alguns pacientes. “Considero isso muito provável, especialmente por analogia com o ébola e o chikungunya, onde a auto-imunidade parece ser uma grande parte da resposta. Uma grande parte do nosso trabalho de laboratório nos próximos meses é tentar relacionar os sintomas de covid longo com perfis auto-imunes “, concluiu.

Diário de Notícias

DN

 

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