1720: Pandemia afectou as cordas vocais dos portugueses por causa das máscaras e do teletrabalho

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SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/CORDAS VOCAIS

Cerca de 120 pessoas passaram esta semana pela Unidade de Voz do Hospital de Egas Moniz para fazer o rastreio liderado há 18 anos por Clara Capucho. Os tempos de isolamento causaram distonias aos portugueses em geral e os artistas estão a sentir dificuldades em voltar aos palcos a 100%.

A médica Clara Capucho durante um dos exames que realizados à cantora Cristina Clara no âmbito do rastreio da voz deste ano.
© Álvaro Isidoro / Global Imagens

O uso de máscara, o teletrabalho, os excessos alimentares e a inactividade causados pela pandemia afectaram a saúde das cordas vocais dos portugueses, alerta Clara Capucho, coordenadora da Unidade de Voz do Hospital de Egas Moniz, a propósito do Dia Mundial da Voz, que se assinala este sábado. O mesmo foi comprovado durante o rastreio organizado por esta especialista no Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, em parceria com a Fundação GDA – Gestão dos Direitos dos Artistas.

“Neste momento, os problemas pós-pandemia são o uso da máscara, que fez com que as pessoas começassem a ter uma disfonia de tensão muscular, e muitas pessoas trabalharam online ao computador – também pelo posicionamento e a maneira como olhavam para o computador -, o que fez com que houvesse uma contracção ao nível dos músculos cervicais, levando ao desencadear de uma rouquidão, uma mudança de voz, a que nós chamamos de disfonia, exactamente por contractura e má colocação, utilizando músculos errados”, explica ao DN Clara Capucho.

De acordo com a Doutora Voz, apelido pelo qual esta médica também é conhecida, também estão a surgir muitos casos de refluxo laríngeo, agravados igualmente pela pandemia. “Muitas pessoas, no isolamento em casa, também se dedicaram a comer e a beber um pouco mais e não pudessem fazer uma digestão a caminhar, a mexerem-se.

Comem desalmadamente e depois vão-se deitar. E então o refluxo aparece-nos muito agora, as pessoas sofrem muito de refluxo, têm a voz rouca de manhã”, prossegue Clara Capucho, acrescentando também têm surgido laringites crónicas do tabaco, pois as pessoas devido ao isolamento começaram a fumar mais. Segundo esta especialista, estes são problemas que podem ser facilmente debelados.

Para combater estes problemas e manter as cordas vocais saudáveis, Clara Capucho dá uns conselhos, que tanto se aplicam à população em geral, como aos que usam a voz profissionalmente, como cantores e actores, e aos quais esta médica tem dedicado especial atenção durante a sua carreira. “Um dos conselhos que damos é a hidratação das cordas vocais, a diminuição das bebidas alcoólicas e do tabaco. Mas também medidas anti-refluxo como não comer à noite, dormir com a cabeça mais alta, tentar comer alimentos mais saudáveis para poder fazer a digestão, tentar ter um corpo mais saudável e, sempre que possível, não usar máscara”.

© Álvaro Isidoro / Global Imagens

Os danos causados pelo uso da máscara também podem ser ultrapassados com a ajuda de algumas técnicas. “A projecção da voz com a máscara é de uma maneira e sem máscara é de outra, e nós temos de começar a relembrarmo-nos como é que projectamos a voz e como é que falamos sem a máscara e se a nossa audição capta ou não bem a voz que nós tínhamos. Nós próprios chegamos a perceber que a nossa voz não está bem igual, portanto, temos de fazer este treino auditivo e começar a colocar a nossa voz como era antes. Nós conseguimos fazer isso se tivermos esta atenção”, refere a Doutora Voz.

Limitação até em termos criativos

O rastreio que se realizou entre a segunda e a quinta-feira desta semana na Unidade de Voz do Hospital de Egas Moniz é uma parceria com a Fundação GDA – Gestão dos Direitos dos Artistas, pois, apesar de estar aberto à população em geral, foi destinado prioritariamente a quem usa a voz na sua profissão, como cantores e actores, mas também professores, locutores e vendedores ambulantes, explica Clara Capucho, lembrando que já realiza este rastreio há 18 anos. “Isto mudou com a pandemia.

Antes, fazíamos cerca de 80 rastreios por dia. Com a pandemia, em 2020 não se fez, em 2021 fizemos dez de manhã e dez à tarde durante dois dias. Este ano, alargámos mais, estamos a fazer quatro dias, de manhã e de tarde, e anda à volta de 15 de manhã e 15 de tarde, portanto, serão 120 doentes”, enumerou Clara Capucho ao DN no terceiro dia do rastreio deste ano.

E os artistas não faltaram a esta chamada, até porque estão a apresentar problemas vocais também causados pela pandemia. “É como um exercício. Um cantor que está um ano a cantar só para um computador ou pouco mais é diferente do que estar a expor-se em palco para não sei quantas pessoas. Neste momento, eles têm-nos procurado imenso e apresentam algumas disfonias de tensão muscular, nada de grave, mas temos tido algum trabalho acrescido”, adiantando esta especialista em voz. “Temos de trabalhar com eles para poderem regressar aos palcos de uma maneira mais segura e correta. A voz deles está lá, é só uma questão de a voltarmos a exercitar e vermos quais foram os músculos que trabalharam errados para os reabilitarmos”.

Cristina Clara foi uma das artistas que passou pelo rastreio deste ano, precisamente por notar algumas sequelas deixadas pela pandemia. Foi a primeira vez que realizou o rastreio, seguindo os conselhos da sua professora de voz. “Ultimamente senti algumas restrições no uso da voz, nomeadamente quando cantava de uma forma mais exigente e, por isso, decidi vir para perceber como estava”, explica a cantora, dizendo que “sentia diferença na projecção, na capacidade de usar a voz com a mesma elasticidade que tinha antes. Isto é uma coisa um bocado psicológica, mas mesmo até em termos de criatividade no uso do instrumento havia alguma limitação”.

ana.meireles@dn.pt

Diário de Notícias
Ana Meireles
16 Abril 2022 — 00:57


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