“Estamos na fase em que podemos aliviar medidas. E devemos fazê-lo, mas com prudência”.

– Como é que esta gente pode afirmar que estamos numa fase em que podemos aliviar medidas? Com estes números?

31.01.2022 a 06.02.2022: 304.085 infectados – 366 mortos
24.01.2022 a 30.01.2022: 390.061 infectados – 287 mortos
17.01.2022 a 23.01.2022: 336.851 infectados – 266 mortos
10.01.2022 a 16.01.2022: 242.128 infectados – 190 mortos
03.01.2022 a 09.01.2022: 215.830 infectados – 123 mortos
01.01.2022 a 02.01.2022:   34.370 infectados –   35 mortos

Totais de Janeiro de 2022: 1.523.325 infectados – 1.267 mortos

E apenas num mês? Ok, eles e elas é que são os “especialistas”…

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/MEDIDAS

A pneumologista Raquel Duarte, que apoiou o governo em todas as propostas de desconfinamento, desde o início da pandemia, assume nesta entrevista ao DN que este é o momento certo para planear o combate à infecção no futuro. A mudança do paradigma pandemia versus endemia vai chegar em breve, mas há uma coisa que ninguém pode esquecer: “O vírus não desapareceu.” Por isso, diz, é preciso manter a monitorização da doença e a vacinação dos mais vulneráveis. Mas há medidas que podem ser aligeiradas, como a testagem deixar de ser massiva para ser selectiva e o uso de máscara deixar de ser obrigatório nos espaços exteriores.

“Há uma coisa que todos temos de perceber. A covid-19 não acabou. O vírus não desapareceu. E os níveis de alerta têm de ser mantidos, a doença tem de continuar a ser monitorizada.”
© David Tiago / Global Imagens

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças [ECDC] pediu aos países para considerarem mudanças estratégicas no combate à covid-19, tratando-a como se fosse uma gripe. É o adequado para a realidade portuguesa?
Estamos numa fase em que vamos ter de mudar a forma como olhamos para a pandemia, de mudar o paradigma pandemia versus epidemia, mas isso deve acontecer quando começarmos a ter a redução da letalidade, devendo estar definido de forma muito clara, a distinção de morte por covid-19 ou com covid-19, e a redução da tendência do R(t). Esse momento vai chegar, mas vamos ter de continuar a olhar para os números. O que se observou até agora foi graças ao poder protector da vacina. Apesar de termos tido uma incidência elevadíssima (mais de 7 mil casos de infecção por 100 mil habitantes), não tivemos níveis elevados de formas graves da doença, de mortes ou a sobrecarga dos serviços de saúde com internamentos nas enfermarias ou nos cuidados intensivos.

Este é o momento para avançar com a mudança do paradigma pandemia versus endemia?
Este é o momento para nos prepararmos para fazer essa mudança, mas, a meu ver, esta preparação pressupõe uma mudança gradual, que tem de ser feita de forma prudente. No fundo, temos de continuar a seguir a mesma estratégia de prudência, que nos caracterizou até à data.

E o que significa ser prudente nesta fase?
Que vamos ter de manter a vigilância e a monitorização do que se passa na comunidade. Vamos ter de garantir que se continua a ter um diagnóstico adequado da situação para que não sejamos apanhados, de repente, com novas situações de muitos casos. Isto é muito importante. O diagnóstico adequado da situação permitir-nos-á perceber rapidamente se a estratégia do momento, a nível de controlo e de combate à doença, é adequada ou se teremos que a alterar.

O que é que essa monitorização tem de garantir?
Tem de nos garantir que sabemos quais são as variantes que estão em circulação na comunidade, se as incidências estão a aumentar e onde, e se as hospitalizações e as mortes também estão a aumentar ou não.

Isso será possível com uma vigilância da rede sentinela, que é o que parece estar a ser planeado?
​​​​​​​A rede sentinela dá-nos um bom alerta do que está a acontecer na comunidade, mas diria que, numa fase inicial, para além da rede sentinela, tem de ser incluído neste sistema de vigilância a testagem, quer aos doentes assintomáticos quer aos doentes internados. Portanto, há dados fundamentais que têm de continuar a ser recolhidos nesta fase.

A vigilância da rede sentinela não será diária, será semanal ou quinzenal e isso significa que a testagem deixaria de ser massiva. É o adequado para esta fase e para a variante Ómicron?
​​​​​​​Portugal está na fase de começar a fazer a transição da testagem massiva para a testagem selectiva, a que se faz aos grupos de maior risco. Isto não é para começar a ser feito já amanhã, mas temos de começar a preparar a transição de algumas medidas. A testagem é uma delas. Não necessitaremos de uma testagem massiva, mas devemos continuar a testar doentes assintomáticos, para se quebrar cadeias de transmissão e para termos a noção de quantos indivíduos poderão estar nesta situação dentro da comunidade e tomar medidas, e os doentes hospitalizados, para reduzir o risco de infecção naso-comial.

Vamos deixar de necessitar de testagem massiva, mas continuaremos a precisar da testagem selectiva, para mantermos a vigilância e a monitorização da doença na comunidade e podermos identificar e alterar estratégias atempadamente.

Se acaba a testagem massiva como será possível detectar doentes assintomáticos?
Através de rastreios oportunísticos, que teremos de manter nos meios laborais, escolares e nas áreas de risco. Tem de ser encontrada uma forma de se continuar a fazer este tipo de rastreio para se perceber o que está a acontecer na comunidade e não sermos apanhados numa situação que, depois, será muito mais difícil de controlar. Ou seja, vamos deixar de necessitar de testagem massiva, mas continuaremos a precisar da testagem selectiva, para mantermos a vigilância e a monitorização da doença na comunidade e podermos identificar e alterar estratégias atempadamente.

Já disse que esta mudança de paradigma não vai acontecer amanhã, mas acontecerá quando? Daqui a duas semanas, um mês?
Eu diria que pode acontecer em qualquer momento. E o que temos de fazer agora é preparar-nos para esse momento. Já atingimos o pico desta onda epidémica, o número de casos está a diminuir e a letalidade também. Portanto, este é o momento ideal para planear o futuro e depois actuar.

Sendo a especialista que apoiou o governo de António Costa em todos os processo de desconfinamento, que conselhos daria e o que propõem que seja feito?
​​​​​​​Nesta fase proporia que se avançasse com as tais mudanças na testagem e que se tomassem medidas para garantir que o plano de vacinação se mantém e que as populações mais vulneráveis continuarão a ser protegidas com vacinas mais actualizadas. Diria mesmo que é nesta fase que temos de começar a planear o futuro e o próximo surto.

O futuro da pandemia será marcado pela vivência de vários surtos?
Muito provavelmente é o que vamos ter. E teremos de estar preparados para essas ocorrências. Nesta altura, já temos vacinas e fármacos que nos permitem proteger mais os doentes e tratá-los melhor do que há um ano ou dois. Temos também um sistema de vigilância e as medidas adequadas para cortar cadeias de transmissão. Vamos precisar de actuar ao nível da testagem, como já disse, e na literacia em saúde da população, embora estas já saibam como é que este vírus se transmite, quais são as medidas que devem tomar no caso de terem sintomas. Nestas situações, as pessoas sabem que têm de se testar e de se auto-isolar, para reduzir o risco de transmissão. A literacia vai ter de aumentar porque há uma série de comportamentos que vamos ter de manter.

Está a falar das regras de protecção individual?
Exactamente. O uso de máscara ainda nos vai acompanhar nos próximos tempos, sobretudo em espaços interiores. Vamos ter de aprender que quando estivermos com sintomas, quer seja devido ao SARS-CoV-2 ou a outras doenças infecciosas, vamos ter de nos proteger a nós e aos outros. Não vamos poder ir trabalhar da mesma forma, sem a protecção de uma máscara, por exemplo, para não infectar quem nos rodeia. Este tipo de comportamento vai ter de ficar para o futuro.

Os lares e todas as unidades que recebam uma população vulnerável devem manter níveis de protecção elevados. Têm de garantir que os profissionais e as outras pessoas que contactam com os utentes não estão infectados.

Quer dizer que há cuidados que vão ter de ser mantidos mesmo nas fases mais atenuadas da covid-19?
A protecção das populações mais vulneráveis vai ter de se manter. Quando olhamos para os dados actuais, vemos que são as populações mais idosas, embora muito mais protegidas pela vacina, que lhes deu menor repercussão de doença grave, que continuam a ser as que têm maior risco de morte. Neste sentido, os lares e todas as unidades que recebam este tipo de população devem manter níveis de protecção elevados. Têm de garantir que os profissionais e as outras pessoas que contactam com os utentes não estão infectados. Por exemplo, a população dos lares é onde a testagem se deve manter, e com frequência, para se garantir que não há pessoas transmissoras da doença. Isto é muito importante.

A equipa que liderou e que elaborou as propostas de desconfinamento nestes dois últimos anos desde o início que recomenda mais investimento na ventilação dos espaços interiores. Deve ser feito?
É fundamental. Os espaços interiores são os de maior risco e temos de garantir que as pessoas podem viver, trabalhar e socializar em locais seguros. E a fazê-lo é agora. Como digo, temos de começar a planear o futuro, não só a primavera ou o verão, mas o inverno seguinte. Na primavera e no verão as pessoas têm mais comportamentos para se manterem nos espaços exteriores e sabemos que estes são de menor risco para qualquer doença infecciosa, mas o que vai acontecer no inverno? Ainda não sabemos, mas esta é a altura de preparar esse período, nomeadamente com investimentos na ventilação para ficarmos mais seguros.

E se nessa fase já estivermos, como dizem alguns especialistas, em endemia? Tais medidas são necessárias? Servem para a covid-19 como para outras situações que possam surgir no futuro?
Exactamente. É uma forma de nos prepararmos para as infecções que são mais prevalecentes durante o inverno. Mas há uma coisa que todos temos de perceber. A covid-19 não acabou. O vírus não desapareceu. E os níveis de alerta têm de ser mantidos, a doença tem de continuar a ser monitorizada. Até porque continua a haver uma ameaça muito séria, que é a baixa taxa de vacinação mundial e enquanto esta existir estaremos sempre a correr o risco de termos de lidar com novas variantes. Por isso, é importante continuar a monitorizar a doença e a ter planos de contingência para dar resposta a qualquer necessidade. As medidas de combate à doença vão ter de ser ajustadas ao risco. Isso sem dúvida, até sob pena de, quando for necessário, a população aderir a elas, mas vamos ter de o fazer com prudência.

Há pouco falou no uso de máscara. Em Espanha vai deixar de ser obrigatório o seu uso na rua já nesta semana. Portugal está em condições de avançar para esta medida?
Para o uso de máscara no espaço exterior sim, quanto ao uso de máscara no espaço interior ainda não. É importante que, para já, nos locais de maior risco, como espaços fechados e com muitas pessoas, a máscara seja usada.

Diz para já, mas quando chegarmos à primavera e ao verão, será necessário?
Terá de haver uma fase de transição e tudo terá de ser feito com prudência, no sentido de garantirmos que vamos dando passos em frente e que não somos surpreendidos com agravamentos da situação. Vamos ter de continuar a ter muitas cautelas nas situações de maior risco. É o caso das pessoas mais vulneráveis, em que vamos ter de manter uma protecção por multi-camadas, vacinação, testagem, protecção individual. Teremos sempre de ajustar as medidas ao risco de transmissão e à vulnerabilidade da população.

Temos de estar preparados para eventuais surtos e para a necessidade de alterar o nosso comportamento. Poderá haver situações em que tenhamos de voltar a usar mais vezes a máscara e até de fazer mais testagem.

Tem-se falado no fim do isolamento para os doentes assintomáticos. Se for assim a transmissão continuará a ser possível. É um risco?
Temos de olhar para os doentes assintomáticos com cautela. É evidente que com o tempo o isolamento destes indivíduos vai acabar por cair, porque se mudarmos a política de testagem estes indivíduos só serão detectados em rastreios oportunísticos. Daí a importância de termos uma fase de transição, com mudanças graduais e com a manutenção das medidas de protecção individual. Mas não podemos ignorar que estamos claramente numa fase de mudança de paradigma, de aliviar medidas. E devemos fazê-lo, mas com prudência, porque temos de estar preparados para eventuais surtos em que o nosso comportamento terá de ser alterado. Poderá haver situações em que tenhamos de voltar a usar mais vezes a máscara e até de fazer mais testagem.

Então, a perspectiva de lidar com a pandemia ainda não pode ser a de aliviar medidas de restrição e pensar que estas não serão mais necessárias?
Não, de todo. Até porque não é real.

Nesta semana também deixou de ser obrigatório a apresentação de teste negativo para se entrar em Portugal. Faz sentido nesta fase?
É sempre um risco, porque temos sempre a ameaça séria, de que já falei, de poderem circular novas variantes, mas diria que, para não ser um risco, tem mesmo de haver a nível mundial uma vontade expressa de colaborar na vacinação dos países mais pobres, tem de haver a vontade mundial de lhes dar acesso à vacina e permitir-lhes que a produzam também.

A Dinamarca foi dos primeiros países da Europa a assumiu que vai tratar a pandemia como se de uma gripe se tratasse. Outros países estão também a aligeirar medidas. Mas, de certa forma, Portugal também fez o seu percurso e já aliviou algumas medidas nestes meses…
A maior parte das medidas que estão a ser aligeiradas por esses países, Portugal já não as tem. Não temos nenhuma actividade económica encerrada. Aliás, as medidas que foram tomadas em determinado momento, de testagem massiva, o uso de máscara nos espaços interiores e exteriores e a lotação dos espaços permitiram precisamente que todas as actividades se mantivessem abertas. Em relação à gripe, tenho de explicar que não é uma doença ligeira. A gripe causa muitas mortes anualmente e sobrecarrega os serviços de saúde com muita frequência, não com a dimensão da covid-19, mas é uma doença que pode ser grave, sobretudo na altura do inverno. Mas vamos ter de aprender com a covid – que já trouxe uma grande evolução em termos de vigilância, na notificação e na abordagem do doente infectado, no controlo da transmissão – e melhorar o que ainda há para melhorar no nosso sistema de vigilância, não devendo nós aceitar que haja infecção na comunidade com mortes. Há uma série de comportamentos que vamos ter de mudar independentemente de o vírus ser o SARS-CoV-2 ou o da gripe ou de outra doença infecciosa.

No início do ano, dirigentes da Organização Mundial da Saúde vieram dizer que a pandemia estava longe de acabar. Agora, alguns já disseram que o aparecimento da Ómicron poderá ditar o fim da pandemia. Como especialista não considera que isto pode confundir as pessoas?
​​​​​​​A forma como a Ómicron se está a comportar e a protecção que a vacina nos está a dar perante esta variante levam a crer que estamos numa situação de transição em relação à pandemia. Temos uma vacina que pode ser actualizada para novas variantes, temos novos fármacos, que nos permitem tratar as formas mais graves da doença, e, por isto, podemos olhar para a infecção com mais segurança do que a que tínhamos há dois anos. Mas ninguém é dono da situação, ninguém sabe quando terminará a pandemia. Eu assumo que não sei e fico admirada quando alguém diz que sabe. Se me disser que temos mais ferramentas para a combater, digo que sim, que tudo aponta para um maior controlo da situação, também digo que sim, mas já fomos surpreendidos várias vezes. Portanto, a palavra-chave é prudência.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
08 Fevereiro 2022 — 00:16

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