1107: Pessoas mais pobres são vistas como menos susceptíveis à dor

– … “Ou seja, o estudo indica que as pessoas acreditam que as adversidades “endurecem” os indivíduos de baixo estatuto socioeconómico.”… Completamente errado, pelo menos no que me cabe pessoalmente. Actualmente pertenço à classe de baixo estatuto sócio-económico e as “adversidades” não me “endureceram”. Pelo contrário, sinto-as como nunca. Mas como tudo na ciência do comportamento pessoal, cada pessoa reage de forma diferente.

CIÊNCIA/PSICOLOGIA

Pixabay

Um novo estudo indica que os indivíduos de classe baixa são estereotipados como insensíveis à dor física, o que pode impactar os seus cuidados médicos.

“As estatísticas de saúde indicam que as pessoas ricas recebem um tratamento mais substancial para a dor do que as pessoas pobres. Neste trabalho, tentamos entender melhor de que forma os estereótipos podem contribuir para as disparidades baseadas no nível socioeconómico na saúde ”, referiu Kevin Summers, autor do estudo.

Durante a pesquisa foram feitas várias experiências onde os investigadores perceberam que as pessoas mais pobres realmente sentiam menos dor.

Os especialistas perceberam que os indivíduos com empregos mal remunerados eram considerados menos sensíveis à dor do que pessoas que tinham trabalhos bem pagos.

O estudo mostra ainda a existência de um mecanismo potencial subjacente a essas percepções tendenciosas de sensibilidade à dor. Presume-se que os indivíduos pobres tenham vivenciado mais dificuldades na vida em comparação com as pessoas ricas, o que, por sua vez, estará associado a percepções reduzidas de sensibilidade à dor.

Ou seja, o estudo indica que as pessoas acreditam que as adversidades “endurecem” os indivíduos de baixo estatuto socioeconómico.

Contudo, as percepções tendenciosas de sensibilidade à dor podem ter consequências a jusante preocupantes. Summers e a sua equipa descobriram que os participantes viam os indivíduos pobres como os que precisavam de menos tratamento para aliviar uma dor causada por vários ferimentos diferentes.

“Os estereótipos sobre o quão difícil tem sido a vida dos indivíduos mais pobres podem ter consequências importantes para as percepções de sensibilidade à dor e, portanto, podem contribuir para resultados díspares no tratamento dos domínios da saúde”, disse Summers.

No entanto, o estudo inclui algumas ressalvas, frisa o PsyPost.

“O trabalho futuro deve examinar se os estereótipos e crenças dos provedores de serviços médicos sobre a relação entre o nível socioeconómico dos pacientes e sua sensibilidade à dor influenciam as decisões de tratamento díspares em um consultório médico”, pode ler-se no estudo publicado no Journal of Experimental Social Psychology.

ZAP //

Por ZAP
26 Setembro, 2021

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“Temos que interiorizar que vamos continuar a viver em pandemia”

– Depois de ler o texto abaixo, quero deixar aqui a minha opinião sobre o mesmo, ou seja, quem precisa de CUIDADOS DE PSICOLOGIA, PSIQUIATRIA OU NEUROLOGIA, são todos os gajos e gajas, labregos acéfalos irresponsáveis, sem qualquer noção de CIDADANIA e de CIVISMO e muito menos por RESPEITO para com a comunidade. As pessoas confinadas obrigatória ou voluntariamente, NÃO PRECISAM de psicólogos porque sabem que ESTAMOS NUMA PANDEMIA MORTAL, que já se encontra na QUARTA VAGA e os números de INFECTADOS não para de crescer, embora e felizmente, os mortos tenham diminuído significativamente. O que este país necessita é de procurar os INFRACTORES que continuam na boa vidinha social, NÃO RESPEITANDO AS REGRAS DE DISTANCIAMENTO FÍSICO E USO DE MÁSCARAS, embora o neguem com toda a falsidade que lhes vai nas trombas! Enquanto não ACABAREM DE VEZ com a MERDA das passeatas, caminhadas, casamentos, aniversários, baptizados e afins e deixarem tudo isso para quando realmente estiver tudo ou quase tudo vacinado e o R(t) baixar para níveis de segurança, então que se divirtam, que passeiem, que dêm festas, que se embebedem…!

SAÚDE/COVID-19/PANDEMIA/SAÚDE MENTAL

“Quanto mais depressa interiorizarmos a ideia de que vamos ter que conviver com isto, melhor”, adverte David Neto, professor do ISPA, numa altura em que a quarta vaga se faz sentir também a nível psicológico. Em Portugal, o SNS tem apenas 500 psicólogos, quando o rácio aponta que deveria ter um por cada cinco mil habitantes.

Professor no ISPA, David Neto, defende a necessidade de “interiorizarmos que vamos viver com esta situação mais algum tempo”.
© Igor Martins / Global Imagens

A chegada de uma nova vaga de covid-19 está a deixar em alerta os especialistas em Saúde Mental. Numa altura em que o aumento de casos traz com ele um crescente estado de medo e stress, os psicólogos são confrontados com a necessidade de implementar estratégias de apoio por parte do Serviço Nacional de Saúde, das empresas e instituições, para prevenir o auto-cuidado psicológico em benefícios do bem estar-emocional. No ISPA – Instituto Universitário, estão em curso diversos estudos que apontam nesse sentido. David Neto, professor auxiliar e coordenador do mestrado em psicologia clínica, afirma ao DN a necessidade “de interiorizarmos e normalizarmos a ideia de que vamos ter que viver com esta situação pandémica durante mais algum tempo. A questão das novas variantes mostra que vamos ter que conviver com isto, com maior ou menor protecção. Quanto mais rápido aceitarmos essa ideia melhor”.

O professor considera fundamental que o SNS aposte nesta área da prevenção e tratamento da saúde mental, numa altura em que o crescimento do número de casos põe em causa o desconfinamento. “O problema do confina e desconfina, nesta espécie de iô-iô, é que criamos expectativas que depois se revelam negativas”, explica David Neto, que alerta para a angústia sobre o futuro e o isolamento, “que podem ser um vírus invisível, tanto ou mais preocupante que o próprio Covid-19”.

No último relatório pré-covid para a área da saúde mental, intitulado “Sem Mais Tempo a Perder” (Conselho Nacional de Saúde, 2019), ficou claro que – já então – não estavam a ser postas em prática em Portugal as recomendações e as necessidades identificadas há décadas na área da saúde mental. Em tempo de pré-pandemia, já era assumido que um em cada cinco portugueses sofre de perturbações psicológicas.

“A situação em Portugal já era bastante precária antes da pandemia. Portugal tem só 500 psicólogos no SNS, por isso temos uma falta muito grande ao nível dos cuidados de saúde primários, no acompanhamento psicológico“, revela David Neto, enfatizando que a pandemia veio trazer “uma maior incidência de situações de saúde mental”: pessoas que já tinham alguns quadros de depressão e ansiedade viram as suas situações agravada. Outras que não tinham desenvolvido quadros psico-patológicos revelaram-no.

“O rácio ideal é um psicólogo para 5 mil habitantes”, acrescenta o professor do ISPA, sendo que estamos muito longe desses valores.

Uma luz ao fundo do túnel na linha SNS24

David Neto considera que, para já, “é importante o simples reforço. Mas não é só psicólogos. Mesmo a nível da psiquiatria e da saúde mental, existe uma falha grande principalmente no domínio dos cuidados de saúde primários”. O psicólogo vale-se dos exemplos de outros países para sublinhar a necessidade de Portugal lhes seguir o rasto.

Ainda assim, destaca como positiva a criação – na linha SNS 24 – de uma componente de apoio psicológico. “Não foi tudo mau. Embora, sendo importante, mas não chega. Era importante também que os casos pudessem ser identificados e tivessem encaminhamento mais directo”, conclui.
Desde o início da pandemia, muitas foram as câmaras municipais que, por todo o país, criaram linhas de apoio psicológico para prestar esse apoio. E isso vem reforçar “o aspecto positivo do poder local começar a estar atento a estas necessidades”, considera David Neto.

O quadro geral do país mostra um aumento da ansiedade e depressão entre todas as faixas etárias, em consequência da pandemia e – sobretudo – dos confinamentos. “Há muitas pessoas que já tinham vulnerabilidades prévias, quadros depressivos e ansiosos – para essas é importante procurar a ajuda profissional que existe. Mas há também uma dimensão de impacto económico desta situação pandémica, que afecta a sociedade de uma maneira geral. E a forma de gerir este stress associado a tudo isto tem de ser encontrada, dentro do que são as regras da DGS”, afirma David Neto, que elenca uma série de pequenas dicas para manter o equilíbrio e saúde mental. Por exemplo, encontrar o espaço para manter relações com outras pessoas, “porque o apoio social é um dos factores de mais relevância ao nível da protecção e da promoção da saúde mental, seja através das novas tecnologias, seja presencialmente respeitando o distanciamento, procurar estar com as pessoas que são mais significativas é fundamental. Manter as relações é bastante importante”.

Entre o rol de conselhos úteis de “higiene psicológica”, o especialista destaca “dormir bem, alimentar-se bem, fazer exercício físico – que tem um impacto a nível do humor”.

Nos últimos anos várias organizações têm dedicado estudos diversos a esta temática da saúde mental. Em 2018, já a depressão e ansiedade eram os distúrbios que mais afectavam os portugueses, num leque de doenças de saúde mental que incluem ainda a bipolaridade, ou problemas com álcool e drogas.

Antes ainda, um estudo da OCDE que analisou a Europa à lupa descobriu que, só em 2015, os distúrbios do foro psicológico custaram aos cofres do Estado português quase 4% do Produto Interno Bruto (PIB).

De acordo com esse relatório, Portugal era considerado o quinto país da União Europeia com maior prevalência de doenças de saúde mental, com 18,4% da população a registar incidências, acima da média europeia – de 17,3%. Só na União Europeia os problemas de saúde mental afectam 84 milhões de pessoas.

dnot@dn.pt

Diário de Notícias
Paula Sofia Luz
05 Julho 2021 — 07:00

 

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216: Pode o nosso cérebro impedir o envelhecimento?

Há quase quarenta anos que uma professora de Psicologia em Harvard tenta provar que temos o poder de combater o envelhecimento e de nos curarmos a nós próprios. Os resultados dos seus estudos são surpreendentes – embora a comunidade científica continue céptica

visao25042015Num dia desta primavera, meia centena de mulheres com cancro da mama estádio IV vai reunir-se no Texas. Vindas de vários pontos dos Estados Unidos, serão divididas em dois grupos e conduzidas a um hotel. Um dos grupos continua com o seu tratamento hormonal, enquanto o outro grupo é transportado até 2003. Todo o espaço estará decorado como se fosse o início dos anos 2000. Apenas revistas e jornais antigos dessa altura estarão disponíveis, bem como programas de televisão e filmes da época. Durante uma semana, as mulheres vão ser encorajadas a pensar em si como se fossem oito anos mais novas – quando eram saudáveis – e a falar desse tempo no presente. Não se verão ao espelho (mas haverá fotografias suas tiradas há 12 anos ou mais) e vão frequentar aulas de arte, culinária e escrita. No final, serão comparados indicadores de bem-estar (incluindo os marcadores tumorais) com os do início da experiência, os do segundo grupo e ainda os de um terceiro, de controlo, que não chega a ir para o Texas. A expectativa é que os tumores destas mulheres, sem a ajuda de qualquer droga, diminuam de tamanho.

A experiência foi desenhada por Ellen Langer, a docente de psicologia mais antiga da Universidade de Harvard e a primeira mulher a tornar-se professora residente do departamento. É a maior aposta da vida desta americana, que há 38 anos tenta provar que o indivíduo consegue controlar o seu envelhecimento e saúde apenas com algumas mudanças mentais. Nos últimos anos, depois de décadas a ver o seu trabalho desvalorizado, Langer tornou-se estrela de um documentário da BBC, cedeu os direitos da sua história a um estúdio de Hollywood, vendeu milhares de livros e viajou pelo planeta a explicar a sua teoria de unidade corpo/mente e o seu conceito de mindfulness, ou atenção plena. Prepara-se agora para arriscar tudo, quando chegarem as últimas autorizações, e levar a sua teoria à última fronteira: pacientes de cancro. É a aposta mais arriscada de uma vida inteira a desafiar o mundo médico, mas a única possível, aquela para a qual se prepara desde que, aos 29 anos, viu a mãe morrer vítima desta doença.

“A certa altura, o cancro da minha mãe metastizou-se para o pâncreas e disseram-nos que era o fim”, recorda a investigadora. “Mas, pouco depois, ela entrou em remissão. O cancro desapareceu durante algum tempo e ninguém conseguia explicar porquê. Isso definiu a agenda de pesquisa para o resto da minha vida: como é que, sem se mudar nada no tratamento, isto acontece?”

‘Os limites são artificiais’

Langer recorda a história no seu gabinete em Cambridge, Massachusetts, no 13.° andar do William James Hall. O prédio é o mais alto do campus de Harvard, uma moderna torre branca com vista para os edifícios de tijolo (alguns com quase 400 anos) que compõem a mais antiga universidade dos Estados Unidos. Foi neste espaço que despontaram os mais de 200 estudos que, garante a psicóloga, lhe permitem questionar verdades médicas absolutas e afirmar que as pessoas se conseguem “fazer doentes e fazer saudáveis.”

Langer nasceu longe daqui, no bairro nova-iorquino do Bronx, e licenciou-se em química na Universidade de Nova Iorque. Preparava-se para estudar medicina quando, por influência de um professor, se mudou para Yale e começou a trabalhar na área da psicologia. Os conceitos que explorou na tese de doutoramento, em que tentava perceber como a mais lógica das pessoas se deixa seduzir pelo tipo de pensamento mágico envolvido num jogo de sorte, estão na base de uma área de estudos conhecido como economia comportamental.

Já em Harvard, estudou como influenciar os nossos pensamentos e comportamentos com pequenas mudanças. Mostrou vídeos de entrevistas a psiquiatras e percebeu que avaliavam os entrevistados de forma diferente se estes fossem rotulados de “pacientes” ou de “candidatos”. Quando analisou os painéis de letras que os oftalmologistas usam para avaliar a visão dos pacientes, em que as letras vão ficando mais pequenas, percebeu que “a estrutura do teste já nos está a convencer que vai chegar um ponto que não conseguimos ver”. Colocou então as letras pequenas no topo. As pessoas passaram a ver caracteres que não viam. Depois acrescentou uns níveis de letras mais pequenas. O mesmo resultado.

Alguns resultados destes estudos iniciais pareciam tão fantásticos que Langer hesitava em publicá-los. “Comecei a perceber que os limites que julgamos ser reais são, na verdade, artificiais e não temos de os aceitar”, explica.

Elixir da juventude

Langer foi depois estudar como influenciar estas percepções. Num estudo, seleccionou 84 camareiras de hotel que não faziam exercício físico. Explicou a metade delas que o seu trabalho era, de facto, exercício, como se estivessem num ginásio. Um mês depois, sem que tenham descrito mudanças na sua dieta ou na prática de desporto, estas funcionárias tinham perdido, em média, perto de um quilo, baixado a pressão arterial em 10 pontos e reduzido o perímetro abdominal.

Outra investigação levou-a a um salão de beleza: mediu a tensão arterial de 47 mulheres entre os 27 e os 83 anos; após pintarem e cortarem o cabelo, as que disseram sentir-se mais novas tinham baixado a sua tensão. “Era como se tivessem posto a sua mente num local e o corpo seguisse”, explica.

Em 1981, no seu mais ambicioso estudo até então, testou esta teoria. Levou oito homens na casa dos 70 anos para uma casa em New Hampshire (nordeste dos EUA) onde tudo estava como se fosse o ano 1959. Os homens tiveram de carregar as suas malas pelas escadas acima até aos quartos. Durante uma semana, foram tratados como se tivessem menos 20 anos. No final da experiência, demonstraram maior destreza manual, memória, audição, visão, artrite, postura e, segundo observadores independentes que analisaram fotografias tiradas antes e depois, pareciam mais novos. O estudo, conhecido como counterclockwise, foi o primeiro a tornar o nome de Langer conhecido.

Estas descobertas colocam, uma vez mais, uma pergunta a que a ciência sempre tentou responder: como se passa de algo tão indistinto como os pensamentos para algo material como a nossa saúde? Mas não é essa questão que interessa à psicóloga. Há vários anos que Langer abandonou a ideia de que o corpo segue a mente. “O que quer que seja que acontece no nosso corpo, acontece em simultâneo e não em cadeia. Onde a mente está, o corpo também está. Mente e corpo são apenas palavras. Precisamos de tornar a colocá-los juntos”, defende, enunciando a base da sua teoria de unidade corpo/mente.

A cientista diz também se ter apercebido que “a maioria das pessoas está completamente alheia ao que se passa à sua volta durante grande parte do tempo.” É por isso, assegura, que seguimos cegamente regras que não fazem sentido. Langer lembra-se de quando fez um pagamento com um cartão de crédito que não estava assinado. A empregada pediu que o fizesse e depois que assinasse o recibo. Depois comparou as duas assinaturas. “Quão estanho seria se não fossem iguais?”

Devolver poder ao indivíduo

Nos anos 80, ao lado de pioneiros como Jon Kabat-Zinn e Herbert Benson, a cientista começou a provar que este estado de mindless, ou desatenção, tinha ligações diretas com o nosso bem-estar. Como forma de o combater, recuperou um termo budista e de tradição new age, mindfulness, e trouxe-o para o centro do debate académico. Em vez de propor a meditação como forma de o atingir, propôs um estado de mente ativa, em que se distingue novidades e mudanças no nosso corpo, e se actua sobre elas. “É isso que leva à mudança.”

O conceito tem aplicações em muitas áreas, mas Langer estuda sobretudo o envelhecimento e a saúde. “Notar variações nos nossos sintomas é uma das formas mais fortes de atingir o controlo sobre a doença. Temos de agir com base no que acontece no presente e não com base num diagnóstico feito semanas ou anos antes. Quando notamos uma mudança e a questionamos – porque dói mais agora do que há uma hora? – começamos a estudar hipóteses e a testá-las, o que aumenta o nosso estado de mindfulness, e ainda temos a possibilidade de descobrir uma solução.”

A ideia representa uma mudança de paradigma – e um desafio directo à medicina convencional. “No modelo médico, as pessoas ficam doentes com a introdução de um vírus, por exemplo, e nunca por causa dos seus pensamentos”, diz. “A minha pesquisa mostrou, uma e outra vez, que isso está errado.” A especialista acrescenta que o seu objectivo é devolver algum poder ao indivíduo. “Quero pôr as pessoas ao comando da sua saúde.”

Langer acredita que a principal forma de o conseguir é introduzindo um elemento de placebo, que considera “extraordinariamente poderoso”. A diferença é que no seu trabalho não há um comprimido de açúcar. “Se não é o comprimido que nos põe melhor, o que é? Somos nós. O que tenho tentado perceber é como ter esta influência positiva nas nossas vidas. Tornar o processo mais directo.”

A diferença está nas palavras

Langer fecha a porta do gabinete e carrega o cão Gus, de 16 anos, que está cego, até ao carro. Dentro da carrinha, explica que devia estar em Puerto Vallarta, no México, onde tem uma casa, mas teve de preparar uma conferência na África do Sul. Nos próximos meses, vai estar em vários estados dos EUA, na Inglaterra e no Brasil. “Gosto muito de citar uma frase do [Arthur] Schopenhauer”, comenta, enquanto conduz. “Qualquer verdade passa por três estágios. Primeiro, é ridicularizada. Segundo, é violentamente combatida. Terceiro, é aceite como óbvia e evidente.”

São os primeiros dias da primavera, mas o sol só agora começou a derreter a neve, que ocupa quase todo o estacionamento na rua. Langer encontra finalmente um lugar e descobre flores à porta de casa. É o seu aniversário. Faz 68 anos. “Não ligo nenhuma à idade”, diz, abrindo a porta de casa. “Isto é um cliché terrível, mas acho que é apenas um número. Há muitas coisas associadas ao envelhecimento, como a perda de memória, que não precisam necessariamente de acontecer.”

Passa por uma guitarra que os alunos lhe ofereceram – não sabe tocar, mas os seus pupilos garantem que é uma rock star -, deixa café a fazer e carrega num botão do atendedor de chamadas: “Happy birthday to you, Happy birthday to you…”, canta uma amiga.

Agarra na caneca de café e vai até à cave. O espaço está cheio de quadros, sobretudo retratando cães e duas mulheres: ela e a companheira. Numa estante, está o livro On Becoming an Artist, onde explora as aplicações dos seus estudos na área da criatividade. Langer acredita que o conceito de mindfulness tem aplicações em quase todas as áreas da nossa vida e, em alguns dos seus livros, propõe vários exercícios.

Uma das propostas é imaginar que os nossos pensamentos são transparentes. “Quando fazemos um julgamento e imaginamos que a pessoa à nossa frente nos consegue ouvir, obrigamo-nos a analisar a questão de vários ângulos e a vê-la sob outra luz”, explica. Langer também aconselha que nunca se façam elogios gerais, como dizer que algo é saboroso ou alguém está bonito. “Deve dizer-se que a cor da blusa a favorece ou que o cabelo está brilhante. Algo que implique observação.” Até uma mudança de discurso pode ter resultados. Num estudo recente, que ainda aguarda publicação, Langer comparou pessoas que tinham tido cancro de mama e se referiam a si próprias como “curadas” ou “em remissão”. O primeiro grupo tinha mais saúde, energia, menos dores e era menos propenso a depressão – tudo provocado, aparentemente, por uma diferença vocabular.

As dúvidas científicas

Langer usa estas e outras técnicas num instituto na Índia e prepara-se para abrir outro no México. Além disso, está a trabalhar com hospitais de todo o mundo para alterar os seus protocolos. Uma das coisas que quer mudar, por exemplo, são as checklists do pessoal hospitalar. “Queremos que a única forma de responder às perguntas seja olhar, de facto, para o paciente e interagir com ele.” Por exemplo, não dizer apenas que os olhos estão abertos, mas quantos milímetros estão abertos. Outras soluções passam por dar ao paciente algum poder sobre o seu tratamento, como escolher o modelo de cadeira de rodas que quer usar.

Langer tem muitos críticos. Dizem que usa a sua fama para enriquecer. Que alguns dos seus estudos não são rigorosos ou não foram revistos pelos pares. Que mistura convicções pessoais com conhecimento científico. Em relação à experiência no Texas, dizem que vai acabar por culpabilizar as vítimas de cancro. “Mas isso não faz qualquer sentido”, defende-se. “Primeiro, não falo de uma luta contra o cancro, porque isso é admitir que o adversário é poderoso, o que compromete os resultados. Depois, não se pode culpar as pessoas que foram educadas para acreditar em algo toda a sua vida. Não queremos culpar as pessoas, mas educá-las.”

Langer jura que também está no mesmo processo de formação. Em Dezembro de 1997, a sua casa ardeu completamente. Perdeu tudo, menos os cães, que os vizinhos salvaram no último momento. “Quando algo acontece, temos de nos perguntar: é uma tragédia ou uma inconveniência? O mais provável é que seja apenas uma inconveniência.” Isto é diferente de ser uma pessoa negativa ou positiva. “Quando somos positivos ou negativos, tornamo-nos prisioneiros de um tipo de pensamento. O que defendo no meu conceito de mindfulness é que devemos saber que algo pode ser sempre visto de várias formas e, sabendo-o, optamos pela forma que nos faz sentir melhor.” O incêndio era, sem dúvida, uma tragédia.

Langer foi viver num hotel. Na noite de Natal, que iria passar sozinha, levou os cães a passear. Quando regressou, o quarto estava cheio de prendas. Não da direcção do hotel, mas das camareiras, porteiros e cozinheiros que tinham preparado a surpresa. “Até hoje, não voltei a pensar em tudo o que perdi no incêndio”, lembra, abandonando por momentos a sua imperturbável atitude de nova-iorquina do Bronx. “Só me lembro do momento em que entrei naquele quarto e ele estava cheio da bondade de pessoas que nem me conheciam.” Langer emociona-se, uma vibração que dura apenas um instante. “Não é agora que começo a chorar”, larga, com uma gargalhada.

Revista Visão
Alexandre Soares (artigo publicado na VISÃO 1154 de 16 de Abril)
10:30 Domingo, 26 de Abril de 2015

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