1759: Planeamento e preparação. As lições que uma pandemia deixou ao País

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/PLANEAMENTO

Pré-publicação. Covid-19 em Portugal: a estratégia mostra um olhar para a forma como as autoridades lidaram com a pandemia. As fragilidades detectadas – na Saúde Pública – e as melhorias que foram surgindo, são alguns dos temas abordados neste trabalho da autoria do grupo responsável pelas propostas de desconfinamento que foram servindo de base à decisão política do Governo. O livro é o primeiro publicado pela Fundação Mestre Cascais e pela UMinho Editora.

Elevado número de casos de covid-19 depressa esgotaram a capacidade de resposta da Saúde Pública.

Embora as pandemias sejam imprevisíveis, a preparação adequada e o planeamento prévio podem ajudar-nos a geri-las melhor. Por muito tempo, os coronavírus foram identificados como patógenos com alto potencial pandémico. No entanto, o mundo não estava preparado para lidar de forma eficaz com o SARS-CoV-2. Demorámos a aceitar que seríamos afectados por um vírus que parecia tão longínquo. Hoje, depois daquilo que vivemos, há lições que devemos guardar.

Podemos argumentar que não havia sistema de saúde no mundo preparado para uma pandemia como a da covid-19. No entanto, a tecnologia mais recente permitiu desenvolver redes de vigilância interligadas e mais inteligentes (apoiadas no digital). Basta observar o quanto evoluímos em termos organizacionais quanto à utilização de tecnologias de videoconferência ou de partilha de dados através da nuvem.

Numa perspectiva hospitalar, se é verdade que sempre existiu uma rede no Serviço Nacional de Saúde vocacionada para responder a casos urgentes e complexos, a pandemia implicou uma tal avalanche de infecções que o sistema existente para identificar necessidades e apoiar a gestão revelou-se demasiado lento para encontrar respostas efectivas.

Rapidamente se percebeu que algo teria de ser feito para reduzir a pressão nas urgências e nos internamentos. Neste contexto, os sistemas digitais instalados conseguiram ir evoluindo de forma a apoiarem o processo de gestão hospitalar (tendo os serviços centrais como pivot), criando respostas articuladas e precisas e, assim, diminuindo a pressão. E isso também aconteceu graças à flexibilidade de resposta dos serviços.

Na fase inicial da pandemia, os profissionais de saúde de todo o mundo enfrentaram a escassez de muitos equipamentos essenciais, incluindo ventiladores e até mesmo material de protecção individual (por exemplo, máscaras faciais e luvas). Apesar da lição aprendida, não há uma forma prática de abordar esta questão, porque também não existe uma maneira fácil de armazenar esses materiais, até mesmo por razões logísticas.

Além disso, a próxima crise mundial pode não estar associada a insuficiência respiratória. Por isso, é urgente pensar em soluções criativas para no futuro sermos capazes de lidar com a nossa capacidade de responder a uma variação repentina da dinâmica de procura e oferta.

Todos reconhecerão que os cuidados de saúde primários foram uma peça fulcral na resposta à covid-19. Estes serviços conseguiram reinventar-se com alguma celeridade. O facto de termos níveis organizacionais como os Agrupamentos de Centros de Saúde – com conexão aos hospitais de referência e com proximidade aos serviços de saúde pública e equipas de enfermagem de resposta comunitária – permitiu desenvolver horários flexíveis, criar uma resposta de centros pré-urgência para Covid (Áreas Dedicadas à Covid e depois Áreas Dedicadas para Doentes Respiratórios), ter uma linha própria para utentes ainda antes do SNS24 estar preparado para a emergência covid-19 e apoiar os centros de acolhimento que entretanto se desenvolveram. Resta saber se a experiência adquirida agora se transfere para conhecimento e implementação sustentável no futuro.

Uma outra grande lição nesta pandemia foi a fragilidade da Saúde Pública. A actuação da Saúde Pública no terreno, identificando cadeias de transmissão e implementando medidas que permitiam cortar essa transmissão, era determinante para conter a doença na comunidade.

Ora, face ao número avassalador de casos de infecção, depressa ultrapassámos a capacidade de resposta da Saúde Pública. Não foi fácil encontrar respostas flexíveis com envolvimento de outros intervenientes para que todo esse trabalho nunca quebrasse. A Saúde Pública sai da pandemia exausta e com uma necessidade urgente de se reorganizar e fortalecer.

O diálogo entre política e ciência é fulcral. Definitivamente, é-o em momentos de crise sanitária, mas também o será no quotidiano rotineiro e para lá das temáticas da saúde. Essa é uma aprendizagem a fazer.

Em contexto de pandemia, a promoção da literacia em saúde ganhou também redobrada importância junto das pessoas, das comunidades e das organizações, constituindo-se como uma importante resposta e ferramenta da saúde pública. Desde o início da pandemia que as palavras de ordem passaram por magnitude e incerteza. Acima de tudo, impunha-se transmitir à população comportamentos adequados – individuais ou populacionais – e medidas não farmacológicas, que se constituíam como chaves para a prevenção e controlo da pandemia.

Nos próximos tempos, iremos precisar que a população incorpore na sua rotina uma série de comportamentos associados a uma protecção quanto às infecções respiratórias. Aqui a literacia em saúde não pode falhar. A comunicação também não. Ambas estão interligadas e precisam ainda de fazer algum caminho entre nós.

Durante a pandemia, estivemos sempre atentos à situação mundial: que variantes estavam em circulação, que respostas eram desencadeadas, que resultados advinham delas… Todavia, esse olhar global não pressupunha o envolvimento em sinergias à escala internacional, porque essas simplesmente nunca existiram. Cada país organizou-se sempre virado para si próprio. Assistimos, de longe, à persistência de variantes em circulação, à baixa cobertura vacinal em certas geografias e fomos criando regras de circulação entre países, conforme o interesse de cada um.

É verdade que o Regulamento Sanitário Internacional, como documento e reflexo de uma parceria internacional com décadas de experiência na articulação internacional e controlo de fronteiras, garantiu alguma monitorização sobre eventos com impacto na saúde pública e redimensionou a atenção internacional nos primeiros casos de covid-19, preparando equipas e fornecendo uma base de apoio à resiliência e sustentabilidade das medidas tomadas para o controlo do vírus à escala global. Mesmo assim, temos de assumir que, neste contexto pandémico, o apoio global deveria ter sido maior. Por exemplo, no que às vacinas diz respeito. Enquanto alguns países discutiam a 3.ª dose, outros tentavam aceder à 1.ª. E lá fomos cerrando fronteiras…

Uma grande novidade na pandemia foi a utilização regular da ciência de dados para a modelação e apoio à decisão. Apesar de diferentes grupos de investigação epidemiológica desenvolverem os seus modelos, a OMS foi um interlocutor-chave na partilha de conhecimento e no apoio aos países com maior dificuldade na tomada de decisão e resposta. Iniciativas como o Data Science Hub da OMS ou a actualização do HIS tool irão, decerto, melhorar respostas futuras e estabelecer sustentabilidade nas respostas de emergência e vigilância. Há, pois, que as manter e melhorar.

O futuro da resposta pandémica passa também por aumentar a capacidade de protecção da saúde pública através de mecanismos de inteligência epidemiológica, reforçando as operações necessárias para manter o estado de alerta, preparar respostas e intervenções quando estas forem activadas por situação de emergência. Nunca teremos sucesso enquanto não houver um apoio claro à escala planetária.

Uma emergência biológica com expressão pandémica, com capacidade de reservatório em qualquer região, terá potencial para se reincidir, de um momento para o outro, em todo o planeta. Neste contexto, a decisão política deve fazer-se guiar pela melhor evidência científica disponível. É isso que nos assegura os melhores resultados. A covid-19 demonstrou como os cientistas podem impulsionar a sua actividade num momento crítico. Fizeram-no, por exemplo, ao gerar vacinas seguras e eficazes num período de tempo até então inimaginável ou na modelação como apoio às mais complexas decisões.

No entanto, como esta pandemia demonstrou, quando enfrentamos um agente patogénico desconhecido, a evidência científica leva tempo a produzir-se, mesmo que a comunidade científica se una massivamente em torno do objectivo de prevenir e controlar a doença. Pela nossa parte, ficámos a conhecer demasiado bem quantos segundos se podem replicar dentro de cada segundo de espera… Estivemos sempre obsessivamente no encalço dessa produção científica que se queria rápida, mas que teimava em tardar.

A cada nova variante, a cada novo cenário epidemiológico, a cada nova vacina, enfrentámos a necessidade de ver o tempo desdobrar-se para que a realidade se desenvolvesse, para que os dados maturassem e os mistérios se resolvessem, até ao momento em que já se soubesse o suficiente para basearmos as nossas propostas no que seria um conhecimento científico fiável. Por um lado, a nossa pressa e, por outro, a lentidão aflitiva do tempo de revelação do vírus (ou das suas variantes) e dos efeitos das medidas de saúde pública foram sempre uma constante que acompanhou o nosso trabalho.

A ciência sozinha não pode controlar uma pandemia. A longo prazo, a divulgação activa da ciência ao público e aos decisores é fundamental para alcançar uma implementação coordenada da intervenção em escalas, sectores e grupos populacionais.

Não há dúvida de que uma estratégia baseada na unificação, no envolvimento público e na tomada de decisão informada são três passos estruturantes para melhorar no futuro o controlo de emergências de saúde pública. O diálogo entre política e ciência é fulcral. Definitivamente, é-o em momentos de crise sanitária, mas também o será no quotidiano rotineiro e para lá das temáticas da saúde. Essa é uma aprendizagem a fazer.

Neste tempo, também aprendemos o quanto a comunicação é eficaz e poderá ser um coadjuvante essencial na disseminação do conhecimento, na influência das tomadas de decisão política e na construção de uma opinião pública informada e comprometida na aprendizagem de comportamentos mais preventivos.

Para que tudo funcione, não é preciso uma grande e complexa estrutura de comunicação. Nós próprios fizemos isso no interior deste Grupo dos 7 e estivemos frequentemente nas primeiras páginas dos jornais mais importantes e ocupámos os alinhamentos dos noticiários de maior audiência. Nunca a nossa mensagem foi deturpada, nem tão-pouco os nossos ritmos de comunicação foram adulterados.

Apenas seguimos à risca uma estratégia que tornámos clara para todos, partilhando com todos a informação de que dispúnhamos na data fixada para tal e mostrando-nos sempre disponíveis para os esclarecimentos necessários. Parece algo muito simples. E na verdade assim é, mas tudo isso requer planeamento e uma ideia muito clara do que se pretende fazer. Seria muito importante continuar esse caminho no que à comunicação da saúde diz respeito, sobretudo na relação que deve ser mantida com os media.

Os autores do livro que será apresentado dia 13 na Reitoria da Universidade do Minho: Felisbela Lopes, Raquel Duarte, Filipe Alves, Ana Aguiar, Hugo Monteiro, Marta Pinto e Óscar Felgueiras.

Outra lição a reter é a de que a ciência constitui um universo vasto que devemos explorar em todo o seu potencial, nomeadamente no que diz respeito à sua capacidade para integrar diversos tipos de conhecimento, robustecendo-se nas suas conclusões.

No nosso método, incluímos a recolha e tratamento de dados provenientes da auscultação da comunidade, tanto de especialistas, como de cidadãos anónimos. E fizemos questão de não esquecer as pessoas que enfrentam a vulnerabilidade social e que, melhor do que ninguém, sabem o que é necessário fazer para a sua protecção em relação aos efeitos desiguais com que são atingidas pelas crises, sejam elas de que tipo forem.

Essa auscultação, que abriu o conhecimento científico ao saber experiencial, enriqueceu indelevelmente as nossas propostas e moldou-as de forma a reunirem maior consenso e serem mais tangíveis nos seus resultados. Não esqueçamos, por isso, de continuar a fazer dialogar a ciência, a decisão política e a comunidade. Não deixemos ninguém para trás. Não fechemos a gestão das crises de um país ao universo das elites. Incluamos todas as vozes e usemos para isso o método científico em toda a sua plasticidade.

Não esqueçamos também a importância do diálogo entre diferentes campos do saber. Não temos hoje dúvidas de que as discussões que tivemos a propósito do entre-cruzamento da medicina, da psicologia, da educação, da comunicação, da matemática nos tornaram, simultaneamente, mais sábios e mais humildes. E melhoraram as nossas propostas.

Por fim, uma lição: o caminho faz-se com todos. Se, neste tempo que o livro reflecte, o país conseguiu controlar o vírus, isso deve-se aos decisores políticos a quem coube tomar medidas, aos especialistas que procuraram sempre ajudar a partir dos seus domínios de trabalho e, acima de tudo, aos cidadãos. A eles se deve tudo.

Covid-19 em Portugal: a estratégia
Universidade do Minho e Fundação Mestre Cascais

Diário de Notícias
Raquel Duarte, Felisbela Lopes, Filipe Alves, Ana Aguiar, Hugo Monteiro, Marta Pinto e Óscar Felgueiras
11 Maio 2022 — 00:13


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética de Putin, na Ucrânia
For the victims of the genocide practiced
by the Soviet Union of Putin, in Ukraine

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