1142: EMA vai iniciar exame contínuo de medicamento contra a covid

SAÚDE PÚBLICA/COVID-19/MEDICAMENTOS

Farmacêutica diz que o molnupiravir reduz para metade os riscos de hospitalização e morte de pacientes com covid-19.

Laboratório anunciou que vai pedir em breve autorização para comercializar o molnupiravir nos EUA.
© AFP PHOTO /Merck & Co, Inc

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) declarou esta terça-feira que pode iniciar em breve o exame de um comprimido do laboratório MSD (Merck nos EUA) contra a covid-19, abrindo caminho a um eventual pedido de autorização na União Europeia.

A farmacêutica afirmou na semana passada que, após um ensaio clínico, o seu medicamento, designado molnupiravir, reduzia para metade os riscos de hospitalização e morte de pacientes com covid-19, o que pode constituir um avanço significativo na luta contra a pandemia.

“Estamos a considerar iniciar um exame contínuo deste composto nos próximos dias”, declarou Marco Cavaleri responsável pela estratégia para a vacinação no regulador europeu.

A EMA, que tem sede em Amesterdão, tomou conhecimento dos “primeiros resultados comunicados pela empresa” Merck sobre este novo medicamento, acrescentou Cavaleri em conferência de imprensa.

O laboratório norte-americano anunciou na sexta-feira que previa pedir em breve autorização nos EUA para comercializar o medicamento.

O ensaio clínico da MSD e do seu parceiro Ridgeback Biotherapeutics envolveu 775 pessoas com casos ligeiros ou moderados de covid-19 com pelo menos um factor de risco que poderia agravar a doença.

Receberam tratamento nos cinco dias após o aparecimento dos primeiros sintomas.

A taxa de hospitalização ou de morte nos doentes que receberam este medicamento foi de 7,3%, em comparação com 14,1% nos que tomaram um placebo.

Não se registou qualquer morte nas pessoas tratadas com molnupiravir, mas houve oito no segundo grupo, noticiou a AFP.

Diário de Notícias
DN/Lusa
05 Outubro 2021 — 20:38

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1096: OMS inclui mais dois medicamentos nas recomendações para tratamento

– Nunca as farmacêuticas fizeram tantos milhões à pala da COVID-19…

SAÚDE PÚBLICA/COVID-19/TRATAMENTOS

A Organização Mundial de Saúde (OMS) acrescentou esta sexta-feira dois medicamentos à lista de fármacos admitidos para tratamento da covid-19 e pediu à farmacêutica que os produz para baixar os preços e levantar as patentes.

O casirivimab e o imdevimab, fabricado pela norte-americana Regeneron, são incluídos nas recomendações da OMS para tratamento de casos ligeiros de covid-19 em doentes que estejam em maior risco de hospitalização e, condicionalmente, no tratamento de casos graves da doença se se tratar de pessoas sem anticorpos.

“Dado o custo elevado e a escassez desta terapia combinada, a OMS apela à Regeneron para baixar os preços e distribuí-la equitativamente, especialmente em países de rendimentos baixos e médios e transferir a tecnologia que permita o fabrico de versões biologicamente semelhantes para que todos os pacientes que precisem deste tratamento tenham acesso a ele”, afirma a organização em comunicado.

A OMS já lançou entre as empresas farmacêuticas um apelo para que candidatem versões dos medicamentos para pré-qualificação, o que permitiria aumentar o nível de produção.

Salienta ainda que o tratamento com os dois medicamentos não deve ser dado a pacientes que tenham anticorpos contra a covid-19 para “não exacerbar a desigualdade e a disponibilidade limitada do tratamento”.

A OMS pede ainda aos médicos que apliquem “testes rigorosos” aos pacientes para perceberem quais é que terão mais a ganhar com este tratamento, os que ainda não tenham desenvolvido anticorpos naturais contra a covid-19.

Lusa

Diário de Notícias
24 Set 07:58

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1022: Descoberta portuguesa pode ajudar a reduzir covid-19 a uma constipação (e é um segredo bem guardado)

SAÚDE PÚBLICA/COVID-19/DESCOBERTA PORTUGUESA

dragana991 / Canva

Uma equipa de investigadores portugueses descobriu três compostos que podem ajudar a reduzir o impacto da covid-19 a uma mera “constipação”. A pesquisa foi toda “made in Portugal” e, para já, está no segredo dos Deuses.

Cada um destes compostos descobertos pode, “em acção individual”, reduzir “60 a 70% a actividade do vírus SARS-CoV-2”, explica à agência Lusa a investigadora coordenadora da pesquisa, Cecília Arraiano, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa (ITQB NOVA), em Oeiras.

Este projecto aponta numa direcção distinta das vacinas e está em fase de registo de patentes, com perspectivas de poder chegar rapidamente ao mercado. Até porque dois dos compostos estão aprovados para uso em outras doenças pelo regulador americano, a FDA (Food and Drugs Administration).

“A vacina é uma abordagem diferente, porque põe o hospedeiro a lutar contra o vírus e nós lutamos directamente com o vírus, porque atacamos a ‘maquinaria’ interior”, nota a geneticista.

“A vantagem é que [a nossa] é mais independente da resposta imunitária do hospedeiro”, acrescenta Cecília Arraiano, frisando que “a covid-19, que está tão grave, passa a ser como uma constipação“.

“Se uma pessoa não tiver outras complicações, não vai para o hospital com uma constipação”, constata ainda.

Descoberta com “garantia de futuro”

O trabalho desta equipa, que contou com a colaboração do Laboratório Nacional de Referência de Saúde Animal do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), assenta na especialização dos investigadores em RNA e ribonucleases, isto é, as moléculas que controlam os níveis de RNA na célula.

Na base da investigação está a existência de duas ribonucleases no SARS-CoV-2, que desempenham um papel essencial na replicação do vírus.

“O nosso objectivo era pôr o nosso conhecimento de forma a poder ajudar a controlar a multiplicação do vírus e tornar esta doença – que tem sido tão perigosa – mais ligeira”, frisa Cecília Arraiano, destacando a “garantia de futuro” destas descobertas.

“Quando entra nas células, o vírus normalmente pode ter mutações e esta ‘maquinaria’ funcional é sempre conservada, o que dava uma garantia de ser uma forma de atacar com futuro”, nota.

Com a ajuda da colega investigadora Margarida Saramago, Cecília Arraiano conta que o projecto arrancou ainda durante o primeiro confinamento, em Abril/Maio de 2020, com os três fármacos a serem ‘encontrados’ nas bases de dados internacionais, que contêm muitos milhares de compostos químicos.

Tudo em segredo (e “made in Portugal”)

Todo este processo “foi uma grande aventura” para a instituição e os profissionais.

“As minhas colaboradoras fizeram um ‘screen’ e começaram a ver, tendo em conta as características destas ribonucleases, quais seriam aqueles que poderiam – como uma chave numa fechadura – encaixar nos sítios vulneráveis e fazer com que se ligasse e não funcionasse bem”, refere.

A ambição, agora, é que seja rapidamente utilizado pelas pessoas para se poder “voltar à normalidade que havia antes desta pandemia”.

Com a investigação laboratorial terminada nesta fase, o futuro passa pelo registo de patentes e pelo diálogo com as farmacêuticas.

A investigadora coordenadora do ITQB Nova adianta que já foi obtida uma “patente provisória” na semana passada e que dentro de alguns dias devem avançar pedidos similares para os outros dois compostos.

“Até estar tudo seguro e conversado com as farmacêuticas, não podemos divulgar porque, senão, qualquer país do mundo agarra e faz. Como foi tudo ‘made in Portugal’ temos muito orgulho e queremos manter ‘made in Portugal’”, indica a geneticista.

Esta patente provisória já permite encetar conversações com as farmacêuticas, embora seja um processo sobre o qual pendem algumas obrigações, além de estar ainda ‘presa’ por alguns detalhes.

Apesar disso, Cecília Arraiano confirma que serão feitas “três patentes diferentes”, uma por cada composto descoberto. A investigadora acredita também que este tema não passa de uma questão burocrática.

“O que gostávamos era que as farmacêuticas testassem isto (que nós já sabemos que se faz em células de macaco com o vírus) em testes clínicos com pessoas com covid”, frisa ainda.

“Tendo em conta a rapidez com que foram desenvolvidas estas novas vacinas de RNA, em um ano, tenho a grande esperança de que seja também tudo muito rápido”, indica.

“Esperamos mesmo é ver isto no mercado o mais rápido possível“, conclui.

ZAP // Lusa

Por Susana Valente
25 Agosto, 2021

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1008: Há medicamentos para a diabetes que podem atrasar a progressão do Alzheimer

SAÚDE/MEDICAMENTOS/ALZHEIMER/DIABETES

geralt / Pixabay

Um novo estudo encontrou uma associação entre uma classe particular de medicamentos usados para tratar diabetes tipo 2 e redução de bio-marcadores da doença de Alzheimer.

A razão pela qual este medicamento está a surtir este efeito neuro-protector é desconhecida, mas cientistas pedem agora ensaios clínicos em grande escala para explorar esses tratamentos potenciais em grupos não diabéticos, escreve o New Atlas.

Investigadores observaram taxas mais altas de demência em pacientes com diabetes tipo 2. Um estudo realizado no início do ano sugeriu que tensão alta pode explicar a relação entre diabetes e demência, mas ainda não é claro o que liga as duas condições.

Por outro lado, tem havido cada vez mais observações de taxas anormalmente baixas de doenças neuro-degenerativas em grupos de pacientes diabéticos que tomam alguns medicamentos anti-diabéticos.

Um outro estudo mostrou que pacientes idosos que tomavam metformina registaram um declínio cognitivo mais lento em comparação com pessoas sem diabetes que não tomavam esta medicação.

Agora, este novo estudo científico analisou uma classe particular de medicamentos para diabetes chamados inibidores da dipeptidil peptidase 4 (DPP-4i), também conhecidos como gliptinas.

Os investigadores compararam dados de TACs ao cérebro e resultados de testes cognitivos de 70 pacientes diabéticos que tomavam DPP-4i, 71 pacientes diabéticos que não tomavam DPP-4i e 141 pacientes não-diabéticos.

Todos os participantes mostraram os primeiros sinais da doença de Alzheimer e tinham uma idade média de 76 anos.

Acompanhados ao longo de cerca de seis anos, os pacientes diabéticos que se medicavam com DPP-4i apresentaram taxas significativamente mais lentas de declínio cognitivo em comparação com os outros grupos.

Olhando para aquele que é o bio-marcador primário da doença de Alzheimer, a acumulação de proteína amilóide no cérebro, o estudo descobriu que os pacientes que tomavam DPP-4i tinham níveis médios mais baixos do que outros pacientes diabéticos e não diabéticos.

“Pessoas com diabetes demonstraram ter um risco maior de doença de Alzheimer, possivelmente devido aos altos níveis de açúcar no sangue, que foram associados à acumulação de beta amilóide no cérebro”, disse o co-autor Phil Hyu Lee, citado pela Academia Americana de Neurologia.

Os resultados do estudo foram recentemente publicados na revista científica Neurology.

Por Daniel Costa
19 Agosto, 2021

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744: EUA aprovam primeiro novo fármaco para Alzheimer em 20 anos, mas terapia levanta dúvidas

 

SAÚDE/FÁRMACOS/ALZHEIMER

A autoridade do medicamento norte-americana (FDA) aprovou o primeiro novo fármaco para a doença de Alzheimer em quase 20 anos, apesar de consultores independentes avisarem que o tratamento não demonstrou ser eficaz em desacelerar a doença.

© DR

Em causa está um novo medicamento desenvolvido pela farmacêutica Biogen, em parceria com a japonesa Eisai Co., para pacientes com Alzheimer, e o único que o regulador considera provavelmente capaz de tratar a doença subjacente, em vez de controlar apenas sintomas como a ansiedade e insónia.

De acordo com a agência Associated Press (AP), a decisão, que poderá ter um impacto na vida de milhões de idosos e das suas famílias, deverá gerar divergências entre médicos, investigadores e grupos de pacientes, afectando também no longo prazo os padrões usados para avaliar terapias experimentais.

O novo medicamento, que é administrado por infusão a cada quatro semanas, não mostrou evidências de conseguir reverter o agravamento da saúde mental, atrasando-o em apenas um estudo.

Em Novembro, um grupo externo de especialistas neurológicos da FDA deu parecer negativo a uma série de questões sobre se os dados do estudo submetido pela Biogen mostraram que o fármaco era eficaz.

A FDA solicitou, entretanto, que a farmacêutica conduza um estudo de acompanhamento para confirmar os benefícios para os pacientes. Se o novo estudo também não demonstrar a eficácia do medicamento, a FDA poderá retirá-lo do mercado, embora raramente o faça.

A Biogen não divulgou o preço do novo fármaco, mas especialistas estimam que um ano de tratamento possa custar entre cerca de 24.500 euros e quase 41 mil euros. Uma outra análise preliminar concluiu que o medicamento teria de custar entre 2.050 euros e 6.800 euros por ano para ter um bom valor, com base nos “pequenos benefícios gerais para a saúde” sugeridos.

Um instituto sem fins lucrativos de Boston, o Institute for Clinical and Economic Review, acrescentou que “qualquer preço é muito alto” se o benefício do medicamento não for confirmado em estudos futuros para acompanhar os doentes.

É a primeira vez em 20 anos que a FDA aprova um novo medicamento para o Alzheimer, que nos Estados Unidos afecta quase seis milhões de pessoas.

O novo fármaco é produzido através de células vivas que deverão ser administradas por infusão num consultório médico ou hospital. O efeito secundário mais comum foi inflamação no cérebro, que na maioria dos casos não causou sintomas ou problemas duradouros.

Em 2019, a farmacêutica norte-americana interrompeu dois estudos do medicamento depois de resultados que sugeriam que o “aducanumabe” (o anticorpo utilizado) não cumpria o objectivo de desacelerar a degenerescência mental e funcional em pacientes com Alzheimer.

Mais tarde, a empresa anunciou que uma nova análise de um dos estudos levava a concluir que o medicamento era eficaz em doses mais elevadas.

Diário de Notícias
DN/Lusa
07 Junho 2021 — 19:00

 

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701: É doente crónico? E se os medicamentos lhe fossem entregues em casa?

 

SAÚDE/MEDICAMENTOS

O projecto estava delineado há tempos, mas a pandemia veio acelerar a sua aplicação. O objectivo era reduzir as idas de doentes ao hospital só para levantar medicação de continuidade. Em poucos dias, uma equipa do serviço de farmácia organizou tudo e as entregas começaram logo em Março de 2020. O resultado está à vista: 15 mil entregas a seis mil doentes, o que equivale a muitos milhares de medicamentos. “É o futuro”, diz o director do serviço.

Há seis mil doentes que já recebem os medicamentos em casa, mas ainda há muitos que se dirigem à farmácia hospitalar para levantar a medicação presencialmente.
© Gerardo Santos Global Imagens

Depois da consulta com o pai no Hospital de Santa Maria, Manuel Carlos aproveita para ir à farmácia da unidade e ver se é possível levantar a medicação de continuidade para, pelo menos, três meses. O pai sofre de uma doença de sangue e é acompanhado na consulta de hematologia. Há muito que a sua rotina é a mesma de 50 em 50 dias. Sair do distrito de Setúbal, onde vive com o pai, para vir a Lisboa buscar uma caixa de 50 comprimidos. “Ele tem de tomar um comprimido diário, mas só podemos levantar uma caixa de mês e meio em mês e meio. Muitas vezes não tem consulta e tenho de vir sozinho a Lisboa só para isso. Hoje queria ver se consigo levar duas caixas. Começa a ser muito complicado no trabalho”, conta ao DN.

Manuel Carlos teve de mudar o turno no trabalho para conseguir acompanhar o pai naquela manhã de terça-feira às análises, depois à consulta e por fim à farmácia hospitalar. É quase hora de almoço e ainda aguarda a sua vez para ser atendido. Pelo meio, conta até dez para acalmar o stress, o mesmo de sempre, ri-se, que surge quando pensa nas voltas que ainda tem de dar até chegar ao trabalho sem prejudicar o turno. Mas tudo é melhor do que ter de voltar daí a dias para passar pelo mesmo. Mas quando chega ao guichet é surpreendido e solta um grande: “Uau, a sério? Isso é possível? E basta pedir os medicamentos só três a quatro dias antes?”

Manuel Carlos não queria acreditar no que a funcionária lhe dizia. “Sabe que há um programa de entrega de medicamentos em proximidade? O seu pai reúne os requisitos e pode passar a receber a medicação em casa ou na farmácia mais próxima. Vai à Internet, entra na nossa plataforma e antes de acabar a medicação preenche o formulário com os dados dele. Depois será contactado por um administrativo do hospital para marcar o dia e a hora da entrega e ainda vai receber o telefonema de um farmacêutico que vai avaliar a condição do seu pai para ver se há necessidade de ajustes à medicação ou até de falar com o médico dele.”

Mais uma vez, Manuel Carlos não queria acreditar que tal fosse possível. Aceitou de imediato, pelo pai e por ele. O “uau” que lhe saiu não o foi único que os profissionais do serviço de farmácia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, que inclui o Hospital de Santa Maria, registaram durante este ano, de cada vez que falaram do programa a um doente, a familiares ou até a médicos, sobretudo àqueles que estão mais envolvidos com o tipo de doentes a que o programa se destina, doentes hematológicos, de reumatologia, nefrologia, neurologia, infecciologia, etc.

Aliás, têm sido muitos os “uaus” ouvidos. Talvez por isto mesmo, e ao fim de um ano, o Programa de Acesso ao Medicamento em Proximidade tenha recebido nota dez dos utentes no inquérito de satisfação realizado pelo serviço de farmácia. “O hospital tem cerca de 17 mil doentes que necessitam de dispensa de medicação. Todos estes doentes tinham de vir várias vezes à unidade só para levantar a medicação. Com este programa não precisam de o fazer”, explica o director do serviço de farmácia, João Paulo Cruz.

É do armazém da farmácia que saem todos os medicamentos para os doentes, quer os que levantam presencialmente, quer os que recebem em casa.
© Gerardo Santos Global Imagens

Milhares de medicamentos entregues em casa

O resultado está à vista: 15 mil entregas a seis mil doentes em todo o país, incluindo Madeira e Açores. A grande maioria das entregas foi ao domicílio, uma pequena percentagem em farmácias comunitárias e em instituições, como lares. No caso das ilhas, as entregas foram feitas em farmácias hospitalares. “Isto significa que foram entregues muitos milhares de medicamentos, tendo em conta que cada entrega a um doente envolve um, dois, três ou mais medicamentos”, acrescenta o médico, aproveitando para reforçar os resultados obtidos no inquérito de satisfação. “Tivemos quase todas as questões com a nota máxima, desde a qualidade do serviço à segurança e ao tempo de espera.”

João Paulo Cruz sorri, satisfeito, quando o afirma. Tem os resultados do inquérito impressos em papel em cima da sua secretária, não os deixou apenas informatizados, e mostra-os com o orgulho, porque, no fundo, é o resultado do trabalho de toda uma equipa, de um serviço e de todo o hospital. “Têm sido muitos os profissionais que se têm empenhado neste projecto, começando logo pela nossa equipa, do conselho de administração até ao motorista que entrega o medicamento em casa ao doente. E a recompensa é esta: a satisfação dos doente.” É mais do que isso, como diz, afinal, a recompensa pode mesmo ser “o futuro”.

O projecto estava delineado há um tempo por ser o desejo de alguns doentes e da equipa do serviço de farmácia, mas sem data marcada para avançar, embora conjugasse à partida vários objectivos: facilitar a vida aos doentes e aos médicos, agilizar os serviços, aumentando a sua eficácia, evitar o desperdício de medicamentos e “tentar acabar com uma certa dependência do hospital, que deve ser um centro só para cuidados diferenciados” , defende João Paulo Cruz.

Tudo objectivos que enquanto o programa não foi aplicado se mantiveram na gaveta. Mas nem tudo o que a pandemia trouxe atrás foi mau, este programa de proximidade é exemplo disso, porque teve de avançar forçosamente para dar resposta aos doentes, evitando ao máximo as idas ao hospital. “No primeiro confinamento, chegámos a ter num só dia mais de 600 doentes na farmácia a querer levantar medicamentos, com o receio de poderem ficar com medicação em falta e isto não podia continuar”, explica o director de serviço.

A proposta desenhada foi levada ao conselho de administração, que deu luz verde, e em poucos dias o programa estava a funcionar com eficácia e segurança. “É preciso não esquecer que é um programa de cedência de medicamentos que envolve muito dinheiro, são medicamentos muito caros, e o programa tinha de assegurar a sua rastreabilidade, desde que sai embalado da farmácia do hospital até à entrega ao doente. E isso é feito.”

A par, e como forma de reforçar o acompanhamento ao doente, foi criada uma consulta farmacêutica, agora feita ou presencialmente ou por telefone, mas que esperam poder vir a ser por Zoom. Esta é feita por um farmacêutico que tem como objectivo aferir os efeitos da medicação, para saber se esta deve ser ou não ajustada ou até se há alguma sintomatologia que deva ser referida ao médico assistente.

“O que estamos a fazer agora é muito importante, permite controlar o que é prescrito ao doente e se esta prescrição é a adequada à sua condição, porque estamos a falar de doentes com VIH/sida, artrite reumatóide, psoríase, espondilite anquilosante, fibrose quística, hepatites, esclerose múltipla, doentes hematológicos e oncológicos, com hipertensão pulmonar e até de alguns doentes pediátricos.” Um controlo que faz parte da prática de um farmacêutico hospitalar, já que toda a medicação prescrita e a sua posologia tem de ser validada por estes profissionais. Como diz João Paulo Cruz, “é um serviço de retaguarda fundamental”.

O director do Serviço de Farmácia, João Paulo Cruz, diz que projecto iniciado com a pandemia é o futuro.manifesta-se
© Gerardo Santos Global Imagens

Um desejo dos doentes e dos profissionais

A coordenadora do programa, Marisa Rodrigues, uma jovem farmacêutica, como a maior parte dos colegas que integram o serviço, confirma ao DN que a ideia de o criar e de o levar para a frente surgiu muito por influência dos doentes, embora “só tenha surgido agora em contexto de pandemia, mas era um desejo de muitos doentes, sobretudo dos que têm maior vulnerabilidade e dificuldade em se deslocarem de forma regular ou para os que geograficamente estão mais distantes e têm incapacidade económica. Muitos, cada vez que aqui vinham para levantar a sua terapêutica, acabavam por nos pedir algo que os aliviasse. E ao longo do tempo fomos delineando este projecto, que acabou por se catapultar há um ano”, explica.

Hoje, a sua satisfação também é grande, e manifesta-a na visita que fazemos à farmácia hospitalar, onde em seis postigos, rigorosamente divididos, com funcionários de máscara e de luvas, se dirigem, um a um, doentes que têm de levantar a sua medicação presencialmente. Na sala de espera, aguardam cinco pessoas, o máximo que é permitido em tempo de pandemia, os restantes no espaço exterior, mesmo assim, diariamente, ainda há dias com 200 ou mais doentes.

“O programa de proximidade também abrange o funcionamento deste serviço, porque quanto menos pessoas vierem buscar a medicação presencialmente, mais será possível melhorar o atendimento”, argumenta. Marisa Rodrigues explica que o programa começou com uma dimensão pequena de doentes, mas, agora, já vai em seis mil e, em breve, espera que sejam muitos mais. “Acreditamos que o programa vai continuar. Aliás, quando o lançámos foi logo com essa lógica e perspectiva e, ao longo deste ano, temos vindo a ajustar e a melhorar algumas situações, quer a nível de condições quer de acompanhamento do doente“, reforça, exemplificando: “A consulta de seguimento farmacêutico que fazemos em simultâneo com a entrega da medicação, quer seja presencial quer seja por telefone, dá-nos maior proximidade ao doente e uma informação muito mais robusta sobre o seu estado e sobre a medicação que lhe é mais adequada. Uma das grandes mais-valias deste programa, que conjuga a entrega em proximidade e a presencial, também é esta.”

Uma consulta que, em termos de informática, “já está interligada com o sistema de consultas médicas para que o colega possa ir acompanhando o efeito da medicação e o estado do doente. No limite, tanto nós como o médico assistente ficamos com informação just in time sobre o doente em alguns aspectos que podem ser muito importantes”, pormenoriza João Paulo Cruz.

No início, “ainda houve doentes que resistiram à mudança, sobretudo doentes com VIH/sida, pensamos que talvez pela estigmatização que a doença ainda tem. Não queriam aceder ao programa por receio de os medicamentos lhes chegarem ao domicílio ou à farmácia comunitária, alguém que não eles poder ver o que era e ficarem a saber sobre a sua doença”, justifica o médico. Agora, já não é assim, “os doentes com VIH estão em quarto lugar na adesão ao programa”. Mas muitos aderiram de imediato e outros foram eles próprios a pedir para o integrarem e temos cada vez mais médicos a aconselharem os seus doentes para o fazerem. É que “o programa não veio só aliviar os doentes. Veio também agilizar a prática clínica e o funcionamento dos serviços hospitalares, nomeadamente no que toca a consultas que tinham de ser agendadas só para pedir medicação”, argumenta ainda. Por isso, repete, “isto é o futuro”.

As deslocações contínuas foram substituídas. Primeiro, bastava um e-mail, agora por um pedido na plataforma do hospital destinada à cedência de medicação, onde o doente apenas tem de preencher o formulário com os seus dados para a equipa de farmacêuticos a trabalhar no projecto ter acesso à medicação que está a tomar – e basta fazer isto três a quatro dias antes de a medicação acabar. O farmacêutico valida a medicação e faz seguir o processo para que o doente a receba onde pretende. “Quando se trata de um doente que não se entende com a Internet, funciona-se com o sistema clássico, o pedido é feito via telefone à nossa equipa.” Até agora, as entregas têm sido para períodos controlados, “para dois a três meses ou, se possível, entre consultas, para quatro a cinco meses, mas o objectivo é alargar esta cedência e obter um impacto mais significativo”.

Do ponto de vista de logística e para satisfazer as necessidades dos doentes, “o programa foi pensado para fazer a cedência de um medicamento a temperatura ambiente e a temperatura refrigerada, incluindo medicamentos biológicos que são muito sensíveis, o que só é possível porque temos um circuito de avaliação de qualidade montado e nunca houve problemas. Os medicamentos têm chegado sempre em condições ao doente”. Mais do que isso, têm chegado. Esta é a garantia para fechar cada pedido. “O processo só fica concluído quando o doente, a farmácia comunitária ou a instituição onde o doente está confirmam terem recebido a entrega. Foi por isso que tivemos de integrar um processo de rastreabilidade muito grande para garantir a segurança do processo. Em caso de extravio o impacto económico seria um peso muito grande para o hospital”, justifica João Paulo Cruz.

O programa de acesso ao medicamento em proximidade envolve uma dezena de profissionais, seis farmacêuticos, dos administrativos, um técnico e a coordenadora do projecto, também farmacêutica.
© Gerardo Santos Global Imagens

Dez profissionais para colocar tudo a mexer

Para avançar com o programa foi necessário contratar mais profissionais. A logística pode ser simples para o utente, mas para os serviços acaba por ser mais complexa do que a cedência presencial. “Pudemos contratar alguns farmacêuticos no âmbito da pandemia e esperamos que estes possam continuar connosco”, comenta João Paulo Cruz, desabafando: “Se não continuarem será muito difícil manter o que temos, esta é a nossa grande dúvida neste momento.”

Ao todo, entraram mais cinco farmacêuticos, quatro ficaram no projecto e um teve de ir para a área de produção, onde precisávamos muito de pessoas. Há um que já teve o seu contrato revalidado, faltam os outros que estão a terminar.” João Paulo Cruz manifesta-se: “Nem me diga nada. Já tivemos duas colegas que com o receio de os contratos não serem revalidados foram para outros hospitais e eles são precisos aqui.” No global, explica, “estão neste projecto seis farmacêuticos, dois administrativos, um técnico e a coordenadora do projecto”, confirma.

Quando batem à porta e é o motorista dos medicamentos

Mas a verdade é que o projecto envolve muitos outros profissionais. Uns foram alocados através da reorganização do hospital perante a pandemia e o confinamento, outros voluntariaram-se. “Um dos primeiros a dar o exemplo foi o presidente do conselho de administração, que disponibilizou o seu motorista para este projecto, que depois se empenhou e se voluntariou para o continuar a integrar”, mas o mesmo aconteceu com outros profissionais.

Programa de entrega de medicamentos destina-se a doentes hematológicos, oncológicos, com artrite reumatóide, esclerose múltipla, fibrose quística e outras patologias graves e crónicas. com
© Gerardo Santos Global Imagens

“As pessoas empenharam-se todas muito no projecto. Acabaram por nos dizer que a gratidão que os doentes mostram quando eles chegam a suas casas com os medicamentos é uma grande recompensa”, conta ao DN. Mas a entrega também está cargo de uma empresa de distribuição de medicamentos certificada pelo Infarmed. “Era uma das condições das farmácias comunitárias para integrarem o projecto e tivemos de contratar uma empresa para o efeito, que continua.”

A pandemia surgiu. Foi um obstáculo ao serviço que prestavam, uma dificuldade maior para os utentes, mas a farmácia do Hospital de Santa Maria olhou para tudo como uma oportunidade. “Aproveitámos”, confessam os médicos. “Tivemos de nos reorganizar e fazer que a tecnologia fosse posta ao dispor do hospital e dos doentes, o que nem sempre é fácil, mas acho que conseguimos”, diz João Paulo Cruz.

Do lado dos doentes, não têm dúvidas de que este procedimento os tornou mais próximos e lhes trouxe mais questões e mais dúvidas por parte destes a que têm de responder. “Não sabemos se é por causa das vacinas, mas o que os doentes mais querem saber agora são os efeitos adversos que os medicamentos que estão a tomar podem gerar.” Ou seja, mais um ganho: mais literacia em saúde através da ambulatorização dos cuidados.

Diário de Notícias

 

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