“É por uma questão de prudência que se recomenda a dose de reforço”

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Investigador principal do Instituto de Medicina Molecular e membro da Comissão Técnica da Vacinação diz ao DN que quem tomou vacina da Janssen perdeu elevado grau de protecção mais cedo do que o esperado, mas defende também que vacinação das crianças terá de continuar a ser ponderada em termos de benefício no combate à pandemia.

Investigador Luís Graça diz que “estratégias para erradicar o vírus, provavelmente, não serão bem sucedidas. Vamos ter de aprender a viver com o vírus”.
© Reinaldo Rodrigues Global Imagem

Durante esta semana houve várias novidades relativamente ao processo de vacinação contra a covid-19. Uma delas foi o reforço de mais uma dose a todas as pessoas que tomaram a vacina da Janssen. Esta decisão foi baseada em estudos feitos, mas significa que esta não é tão eficaz como as outras?

A decisão foi baseada nos dados recolhidos através da monitorização da efectividade das vacinas que são realizados no nosso país e em vários outros países. Por exemplo, em Portugal o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA) tem vindo a monitorizar a sequência genética do vírus para sabermos se há novas variantes a surgirem, o Infarmed tem vindo a monitorizar a segurança das vacinas, de diferentes marcas e nos diferentes grupos populacionais, e os efeitos adversos e o mesmo é feito por entidades congéneres de outros países. Depois, toda esta informação é partilhada, permitindo que, ao longo do tempo, e desde que as vacinas começaram a ser administradas, possam ser feitas correcções à forma de utilização das vacinas para garantir que o processo é feito com segurança e com o máximo benefício possível. É a através deste processo de monitorização e vigilância que tem sido possível identificar pequenas reduções na protecção das vacinas em determinados grupos, levando à definição de estratégias de reforço para que se reponha o nível de protecção que se observava inicialmente quando as pessoas terminaram a vacinação original.

Mas o que foi observado concretamente em relação à vacina da Janssen para fosse tomada esta decisão?

O que se observou através deste processo de monitorização é que as pessoas vacinadas com a Janssen, que é de toma única, independentemente da sua idade, estavam a demonstrar uma protecção menor do que aquela que era desejável. E foi por essa razão que se recomendou que haja uma dose de reforço para repor os níveis de protecção elevados que pretendemos para toda a população, de forma a que possamos dizer que mais de 85% dos portugueses tem uma protecção conferida pelas vacinas que é muito elevada.

Esta semana a directora-geral também anunciou que o intervalo de seis meses entre as doses de reforço pode ser encurtado. Esta medida é importante para os mais idosos, até pela época em que estamos a entrar?

É importante que as pessoas que registam uma diminuição na protecção das vacinas tomem uma dose de reforço. O processo de perda de protecção é gradual e a monitorização feita nos diferentes países veio demonstrar existir um claro beneficio com o reforço a partir dos seis meses. Contudo, é defensável que a partir dos cinco meses este reforço já possa ser dado para que se reponha um grau de protecção semelhante ao obtido logo após a vacinação.

Para as pessoas mais novas, e no caso de estas necessitarem de reforço, não é importante encurtar o intervalo?

No caso da vacina da Janssen o que se observou é que houve uma diminuição na protecção independentemente da idade e mais precoce do que os seis meses. Daí que se recomende um reforço ao fim de três meses. Mas isto é a demonstração de que as decisões são tomadas com base numa análise de real benefício para o indivíduo. E no que toca ao reforço em relação às pessoas mais novas vacinadas com a Pfizer ou a Moderna os dados obtidos ainda não justificam um reforço de vacinação.

Os recuperados da covid começaram por tomar uma dose, agora vão tomar a segunda. Isto quer dizer que mesmo tendo o vírus passado pelo organismo humano que não se consegue uma imunidade superior à das vacinas?

Há estudos a demonstrar que as pessoas infectadas que recuperaram e que receberam uma dose de vacina têm uma protecção muito significativa, equivalente a uma protecção melhor do que a obtida pelas pessoas que nunca foram infectadas e levaram duas doses. Contudo, como em todas as respostas imunitárias é natural um progressivo declínio da protecção, mas isto não é evidência de perda significativa de protecção. É por uma questão de prudência que se recomenda que estas pessoas também façam um reforço. A recomendação para que pessoas com mais de 65 anos, com vacinação completa há seis meses, façam um reforço também foi feita para termos a garantia de que é reposto o grau de protecção desejável contra a infecção e doença grave.

Quanto às vacinas de segunda geração, que poderão ter a capacidade de bloquear a infecção. Acha mesmo Só poderemos respirar de alívio em relação ao SARS CoV-2 quando estas chegarem?

Mais importante do que pensarmos em cenários do futuro cujos detalhes desconhecemos é arranjar estratégias que façam o melhor uso possível das vacinas que temos agora para nos protegermos contra esta infecção. Neste momento, temos a sorte de ter vacinas muito eficazes, que têm mudado o panorama da infecção nos países em que há uma maior cobertura vacinal, como é o caso de Portugal. Temos um número elevado de infecções mas continuamos com um impacto muito menor nos cuidados hospitalares do que acontecia com a população não vacinada.

“É muito desejável que novas vacinas facilitem ainda mais o combate à pandemia, mas, neste momento, a estratégia tem de ser pensada com base nas vacinas que estão disponíveis.

Na sua opinião em que se deve apostar agora como estratégia?

A prioridade é definir estratégias que permitam aumentar a protecção das pessoas mais vulneráveis com as vacinas existentes e não estarmos a pensar em vacinas que ainda não conseguimos antecipar quando é que vão surgir e se vão trazer um aumento de capacidade de protecção contra este vírus. Se trouxerem, então, deverão ser incorporadas no plano de vacinação de acordo com as suas características, mas, neste momento, isso não é possível antecipar. É muito desejável que novas vacinas facilitem ainda mais o combate à pandemia, mas, neste momento, a estratégia tem de ser pensada com base nas que estão disponíveis.

Tendo em conta que uma das faixas etárias com maior incidência da doença em Portugal é a das crianças, dos 0 aos 9 anos, a vacinação destas vai ser avaliada?

O combate à pandemia e o processo de vacinação são contínuos. As diferentes estratégias têm de ser avaliadas a todo o momento para se melhorar este combate, e, naturalmente, que a vacinação de crianças é algo que também terá de ser ponderado em termos de benefício para se continuar o processo de protecção contra à pandemia. O mesmo aconteceu com outros grupos, grávidas e adolescentes, para os quais se avançou com a vacinação quando havia a garantia de que era seguro e benéfico.

A Comissão Técnica de Vacinação está a avaliar?

Continuamos a acompanhar os dados do impacto da doença em todas as populações, nomeadamente na pediátrica. Começam a ser conhecidos estudos sobre a eficácia e segurança nesta população. E isto vai ser acompanhado.

Como imunologista e especialista em vacinas, como pensa que vai evoluir a pandemia, o que deve ser feito para travar o crescimento de casos?

O que estamos a verificar globalmente, no mundo, é que as estratégias para erradicar o vírus, provavelmente, não serão bem sucedidas. Mesmo os países que apostaram muito nestas estratégias, como é o caso da Austrália e a Nova Zelândia, já constataram que não será possível seguir essa via. Por essa razão, penso que no futuro vamos ter de aprender a viver com o vírus, da mesma forma como vivemos com muitos outros vírus respiratórios, que também trazem gravidade e mortalidade, como o da gripe. É preciso é arranjar formas de proteger a população mais vulnerável e formas que impeçam que o vírus tenha um impacto demasiado grande na nossa sociedade.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
20 Novembro 2021 — 07:00

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