1146: “Pacemaker” cerebral curou a depressão profunda numa paciente

SAÚDE MENTAL/DEPRESSÃO/TECNOLOGIA

A ideia de ter um pequeno dispositivo implantado no nosso cérebro pode parecer assustadora, mas a verdade é que a estimulação cerebral profunda tem um passado de sucesso relacionado com algumas doenças cerebrais. A depressão está prestes a juntar-se à lista.

A depressão pode ser uma doença assustadora e, segundo o Science Alert, até um terço das pessoas que sofrem desta condição não respondem ou tornam-se resistentes ao tratamento. Mas há uma esperança.

Um novo implante cerebral é capaz de tratar a depressão estimulando electricamente certas regiões cerebrais. O dispositivo monitoriza a actividade cerebral para padrões de depressão e responde com pequenas explosões de estimulação eléctrica, concebidas para interromper os ciclos de actividade cerebral depressiva. Tudo isto em tempo real.

“Este estudo aponta o caminho para um novo paradigma que é desesperadamente necessário na psiquiatria. Desenvolvemos uma abordagem de medicina de precisão que geriu com sucesso a depressão resistente ao tratamento da nossa paciente, identificando e modulando o circuito no cérebro que está associado de forma única aos sintomas”, explicou Andrew Krystal, co-autor do estudo, citado pelo New Atlas.

Sarah, uma mulher de 36 anos com depressão grave e resistente ao tratamento na infância, tinha tentado todos os tratamentos para tratar este problema, desde vários antidepressivos até à terapia electro-convulsiva. Encontrou neste novo implante experimental a sua salvação.

A mulher participou num estudo de caso com uma equipa de investigação em neuro-ciência da Universidade da Califórnia, em São Francisco (UCSF).

O primeiro passo foi seguir a actividade eléctrica cerebral de Sarah durante um período de 10 dias, para identificar padrões específicos que se correlacionam com sintomas depressivos. Os cientistas encontraram uma área na amígdala que se manifestou constantemente com a actividade que sinalizava o aparecimento de sintomas depressivos agudos.

A equipa colocou um eléctrodo de chumbo na área do cérebro onde o bio-marcador – neste caso, um padrão específico de ondas cerebrais – foi encontrado, e um segundo onde estava o “circuito de depressão” de Sarah.

O melhor local para o alívio dos sintomas levou algum tempo a descobrir. O primeiro eléctrodo detectava o bio-marcador, enquanto o segundo produzia uma pequena quantidade de electricidade durante seis segundos nas profundezas da região cerebral.

Depois disso, a equipa descobriu que pequenas explosões de estimulação eléctrica no estriado ventral poderiam contrariar esta actividade na amígdala. Nos primeiros meses, a diminuição da depressão foi tão abrupta que eu não tinha a certeza se iria durar. Mas durou”, reagiu a paciente.

Antes do implante, Sarah conseguiu 36 de 45 na Escala de Depressão Montgomery-Åsberg (MADRS). Apenas 12 dias após o implante, a pontuação caiu para 14, e vários meses depois caiu ainda mais, acabando por estagnar no 10, uma pontuação formal que significa remissão clínica.

Jonathan Roiser, um neuro-cientista da University College London, classifica este novo estudo como “excitante”, mas sublinha que se trata apenas de um único paciente. Ainda não está claro o quão personalizado um sistema como este terá de ser para funcionar noutras pessoas.

Katherine Scangos, autora principal do estudo, concorda que há muito trabalho a fazer antes de este tipo de terapia se aproximar do uso clínico no mundo real.

“Precisamos de ver como é que estes circuitos variam entre pacientes e repetir este trabalho várias vezes”, disse. “Precisamos também de averiguar se o bio-marcador ou circuito cerebral de um indivíduo muda ao longo do tempo, à medida que o tratamento continua”, rematou a investigadora.

Apesar da cautela, estas descobertas são revolucionárias. Demonstrar que um implante cerebral pode sentir uma actividade específica em tempo real, responder com estimulação eléctrica direccionada que subsequentemente influencia o estado de espírito de uma pessoa é, inegavelmente, um marco na Ciência.

O artigo científico foi publicado a 4 de Outubro na Nature Medicine.

Por Liliana Malainho
7 Outubro, 2021

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