“Uma hepatite fulminante não é nada de novo, o que é novo é não se saber a causa e o aumento de casos”

SAÚDE PÚBLICA/HEPATITE FULMINANTE

A directora do Serviço de Pediatria do Hospital São João, Eunice Trindade, onde esteve internada a criança suspeita de ter uma hepatite atípica, como a que foi registada em 12 países, diz ser preciso tempo para perceber o que está a acontecer e que uma situação destas “não era expectável”. E aconselha aos pais a manterem o esquema de vacinação para as crianças e um estilo de vida saudável. É o melhor investimento na promoção da saúde.

A pediatra Eunice Trindade lembra que, “no no passado, há registo de casos de hepatites fulminantes em que não se identificou a causa, mas os doentes foram transplantados e sobreviveram”.
© Igor Martins / Global Imagens

As autoridades britânicas alertaram, no início de Abril, para o aparecimento de uma hepatite atípica em crianças muito pequenas, com origem desconhecida. Até agora, há registo de cerca de 200 casos em 12 países. Portugal ainda não identificou qualquer caso, mas já houve um suspeito: uma criança de 21 meses, que deu entrada no passado fim de semana no Hospital de São João, no Porto, com uma inflamação no fígado.

A criança evoluiu bem e na quinta-feira teve alta, os resultados dos exames realizados foram conhecidos ontem e a suspeita não se confirmou, tendo sido, no entanto, detectados outros vírus, como o da gripe A.

A directora do Serviço de Pediatria daquela unidade explicou, em entrevista ao DN, que a vigilância epidemiológica para uma situação como a que foi detectada exige que muitos casos que envolvam a inflamação do fígado sejam despistados, pois o critério definido para o diagnóstico é lato e a hepatite não é a única doença a provocar um quadro de inflamação neste órgão. O que é preciso agora é estudar os casos para se perceber a origem da inflamação, mas vai ser “preciso tempo de recuo para essa análise”.

O relato de casos de uma hepatite atípica em crianças pequenas surpreendeu o mundo, mas, após dois anos de pandemia, era expectável que algo assim surgisse?

Não. As crianças estiveram muito isoladas nestes dois últimos anos, mas o que antecipávamos era que o regresso à escola e o desconfinamento global – ou seja, uma maior exposição aos vírus a que não estiveram expostas previamente – pudessem condicionar um aumento das infecções víricas vulgares na idade pediátrica, eventualmente com uma gravidade um pouco diferente.

Uma situação assim não era expectável, porque o que está a ser discutido em relação a esta hepatite, e há várias hipóteses em cima da mesa, é que possa tratar-se precisamente de um novo agente ou de uma reacção imunológica mais agressiva a agentes víricos que tinham deixado de circular na comunidade e que voltaram agora, mas ainda nada se sabe.

Os técnicos estão já a fazer um esforço no sentido de recolher o maior número possível de amostras biológicas dos doentes que integrem os critérios definidos internacionalmente para este diagnóstico para se tentar estabelecer rapidamente uma etiologia.

Como na pandemia, vai ser preciso algum tempo para se perceber o que se está a passar?

Vai ser preciso algum tempo de recuo para se conseguir interpretar os dados que agora nos chegam. Acho até que, nestes últimos dias, se tem confundido um pouco certos conceitos. Ou seja, estamos a confundir a doença que é a hepatite com a necessidade de uma vigilância epidemiológica numa situação destas. E a mensagem que é preciso passar é de que para a maioria das crianças este tipo de hepatite não terá gravidade.

O que a comunidade científica internacional está a fazer neste momento é perceber a razão cabal para este aparente aumento do número de casos de inflamação no fígado. O que quero dizer é que se pode estar a confundir e a reportar um aumento de casos de doença por hepatite que, se calhar, não é real.

A directora do Serviço de Pediatria do Hospital São João aconselha os pais a que, “em termos de prevenção, continuem a apostar no cumprimento do esquema vacinal que integra o Programa Nacional de Vacinação.”
© Igor Martins Global Imagens

Quando fala de confusão de conceitos, refere-se a quê, concretamente? Estamos a falar de uma inflamação do fígado que pode surgir por outras situações, e não propriamente de uma hepatite?

Exactamente. A hepatite aguda em idade pediátrica pode ocorrer associada a vários vírus que são comuns. O exemplo mais frequente que temos é a hepatite aguda associada à mononucleose infecciosa, que tem origem num vírus com uma forma de apresentação muito variável, em que muitas vezes as pessoas não desenvolvem sintomas ou que desenvolvem formas de hepatite aguda, quadros respiratórios graves, amigdalites, etc. Mas há outros vírus que podem levar a uma inflamação do fígado, como os vírus respiratórios ou os gastro-intestinais.

O vírus da gripe, por exemplo?

Na gripe não é tão comum, mas a verdade é que até aparecer esta situação internacional não se ia explorar a parte hepática num quadro de gripe. Se calhar, nós, técnicos, também não estávamos tão atentos a esta realidade, porque a maioria das gripes trata-se na comunidade e não se faz qualquer investigação laboratorial.

Neste caso, pode haver alguma situação no vírus da gripe que possa estar a atingir mais o fígado?

Essa é uma das hipóteses que está a ser estudada, que é estar a circular uma variedade de um vírus comum mais agressiva, mas não se sabe.

“Na origem da situação pode haver alguma concomitância de vírus, mas também pode haver factores tóxicos ou ambientais.

O que pode ter acontecido nesta situação, uma mutação do vírus da hepatite?

Como digo, a comunidade científica ainda não faz ideia. Os EUA e os países europeus identificaram nalguns casos um subtipo especial de adenovírus, e aqui pode haver uma relação, mas também pode não haver um efeito de causalidade. O adenovírus circula na comunidade nesta altura do ano e a sua identificação pode ser um achado, mas não o agente etiológico responsável por este tipo de hepatite.

Na origem da situação pode haver alguma concomitância de vírus, mas também pode haver factores tóxicos ou ambientais. Daí o esforço que já está a ser feito pelos técnicos para tentar encarar todos os casos como suspeitos quando cumprem os critérios definidos internacionalmente, e recolher amostras biológicas dos doentes com alterações no fígado para se chegar a uma conclusão.

Quais são os critérios definidos internacionalmente para a situação?

Os critérios são excluir as hepatites A, B, C, D e E e ter um doseamento de transaminases superior a 500 unidades. Ora, isto permite incluir uma enormidade de doentes, mas é um critério lato justamente para que se possa estudar o maior número possível de doentes e recolher o máximo de informação, de forma a construir-se uma amostra vasta que permita obter resultados robustos.

Já se falou na possibilidade de a origem da situação poder estar num contexto ambiental, mas como é que se explica que possam estar a ser afectadas crianças muito pequenas em várias zonas do mundo?

É precisamente isso que se está a tentar estabelecer. Por agora, está tudo em aberto, e o que é pedido pelas autoridades aos técnicos é que tenham open mind e analisem várias frentes. É um exercício que fazemos quando surge algo novo. É investigar todas as possibilidades, embora muitas vezes não se consiga uma resposta no imediato.

Na medicina, e quando se trata de doenças, há muitas variáveis e nem sempre é possível isolar cada uma delas. Vai ser preciso tempo, e até se pode dar o caso em que não se consiga explicar a situação. Não seria a primeira vez que tal aconteceria.

O facto de estar a afectar as crianças mais pequenas, dos três aos cinco anos, embora já tenha havido casos em bebés e em adolescentes, pode ter a ver com a fragilidade do sistema imunitário por terem nascido pouco antes da pandemia?

Não necessariamente. O que aconteceu a estas crianças é que estiveram menos expostas aos vírus normais. Penso que a situação passará mais por aí, mas não vale a pena especular, até para não se criar ansiedade nos pais que têm crianças nesta faixa etária. É nossa responsabilidade não criar alarme quando não temos uma explicação científica devidamente fundamentada.

“Penso que o que vamos ter é o regresso das situações que já tínhamos antes da pandemia. Será o regresso dos vírus habituais”.
© Igor Martins Global Imagens

Mas é normal que uma criança desta idade tenha o sistema mais fragilizado, precisamente por não ter contactado com os vírus normais?

Não podemos falar em fragilidade. O que acontece é que as crianças nessa idade têm uma exposição quase sucessiva a vários vírus e, muitas vezes, a fragilidade de que se fala decorre do facto de a criança quase não ter tempo para recuperar, porque ainda não melhorou de uma infecção e já está a apanhar outra.

Os vírus vão variando ao longo do ano, começamos pelo rinovírus, depois vem o da influenza (gripe) depois o VSR (vírus sincicial respiratório), e há crianças que têm o azar de os apanhar quase todos de forma sucessiva. Isto pode trazer maior gravidade ao quadro clínico para algumas delas, mas não se pode falar de fragilidade.

Isso também as torna mais fortes?

Claro. Há um preço que se paga no imediato, mas depois ganham imunidade para exposições posteriores. O primeiro ano de infantário é normalmente péssimo. A criança vai uma semana, está outra em casa, volta e apanha mais um vírus. E pode continuar assim durante os anos de infantário, mas depois, na idade escolar, já não fica tão doente, passa à medida que vai crescendo.

Portugal vacina à nascença contra a hepatite B. Pode ser um factor protector numa situação destas?

O serem vacinadas contra a hepatite assim que nascem é uma excelente medida, permitiu reduzir enormemente o número de casos da doença, mas é uma vacina que protege especificamente contra aquele vírus, não dá, necessariamente, protecção contra outros.

“O que há de diferente em relação à situação agora detectada é que ainda não conseguimos identificar o agente que está a levar a estes casos de hepatite, alguns fulminantes”.

Sabe-se pouco sobre esta hepatite atípica, mas o que a distingue das outras? O facto de levar a uma destruição rápida do fígado?

As hepatites fulminantes – ou seja, situações que evoluem muito rapidamente para a necessidade de um transplante hepático – podem surgir de vários contextos, como de uma doença auto-imune, de uma infecção vírica ou de um agente tóxico.

Portanto, há vários factores que podem levar à destruição da célula hepática, de forma progressiva e irreversível até ao transplante. O que há de diferente em relação à situação agora detectada é que ainda não conseguimos identificar o agente que está a levar a estes casos de hepatite, alguns fulminantes.

Por exemplo, no passado há registo de casos de hepatites fulminantes em que não se identificou a causa, mas os doentes foram transplantados e sobreviveram. Portanto, uma hepatite fulminante não é nada de novo, o que é novo é não se saber a causa, e este reporte aparentemente aumentado do número de casos.

Apareceu esta situação de hepatite atípica, mas há outras doenças que podem surgir pós-pandemia e que preocupem os pediatras?

Penso que o que vamos ter é o regresso das situações que já tínhamos antes da pandemia. Será o regresso dos vírus habituais, de acordo com a sua sazonalidade. Não temos a expectativa de que vá ser muito diferente do que era antes da covid-19. É claro que as crianças que agora têm três e quatro anos vão começar a ter as infecções banais que teriam provavelmente ao ano de idade ou aos dois e que não tiveram por estarem isoladas.

Será uma situação retardada, mas que irá acontecer, invariavelmente. De resto, e tirando esta situação da hepatite aguda, não temos a expectativa de que venham a aparecer vírus novos ou modificações nas infecções comuns para os diferentes grupos etários.

“Estamos a receber cerca de 300 crianças por dia e prevemos que, nos próximos 15 dias, possam ainda acorrer mais”.

Têm chegado casos diferentes ao hospital?

Não. Os motivos de ida ao hospital têm sido os habituais, quadros respiratórios ou gastro-intestinais, o que notamos é um número substancialmente maior de crianças nas urgências. Estamos a receber cerca de 300 crianças por dia e prevemos que, nos próximos 15 dias, possam ainda acorrer mais, devido ao abandono da máscara e a maior exposição a vírus respiratórios.

A Organização Mundial de Saúde alertou esta semana para o aumento dos surtos de sarampo em várias zonas do mundo. É uma situação que preocupa Portugal?

Não. Portugal tem uma excelente cobertura vacinal em relação ao sarampo. Diria mesmo que os especialistas formados nos últimos 20 anos não devem ter visto um caso de sarampo, e se aparecer identificam-no pelo que leram na literatura médica, mas não é uma preocupação. É preciso é que a situação continue a ser controlada.

Por exemplo, temos de estar muito atentos às crianças ucranianas que estão a entrar em Portugal, não sabemos qual é o seu esquema vacinal e quando há uma quebra na vacinação podem surgir surtos. Por isso é importante que estas crianças sejam o mais rápido possível integradas no SNS, para terem uma cobertura vacinal adequada.

© Igor Martins Global Imagens

Como pediatra, que conselhos daria aos pais para prevenirem e promoverem a saúde dos filhos?

Em termos de prevenção, que continuem a apostar no cumprimento do esquema vacinal que integra o Programa Nacional de Vacinação. Terem as crianças vacinadas já as protege de muitas situações. Depois, que promovam estilos de vida saudáveis, sobretudo uma alimentação adequada e práticas desportivas regulares.

Isto pode implicar uma mudança de hábitos, mas é, efectivamente, um investimento na saúde no imediato e a longo prazo. O aprender a comer leva à prevenção da obesidade e a prática de exercício e os bons hábitos de sono também têm benefícios na prevenção da doença às vezes.

Esta é a mensagem principal que deixo, porque muitas vezes nós, pediatras, colhemos mais à frente os frutos dos maus hábitos e de um mau investimento na saúde. Se um pediatra conseguir que uma criança e até os seus pais modifiquem comportamentos no sentido de serem mais eficazes na promoção da saúde, já conseguiu cumprir parte do seu papel.

Reino Unido foi o primeiro país a registar casos

As autoridades britânicas foram as primeiras a identificar este tipo de hepatite atípica e a alertar as autoridades europeias. Neste momento, o país já soma 114 casos. Espanha segue com 13 confirmados, depois Israel, com 12, EUA, com 9, Dinamarca, com 6, Irlanda, com 5, Holanda e Itália, com 4, Noruega e França, com 2, Roménia e Bélgica, com 1. Portugal ainda não identificou qualquer caso.
Que sintomas dá esta hepatite

Os sinais mais frequentes detectados até agora são: febre, dor abdominal, diarreia, vómitos, olhos amarelados (icterícia) e prostração. Até agora, no Reino Unido, 17 das 114 situações necessitaram de transplante do fígado e já há uma morte a registar.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
30 Abril 2022 — 00:13


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pela União Soviética de Putin, na Ucrânia
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“Causa desta hepatite permanece desconhecida”, reconhece centro europeu de doenças

SAÚDE PÚBLICA/HEPATITE

Andrea Ammon, directora do ECDC, disse que o centro europeu está a monitorizar a situação, em articulação com os países que já reportaram casos e com a Organização Mundial de Saúde (OMS). “Estamos a trabalhar numa avaliação rápida de risco, que esperamos publicar na quinta-feira”, anunciou.

Nos hospital pediátrico Dona Estefânia e no serviço de pediatria do Hospital Santa Maria já receberem casos de síndrome inflamatório grave.
© Orlando Almeida Global Imagens

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) está a monitorizar os casos notificados em vários países de hepatite aguda de origem desconhecida em crianças e conta publicar na quinta-feira uma avaliação rápida de risco.

Numa conferência de imprensa durante a qual forneceu uma actualização sobre os últimos desenvolvimentos em matéria de doenças infecciosas na União Europeia, a directora do ECDC, Andrea Ammon começou precisamente por abordar os recentes casos de “hepatite aguda de origem desconhecida em crianças até então saudáveis”.

Apontando que “o Reino Unido foi o primeiro país a lançar um alerta, no início de Abril, tendo desde então reportado mais de 100 casos”, e que, “depois desse alerta, mais países têm relatado casos, entre os quais 10 países da UE, mas também Israel e Estados Unidos”, Ammon sublinhou que muitos dos casos foram de hepatite grave e vários evoluíram para insuficiência hepática aguda, que exigiram transplantes de fígado, “o que mostra bem a gravidade da condição”.

“As investigações prosseguem em todos os países, mas, de momento, a causa desta hepatite permanece desconhecida. A hepatite habitual, de A a E, está excluída, e as autoridades nacionais de saúde estão a olhar para possíveis causas”, disse, escusando-se a especular sobre a origem destes casos até haver mais dados.

Andrea Ammon disse então que o ECDC está a monitorizar a situação, em articulação com os países que já reportaram casos e com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Estamos a trabalhar numa avaliação rápida de risco, que esperamos publicar na quinta-feira”, anunciou.

No domingo, a OMS anunciou que uma criança morreu vítima do misterioso surto de doença hepáticas que está a afectar crianças na Europa e nos Estados Unidos, sem revelar em que país ocorreu a morte.

A agência de saúde das Nações Unidas disse no sábado que recebeu até agora relatos de pelo menos 169 casos de “hepatite aguda de origem desconhecida” de uma dezena de países e foi reportada, pelo menos, uma morte.

Os casos foram relatados em crianças com idades entre um mês e os 16 anos, segundo a agência de notícias AP, adiantando que 17 das que adoeceram necessitaram de transplantes hepáticos.

Os primeiros casos foram detectados no Reino Unido, onde 114 crianças ficaram doentes.

Os especialistas dizem que os casos podem estar ligados a um vírus geralmente associado a constipações (adenovírus), mas estão em curso investigações.

“Embora o adenovírus seja uma hipótese possível, estão em curso investigações para o agente causal”, refere a OMS, notando que o vírus foi detectado em pelo menos 74 dos casos.

O surto “de origem desconhecido”, que foi anunciado pela OMS a 15 de Abril, causa inflamação do fígado e “em muitos casos”, sintomas gastro-intestinais como dores abdominais, diarreia e vómitos, e elevação das enzimas do fígado.

A OMS apurou ainda casos em Espanha (13), Israel (12), Estados Unidos (nove), Dinamarca (seis), Irlanda (cinco), Países Baixos (quatro), Noruega (dois), França (dois), Roménia (um) e Bélgica (um).

A OMS não recomenda qualquer restrição nas viagens ou trocas comerciais com o Reino Unido ou qualquer outro dos países onde estão a ser registados casos deste surto de hepatite aguda.

Diário de Notícias
DN/Lusa
26 Abril 2022 — 13:06


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1735: OMS não encontra ligação entre hepatite infantil e vacina contra a covid-19

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/HEPATITE INFANTIL

A Organização Mundial de Saúde (OMS) disse esta terça-feira que não encontrou uma relação entre os casos de hepatite aguda em crianças e a vacina contra a covid-19 ou o consumo de algum tipo de alimento ou medicamentos.

© AFP

“As causas permanecem sob investigação profunda. Estamos a analisar uma série de factores subjacentes, infecciosos e não infecciosos, que podem estar a causar os casos” de hepatite cuja origem ainda é desconhecida, disse Philippa Easterbrook, especialista da OMS, numa conferência de imprensa em Genebra.

A especialista adiantou que, com base no que foi observado, a presença dos vírus que causam os diferentes tipos de hepatite conhecida (A, B, C, D ou E) está excluída, bem como as bactérias que causam gastroenterite em crianças.

“Não há nada que indique uma relação com a vacina contra a covid-19, uma vez que uma grande maioria das crianças (em que a doença foi detectada) não receberam esta vacina”, referiu Philippa Easterbrook.

A OMS recebeu até agora relatos de 169 casos desta hepatite aguda provenientes de 12 países e em sete casos – um em cada dez – o quadro clínico exigiu um transplante hepático nas crianças.

Sobre relatos de uma possível ligação a um adenovírus, a especialista da OMS reconheceu que é uma hipótese que está a ser estudada, uma vez que foi detectada em 74 dos 169 casos.

Os adenovírus são um grupo de vírus muito comuns que são transmitidos entre pessoas e que muitas vezes causam infecções do sistema respiratório e digestivo, particularmente em crianças.

No entanto, a especialista explicou que “é muito incomum que um adenovírus cause este tipo de sintomas graves” e que, por isso, é importante continuar a fazer testes de diagnóstico sistemáticos para causas infecciosas e não infecciosas.

Os afectados têm entre um mês e 16 anos de idade, sofrendo de sintomas como dor abdominal, diarreia, vómitos, amarelamento da pele e têm um alto nível de enzimas hepáticas.

Na quinta-feira, o director do Programa Nacional para as Hepatites Virais afirmou que as autoridades de saúde estão “muito atentas” e preparadas para intervir caso surja uma criança com hepatite aguda de origem desconhecida em Portugal.

“Pode ser o início de uma situação nova que nós ainda não conhecemos ou pode ser que se atenue, mas temos que estar preparados para os vários cenários e acho que devemos estar preparados para o pior, que chegue a Portugal”, disse o especialista à agência Lusa.

Diário de Notícias
DN/Lusa
26 Abril 2022 — 19:49


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1731: Detectados pelo menos 169 casos de hepatite aguda infantil em 12 países

SAÚDE PÚBLICA/HEPATITE INFANTIL

O surto “de origem desconhecido” foi anunciado pela OMS a 15 de Abril e afecta crianças com idades entre um e 16 meses.

© Orlando Almeida / Arquivo Global Imagens

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já detectou pelo menos 169 casos de hepatite aguda infantil em 12 países, sobretudo Reino Unido, que provocaram uma morte e obrigaram a 17 transplantes de fígado.

O surto “de origem desconhecido” foi anunciado pela OMS a 15 de Abril e afecta crianças com idades entre um e 16 meses, com inflamação do fígado e “em muitos casos”, sintomas gastro-intestinais como dores abdominais, diarreia e vómitos, e elevação das enzimas do fígado.

Em quase metade dos casos, foi identificado um adenovírus, mas nenhum dos vírus mais frequentes em casos de hepatite viral.

No Reino Unido, onde foram detectados 114 casos, regista-se “um aumento significativo em infecções na comunidade por adenovírus*, tal como nos Países Baixos, nota a OMS.

Contudo, a prevalência do adenovírus “não explica por completo a gravidade do quadro clínico”, uma vez que a variante detectada, designada por tipo 41, não se destaca por provocar casos tão graves de hepatite, mas antes doenças respiratórias, gastroenterites, conjuntivites ou infecções da bexiga.

A OMS descarta para já que se possa tratar de efeitos secundários da vacina da covid-19, uma vez que “a larga maioria das crianças afectadas não foi vacinada”.

“Factores como susceptibilidade acrescida de crianças pequenas, depois de baixos níveis de circulação no início da pandemia de covid-19, o possível surgimento de um novo adenovírus, tal como uma co-infecção com SARS-CoV-2 [20 das crianças doentes tinham sido infectadas com o coronavírus e 19 com SARS-CoV-2 e adenovírus] precisam de ser investigados”, sustenta a OMS.

A OMS apurou ainda casos em Espanha (13), Israel (12), Estados Unidos (nove), Dinamarca (seis), Irlanda (cinco), Países Baixos (quatro), Noruega (dois), França (dois), Roménia (um) e Bélgica (um).

“É muito provável que sejam detectados mais casos antes de ser confirmada uma causa para o surto e serem aplicadas medidas de prevenção”, destaca a agência das Nações Unidas, que aponta “lavagem regular das mãos e higiene respiratória” como formas de prevenir a transmissão de adenovírus.

A OMS não recomenda qualquer restrição nas viagens ou trocas comerciais com o Reino Unido ou qualquer outro dos países onde estão a ser registados casos deste surto de hepatite aguda.

Diário de Notícias
DN/Lusa
24 Abril 2022 — 00:57


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