1102: Vacinação de crianças? Só se for comprovada a eficácia

SAÚDE PÚBLICA/COVID-19/VACINAÇÃO/CRIANÇAS

As crianças maiores de cinco anos devem ser vacinadas contra a covid-19, desde que a segurança e a eficácia da vacina estejam comprovadas cientificamente nestas idades, defende o médico especialista em saúde pública e ex-director-geral da Saúde, Francisco George.

Francisco George elogia do trabalho da sua sucessora e diz que, em tempos de pandemia, teve um pensamento egoísta: “Ainda bem que não estou lá”.
© Filipa Bernardo Global Imagens

A vacinação das crianças está a ser a discutida e analisada, tendo a Pfizer já anunciado que a sua vacina contra a covid-19 é eficaz em crianças dos 5 aos 11 anos e que vai requerer autorização nos Estados Unidos para este grupo em breve. Em entrevista à Lusa, o ex-director-geral da Saúde Francisco George não vê entraves na vacinação deste grupo etário, desde que as vacinas “tenham uma base de comprovação científica, da sua segurança e do resultado positivo”.

“Se as coortes [N.W.-Grupo de pessoas, usado em estudos ou em investigação, que possuem características em comum, como a idade, a classe social, a condição médica, etc..] estudadas por epidemiologistas perceberem que as crianças são fontes de transmissão do vírus, da infecção, e que precisam de ser protegidas, e se tivermos a certeza da segurança da vacina, não vejo porque não”, diz em entrevista à agência Lusa na sede da Cruz Vermelha Portuguesa, instituição a que preside, no Palácio da Rocha do Conde D’Óbidos, em Lisboa.

Em Portugal, as crianças são vacinadas desde a nascença até à entrada no ensino secundário, observa o médico que durante 12 anos foi director-geral da Saúde, cargo que deixou em 20 de Outubro de 2017, na véspera de completar 70 anos, pondo fim a uma carreira de 44 anos ao serviço da Função Pública.

Então, questiona: “Se há reforço para as outras vacinas, e se há vacinação de crianças com menos de 5 anos para outras doenças, porque é que não há de haver também para estas?”.

Quanto à terceira dose da vacina, defende que a sua necessidade é ditada pelo nível de anticorpos produzidos pelas vacinas anteriores e que a decisão terá de ser tomada com base científica.

“Não são as opiniões, sobretudo de comentadores, que devem ser ouvidas em termos dos comentários que formulam, que são livres, que são justos, que são legítimos, mas não tem base científica”, declara.

Portanto, sustenta, “não há aqui nenhuma opinião a não ser aquela que é baseada na demonstração de que o número de doses anteriores [da vacina] tenha protegido o cidadão, a sua família, a comunidade, através da medição em laboratório dos anticorpos que circulam no soro”.

Entre 1980 e 1991, Francisco George esteve na Organização Mundial da Saúde e em 1990 desempenhou as funções de epidemiologista do Programa Mundial de Luta Contra a Sida como coordenador para a África Austral.

Desde então lidou com outras crises epidémicas, como a SARS – Síndrome Respiratória Aguda Severa, em 2003, a infecção respiratória do Médio Oriente, dez anos depois, e agora com o coronavírus SARS-CoV-2, uma “doença nova” que surgiu na China no final de 2019.

Francisco George fala com entusiasmo da actual pandemia pelas medidas tomadas para a combater, mas sobretudo da vacina: “É extraordinária. Ao contrário de outras, é uma vacina inteligente” e “é absolutamente seguro ser vacinado”.

“É espantoso como a evolução científica, com base nos conhecimentos recentes da biologia molecular, foi agora adaptada ao fabrico com sucesso destas vacinas”, em que é inoculada uma proteína mensageira do vírus, em vez do vírus morto ou atenuado, diz com eloquência.

Considera também “absolutamente único” a desinfecção com um álcool-gel que “não é abrasivo e protege as mãos”.

“Nunca mais vamos deixar de ter a higiene das mãos em conta”, diz, destacando os benefícios desta medida, a par com o uso da máscara, na diminuição da frequência de “muitas outras doenças” como a gripe.

À pergunta se a população deve usar máscara na rua no outono/inverno, responde rapidamente que “só traz benefícios”.

E se esta medida deve voltar a ser obrigatória nos períodos de maior actividade gripal, a resposta vem em jeito de pergunta: “Mas porque não? qual é o problema?”.

“É socialmente aceite se for caso disso, não vejo nenhuma preocupação”, refere, e pode ser até usada de forma espontânea pela população.

Voltando à vacina contra a covid-19 e se esta devia ser obrigatória, Francisco George afirma que não, mas reitera o apelo deixado na sua última intervenção enquanto director-geral de Saúde, para que se altere a Constituição de 1976, que apenas prevê o internamento compulsivo de portadores de anomalia psíquica.

“Eu não estou a defender a obrigatoriedade da vacina, estou a defender que, por exemplo, um doente que tenha ébola não possa sair do hospital e entrar no metropolitano. Isso é que eu defendo”, justifica.

O objectivo é que “não haja diferença entre anomalia psíquica e doença contagiosa” e, para isso, “a Constituição pode e deve ser mudada para ir ao encontro dos interesses da saúde pública, defende, frisando que este “é um tema urgente que não pode ser ignorado”.

“É necessário criar princípios inteligentes, mais flexíveis, que não tornem difícil a prevenção e o controle dos problemas em saúde pública”, evitando-se assim estar a decretar-se “sucessivamente estados de emergência” como aconteceu com a covid-19.

Doença pode vir ser erradicada

Na entrevista à Agência Lusa, o médico e antigo director-geral da Saúde considera ainda ser cedo para se perceber o que se vai passar com o novo coronavírus mas admite: “Há ferramentas e meios que a ciência hoje disponibiliza que podem vir a controlar e eliminar o vírus”.

“É possível que isso venha a acontecer. Ninguém pode dizer que nunca nos libertaremos deste vírus. Mas também ninguém pode dizer que nos vamos libertar o vírus dentro de pouco tempo”, afirma.

A luta contra o Sars-Cov-2, que provoca a doença covid-19, é um assunto que está, diz, em análise permanente, a nível mundial.

E acrescenta: “Nós, aqui em Portugal, também deveríamos ter mais pensamento sobre estas questões, e equipas que devem seguir estes problemas, para antever na medida do possível aquilo que possa acontecer”.

Porque, garante, é preciso antecipar a reemergência ou a emergência de novos problemas.

Na entrevista, Francisco George não se cansa de enfatizar a importância do estudo, da análise científica, do trabalho de prevenção. Porque a natureza de um vírus como o actual assim o exige.

Cauteloso, o especialista não quer avançar se no inverno vai haver, como no ano passado, um aumento exponencial de casos de covid-19. E lembra, sem ser crítico, mas compreendendo, declarações de Graça Freitas, actual directora-geral da Saúde, no início da pandemia, a minimizar a importância do novo coronavirus.

“Aquilo que se diz hoje pode perder actualidade, é verdade naquele dia, mas pode não ser verdade uma semana depois. Este vírus apresenta uma capacidade de mutação que nós já conhecemos pela formação das variantes que estão a circular. Isso é verdade, mas ainda é cedo para antever o final da pandemia. Nós ainda não podermos dizer acabou”, diz.

As variantes, explica, resultam de um conjunto de mutações do vírus durante a fase de replicação nas células, e estão relacionadas com a magnitude da propagação epidémica, pelo que é mais passível de acontecerem em países grandes, como a China ou a Índia,

Um conjunto de pequenas alterações formam uma variante e essa variante adquire características que podem ser melhores ou piores do que a estirpe inicial, diz, para explicar o quanto é difícil ter certezas nesta matéria. Mas certo é que a história recente da medicina mostrou que os vírus podem ser eliminados e controlados. Aconteceu, lembra, com a varíola, considerada erradicada, deve acontecer com a poliomielite. E há as vacinas, sobre as quais Francisco George fala diversas vezes. E entretanto surgirão os medicamentos, admite.

Segundo Francisco George, os Estados, sobretudo no ocidente, não fazem investigação científica no sentido de produção de vacinas, o que compete às empresas farmacêuticas. O que agora aconteceu, refere, foi que se percebeu que, tendo o vírus sido sequenciado, era mais rápido procurar uma vacina do que um antiviral. “E foi isso que aconteceu em todos os centros da indústria farmacêutica, de diferentes continentes, que produziram uma vacina quase simultâneo, se bem que com características distintas”, diz.

E acrescenta: “No que respeita aos medicamentos a linha de trabalho foi estudar os antivirais que tinham sido ensaiados na epidemia de ébola de 2014”.

Nessa linha de investigação foram seleccionados alguns medicamentos que agora estão em fase avançada de estudo e que podem “estar acessíveis em breve”.

E conclui Francisco George: é natural que venhamos a ter em breve mais medicamentos.

Comunicação não foi a melhor

O ex-director-geral da Saúde refere ainda nesta entrevista que a comunicação sobre a covid-19 terá de ser analisada no futuro, mas deixa uma certeza: “A comunicação não foi a melhor”. E não o foi “quer por parte de autoridades do Governo quer por outros”, diz.

“Eu mesmo tive dificuldade em compreender a versatilidade das medidas semanais em função deste ou daquele indicador, se eram quatro pessoas à mesa se eram seis, se era dentro se era fora, se como máscaras sem máscara”, diz.

No auge da pandemia de covid-19 diz Francisco George que se criou confusão porque foram sendo anunciadas e comunicadas questões sucessivamente, anulando outras anteriores.

“Penso que não terá sido a melhor” comunicação, reafirma, considerando no entanto que, mesmo assim, sobretudo os comerciantes e a restauração terão percebido, de maneira geral, essas medidas. “Nem tudo foi mau, mas a esse nível poderíamos ter feito mais e melhor”, diz Francisco George.

O ex-director-geral afirma que também não queria ser ele a estar nesse papel. Francisco George esteve no cargo entre 2005 e 2017, sendo substituído pela actual responsável, Graça Freitas. O novo coronavirus surgiu dois anos após ter deixado o lugar.

Na entrevista o antigo responsável pela pasta (Graça Freitas era directora adjunta) não critica, antes elogia, o trabalho nesta matéria da sua sucessora e da ministra da Saúde, Marta Temido.

Francisco George ri-se quando confrontado com a pergunta se em algum momento pensou que era bom estar ele ainda no lugar e na “linha da frente” da luta contra a pandemia: “O meu pensamento foi sempre mais egoísta, foi no sentido de ´ainda bem que não estou lá´”.

“Sou muito amigo e reconheço grande competência à ministra da Saúde, reconheço competência muito elevada à minha sucessora, com quem eu sempre trabalhei. Tenho imensa confiança na Direcção-Geral da Saúde, nos governantes, sobretudo neste caso concreto o Ministério da Saúde. Estou absolutamente tranquilo. E penso que o meu egoísmo é compreensível, ninguém com bom senso gostaria de estar no inferno que vivemos”, declarou.

Diário de Notícias
Lusa
25 Setembro 2021 — 09:41

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“Mutação do coronavírus com origem em Itália teve uma disseminação única e inimaginável em Portugal”

 

SAÚDE/COVID-19

João Paulo Gomes, director do Departamento de Doenças Infecciosas do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, explica, em entrevista ao DN, que circularam várias mutações do SARS-CoV-2 em Portugal. Só uma infectou quase quatro mil pessoas.

João Paulo Gomes é investigador do Instituto Dr. Ricardo Jorge e Director do Departamento de Doenças Infecciosas e diz que a principal preocupação em relação à Covid-19 é a parte económica, porque as vacinas resolverão os problemas de saúde.
© Orlando Almeida

Aos primeiros dias da pandemia, os investigadores do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) sabiam ser necessário avançar com a caracterização do novo coronavírus. E logo em Abril, com o apoio do Instituto Gulbenkian da Ciência e de mais de 60 unidades laboratoriais, quer hospitalares quer privadas, avançaram com um estudo de diversidade genética. No início, o objectivo era sequenciar o genoma de mil coronavírus, mas este número tornou-se insuficiente e a meta passou para os dois mil. Seis meses depois, o director do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA, João Paulo Gomes, confirma ao DN que esta meta foi cumprida e que em breve o cenário resultante de toda a informação recolhida, através de amostras dos vírus que infectaram portugueses nos primeiros meses da pandemia, estará completo. Por agora, já se percebeu que o mesmo vírus tem várias mutações, que uns são mais parecidos do que outros, e que nem todos têm a mesma origem.

Em que é que este estudo desenvolvido pelo INSA poderá ajudar a travar a covid-19?
Acima tudo pode ajudar na definição de medidas profilácticas em saúde pública, não em saúde individual.

Quer concretizar?
A pandemia tem sido uma lição para todos. Ou melhor, para a saúde pública. Se percebermos como se deu a introdução dos primeiros coronavírus em Portugal, se percebermos a sua cronologia, a sua origem – de que países vieram -, se estes estão associados à emigração, a viagens de negócios ou de turismo, se desencadearam ou não cadeias de transmissão e se até estiveram na origem da disseminação de algumas alterações genéticas importantes, poderemos perceber se as medidas tomadas, como o encerramento de escolas, restaurantes, fronteiras, foram ou não atempadas e quais as que se revelaram mais eficazes em termos de bloqueio da transmissão. E estas poderão ser usadas em situações futuras.

O estudo revelou que o primeiro coronavírus a entrar em Portugal veio do norte de Itália, da Lombardia. Este dado é importante para se perceber a evolução da doença?
Não podemos dizer que tenha sido o primeiro. Por agora, podemos dizer seguramente que foi um dos primeiros, porque estamos a terminar o estudo e o rasto mais antigo a que conseguimos chegar foi à da variante genética que veio de Itália.

Porque é que esta mutação está a ser considerada tão importante?
Porque teve uma disseminação massiva no nosso país, a uma escala que, mesmo a nível internacional, seria algo inimaginável. Já se percebeu que é uma variante genética única do novo coronavírus, que parece estar associada à entrada do vírus na célula, e que a comunidade internacional já definiu como de vigilância obrigatória. Em Portugal originou uma cadeia de transmissão que chegou aos quatro mil casos.

Director do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA defende que vigilância genética ao coronavírus deve ser mantida mesmo na era pós-vacinal.
© Orlando Almeida Global Imagens

Cada vírus tem uma variante genética?
Não podemos dizer que cada vírus tem uma variante genética, mas não estamos assim tão longe de chegarmos a essa conclusão.

Porquê?
Porque todos os vírus que vão aparecendo como causadores de covid-19 têm sempre uma série de mutações. Uns mais, outros menos. Uns são mais parecidos, outros menos, mas quanto maior é a identidade genética entre eles, maior probabilidade têm de fazer parte da mesma cadeia de transmissão.

Houve outras mutações a circular no país?
Obviamente, mas nunca tiveram a importância epidemiológica que teve a de Itália. Das que identificámos, umas originaram só dois casos, outras dez ou 15.

Não houve outras curiosidades…
Houve. O estudo também revelou que as variantes genéticas encontradas em pessoas infectadas na região fronteiriça com Espanha, tanto a norte como a leste, eram variantes que tinham sido identificadas no país vizinho, o que indica que as introduções de coronavírus nas zonas de fronteira aconteceram por via terrestre e pelos nuestros hermanos. Também houve coronavírus que vieram de outros países e de outros continentes, mas os dados preliminares apontam para que a maioria dos vírus que circulam em Portugal tenham vindo do continente europeu. O que é um cenário diferente do que aconteceu nos EUA, onde a costa leste foi inundada, numa primeira fase, por vírus que vinham da China, devido aos voos do Pacífico, enquanto na costa ocidental os vírus detectados tinham origem no continente europeu.

Quantos coronavírus analisaram?
Inicialmente, o objectivo era sequenciar mil coronavírus SARS-CoV-2, mas percebemos que este número era insuficiente e acabámos por sequenciar quase dois mil. O estudo teve início em Abril. Começámos por pedir às autoridades de saúde pública que nos fornecessem dados epidemiológicos dos primeiros meses da pandemia que nos permitissem saber de onde vieram, se tinham historial de viagens ou de outro tipo de contacto. Depois passámos à consulta de bases de dados internacionais de grupos que também sequenciaram genomas de coronavírus identificados nos seus países. Quando comparámos a sequência dos nossos coronavírus com as sequências dos coronavírus espalhados pelo mundo – ou seja, quando integrámos estes dados nos inquéritos epidemiológicos a que tivemos acesso – conseguimos, com grande grau de certeza, estimar o número de introduções de coronavírus em Portugal e apurar exactamente de onde vieram.

Quantas mutações entraram no país?
Numericamente ainda não lhe consigo dizer, mas dentro de duas a três semanas já teremos o cenário todo completo.

“Pode dizer-se que em Portugal circula massivamente a mutação do coronavírus que está associada a maior grau de transmissibilidade”.

A informação genética conseguida pode explicar porque há doentes assintomáticos ou porque nos sintomáticos há quem desenvolva a doença mais gravemente?
A informação genética que obtivemos não nos pode dar mais nada senão o historial dos vírus introduzidos em Portugal, as suas origens e as cadeias de transmissão que desencadearam. Mas isso não pode dizer esta investigação, como não pode qualquer outra. Neste momento não há estudos que suportem a associação de dados genéticos a outro tipo de dados – como a maior ou menor severidade da doença ou até mesmo em relação à maior ou menor capacidade de transmissão. Estas questões ainda estão no domínio da especulação, embora já haja fortes suspeitas de que algumas mutações possam estar de facto associadas a uma maior ou menor transmissão do vírus.

Algumas dessas circulam no país?
Posso dizer que a genética do coronavírus que circula massivamente em Portugal tem a mutação que se pensa que esteja associada à maior transmissibilidade do vírus.

O estudo também revelou que o coronavírus terá entrado no país a 20 Fevereiro, duas semanas antes dos primeiros casos diagnosticados. As medidas tomadas poderiam ter avançado ainda mais cedo?
A nível da introdução do vírus em Portugal era muito complicado fazer algo diferente. Sabemos hoje que a introdução deste coronavírus foi através das fronteiras, tanto terrestre como aérea. Não duvido de que, se Portugal tivesse optado por encerrar as fronteiras logo no início da pandemia, teríamos vivido um primeiro período de forma muitíssimo mais suave, mas se me pergunta se tal era razoável, dir-lhe-ia que não. Não sou economista, mas digo que uma medida destas teria provocado um rombo imediato na economia. Portanto, se poderia ter sido feito, digo que sim. Se deveria ter sido feito, eventualmente não. Penso que as autoridades actuaram na altura em que acharam que deveriam actuar.

João Paulo Gomes acredita que Portugal não poderia ter feito mais do que fez nos primeiros tempos de pandemia, embora, reconheça, que algumas medidas foram tardias, como o uso de máscara generalizado.
© Orlando Almeida Global Imagens

E em relação ao uso de máscara generalizado, por exemplo nos transportes públicos?
Em relação ao uso de máscara generalizado penso que poderá ter existido algum atraso na tomada desta medida. Os transportes públicos na hora de ponta estão completamente lotados e a proximidade das pessoas é grande. Talvez esta tenha sido a grande falha. Mas apesar de haver muitas críticas continuo a dizer que Portugal até esteve muito bem e que se as autoridades não fizeram melhor é porque não sabiam como o fazer.

Falou no encerramento de fronteiras. A Nova Zelândia encerrou fronteiras, abriu e fechou. É assim que se consegue conter o vírus?
Não duvido de que é no controlo da mobilidade que vive grande parte da solução para a covid-19. Agora qual o grau de controlo que deve ser feito não sei dizer. O equilíbrio entre a reabertura da economia e o manter a covid-19 em níveis baixos é muito difícil de alcançar. É preciso coragem para tomar medidas que não são populares.

“Mesmo depois da vacina, vigilância ao coronavírus deve ser mantida”.

Como olha para as estratégias dos EUA ou do Brasil em relação à covid-19?
Acho que é uma estratégia louca. Porque a teoria da imunidade de grupo só seria possível num hipotético mundo perfeito no qual pudéssemos resguardar completamente os grupos de risco. Se assim fosse, se se calhar a solução seria essa. Mas não é assim. O mundo não é perfeito, está muito longe disso, e não conseguimos resguardar os mais frágeis. Veja o que se passa nos lares e com os mais desfavorecidos nos EUA ou no Brasil, onde a mortalidade é um cenário absolutamente indescritível.

Mesmo depois de uma vacina o INSA vai continuar a vigilância ao coronavírus?
Espero que as vacinas venham a criar imunidade de grupo e que travem o que se está a passar. Tenho esperança de que as coisas corram bem, mas não tenho dúvidas de que um dos principais temas de investigação na era pós-vacinal vai ser precisamente vigiar geneticamente o aparecimento de mutações no vírus que possam estar associadas a processos de falência individual ou a uma menor eficácia da vacina.

O que o assusta mais na covid-19?
O que me assusta mais é a economia. Acho que estamos a viver algo pelo qual vamos todos pagar muito caro. Acho que ainda não despertámos para a realidade do que se está a passar em todo o mundo. É isto que mais me assusta, porque penso que a vacina irá resolver a maior parte dos problemas que se colocam a nível de saúde.

Diário de Notícias
03 OUT 2020

 

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