“Se for preciso fazer reforço de vacinas a mais idades e outros grupos sociais, faremos”

SAÚDE PÚBLICA/COVID-19/VACINAÇÃO

Na semana em que se sabe que uma nova sub-variante da Delta, a AY.4.2 está a ter grande impacto epidemiológico, levando alguns países de novo ao confinamento, a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, faz um balanço da pandemia ao DN. E diz que, do ponto de vista do vírus, “ainda há muito para saber e em aberto”. As medidas de protecção individual continuam a ser fundamentais. Do ponto de vista pessoal, a pandemia tirou-lhe o sono, que se sentiu algumas vezes injustiçada, mas tinha tanto para fazer que não “sofri muito”. E quando se reformar já sabe o que quer fazer: nada.

Tem 64 anos e trabalha quase há 40 anos. A Saúde Pública foi uma opção de vida e a Direcção-Geral da Saúde a ‘casa’ onde mais viveu intensamente a profissão.

Teve a sorte de nascer em Angola, de começar a sua vida de forma diferente, mais livre, do que a que teve depois na Europa. Veio com os pais para Portugal, escolheu Medicina, e dentro desta a saúde pública. Fez o primeiro internato da especialidade e quando ainda era “uma especialidade desconhecida”, mas o momento da escolha marcou o resto da sua vida. Graça Freitas tem 64 anos. De um momento para o outro passou do anonimato para figura pública, o que a incomoda, e muito. Como profissional já tinha lidado com outras epidemias e pandemias, mas só esta teve dimensão única e foi vivida num mundo digital. E assume que houve coisas que correram bem, como o comportamento exemplar dos cidadãos, e outras menos, o ruído na comunicação. Um ano e sete meses depois, diz ser cedo para se falar de todas as lições aprendidas. “Temos de ter tempo para fazer leituras”, mas há uma evidente: sociedade, saúde, segurança social, trabalho, educação, têm de trabalhar juntos na resposta às crises. Na casa que dirige, a Direcção-Geral da Saúde, o debate interno sobre o futuro já começou.

Na última semana dados sobre uma nova variante da Delta, a AY.4.2, fizeram soar de novo os alarmes, alguns países voltaram ao confinamento. Isto quer dizer que, apesar da vacinação, ainda poderemos ser surpreendidos pelo vírus?
Afirmativo. Publicámos agora o Plano Referencial Outono-Inverno 2021-2022 onde estão previstos três cenários e um deles é exactamente esse, de maior surpresa e gravidade. O primeiro cenário é o que vivemos, perfeitamente estável, o segundo é aquele em que a efectividade da vacina começa a cair, havendo a necessidade de fazer reforços para aumentar a protecção da população, é o que estamos a fazer agora com os maiores de 65 anos, e o terceiro, o pior, é aquele em que apareceria uma nova variante, mais agressiva, com capacidade de escapar ao nosso sistema imunitário. Portanto, estas três realidades têm de estar sempre presentes até que o vírus termine o seu percurso entre nós.

Isso quer dizer que não se sabe mesmo o que pode acontecer?
Este vírus é muito novo e, na verdade, não podemos dizer que sabemos o que vai acontecer, porque não sabemos se as variantes que vão aparecendo tenderão sempre para uma estabilidade – ou seja, se vão ser variações das mesmas mutações que se vão juntando de formas diferentes – ou se as mutações vão transformar-se numa outra variante, mais forte. Em relação ao vírus da gripe, por exemplo, já o conhecemos há dezenas de anos e com muitas variações, sobre este ainda não sabemos tudo. Portanto, a questão de poderem aparecer novas variantes tem de estar sempre presente no nosso pensamento e no planeamento que fizermos.

“A DGS é a minha casa e ficarei nela se não me expulsar e eu não me sentir mal. É nela que quero acabar a minha carreira, não necessariamente como directora-geral.”

Qual é o objectivo deste plano?
A nossa principal preocupação para o outono-inverno é conseguirmos conter a doença grave, mais do que não ter infecção. Imagine que, de facto, aparece uma variante que escapa à imunidade que já construímos, uma variante agressiva que traz de novo a propagação e formas graves da doença, com potencial para aumentar internamentos e a taxa de letalidade, é claro que este é o pior cenário, não é o mais plausível, mas é possível e tem de ser tido em conta. E este cenário preocupa-nos, porque pode resultar num retrocesso. Em última análise pode levar-nos de novo a confinamentos selectivos ou generalizados, que é ao que estamos a assistir em alguns países.

Mas em que assenta o plano Outono-Inverno 2021-2022?
Como já disse assenta em três cenários – estabilidade, aumento da transmissibilidade e aparecimento de novas variantes que escapam à imunidade das vacinas – e as medidas vão ter de ser adequadas a cada realidade, e conforme o nível de alerta seja menor ou maior. No fundo, assenta nas medidas já conhecidas de todos nós. Por exemplo, as medidas não farmacológicas, centradas na responsabilidade individual de cada um, como o uso de máscara, distanciamento, higienização das mãos, são para manter.

São fundamentais até com mais de 85% da população vacinada?
São. Há uma coisa muito importante que todos temos de perceber. É que temos de passar mais um inverno sem sabermos o que aí vem. Embora este inverno vá ser diferente do anterior. O primeiro que passámos com o vírus, estávamos completamente desprotegidos, só tínhamos a protecção que a doença nos dava. Este vai ser um inverno já modelado pela protecção da vacinação.

Se passarmos este inverno, conseguindo conter a transmissão e a gravidade da doença, estamos a salvo do vírus ou não?
Ainda não. Continuo a dizer que é um vírus muito recente, no máximo tem dois anos. Soubemos da sua existência no final de 2019, mas, por esta altura, já estaria a emergir na China. Portanto, é mesmo muito cedo para sabermos o que vai acontecer. Temos de perceber melhor a sua história e como se comporta a nossa imunidade.

No gabinete, simples, alguns pormenores pessoas. As fotos de menina, ainda com dois anos e já de pregadeira ao peito, ou orquídeas, que gosta de cultivar.

É a grande questão: imunidade?
É uma das grandes questões para se perceber, e enquanto o vírus continuar presente entre nós, qual a necessidade – apesar de todos podermos ter pequenas doses de reforço de imunidade natural, devido à exposição da doença, mesmo apesar do uso de máscaras – de ter de haver um reforço para a protecção da imunidade com as vacinas. Dou-lhe um exemplo, a vacina do tétano, que é a vacina mais bem conseguida até hoje, tem várias doses de reforço, porque ao longo do tempo fomos percebendo que era necessário fazê-lo para ficarmos protegidos em relação à doença. E é isto que temos de saber em relação ao SARS-CoV-2.

Tudo está em aberto?
Exactamente. Não sei se vamos voltar aos confinamentos, o que sei é que as pandemias têm características próprias. Atingem todo o mundo, por isso se chamam pandemias, mas não da mesma forma e ao mesmo tempo. Têm diferenças geográficas, de intensidade, na forma como se manifestam, e depois as diferenças que surgem pelas medidas que cada país toma por achar que são as mais adequadas à sua população. O aspecto cultural é muito importante, porque há países que aceitam melhor determinados efeitos da doença, outros que aceitam pior. Há países em que os cidadãos são mais disciplinados, outros em que são menos. É assim mesmo, faz parte da diversidade humana. As pandemias também nos têm ensinado que somos diferentes e vamos agindo conforme essas diferenças.

Tendo em conta a questão da imunidade ou de novas variantes, como vai ser a gestão da evolução da pandemia?
No fundo, vamos jogar com todas as armas que já temos e com as medidas que conhecemos, como a protecção individual, a detecção precoce dos casos, a testagem em massa, o isolamento profilático. Vamos fazer tudo o que é necessário fazer, de acordo com o que já aprendemos, mas de forma diferente, doseando melhor as acções e as medidas. Não estamos a descobrir nada de novo, porque a única descoberta de que todos ainda estamos à espera é que surja um medicamento ou vários que consigam juntamente com as vacinas ser curativos e impedirem o desfecho negativo da doença. Por isso é que o primeiro pilar deste plano é a manutenção e o reforço da vigilância epidemiológica, porque é através desta que temos acesso à informação que nos dirá o que é preciso fazer.

Quer concretizar?
Imagine que a vigilância nos indica que é necessário fazer reforços com a vacinação para proteger a população de mais transmissibilidade e de variantes mais agressivas. Neste momento, volto a dizer, já estamos a fazer o reforço da população com mais de 80 anos e depois vamos fazer o reforço de todos os maiores de 65 anos, porque já se percebeu que são os mais frágeis e que têm uma perda de imunidade após a vacinação e ao longo do tempo. A necessidade deste reforço foi-nos dada pela ciência, mas imagine que daqui a uns tempos a ciência nos indica que é preciso fazer reforços a outras idades e a outros grupos sociais. Nós também o faremos.

Isso quer dizer que todos nós, jovens e adultos, vamos receber um reforço vacinal?
Neste momento, ainda é prematuro dizer isso. Não sabemos se vamos ter de fazer reforços a toda a população, se vão ser reforços anuais, quinquenais, de dez em dez anos. A ciência ainda não nos indicou isso. Veja, levámos muitos anos para saber como é que as vacinas clássicas, que temos no Plano Nacional de Vacinação, se comportavam, muitas não requerem reforços, mas a maior parte requer um ou dois numa idade precoce, mas depois acabaram. Portanto, temos de esperar pelo que a ciência nos vai indicar. A resposta concreta é que tudo é possível. Voltando à mesma questão, uma coisa é um antibiótico ser muito eficaz, mas eu posso não precisar dele, e não é por uma coisa ser muito eficaz que a vou tomar. Há o princípio da utilidade, da proporcionalidade e da necessidade. Tudo isto junto é que nos faz perceber se é preciso ou não. Se a ciência nos indicar que sim, teremos de levar o reforço, se não for necessário não levaremos, mas é precoce dar uma resposta.


“Não há nenhum tabu em relação à vacinação das crianças, temos é de ter a evidência científica de que a relação benefício-risco é positiva.”


A vacinação das crianças tem sido muito discutida. A Pfizer já avançou com um pedido de autorização às entidades internacionais para administrar uma dose três vezes menor do que a dos adultos por os estudos indicarem protecção e segurança elevadas. Que fará Portugal?
À medida que o tempo vai passando vamos conhecendo melhor as vacinas que estão a ser administradas e vamos tendo um histórico da vacinação. Começámos pelos mais velhos, porque eram os que tinham melhor relação benefício-risco, fomos progredindo, e quando chegar a altura das crianças mais pequenas esse histórico será ainda maior do que o que temos agora. Portanto, não há nenhum tabu em relação à vacinação das crianças, temos é de ter a evidência científica de que a relação benefício-risco é positiva. Se a vacinação for aconselhada e aprovada, não há tabu em vaciná-las. Já vacinamos as crianças dentro das maternidades.

Na última semana havia cerca de 70 mil pessoas com reforço à covid e vacinadas contra a gripe. Agora, esse número já está em 123 mil no reforço e em 279 mil na gripe. Tendo em conta que esta população é de 2,2 milhões e que o inverno está à porta, não é necessário acelerar o processo?
O que está a marcar o ritmo é a vacinação da gripe. Durante o mês de Outubro recebemos pouco menos de meio milhão de doses para a gripe e estamos a fazer tudo junto das farmacêuticas para que estas antecipem a vinda de vacinas para Portugal, mas esta é uma questão que não tem só que ver com o nosso país. Tem que ver com a dinâmica do mercado das vacinas para a gripe, que é limitado. Prevemos que Novembro vai ser um mês de maior intensidade, é quando vamos receber a grande maioria das vacinas para o SNS para se perfazer as 2,5 milhões de doses necessárias. Se por acaso houver uma rarefacção desta vacina, e falo só da gripe, avança-se com o reforço contra a covid-19, porque temos em stock.

Vai haver capacidade de vacinação?
Se houve antes, terá de haver agora. Obviamente, mais uma vez, poderemos ter de adaptar os recursos para este processo de vacinação, mas creio que o mais difícil já foi feito, que foi ensaiar metodologias para convocar as pessoas e organizar os centros. O que está previsto pelas equipas que estão a fazer o planeamento é que haja capacidade do SNS para até meados de Dezembro conseguirmos dois objectivos, vacinar contra a gripe e fazer o reforço da covid acima dos 65 anos.

Voltando ao plano outono-inverno, o que vai mudar na gestão?
Vai ser muito importante a forma como vamos gerir os casos. A tendência vai ser para manter a maior parte das pessoas no seu domicílio e com uma gestão à distância do médico assistente. Se me perguntar se será necessária uma atenção tão pormenorizada como a que foi dada antes, se calhar não, no sentido em que talvez possamos fazer intervalos maiores neste tipo de vigilância. Até porque as pessoas já são capazes de se auto-monitorizar. Elas próprias, através das plataformas de registo de sintomas, podem dar o alerta ao médico se estão a ter alguma alteração nos sintomas. Portanto, podemos ter de fazer algumas alterações à forma como vamos gerir os casos.

Numa situação, como a que envolve o segundo cenário do plano, mais propagação da doença, aumento de casos, vai manter-se o mesmo número de dias de isolamento, as pessoas vão ter mais acesso ao médico assistente, esta era uma das críticas?
A questão do isolamento, dos dez aos 12 dias, terá que ver com a característica do vírus. Até agora, tem-se mantido muito estável em relação ao que já sabemos, como o período de transmissibilidade e de incubação. As novas variantes não têm alterado este padrão e isso tem-nos permitido reduzir o tempo de isolamento das pessoas. Temos vindo a aprender. No ano passado, nesta altura, não lhe conseguiria dizer isto em relação ao período de isolamento. Ou seja, há uma grande tendência para manter a mesma filosofia, mas se calhar com outra periodicidade e com a capacidade de as próprias pessoas se auto monitorizarem.


“Neste tempo, já aprendemos que o sector da saúde e o social são indissociáveis na resposta à doença.”


E relativamente à testagem no caso de haver propagação da doença?
Isso é outra questão, o plano prevê o regresso da estratégia de testagem em massa, para a detecção precoce dos casos. Mas prevê outro aspecto muito importante, que é a resposta inter-sectorial. Neste tempo, já aprendemos que o sector da saúde e o social são indissociáveis na resposta à doença, já sabemos também quais são os grupos mais vulneráveis e as situações mais graves do ponto de vista social e vamos ter de continuar a trabalhar em conjunto – ou seja, saúde, educação, segurança social e trabalho.

Que mudanças vai trazer a pandemia à DGS?
Se aprendemos algo com esta pandemia foi precisamente o termos que ter uma capacidade enorme de ser flexíveis e de adequação. São duas palavras importantes. A adequação é não fazer nem de mais nem de menos, é fazer o que é certo na altura certa, e isto é muito difícil. Sou médica de saúde pública e digo muitas vezes aos meus alunos que não é difícil sê-lo. É só multiplicar por 10 milhões o que se faz quando se é médico clínico. O que se quer dar é a dose certa de um medicamento ao doente, nem a mais nem a menos. Portanto, na saúde pública queremos adequar as medidas, e para isto é necessário flexibilidade, para isto as instituições do Estado e da sociedade têm de aprender novas formas de se gerir, de se interligar sem burocracias excessivas. Temos de falar uns com os outros e sobretudo ter uma meta comum de onde queremos chegar.

Essa é a grande mudança?
É uma das grandes questões. O sabermos onde queremos chegar e com quem é que temos de fazer esse caminho. Se o temos de fazer com a Segurança Social, com os professores, com os pais ou com a população em geral. Esta nossa necessidade de trabalhar de forma estanque, separados uns dos outros, não mais vai ser possível. No futuro, vamos ter de ser transversais, sob pena de não estarmos a fazer o que é adequado no timing certo e com a rapidez que uma pandemia exige. Com esta pandemia podemos ter feito coisas menos certas ou menos adequadas, mas tivemos de ser rápidos, mais do que alguma vez tivemos de ser. Tenho 64 anos, trabalho há mais de 40, e o que notei mais foi exactamente a necessidade da decisão rápida. Para isto é necessário termos informação em cima da hora de todos os sectores, porque temos de ter capacidade de resposta, mas também uma resposta ágil, adequada e com resistência.

A pandemia trouxe a resiliência…
A resiliência implica sermos resistentes e persistentes, mas há outra coisa que a pandemia nos ensinou: é que quem conduz a pandemia não são os serviços de saúde, mas os 10 milhões de pessoas dos quais fazemos parte. Por isso, o último pilar do plano outono-inverno é o termos de aprender a comunicar, porque vivemos num mundo novo. Nesta pandemia tivemos uma grande lição em directo do que foi a comunicação, nas redes sociais ou nos media clássicos. Foi um desafio, toda a gente comunicou, informou ou interagiu com toda a gente. Temos todos muito a aprender.


Uma das grandes perguntas para o futuro é a comunicação e a interacção entre sociedade e técnicos, técnicos e políticos e políticos e sociedade.


O que quer dizer? Melhor comunicação e gestão entre o lado técnico e político, por exemplo?
Entre a gestão dos lados técnico, político e da sociedade. As pessoas perguntam sempre como foi a gestão política e a gestão técnica, mas vivemos numa plataforma que se chama sociedade. E como foi a interacção dos políticos e dos técnicos com a sociedade? Com as pessoas que fizeram opinião em termos de epidemiologia, de vacinação, de saúde publica, dos medicamentos? Como foi esta interacção? É uma das grandes perguntas para o futuro.

Não houve gestão e interacção?
Houve. Acho que fizemos milagres, porque se conseguiu, numa situação de grande instabilidade, fazer uma aprendizagem rápida do que é a comunicação no século XXI. Uma comunicação em directo, em tempo real. Estava a sair dum artigo científico do outro lado do mundo e já alguém aqui estava a comentar em directo. Isto foi completamente novo. Não tivemos só uma pandemia, porque pandemias já as tivemos no passado, tivemos uma pandemia no século em que toda a gente interage e comunica com toda a gente, os políticos com os técnicos, os técnicos com a sociedade, a sociedade com os políticos. Para mim, este é o grande desafio para o futuro. E porquê? Dou um exemplo, o êxito da vacinação em Portugal. Tínhamos um histórico de confiança na vacinação que valeu que 10 milhões de pessoas aderissem voluntariamente ao processo. A palavra-chave é: confiança, porque a sociedade interage e influencia-se.

E o que se viveu aqui na DGS?
O que se viveu aqui foi de uma intensidade e uma velocidade tal que é difícil ter a noção do tempo. Hoje somos confrontados com algumas coisas, mesmo pelos jornalistas, das quais já nem sequer temos memória, porque aconteceram tantas que se me fizerem uma pergunta concreta sobre o início da pandemia tenho de pensar muito bem.

Algo como quando disse que poderíamos chegar a um milhão de infectados e que gerou tanta polémica?
Exactamente. Esse era o cenário que tinha sido traçado em estimativas feitas pelos técnicos em 2006 ou 2007 no caso de uma pandemia. Era o cenário mais benigno e, quando me perguntaram o que poderia acontecer, achei que falar do cenário mais benigno era o adequado. Para uma pandemia era um cenário normal de atingir no primeiro ano e veja o que deu.

Graça Freitas diz que quem está no planeamento prevê que até Dezembro seja possível vacinar a população acima dos 65 anos contra a gripe e com o reforço para covid-19.

Para si o que correu mal e bem na gestão da pandemia?
Não queria começar por dizer que correu muito bem a vacinação, mas é evidente que correu. Se hoje estamos aqui com alguma descontracção é porque nos vacinámos e muito. Também correu bem a forma como os portugueses aderiram às medidas que lhe foram sempre pedidas. Temos a tendência para fixar momentos menos bons, como grandes ajuntamentos, esquecendo-nos de que neste ano e sete meses a maior parte das vezes os portugueses tiveram um comportamento exemplar, perceberam que as medidas eram justas e necessárias. Também correu bem, e tenho de o dizer, a forma como os serviços se organizaram, não estávamos completamente despreparados, tínhamos tido uma epidemia, em 2009, com a gripe A, e outra, em 2003, com o SARS-CoV-1. Conseguimos aguentar a fase de contenção, de 2 de Março a 4 de Abril. Tínhamos um plano com hospitais de referência perfeitamente identificados e com pessoal treinado. O INSA fazia exames, o INEM transportava as pessoas e a Linha de Apoio ao Médico, que já toda a gente esqueceu, foi muito importante. Tudo isto levou a que não tivéssemos o impacto dantesco que houve em Itália.

E o que correu mal?
O que pode ter corrido menos bem, e com todo o respeito que tenho pela comunicação, enquanto instrumento dos seres humanos para entendimento e remar no sentido de fazer coisas positivas, foi o ter havido um ruído comunicacional grande a todos os níveis. Houve alturas em que eu, como cidadã normal, se não tivesse tido acesso a alguma informação, teria ficado bastante baralhada. Houve alturas em que tivemos acesso quase indiferenciado a informação antagónica, não se chegava a perceber qual era a informação credível ou a fonte mais credível. Por outro lado, do ponto de vista da nossa saúde mental, a informação mono-temática também pode não ter sido positiva. Já estávamos perante uma ameaça pandémica, um vírus desconhecido, a maior parte das pessoas tinha parentes, amigos ou alguém conhecido doente, se tivéssemos tido acesso a outro tipo de informação teria sido benéfico.

Há respostas concretas que ainda não existem. A directora-geral lembra que o vírus SARS CoV-2 ainda é muito recente e que ainda podemos ser surpreendidos neste inverno.

Mas na realidade da saúde houve muitas críticas, falta de planeamento, de recursos, desorganização. Parou-se o atendimento a outras doenças para tratar a covid. Isso não correu mal?
O que pergunto é: quem estava preparado para lidar com a situação? Nenhum país ou sistema de saúde estava preparado para esta dimensão. Fomos todos apanhados de surpresa por este novo coronavírus. Obviamente que houve aspectos negativos, mas perante a dimensão que a doença estava a assumir, não havendo qualquer garantia de que uma pessoa que começasse por ter um quadro benigno continuasse a evoluir desta forma, era difícil de gerir a situação. E houve que concentrar os recursos, já escassos, porque é assim em saúde, para este novo acontecimento, que trazia muitas incógnitas. Se me pergunta se isto foi bom, é claro que não, mas não havia recursos para tudo e tivemos de fazer escolhas. Fizemos as que nos pareceram as mais acertadas. Os próprios sistemas informáticos não estavam dimensionados para uma situação destas. Não vale a pena dizermos que tínhamos sistemas informáticos fantásticos no dia em que a pandemia começou. Ainda agora não são e estão sempre a ser melhorados, e terão de ser muito mais no futuro.


Apesar da pandemia, os portugueses não baixaram os indicadores de saúde. Melhorámos na alimentação, no exercício físico e não aumentámos os hábitos tabágicos.


Criou-se uma nova arquitectura nesta área?
Fomos fazendo uma arquitectura nova dos sistemas de informação, das plataformas tecnológicas digitais, sempre em cima do acontecimento. Hoje, um dos debates internos para o futuro é se vamos pegar no que já fizemos ou se vamos pegar num edifício novo, construido de raiz, com bons alicerces e uma boa arquitectura. Do ponto de vista tecnológico, não havia um projecto delineado. Tudo o que foi feito foi a partir da realidade. E internamente temos debatido muito esta situação. O que vamos fazer no futuro, melhorias na plataforma do trace covid ou vamos construir uma completamente nova? Ainda não há uma resposta certa, mas o mais provável é que seja feita uma coisa de raiz, concebida com outra estrutura.

E o que é que a pandemia vai trazer de diferente à saúde dos portugueses? Quais vão ser as recomendações da DGS neste sentido?
Estamos a fazer um novo Plano Nacional de Saúde. Há um ponto básico que é: não podemos retroceder nunca mais. Temos de perceber as necessidades que as pessoas têm e estas não são estáticas. Têm de ser constantemente analisadas. Hoje são umas, amanhã serão outras. Mais uma vez, o que temos de entender é quais são as metas e como as vamos alcançar . E só o conseguimos com as pessoas.

Mas a pandemia baixou os níveis de saúde dos portugueses?
Apesar da pandemia, conseguimos melhorar alguns indicadores de saúde. Não estamos tão mal na área alimentar, o nosso nível de actividade física aumentou, não houve um aumento dos hábitos tabágicos, pode ter havido nalguns nichos, mas comparado com o passado, estamos melhores. Agora, temos de olhar cada vez mais para os determinantes da saúde e para a questão social. A saúde não vive dissociada da pobreza, do emprego, da pessoa se sentir útil ou não. E isto não se faz de um dia para outro e tem de ser feito através do trabalho em conjunto. Se calhar, nunca os vários organismos do Ministério da Saúde tinham trabalhado tanto em conjunto como neste tempo de pandemia. Temos de continuar a fazê-lo.

A saúde mental terá sido a área mais afectada pela pandemia?
Talvez sim, mas temos de esperar para ver o impacto nas doenças crónicas, sobretudo nas doenças oncológicas, porque o diagnóstico precoce nestas doenças é muito importante. Por agora, o impacto mais visível é o da saúde mental e para esta área estamos com um programa muito forte, que já está a ser desenvolvido.


“Quando me reformar o que quero fazer é nada, rigorosamente nada, porque foi coisa que nunca fiz na vida.”


Vamos ao lado pessoal, está com 64 anos. Quando olha para trás o que destaca na sua vida?
Nasci em Angola. E obviamente que na minha vida há o período de África e o da Europa. Mas olhando para trás acho que tive a sorte de nascer e de viver noutro continente, e de uma forma diferente, mais livre, da que tive de viver o resto da minha vida aqui, apesar de ser uma europeísta convicta. Foi uma sorte e um privilégio essa parte da minha vida, não direi que a olho com saudade, porque não é isso que sinto, mas tenho-a como muito relevante. Depois, há um outro momento muito interessante, aquele em que tomo a decisão de seguir uma carreira na saúde pública e não uma carreira clínica. Quando olho para trás, este é o momento em que tomei uma decisão com base em muitas pequenas decisões e em muitos pequenos momentos.

Se me perguntar objectivamente se me sentei e pensei racionalmente para decidir: é isto que vou escolher? Não. Foi uma sucessão de acontecimentos ao longo da minha vida profissional que me levou a que, quando tive de escolher uma especialidade, tivesse optado pela saúde pública, de forma livre e espontânea, porque tinha notas para ir para outras áreas. Este foi um momento muito importante, do qual não me arrependo e que foi determinante para todos os outros da minha vida.

A vigilância, a vacinação e a forma como vamos gerir os casos serão fundamentais para gerir e a evolução da pandemia.

Se tivesse de se definir, com que palavras o faria?
Não quero usar a palavra resiliente. Está muito na moda e tem algumas conotações, mas sou um pouco assim. Por mais que sofra não gosto de deixar as coisas a meio, agora se isso é resiliência, obstinação ou resistência, não sei. É um pouco de tudo. Entro nas coisas e sinto a obrigação de as acabar, a menos que descubra que não estou a fazer bem. Aí tenho autocrítica suficiente para não o fazer, mas não sou de desistir.

Tem alguma coisa que gostaria de fazer e ainda não fez?
Tenho. E tenho pensado muito nisso. A pandemia trouxe a muitos de nós algumas alterações do sono, a mim também. Antes dormia muito bem, agora acordo e fico a pensar e a ler. Alguns familiares e amigos têm-me perguntado o que vou fazer quando a pandemia acabar ou deixar de ser directora-geral. Há quem pense que quero dar a volta ao mundo, cultivar orquídeas, mas, nas últimas semanas, tenho dado comigo a pensar nisso e encontrei a resposta certa. O que quero fazer é nada, rigorosamente nada, porque foi coisa que nunca fiz na vida.

Acha que aguenta?
Não sei, devo aguentar algum tempo. Isso lhe garanto. É um objectivo.

Foi uma das pessoas infectadas pelo vírus . Isso afectou-a muito?
A covid manifesta-se de formas muito diferentes, a mim o sintoma dominante foi uma vontade de dormir que não era normal. Tive algum medo da doença, que ela evoluísse mal, até por causa dos meus antecedentes médicos e da minha idade, mas estive sempre bem. Tive um decréscimo na saturação do oxigénio durante vários dias, que nunca correspondeu a sintomas. Não tive falta de ar, dor no peito ou febre. Tive sono, tosse e uma distorção do paladar. Toda a comida me sabia a sal, até as maçãs e as peras cozidas.

Que alterações trouxe a pandemia à sua vida pessoal?
Vou ser completamente sincera. Espero que as pessoas tenham memória curta, porque gosto do anonimato, e se não o voltar a recuperar é algo que vai condicionar. Não estava preparada para um nível de exposição que me levasse a sair à rua e ser reconhecida. Um dia vinha com o Dr. Francisco George de um restaurante aqui perto da DGS e ele foi interpelado tantas vezes que eu pensei: “Meu Deus ,ainda bem que é ele o director-geral, porque não deve ser fácil lidar com isto” Em termos pessoais esta é a questão mais difícil de lidar, porque tudo o resto, o que disseram de mim e o que me fizeram, acho que vou superar, se se conseguirem esquecer de mim e eu puder passear sem que ninguém me conheça. Mas estou muito grata às pessoas, que, de um modo geral, foram muito simpáticas.

Sentiu-se maltratada ou injustiçada pelos cidadãos ou pelo lado político? Isso mexeu consigo?
Talvez tenha mexido menos do que o que se pensa. De qualquer maneira dependeu sempre de quem era o emissor da injustiça, e sobretudo em relação a alguns temas. Acho que as pessoas se focaram demasiado e desproporcionalmente em relação a alguns assuntos. Se me perguntar se isso me provocou uma grande sensação de injustiça? Não. Fazia parte da época que se vivia. E não acho que me vá perseguir no futuro, apesar de ter havido situações em que algumas pessoas disseram coisas chatas sobre mim. Mas na altura em que as vivi tinha tanto que fazer que não foram uma preocupação, fizeram parte do pacote da pandemia.

E quanto ao futuro? Esta é a sua casa, pensa continuar por aqui?
Esta é de facto a minha casa e vou ficar aqui enquanto a casa me quiser. Se a casa não me expulsar e eu não me sentir mal, acabo a minha carreira na DGS, não necessariamente como directora-geral, mas esta é a minha casa, foi aqui que vivi mais intensamente e por mais tempo. E também tenho claro que cumprirei o meu tempo até à reforma e não trabalharei até aos 70.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio (Texto) Reinaldo Rodrigues (Fotografias)
25 Outubro 2021 — 00:13

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1102: Vacinação de crianças? Só se for comprovada a eficácia

SAÚDE PÚBLICA/COVID-19/VACINAÇÃO/CRIANÇAS

As crianças maiores de cinco anos devem ser vacinadas contra a covid-19, desde que a segurança e a eficácia da vacina estejam comprovadas cientificamente nestas idades, defende o médico especialista em saúde pública e ex-director-geral da Saúde, Francisco George.

Francisco George elogia do trabalho da sua sucessora e diz que, em tempos de pandemia, teve um pensamento egoísta: “Ainda bem que não estou lá”.
© Filipa Bernardo Global Imagens

A vacinação das crianças está a ser a discutida e analisada, tendo a Pfizer já anunciado que a sua vacina contra a covid-19 é eficaz em crianças dos 5 aos 11 anos e que vai requerer autorização nos Estados Unidos para este grupo em breve. Em entrevista à Lusa, o ex-director-geral da Saúde Francisco George não vê entraves na vacinação deste grupo etário, desde que as vacinas “tenham uma base de comprovação científica, da sua segurança e do resultado positivo”.

“Se as coortes [N.W.-Grupo de pessoas, usado em estudos ou em investigação, que possuem características em comum, como a idade, a classe social, a condição médica, etc..] estudadas por epidemiologistas perceberem que as crianças são fontes de transmissão do vírus, da infecção, e que precisam de ser protegidas, e se tivermos a certeza da segurança da vacina, não vejo porque não”, diz em entrevista à agência Lusa na sede da Cruz Vermelha Portuguesa, instituição a que preside, no Palácio da Rocha do Conde D’Óbidos, em Lisboa.

Em Portugal, as crianças são vacinadas desde a nascença até à entrada no ensino secundário, observa o médico que durante 12 anos foi director-geral da Saúde, cargo que deixou em 20 de Outubro de 2017, na véspera de completar 70 anos, pondo fim a uma carreira de 44 anos ao serviço da Função Pública.

Então, questiona: “Se há reforço para as outras vacinas, e se há vacinação de crianças com menos de 5 anos para outras doenças, porque é que não há de haver também para estas?”.

Quanto à terceira dose da vacina, defende que a sua necessidade é ditada pelo nível de anticorpos produzidos pelas vacinas anteriores e que a decisão terá de ser tomada com base científica.

“Não são as opiniões, sobretudo de comentadores, que devem ser ouvidas em termos dos comentários que formulam, que são livres, que são justos, que são legítimos, mas não tem base científica”, declara.

Portanto, sustenta, “não há aqui nenhuma opinião a não ser aquela que é baseada na demonstração de que o número de doses anteriores [da vacina] tenha protegido o cidadão, a sua família, a comunidade, através da medição em laboratório dos anticorpos que circulam no soro”.

Entre 1980 e 1991, Francisco George esteve na Organização Mundial da Saúde e em 1990 desempenhou as funções de epidemiologista do Programa Mundial de Luta Contra a Sida como coordenador para a África Austral.

Desde então lidou com outras crises epidémicas, como a SARS – Síndrome Respiratória Aguda Severa, em 2003, a infecção respiratória do Médio Oriente, dez anos depois, e agora com o coronavírus SARS-CoV-2, uma “doença nova” que surgiu na China no final de 2019.

Francisco George fala com entusiasmo da actual pandemia pelas medidas tomadas para a combater, mas sobretudo da vacina: “É extraordinária. Ao contrário de outras, é uma vacina inteligente” e “é absolutamente seguro ser vacinado”.

“É espantoso como a evolução científica, com base nos conhecimentos recentes da biologia molecular, foi agora adaptada ao fabrico com sucesso destas vacinas”, em que é inoculada uma proteína mensageira do vírus, em vez do vírus morto ou atenuado, diz com eloquência.

Considera também “absolutamente único” a desinfecção com um álcool-gel que “não é abrasivo e protege as mãos”.

“Nunca mais vamos deixar de ter a higiene das mãos em conta”, diz, destacando os benefícios desta medida, a par com o uso da máscara, na diminuição da frequência de “muitas outras doenças” como a gripe.

À pergunta se a população deve usar máscara na rua no outono/inverno, responde rapidamente que “só traz benefícios”.

E se esta medida deve voltar a ser obrigatória nos períodos de maior actividade gripal, a resposta vem em jeito de pergunta: “Mas porque não? qual é o problema?”.

“É socialmente aceite se for caso disso, não vejo nenhuma preocupação”, refere, e pode ser até usada de forma espontânea pela população.

Voltando à vacina contra a covid-19 e se esta devia ser obrigatória, Francisco George afirma que não, mas reitera o apelo deixado na sua última intervenção enquanto director-geral de Saúde, para que se altere a Constituição de 1976, que apenas prevê o internamento compulsivo de portadores de anomalia psíquica.

“Eu não estou a defender a obrigatoriedade da vacina, estou a defender que, por exemplo, um doente que tenha ébola não possa sair do hospital e entrar no metropolitano. Isso é que eu defendo”, justifica.

O objectivo é que “não haja diferença entre anomalia psíquica e doença contagiosa” e, para isso, “a Constituição pode e deve ser mudada para ir ao encontro dos interesses da saúde pública, defende, frisando que este “é um tema urgente que não pode ser ignorado”.

“É necessário criar princípios inteligentes, mais flexíveis, que não tornem difícil a prevenção e o controle dos problemas em saúde pública”, evitando-se assim estar a decretar-se “sucessivamente estados de emergência” como aconteceu com a covid-19.

Doença pode vir ser erradicada

Na entrevista à Agência Lusa, o médico e antigo director-geral da Saúde considera ainda ser cedo para se perceber o que se vai passar com o novo coronavírus mas admite: “Há ferramentas e meios que a ciência hoje disponibiliza que podem vir a controlar e eliminar o vírus”.

“É possível que isso venha a acontecer. Ninguém pode dizer que nunca nos libertaremos deste vírus. Mas também ninguém pode dizer que nos vamos libertar o vírus dentro de pouco tempo”, afirma.

A luta contra o Sars-Cov-2, que provoca a doença covid-19, é um assunto que está, diz, em análise permanente, a nível mundial.

E acrescenta: “Nós, aqui em Portugal, também deveríamos ter mais pensamento sobre estas questões, e equipas que devem seguir estes problemas, para antever na medida do possível aquilo que possa acontecer”.

Porque, garante, é preciso antecipar a reemergência ou a emergência de novos problemas.

Na entrevista, Francisco George não se cansa de enfatizar a importância do estudo, da análise científica, do trabalho de prevenção. Porque a natureza de um vírus como o actual assim o exige.

Cauteloso, o especialista não quer avançar se no inverno vai haver, como no ano passado, um aumento exponencial de casos de covid-19. E lembra, sem ser crítico, mas compreendendo, declarações de Graça Freitas, actual directora-geral da Saúde, no início da pandemia, a minimizar a importância do novo coronavirus.

“Aquilo que se diz hoje pode perder actualidade, é verdade naquele dia, mas pode não ser verdade uma semana depois. Este vírus apresenta uma capacidade de mutação que nós já conhecemos pela formação das variantes que estão a circular. Isso é verdade, mas ainda é cedo para antever o final da pandemia. Nós ainda não podermos dizer acabou”, diz.

As variantes, explica, resultam de um conjunto de mutações do vírus durante a fase de replicação nas células, e estão relacionadas com a magnitude da propagação epidémica, pelo que é mais passível de acontecerem em países grandes, como a China ou a Índia,

Um conjunto de pequenas alterações formam uma variante e essa variante adquire características que podem ser melhores ou piores do que a estirpe inicial, diz, para explicar o quanto é difícil ter certezas nesta matéria. Mas certo é que a história recente da medicina mostrou que os vírus podem ser eliminados e controlados. Aconteceu, lembra, com a varíola, considerada erradicada, deve acontecer com a poliomielite. E há as vacinas, sobre as quais Francisco George fala diversas vezes. E entretanto surgirão os medicamentos, admite.

Segundo Francisco George, os Estados, sobretudo no ocidente, não fazem investigação científica no sentido de produção de vacinas, o que compete às empresas farmacêuticas. O que agora aconteceu, refere, foi que se percebeu que, tendo o vírus sido sequenciado, era mais rápido procurar uma vacina do que um antiviral. “E foi isso que aconteceu em todos os centros da indústria farmacêutica, de diferentes continentes, que produziram uma vacina quase simultâneo, se bem que com características distintas”, diz.

E acrescenta: “No que respeita aos medicamentos a linha de trabalho foi estudar os antivirais que tinham sido ensaiados na epidemia de ébola de 2014”.

Nessa linha de investigação foram seleccionados alguns medicamentos que agora estão em fase avançada de estudo e que podem “estar acessíveis em breve”.

E conclui Francisco George: é natural que venhamos a ter em breve mais medicamentos.

Comunicação não foi a melhor

O ex-director-geral da Saúde refere ainda nesta entrevista que a comunicação sobre a covid-19 terá de ser analisada no futuro, mas deixa uma certeza: “A comunicação não foi a melhor”. E não o foi “quer por parte de autoridades do Governo quer por outros”, diz.

“Eu mesmo tive dificuldade em compreender a versatilidade das medidas semanais em função deste ou daquele indicador, se eram quatro pessoas à mesa se eram seis, se era dentro se era fora, se como máscaras sem máscara”, diz.

No auge da pandemia de covid-19 diz Francisco George que se criou confusão porque foram sendo anunciadas e comunicadas questões sucessivamente, anulando outras anteriores.

“Penso que não terá sido a melhor” comunicação, reafirma, considerando no entanto que, mesmo assim, sobretudo os comerciantes e a restauração terão percebido, de maneira geral, essas medidas. “Nem tudo foi mau, mas a esse nível poderíamos ter feito mais e melhor”, diz Francisco George.

O ex-director-geral afirma que também não queria ser ele a estar nesse papel. Francisco George esteve no cargo entre 2005 e 2017, sendo substituído pela actual responsável, Graça Freitas. O novo coronavirus surgiu dois anos após ter deixado o lugar.

Na entrevista o antigo responsável pela pasta (Graça Freitas era directora adjunta) não critica, antes elogia, o trabalho nesta matéria da sua sucessora e da ministra da Saúde, Marta Temido.

Francisco George ri-se quando confrontado com a pergunta se em algum momento pensou que era bom estar ele ainda no lugar e na “linha da frente” da luta contra a pandemia: “O meu pensamento foi sempre mais egoísta, foi no sentido de ´ainda bem que não estou lá´”.

“Sou muito amigo e reconheço grande competência à ministra da Saúde, reconheço competência muito elevada à minha sucessora, com quem eu sempre trabalhei. Tenho imensa confiança na Direcção-Geral da Saúde, nos governantes, sobretudo neste caso concreto o Ministério da Saúde. Estou absolutamente tranquilo. E penso que o meu egoísmo é compreensível, ninguém com bom senso gostaria de estar no inferno que vivemos”, declarou.

Diário de Notícias
Lusa
25 Setembro 2021 — 09:41

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“Mutação do coronavírus com origem em Itália teve uma disseminação única e inimaginável em Portugal”

 

SAÚDE/COVID-19

João Paulo Gomes, director do Departamento de Doenças Infecciosas do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, explica, em entrevista ao DN, que circularam várias mutações do SARS-CoV-2 em Portugal. Só uma infectou quase quatro mil pessoas.

João Paulo Gomes é investigador do Instituto Dr. Ricardo Jorge e Director do Departamento de Doenças Infecciosas e diz que a principal preocupação em relação à Covid-19 é a parte económica, porque as vacinas resolverão os problemas de saúde.
© Orlando Almeida

Aos primeiros dias da pandemia, os investigadores do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) sabiam ser necessário avançar com a caracterização do novo coronavírus. E logo em Abril, com o apoio do Instituto Gulbenkian da Ciência e de mais de 60 unidades laboratoriais, quer hospitalares quer privadas, avançaram com um estudo de diversidade genética. No início, o objectivo era sequenciar o genoma de mil coronavírus, mas este número tornou-se insuficiente e a meta passou para os dois mil. Seis meses depois, o director do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA, João Paulo Gomes, confirma ao DN que esta meta foi cumprida e que em breve o cenário resultante de toda a informação recolhida, através de amostras dos vírus que infectaram portugueses nos primeiros meses da pandemia, estará completo. Por agora, já se percebeu que o mesmo vírus tem várias mutações, que uns são mais parecidos do que outros, e que nem todos têm a mesma origem.

Em que é que este estudo desenvolvido pelo INSA poderá ajudar a travar a covid-19?
Acima tudo pode ajudar na definição de medidas profilácticas em saúde pública, não em saúde individual.

Quer concretizar?
A pandemia tem sido uma lição para todos. Ou melhor, para a saúde pública. Se percebermos como se deu a introdução dos primeiros coronavírus em Portugal, se percebermos a sua cronologia, a sua origem – de que países vieram -, se estes estão associados à emigração, a viagens de negócios ou de turismo, se desencadearam ou não cadeias de transmissão e se até estiveram na origem da disseminação de algumas alterações genéticas importantes, poderemos perceber se as medidas tomadas, como o encerramento de escolas, restaurantes, fronteiras, foram ou não atempadas e quais as que se revelaram mais eficazes em termos de bloqueio da transmissão. E estas poderão ser usadas em situações futuras.

O estudo revelou que o primeiro coronavírus a entrar em Portugal veio do norte de Itália, da Lombardia. Este dado é importante para se perceber a evolução da doença?
Não podemos dizer que tenha sido o primeiro. Por agora, podemos dizer seguramente que foi um dos primeiros, porque estamos a terminar o estudo e o rasto mais antigo a que conseguimos chegar foi à da variante genética que veio de Itália.

Porque é que esta mutação está a ser considerada tão importante?
Porque teve uma disseminação massiva no nosso país, a uma escala que, mesmo a nível internacional, seria algo inimaginável. Já se percebeu que é uma variante genética única do novo coronavírus, que parece estar associada à entrada do vírus na célula, e que a comunidade internacional já definiu como de vigilância obrigatória. Em Portugal originou uma cadeia de transmissão que chegou aos quatro mil casos.

Director do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA defende que vigilância genética ao coronavírus deve ser mantida mesmo na era pós-vacinal.
© Orlando Almeida Global Imagens

Cada vírus tem uma variante genética?
Não podemos dizer que cada vírus tem uma variante genética, mas não estamos assim tão longe de chegarmos a essa conclusão.

Porquê?
Porque todos os vírus que vão aparecendo como causadores de covid-19 têm sempre uma série de mutações. Uns mais, outros menos. Uns são mais parecidos, outros menos, mas quanto maior é a identidade genética entre eles, maior probabilidade têm de fazer parte da mesma cadeia de transmissão.

Houve outras mutações a circular no país?
Obviamente, mas nunca tiveram a importância epidemiológica que teve a de Itália. Das que identificámos, umas originaram só dois casos, outras dez ou 15.

Não houve outras curiosidades…
Houve. O estudo também revelou que as variantes genéticas encontradas em pessoas infectadas na região fronteiriça com Espanha, tanto a norte como a leste, eram variantes que tinham sido identificadas no país vizinho, o que indica que as introduções de coronavírus nas zonas de fronteira aconteceram por via terrestre e pelos nuestros hermanos. Também houve coronavírus que vieram de outros países e de outros continentes, mas os dados preliminares apontam para que a maioria dos vírus que circulam em Portugal tenham vindo do continente europeu. O que é um cenário diferente do que aconteceu nos EUA, onde a costa leste foi inundada, numa primeira fase, por vírus que vinham da China, devido aos voos do Pacífico, enquanto na costa ocidental os vírus detectados tinham origem no continente europeu.

Quantos coronavírus analisaram?
Inicialmente, o objectivo era sequenciar mil coronavírus SARS-CoV-2, mas percebemos que este número era insuficiente e acabámos por sequenciar quase dois mil. O estudo teve início em Abril. Começámos por pedir às autoridades de saúde pública que nos fornecessem dados epidemiológicos dos primeiros meses da pandemia que nos permitissem saber de onde vieram, se tinham historial de viagens ou de outro tipo de contacto. Depois passámos à consulta de bases de dados internacionais de grupos que também sequenciaram genomas de coronavírus identificados nos seus países. Quando comparámos a sequência dos nossos coronavírus com as sequências dos coronavírus espalhados pelo mundo – ou seja, quando integrámos estes dados nos inquéritos epidemiológicos a que tivemos acesso – conseguimos, com grande grau de certeza, estimar o número de introduções de coronavírus em Portugal e apurar exactamente de onde vieram.

Quantas mutações entraram no país?
Numericamente ainda não lhe consigo dizer, mas dentro de duas a três semanas já teremos o cenário todo completo.

“Pode dizer-se que em Portugal circula massivamente a mutação do coronavírus que está associada a maior grau de transmissibilidade”.

A informação genética conseguida pode explicar porque há doentes assintomáticos ou porque nos sintomáticos há quem desenvolva a doença mais gravemente?
A informação genética que obtivemos não nos pode dar mais nada senão o historial dos vírus introduzidos em Portugal, as suas origens e as cadeias de transmissão que desencadearam. Mas isso não pode dizer esta investigação, como não pode qualquer outra. Neste momento não há estudos que suportem a associação de dados genéticos a outro tipo de dados – como a maior ou menor severidade da doença ou até mesmo em relação à maior ou menor capacidade de transmissão. Estas questões ainda estão no domínio da especulação, embora já haja fortes suspeitas de que algumas mutações possam estar de facto associadas a uma maior ou menor transmissão do vírus.

Algumas dessas circulam no país?
Posso dizer que a genética do coronavírus que circula massivamente em Portugal tem a mutação que se pensa que esteja associada à maior transmissibilidade do vírus.

O estudo também revelou que o coronavírus terá entrado no país a 20 Fevereiro, duas semanas antes dos primeiros casos diagnosticados. As medidas tomadas poderiam ter avançado ainda mais cedo?
A nível da introdução do vírus em Portugal era muito complicado fazer algo diferente. Sabemos hoje que a introdução deste coronavírus foi através das fronteiras, tanto terrestre como aérea. Não duvido de que, se Portugal tivesse optado por encerrar as fronteiras logo no início da pandemia, teríamos vivido um primeiro período de forma muitíssimo mais suave, mas se me pergunta se tal era razoável, dir-lhe-ia que não. Não sou economista, mas digo que uma medida destas teria provocado um rombo imediato na economia. Portanto, se poderia ter sido feito, digo que sim. Se deveria ter sido feito, eventualmente não. Penso que as autoridades actuaram na altura em que acharam que deveriam actuar.

João Paulo Gomes acredita que Portugal não poderia ter feito mais do que fez nos primeiros tempos de pandemia, embora, reconheça, que algumas medidas foram tardias, como o uso de máscara generalizado.
© Orlando Almeida Global Imagens

E em relação ao uso de máscara generalizado, por exemplo nos transportes públicos?
Em relação ao uso de máscara generalizado penso que poderá ter existido algum atraso na tomada desta medida. Os transportes públicos na hora de ponta estão completamente lotados e a proximidade das pessoas é grande. Talvez esta tenha sido a grande falha. Mas apesar de haver muitas críticas continuo a dizer que Portugal até esteve muito bem e que se as autoridades não fizeram melhor é porque não sabiam como o fazer.

Falou no encerramento de fronteiras. A Nova Zelândia encerrou fronteiras, abriu e fechou. É assim que se consegue conter o vírus?
Não duvido de que é no controlo da mobilidade que vive grande parte da solução para a covid-19. Agora qual o grau de controlo que deve ser feito não sei dizer. O equilíbrio entre a reabertura da economia e o manter a covid-19 em níveis baixos é muito difícil de alcançar. É preciso coragem para tomar medidas que não são populares.

“Mesmo depois da vacina, vigilância ao coronavírus deve ser mantida”.

Como olha para as estratégias dos EUA ou do Brasil em relação à covid-19?
Acho que é uma estratégia louca. Porque a teoria da imunidade de grupo só seria possível num hipotético mundo perfeito no qual pudéssemos resguardar completamente os grupos de risco. Se assim fosse, se se calhar a solução seria essa. Mas não é assim. O mundo não é perfeito, está muito longe disso, e não conseguimos resguardar os mais frágeis. Veja o que se passa nos lares e com os mais desfavorecidos nos EUA ou no Brasil, onde a mortalidade é um cenário absolutamente indescritível.

Mesmo depois de uma vacina o INSA vai continuar a vigilância ao coronavírus?
Espero que as vacinas venham a criar imunidade de grupo e que travem o que se está a passar. Tenho esperança de que as coisas corram bem, mas não tenho dúvidas de que um dos principais temas de investigação na era pós-vacinal vai ser precisamente vigiar geneticamente o aparecimento de mutações no vírus que possam estar associadas a processos de falência individual ou a uma menor eficácia da vacina.

O que o assusta mais na covid-19?
O que me assusta mais é a economia. Acho que estamos a viver algo pelo qual vamos todos pagar muito caro. Acho que ainda não despertámos para a realidade do que se está a passar em todo o mundo. É isto que mais me assusta, porque penso que a vacina irá resolver a maior parte dos problemas que se colocam a nível de saúde.

Diário de Notícias
03 OUT 2020

 

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