1028: Vacina portuguesa à espera de apoio estatal para avançar com ensaios clínicos

– “Cabrita: “Em Portugal temos capacidade financeira para acolher centenas de refugiados“. Então e para financiar a vacina portuguesa, não existe capacidade financeira?

SAÚDE PÚBLICA/VACINA PORTUGUESA

A Immunethep espera financiamento por parte do Governo para poder avançar com os ensaios clínicos.

© SAID KHATIB / AFP

A biotecnológica portuguesa Immunethep estava pronta para avançar com os ensaios clínicos da sua vacina contra a covid-19 em Setembro, mas a espera pelo financiamento por parte do Estado tem impossibilitado seguir com o processo.

“Neste momento, tudo aquilo que podíamos fazer de ensaios não clínicos está feito. Já provámos a eficácia da vacina no modelo animal, já provámos a ausência de toxicidade. O próximo passo seria avançar para ensaios clínicos. O que aconteceu com quase todas as vacinas é que houve um forte apoio do Governo. Apesar dos contactos que houve, do interesse e de algumas reuniões, ainda estamos à espera”, disse à agência Lusa o director executivo da Immunethep, Bruno Santos.

Segundo o responsável da biotecnológica sediada em Cantanhede, no distrito de Coimbra, caso já houvesse garantias de financiamento por parte do Governo, a empresa já poderia estar “a pedir autorização dos ensaios clínicos ao Infarmed para começarem” este mês.

“Não tendo o financiamento, poderemos perder alguns meses”, disse, realçando que são necessários cerca de 20 milhões de euros para a fase de ensaios clínicos.

Para Bruno Santos, a forma mais fácil e rápida de financiar o processo passaria “pela compra antecipada de vacinas, tal como foi feito nos Estados Unidos e na Alemanha”.

Já a possibilidade colocada pelo Governo passou pela candidatura a fundos europeus, tendo a empresa fundada em 2014 concorrido a uma linha de financiamento.

“Caso conseguíssemos 80% de financiamento, temos uma série de investidores que se mostraram interessados e conseguiríamos cobrir os outros 20%, mas o valor a ser apoiado pode não ser esse”, notou.

No entanto, o prazo de decisão para a candidatura submetida apenas termina a 31 de Dezembro, explicou.

“Com todas as incertezas que temos, que são reais, não consigo estabelecer um prazo. Estou dependente de todas as variáveis, mas perderemos aqui alguns meses num período que seria crítico”, salientou.

Para Bruno Santos, depois de todo o desenvolvimento feito pela empresa, que apresentou uma solução que “ainda é válida e que ainda pode ser útil”, é “um bocadinho frustrante” estar dependente apenas da questão do financiamento.

Mesmo numa altura em que muitos dos países ocidentais têm já grande parte da população vacinada, o co-fundador da Immunethep salienta que a vacina continua a ser viável.

“Tem características que a tornam interessante para países em desenvolvimento, pela facilidade de administração, que não precisa de ser por um profissional de saúde, não precisa de uma cadeia de frio e como trabalha o vírus como um todo tem uma cobertura maior das variantes, tornando-a mesmo assim útil para Portugal e para os países desenvolvidos, já que as novas variantes fazem baixar a eficácia de vacinas como a Pfizer ou a Moderna”, realçou.

A covid-19 provocou pelo menos 4.507.823 mortes em todo o mundo, entre mais de 216,98 milhões de infecções pelo novo coronavírus registadas desde o início da pandemia, segundo o mais recente balanço da agência France-Presse.

Em Portugal, desde Março de 2020, morreram 17.743 pessoas e foram contabilizados 1.037.927 casos de infecção confirmados, segundo dados da Direcção-Geral da Saúde.

A doença respiratória é provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, detectado no final de 2019 em Wuhan, cidade do centro da China, e actualmente com variantes identificadas em países como o Reino Unido, Índia, África do Sul, Brasil ou Peru.

Diário de Notícias
Lusa
01 Setembro 2021 — 12:59

© ® inforgom.pt e apokalypsus.com são domínios registados por F. Gomes

 

978: Novo medicamento em fase II curou em cinco dias 93% dos participantes no ensaio

SAÚDE/PANDEMIA/MEDICAMENTOS/EXO-CD24

© EPA/LUIS ASCUI

O Centro Médico Sourasky, em Telavive, Israel, desenvolveu um medicamento com o nome EXO-CD24 que conseguiu curar 93% dos 90 pacientes com covid-19 que participaram no ensaio, todos eles com quadro grave da doença. O ensaio realizou-se em Atenas, na Grécia, e a maioria dos voluntários teve alta no espaço de cinco dias. A notícia foi avançada pelo jornal The Jerusalém Post.

O ensaio, que está na fase II, confirmou assim os resultados obtidos ainda na primeira fase, que foi desenvolvido em Israel no inverno passado, e no qual 29 dos 30 doentes com covid grave ou moderado conseguiram recuperar em poucos dias.

“O objectivo principal deste estudo foi verificar que o medicamento é seguro. Até hoje não registámos nenhum efeito secundário significativo em nenhum dos doentes dos dois grupos”, garantiu o professor Nadir Arber.

Arber e a sua equipa desenvolveram este medicamento com base numa molécula que o professor estudou ao pormenor durante 25 anos, chamada CD24, que está presente de forma natural no corpo humano. A CD24 é uma pequena proteína que está alojada junto às células e cumpre muitas funções.

Diário de Notícias
09 Ago 07:36
Por Nuno Fernandes

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Vacina portuguesa termina ensaios não clínicos com “elevada segurança e eficácia”

SAÚDE/COVID-19/VACINA PORTUGUESA

Ensaios não clínicos confirmaram eficácia da vacina portuguesa em infecções letais por covid-19.

© EPA/MARTIN JOPPEN / SANOFI

A biotecnológica portuguesa Immunethep anunciou esta terça-feira que os ensaios não clínicos da sua vacina contra o coronavírus já terminaram e demonstraram “uma elevada segurança e eficácia” numa infecção letal por SARS-CoV-2.

Em comunicado enviado à agência Lusa, a empresa sediada em Cantanhede, no distrito de Coimbra, refere que nos ensaios não clínicos foram usados como modelo animal os ratinhos transgénicos k18-hACE2 que, infectados com o coronavírus, desenvolvem uma doença semelhante aos humanos.

Citado no documento, o co-fundador e director científico da Immunethep afirma que, “através destes ensaios não clínicos e da taxa de sobrevivência de 100% observada, foi possível confirmar a eficácia da vacina em infecções letais por SARS-CoV-2”.

A biotecnológica portuguesa sediada em Cantanhede, Portugal, estava a realizar ensaios pré-clínicos da sua vacina SIlba (SARS-CoV-2 Inactivated for Lung B and T cell Activation), há vários meses.

“Após a infecção com um inoculo letal do vírus verificamos que, comparativamente com ratinhos controlo (que não sobreviveram), os animais vacinados tinham uma sobrevivência de 100% nos animais vacinados com a vacina SIlba, observável logo na primeira semana após a infecção, além disso, não demonstraram quaisquer efeitos adversos após a vacinação”, lê-se na nota.

Desde a sua fundação, em 2014, que a Immunethep se tem dedicado ao desenvolvimento de imunoterapias, principalmente contra infecções bacterianas multi-resistentes, contando actualmente com 10 colaboradores.

“A realização deste projecto em Portugal permite o desenvolvimento de competências únicas à escala global no desenvolvimento de vacinas e outros produtos biológicos”, conclui o co-fundador e director executivo da Immunethep, Bruno Santos.

Este responsável sublinha ainda que o rápido apoio por parte das entidades governamentais “é essencial para que possamos dar continuidade aos ensaios clínicos da vacina, a tempo de contribuir para a resolução da pandemia da covid-19”.

A pandemia de covid-19 provocou pelo menos 4.044.816 mortos em todo o mundo, entre mais de 187,2 milhões de casos de infecção pelo novo coronavírus, segundo o balanço mais recente da agência France-Presse.

Em Portugal, desde o início da pandemia, em Março de 2020, morreram 17.173 pessoas e foram registados 912.406 casos de infecção, de acordo com a Direcção-Geral da Saúde.

A doença respiratória é provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, detectado no final de 2019 em Wuhan, cidade do centro da China, e actualmente com variantes identificadas em países como o Reino Unido, Índia, África do Sul, Brasil e Peru.

Diário de Notícias
Lusa
13 Julho 2021 — 15:12

© ® inforgom.pt e apokalypsus.com são domínios registados por F. Gomes

 

500: Spray nasal com anticorpos de galinhas pode ser a próxima arma contra a covid-19

 

SAÚDE/COVID-19/MEDICAMENTOS

(CC0/PD) Alexas Fotos / Pexels

Foram iniciadas investigações sobre o uso de um spray nasal para proteger temporariamente a população do SARS-CoV-2, o vírus que causa a covid-19, em situações de alto risco. O produto usa anticorpos retirados de galinhas.

A ideia é que as pessoas possam aplicar um spray rápido no nariz antes de entrar no hospital, por exemplo, e revestir a cavidade nasal com anticorpos protectores. Enquanto permanecerem neste ambiente de risco, serão brevemente protegidas da covid-19.

Num ensaio clínico de fase I, cientistas da Universidade de Stanford e da Pesquisa Clínica Linear de Perth estão a investigar um spray nasal protector que usa anticorpos retirados de gemas de ovo de galinhas.

Conforme detalhado no site SPARK at Stanford, as galinhas são infectadas com a proteína spike do SAR-CoV-2, causando uma enorme resposta imune e a produção de anticorpos específicos para galinhas, conhecidos como imunoglobulina Y (IgY). Estes anticorpos devem chegar aos ovos, que os investigadores depois irão colher e integrar ao spray nasal.

Em teoria, os anticorpos deveriam bloquear a proteína spike do vírus e evitar que o patógeno invada as células.

“O agente de imunidade que estamos a testar não é uma vacina tradicional, que actua de modo a estimular o sistema imunológico de uma pessoa a reconhecer e combater permanentemente um vírus. Em vez disso, as gotas nasais fornecem protecção ao capturar e neutralizar o coronavírus que causa a covid-19 antes deste entrar no corpo”, explica Daria Mochly-Rosen, fundadora do SPARK, num comunicado.

Para testar a eficácia desse método, o spray nasal com anti-corpos de galinhas está a ser testado em 48 pessoas na Austrália. A conclusão do teste está prevista para Dezembro de 2020 e, se tudo correr bem, o tratamento pode estar disponível já no início do próximo ano.

O spray nasal protegeria apenas temporariamente contra o vírus e ainda não se sabe por quanto tempo a protecção pode durar, por isso esta só poderá ser uma solução a curto prazo.

No entanto, os investigadores estão optimistas de que podem fornecer uma maneira fácil de manter as pessoas mais ​​seguras durante a pandemia de covid-19 até que uma vacina seja desenvolvida.

As gotas nasais não irão substituir as vacinas e medidas como o uso de máscaras, distanciamento social e lavagem das mãos”, disse Mochly-Rosen. “Contudo, podem desempenhar um papel vital em manter as pessoas seguras enquanto a comunidade médica procura opções para acabar com a pandemia”, destaca.

Segundo o IFLScience, a equipa estima que o custo de uma dose dos anticorpos derivados de galinha seja apenas de 1 dólar (cerca de 84 cêntimos).

ZAP //

Por ZAP
15 Novembro, 2020


496: Primeira vacina da gripe derivada de planta do tabaco arrasou nos ensaios clínicos

 

SAÚDE/GRIPE/VACINAS

J. Tregoning, The Lancet, 2020
Nicotiana benthamiana, a parente australiana da planta do tabaco

Uma nova vacina da gripe derivada de uma parente australiana da planta do tabaco foi posta à prova em dois ensaios clínicos de grande escala. E os resultados foram promissores.

Actualmente, a maioria das vacinas da gripe é feita com partículas de vírus cultivadas e colhidas de ovos de galinha ou células cultivadas em laboratório, o que demora meses. As plantas, por sua vez, podem ser projectadas para produzir proteínas seleccionadas e cultivadas em grande escala, o que pode ajudar a aumentar a capacidade de produção.

De acordo com o site Science Alert, os dois ensaios clínicos combinados envolveram quase 23 mil pessoas e os resultados sugerem que esta vacina não é apenas segura, como também pode ser comparada às vacinas da gripe actuais.

Os investigadores usaram uma parente australiana da planta do tabaco – Nicotiana benthamiana – e fizeram-na produzir apenas a camada externa dos vírus da gripe. Então, essas partículas semelhantes a vírus foram extraídas e purificadas sob condições estritas para produzir uma vacina.

“O campo das vacinas derivadas de plantas cresceu muito nos últimos 28 anos, desde que foi demonstrado pela primeira vez [em 1992] que as proteínas virais podiam ser expressas em plantas”, explicou John Tregoning, investigador de doenças infecciosas da Imperial College London, em Inglaterra.

Esta é a primeira vez que uma vacina derivada de uma planta foi testada num ensaio clínico [humano]. É um marco para esta tecnologia e espalha as sementes para outras vacinas e terapêuticas à base de plantas”, acrescentou.

No artigo publicado, no dia 7 de Novembro, na revista científica The Lancet, os cientistas afirmam que o seu sistema pode produzir as primeiras doses de uma vacina recém-desenvolvida em dois meses, depois de ser identificada uma estirpe emergente da gripe.

No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer, uma vez que esta vacina ainda precisa de obter as aprovações dos reguladores. E, caso o consiga, também é preciso ter em conta que os seus fabricantes têm de ser capazes de produzir milhões de doses todos os anos.

ZAP //

Por ZAP
15 Novembro, 2020

 

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“Mutação do coronavírus com origem em Itália teve uma disseminação única e inimaginável em Portugal”

 

SAÚDE/COVID-19

João Paulo Gomes, director do Departamento de Doenças Infecciosas do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, explica, em entrevista ao DN, que circularam várias mutações do SARS-CoV-2 em Portugal. Só uma infectou quase quatro mil pessoas.

João Paulo Gomes é investigador do Instituto Dr. Ricardo Jorge e Director do Departamento de Doenças Infecciosas e diz que a principal preocupação em relação à Covid-19 é a parte económica, porque as vacinas resolverão os problemas de saúde.
© Orlando Almeida

Aos primeiros dias da pandemia, os investigadores do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) sabiam ser necessário avançar com a caracterização do novo coronavírus. E logo em Abril, com o apoio do Instituto Gulbenkian da Ciência e de mais de 60 unidades laboratoriais, quer hospitalares quer privadas, avançaram com um estudo de diversidade genética. No início, o objectivo era sequenciar o genoma de mil coronavírus, mas este número tornou-se insuficiente e a meta passou para os dois mil. Seis meses depois, o director do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA, João Paulo Gomes, confirma ao DN que esta meta foi cumprida e que em breve o cenário resultante de toda a informação recolhida, através de amostras dos vírus que infectaram portugueses nos primeiros meses da pandemia, estará completo. Por agora, já se percebeu que o mesmo vírus tem várias mutações, que uns são mais parecidos do que outros, e que nem todos têm a mesma origem.

Em que é que este estudo desenvolvido pelo INSA poderá ajudar a travar a covid-19?
Acima tudo pode ajudar na definição de medidas profilácticas em saúde pública, não em saúde individual.

Quer concretizar?
A pandemia tem sido uma lição para todos. Ou melhor, para a saúde pública. Se percebermos como se deu a introdução dos primeiros coronavírus em Portugal, se percebermos a sua cronologia, a sua origem – de que países vieram -, se estes estão associados à emigração, a viagens de negócios ou de turismo, se desencadearam ou não cadeias de transmissão e se até estiveram na origem da disseminação de algumas alterações genéticas importantes, poderemos perceber se as medidas tomadas, como o encerramento de escolas, restaurantes, fronteiras, foram ou não atempadas e quais as que se revelaram mais eficazes em termos de bloqueio da transmissão. E estas poderão ser usadas em situações futuras.

O estudo revelou que o primeiro coronavírus a entrar em Portugal veio do norte de Itália, da Lombardia. Este dado é importante para se perceber a evolução da doença?
Não podemos dizer que tenha sido o primeiro. Por agora, podemos dizer seguramente que foi um dos primeiros, porque estamos a terminar o estudo e o rasto mais antigo a que conseguimos chegar foi à da variante genética que veio de Itália.

Porque é que esta mutação está a ser considerada tão importante?
Porque teve uma disseminação massiva no nosso país, a uma escala que, mesmo a nível internacional, seria algo inimaginável. Já se percebeu que é uma variante genética única do novo coronavírus, que parece estar associada à entrada do vírus na célula, e que a comunidade internacional já definiu como de vigilância obrigatória. Em Portugal originou uma cadeia de transmissão que chegou aos quatro mil casos.

Director do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA defende que vigilância genética ao coronavírus deve ser mantida mesmo na era pós-vacinal.
© Orlando Almeida Global Imagens

Cada vírus tem uma variante genética?
Não podemos dizer que cada vírus tem uma variante genética, mas não estamos assim tão longe de chegarmos a essa conclusão.

Porquê?
Porque todos os vírus que vão aparecendo como causadores de covid-19 têm sempre uma série de mutações. Uns mais, outros menos. Uns são mais parecidos, outros menos, mas quanto maior é a identidade genética entre eles, maior probabilidade têm de fazer parte da mesma cadeia de transmissão.

Houve outras mutações a circular no país?
Obviamente, mas nunca tiveram a importância epidemiológica que teve a de Itália. Das que identificámos, umas originaram só dois casos, outras dez ou 15.

Não houve outras curiosidades…
Houve. O estudo também revelou que as variantes genéticas encontradas em pessoas infectadas na região fronteiriça com Espanha, tanto a norte como a leste, eram variantes que tinham sido identificadas no país vizinho, o que indica que as introduções de coronavírus nas zonas de fronteira aconteceram por via terrestre e pelos nuestros hermanos. Também houve coronavírus que vieram de outros países e de outros continentes, mas os dados preliminares apontam para que a maioria dos vírus que circulam em Portugal tenham vindo do continente europeu. O que é um cenário diferente do que aconteceu nos EUA, onde a costa leste foi inundada, numa primeira fase, por vírus que vinham da China, devido aos voos do Pacífico, enquanto na costa ocidental os vírus detectados tinham origem no continente europeu.

Quantos coronavírus analisaram?
Inicialmente, o objectivo era sequenciar mil coronavírus SARS-CoV-2, mas percebemos que este número era insuficiente e acabámos por sequenciar quase dois mil. O estudo teve início em Abril. Começámos por pedir às autoridades de saúde pública que nos fornecessem dados epidemiológicos dos primeiros meses da pandemia que nos permitissem saber de onde vieram, se tinham historial de viagens ou de outro tipo de contacto. Depois passámos à consulta de bases de dados internacionais de grupos que também sequenciaram genomas de coronavírus identificados nos seus países. Quando comparámos a sequência dos nossos coronavírus com as sequências dos coronavírus espalhados pelo mundo – ou seja, quando integrámos estes dados nos inquéritos epidemiológicos a que tivemos acesso – conseguimos, com grande grau de certeza, estimar o número de introduções de coronavírus em Portugal e apurar exactamente de onde vieram.

Quantas mutações entraram no país?
Numericamente ainda não lhe consigo dizer, mas dentro de duas a três semanas já teremos o cenário todo completo.

“Pode dizer-se que em Portugal circula massivamente a mutação do coronavírus que está associada a maior grau de transmissibilidade”.

A informação genética conseguida pode explicar porque há doentes assintomáticos ou porque nos sintomáticos há quem desenvolva a doença mais gravemente?
A informação genética que obtivemos não nos pode dar mais nada senão o historial dos vírus introduzidos em Portugal, as suas origens e as cadeias de transmissão que desencadearam. Mas isso não pode dizer esta investigação, como não pode qualquer outra. Neste momento não há estudos que suportem a associação de dados genéticos a outro tipo de dados – como a maior ou menor severidade da doença ou até mesmo em relação à maior ou menor capacidade de transmissão. Estas questões ainda estão no domínio da especulação, embora já haja fortes suspeitas de que algumas mutações possam estar de facto associadas a uma maior ou menor transmissão do vírus.

Algumas dessas circulam no país?
Posso dizer que a genética do coronavírus que circula massivamente em Portugal tem a mutação que se pensa que esteja associada à maior transmissibilidade do vírus.

O estudo também revelou que o coronavírus terá entrado no país a 20 Fevereiro, duas semanas antes dos primeiros casos diagnosticados. As medidas tomadas poderiam ter avançado ainda mais cedo?
A nível da introdução do vírus em Portugal era muito complicado fazer algo diferente. Sabemos hoje que a introdução deste coronavírus foi através das fronteiras, tanto terrestre como aérea. Não duvido de que, se Portugal tivesse optado por encerrar as fronteiras logo no início da pandemia, teríamos vivido um primeiro período de forma muitíssimo mais suave, mas se me pergunta se tal era razoável, dir-lhe-ia que não. Não sou economista, mas digo que uma medida destas teria provocado um rombo imediato na economia. Portanto, se poderia ter sido feito, digo que sim. Se deveria ter sido feito, eventualmente não. Penso que as autoridades actuaram na altura em que acharam que deveriam actuar.

João Paulo Gomes acredita que Portugal não poderia ter feito mais do que fez nos primeiros tempos de pandemia, embora, reconheça, que algumas medidas foram tardias, como o uso de máscara generalizado.
© Orlando Almeida Global Imagens

E em relação ao uso de máscara generalizado, por exemplo nos transportes públicos?
Em relação ao uso de máscara generalizado penso que poderá ter existido algum atraso na tomada desta medida. Os transportes públicos na hora de ponta estão completamente lotados e a proximidade das pessoas é grande. Talvez esta tenha sido a grande falha. Mas apesar de haver muitas críticas continuo a dizer que Portugal até esteve muito bem e que se as autoridades não fizeram melhor é porque não sabiam como o fazer.

Falou no encerramento de fronteiras. A Nova Zelândia encerrou fronteiras, abriu e fechou. É assim que se consegue conter o vírus?
Não duvido de que é no controlo da mobilidade que vive grande parte da solução para a covid-19. Agora qual o grau de controlo que deve ser feito não sei dizer. O equilíbrio entre a reabertura da economia e o manter a covid-19 em níveis baixos é muito difícil de alcançar. É preciso coragem para tomar medidas que não são populares.

“Mesmo depois da vacina, vigilância ao coronavírus deve ser mantida”.

Como olha para as estratégias dos EUA ou do Brasil em relação à covid-19?
Acho que é uma estratégia louca. Porque a teoria da imunidade de grupo só seria possível num hipotético mundo perfeito no qual pudéssemos resguardar completamente os grupos de risco. Se assim fosse, se se calhar a solução seria essa. Mas não é assim. O mundo não é perfeito, está muito longe disso, e não conseguimos resguardar os mais frágeis. Veja o que se passa nos lares e com os mais desfavorecidos nos EUA ou no Brasil, onde a mortalidade é um cenário absolutamente indescritível.

Mesmo depois de uma vacina o INSA vai continuar a vigilância ao coronavírus?
Espero que as vacinas venham a criar imunidade de grupo e que travem o que se está a passar. Tenho esperança de que as coisas corram bem, mas não tenho dúvidas de que um dos principais temas de investigação na era pós-vacinal vai ser precisamente vigiar geneticamente o aparecimento de mutações no vírus que possam estar associadas a processos de falência individual ou a uma menor eficácia da vacina.

O que o assusta mais na covid-19?
O que me assusta mais é a economia. Acho que estamos a viver algo pelo qual vamos todos pagar muito caro. Acho que ainda não despertámos para a realidade do que se está a passar em todo o mundo. É isto que mais me assusta, porque penso que a vacina irá resolver a maior parte dos problemas que se colocam a nível de saúde.

Diário de Notícias
03 OUT 2020

 

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