1591: Pandemia encurtou muito a vida dos doentes oncológicos

– Não só encurtou a vida aos doentes oncológicos como transtornou a vida de todos os doentes nas várias especialidades. A “moda” agora é a tele-consulta. Os contactos com o médico de família, seja para solicitar opiniões, seja para enviar resultados de exames, análises, etc., é efectuado via e-mail para a secretaria da USF que depois transmite ao médico o que o doente quer, esquecendo o sistema que existe CONFIDENCIALIDADE doente/médico neste tipo de situações.

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/DOENTES NÃO-COVID

Especialistas acreditam que ainda não é possível contabilizar o real impacto da covid-19 no acesso aos cuidados de saúde e no diagnóstico e tratamento das doenças oncológicas. Contudo, sabe-se que ficaram milhares de casos por diagnosticar e que hoje os doentes chegam ao médico em situações mais graves, o que condiciona as hipóteses de tratamento.

Especialistas lembram que ficaram milhares de casos por diagnosticar. E os que foram surgindo estavam em estado avançado, o que dificultou o tratamento.
© Tony Dias/Global Imagens

Desconcentração nos cuidados de saúde em geral, e foco no atendimento covid desviou, ao longo dos últimos dois anos, as atenções dos profissionais de saúde, deixando por diagnosticar milhares de cancros e afectando os tratamentos e o acompanhamento de outros.

A conclusão, corroborada pelos dados do Movimento Saúde em Dia que apontam para 4.450 cancros por diagnosticar devido à redução no número de rastreios, é unânime entre os especialistas que ontem participaram no webinar “Pandemia versus Oncologia: Onde estamos e para onde vamos”, promovido em parceria entre o Diário de Notícias, AstraZeneca e Daiichi Sankyo.

“Foi complicado manter o foco no doente oncológico, quer no tratamento como no diagnóstico mais precoce ou prevenção”, explica Luís Costa, director do departamento de oncologista do Centro Hospital de Lisboa Norte. O resultado, reforça, foram atrasos nos diagnósticos e doentes com estádios mais avançados. Esta desconcentração, acrescenta António Araújo, “criou problemas no acesso aos cuidados primários porque esta actividade foi muito descentrada, com impacto também nos serviços hospitalares que, nos primeiros meses, estavam focados nos internados”.

Para o director do serviço de oncologia médica do Centro Hospitalar Universitário do Porto ainda não é possível contabilizar o impacto desta mudança de foco, “mas sabemos que os doentes estão mais graves e em piores estados gerais”. Um cenário que obriga agora a um esforço adicional de cuidados suporte, com menos garantia de sucesso nas terapêuticas, e uma menor sobrevivência. “A pandemia encurtou muito a vida dos doentes oncológicos”, assume.

Apesar do cenário distinto na área da hematologia, Catarina Geraldes partilha da opinião dos colegas de painel. “Apercebemo-nos de alguma demora no acesso a exames e cuidados primários, o que resulta em atrasos na referenciação de doentes também na hematologia, devido ao desvio de atenção para o Covid”. Para a hematologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, entre o foco na pandemia e o medo dos doentes em dirigir-se aos hospitais, muitas situações acabaram por arrastar-se, com consequências menos positivas para quem perdeu tempo de diagnóstico.

Faltam rastreios para o cancro hereditário

Mas na data em que se celebra o Dia Mundial do Cancro (4 de Fevereiro), e à mesa do debate promovido pelo DN, também se ouviu a voz de quem apoia e acompanha os doentes oncológicos, nomeadamente na área do cancro hereditário. E aqui, garante Tamara Milagre, “a resposta [do SNS] antes da pandemia já era insuficiente”. A presidente da Associação Evita explica que o grande objectivo da organização é prevenir a doença “porque sem prevenção nunca vamos chegar à sustentabilidade do sistema”. Contudo, para fazê-lo, a responsável defende a intensificação de rastreios que, muitas vezes, excluem os portadores de mutação identificados, mas saudáveis.

“É um cancro caríssimo, que surge em idade produtiva e fértil, precoce em pessoas que estão no auge da produtividade, mas que, como não têm idade para o rastreio não são identificadas atempadamente”. Tamara Milagre aponta ainda a falta de acompanhamento e de vigilância a estas pessoas que, durante a pandemia, não aconteceu. Em consequência há agora muito mais pessoas com diagnósticos avançados, o que significa custos mais elevados para o Estado. “Um cancro metástico é uma doença crónica, cujo acompanhamento custa muito mais do que um diagnóstico atempado”, reforça. Recorde-se que o cancro hereditário representa 10% do total de casos diagnosticados.

Combater a desinformação é fundamental

Notícias falsas, alarmismo e muita desinformação marcaram o período covid, especialmente nos primeiros meses da pandemia e, segundo os especialistas que participaram neste webinar, contribuíram para afastar algumas pessoas dos cuidados de saúde. É, por isso, fundamental apostar numa maior literacia em saúde, acreditam.

“Um doente informado ajuda muito”, defende Luís Costa. No entanto, alerta para a necessidade de garantir que as fontes de informação são fidedignas. “É importante promover a informação adequada e as associações de doentes podem ajudar muito nisto”. Uma opinião partilhada por António Araújo que reforça: “A literacia em saúde deve começar muito cedo, nas escolas, porque ao ganhar conhecimento, é mais fácil prevenir o aparecimento de doenças”. Além disso, complementa Catarina Geraldes, “é fundamental manter uma boa comunicação com o doente”.

Contudo, a falta de tempo com que se debatem os profissionais de saúde é, para Luís Costa, um entrave à comunicação com o doente. “É muito importante salvaguardar o tempo de qualidade na relação médico doente para que possamos ouvi-los, mas também aos seus familiares, e para que possamos interpretar bem aquilo que são as suas preocupações para fazer uma comunicação personalizada e tecnicamente correta”. Um problema sem solução à vista para o qual também não contribui a crescente desumanização provocada pela digitalização.

“Nas consultas passamos quase dois terços do tempo a olhar para o ecrã, e não tanto a olhar para o doente e a ouvi-lo”, refere o oncologista. “Corremos o risco de estar a excluir alguns doentes e cuidadores”, alerta Catarina Geraldes. Na opinião da hematologista, a excessiva digitalização não está acessível a todos os doentes, uma vez que o país não avança a uma única velocidade neste campo, e é preciso garantir que ninguém fica para trás. Por outro lado, reforça, a digitalização tem também aspectos positivos como o acesso mais rápido à informação, a sua utilização de forma mais eficaz e eficiente, com benefícios terapêuticos para o doente.

“Não combatemos o cancro sem ciência”

Ciência, tecnologia e inovação são hoje ingredientes essenciais para o combate a qualquer doença, e o cancro não é excepção. “Se não fosse a ciência, estaríamos numa situação muito difícil neste momento”, admite Luís Costa. Em pandemia, sem vacinas, o cenário seria, na opinião do especialista, muito caótica.

“Descobrir vacinas, concluir estudos clínicos que comprovam a eficácia das vacinas e a sua segurança foram feitos em tempo recorde, e havia dados para tomar decisões, levando a ciência ao cidadão”. E este processo comprova que sem a ciência não é possível combater o cancro. “Precisamos da ciência a todo o vapor para conseguirmos bafejar este nosso mundo clínico com novas respostas”, defende o oncologista.

E é esta ciência e a inovação que estão a conduzir ao desenvolvimento de novas terapêuticas, essenciais para o tratamento do cancro. “Estamos a tratar os doentes com as terapêuticas mais inovadoras e, felizmente, esta inovação não parou durante a pandemia”, afirma Catarina Geraldes.

A hematologista exemplifica os avanços conseguidos com as novas terapêuticas celulares, com células T, que ajudam a reprogramar e a combater de forma mais eficaz as células tumorais. “Os tratamentos são menos tóxicos e agressivos, e garantem maior sobrevida aos doentes”. A verdade é que no cancro cada dia conta e, por isso, é fundamental que não falhem diagnósticos que rapidamente conduzam os doentes à terapia mais adequada.

Números do flagelo

60.467

Novos casos de doença oncológica em Portugal, em 2020. O número de mortes no mesmo período foi de 30.168.

169.550

Prevalência de casos de cancro a cinco anos.

4450

Casos que terão ficado por diagnosticar (cancro da mama, cancro do colo do útero e cancro colorrectal) entre 2019 e 2021 devido à redução dos rastreios.

21%

Quebra no número de rastreios do cancro da mama, entre Março de 2020 e Novembro de 2021. Esta quebra foi de 12% no cancro do colo do útero e de 7% no cancro colo-rectal

1 a 2 em cada 10

Doentes com doença oncológica que tiveram algum tratamento suspenso durante o ano de 2020 por indicação médica. Em simultâneo, estes doentes revelaram pior qualidade de vida e níveis superiores de distress emocional, ansiedade e depressão.

17,4%

É o peso do cancro colo-rectal no total de novos casos diagnosticados em 2020, em Portugal, sendo o mais representativo. Segue-se mama, próstata e pulmão, totalizando 53% de todos os diagnósticos.

10%

Dos cancros são hereditários. Nos mais frequentes – colo-rectal, próstata e mama – podiam ser evitados com rastreios mais abrangentes.

723

Número de dias que, em média, os doentes oncológicos demoram a ter acesso a uma nova terapêutica na área da oncologia.

34

Medicamentos na área da oncologia aprovados pela EMA (Agência Europeia do Medicamento) entre 2016 e 2019. Apenas 15 estão disponíveis em Portugal.

Fontes: Evita. OMS Globocan 2020, Liga Portuguesa Contra o Cancro, Patient WAIT Indicator de 2020, Movimento Saúde em Dia

Diário de Notícias
Fátima Ferrão
05 Fevereiro 2022 — 07:00

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