Novos remédios para a enxaqueca garantem “óptimo controlo da dor logo desde o início”

SAÚDE PÚBLICA/ENXAQUECAS/REMÉDIOS

Avançadas terapias no combate às cefaleias devolvem qualidade de vida a quem sofre desta doença. Tal é possível porque a ciência descobriu o que leva às crises, o que será, para a presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, mais um passo na direcção da cura.

© Ilustração Vítor Higgs / DN

Doença que, estima-se, atinge cerca de 1,5 milhões de pessoas em Portugal, a enxaqueca pode ser profundamente debilitante. Mas hoje, utilizando os mais recentes avanços na investigação neurológica e genética, existem novos tratamentos. O mais recente permitiu descobrir o agente responsável pelo desencadear ou intensificar de uma crise de enxaqueca e avanços na medicina ajudam a combatê-lo. Este é o ponto de partida para esta entrevista, feita por e-mail, a Isabel Luzeiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia.

Há pessoas que dizem parecer que estão a enlouquecer quando têm dores de cabeça fortes ou enxaquecas. O que é que está efectivamente a acontecer no seu cérebro?
O que acontece frequentemente é que a dor por vezes é tão, tão intensa, que é muito mal tolerada. E está associada a uma dilatação dos vasos sanguíneos. O envolvimento de outras áreas do cérebro provoca também hipersensibilidade à luz e ao barulho, náusea ou até vómito, e por vezes vertigem. Alguns doentes têm ainda o nariz a “pingar” (rinorreia), uma urgência de urinar ou abrir a boca… outros têm alterações visuais. Mesmo nos doentes que toleram a dor, a frequência dos episódios e o tempo de duração (duas a quatro horas) exaspera-os. Ora, se a dor já é difícil de tolerar, toda esta constelação é o caos. Interfere com o dia a dia, diminuindo muito a qualidade de vida.

A investigação mais recente dá conta de que o CGRP será responsável pelo desencadear de uma crise de enxaqueca. O que é o CGRP?
CGRP é a sigla de um neuropéptido [ler abaixo] relacionado com o gene da calcitonina (calcitonine gene-related peptide). Os níveis de CGRP no sangue estão aumentados durante as crises de enxaqueca e mesmo no intervalo das crises, principalmente se a enxaqueca for frequente ou crónica.

O CGRP é sintetizado em vários locais do corpo, como o cérebro (alfa-CGRP) e o intestino (beta-CGRP), a partir do gene da calcitonina, localizado no cromossoma 11, e tem uma função reguladora a nível do cérebro, sistema intestinal e no controlo da dor.

Neuropéptidos são “mensageiros” químicos produzidos pelos neurónios (as células nervosas do cérebro, por exemplo) que permitem a comunicação entre estas, modulando a actividade cerebral. Têm também um papel importante em outros órgãos, como o coração ou os intestinos. Existe mais de uma centena de tipos conhecidos.

Há alguma preponderância do CGRP nas mulheres vs. homens? É um dado conhecido que as crises de enxaqueca são mais prevalecentes nas mulheres…
De facto, atinge duas a três vezes mais as mulheres. Mas há outros factores: há outros neuropéptidos e neurotransmissores envolvidos e temos de considerar o factor genético, a hereditariedade.

Se a mãe tem enxaqueca, a probabilidade de a transmitir é de 66%, se ambos os pais tiverem enxaqueca esse risco é de 77%. Isto quer dizer que há um predomínio de transmissão pelo sexo feminino. Temos ainda factores hormonais, como os associados à menstruação, e os psicológicos, como a ansiedade e depressão, que também são mais frequentes na mulher.

Que medicamentos já existem no mercado para parar a CGRP?
A toxina botulínica tipo A, o botox, que actua também no CGRP. Trimestralmente administra-se o fármaco em 31 pontos da cabeça, via subcutânea. E agora os mAbs [ler abaixo] estão também disponíveis

mAbs ou anticorpos monoclonais são produzidos pela clonagem de um único glóbulo branco, com um só propósito – uma única função genética -, pelo que todos têm o mesmo alvo específico. Esta técnica aplicada em bioquímica permite criar fármacos extremamente precisos, que atacam a doença na origem sem efeitos secundários.

O que são e como funcionam os mAbs, os anticorpos monoclonais?
Os anticorpos monoclonais utilizados na enxaqueca são fármacos que bloqueiam o CGRP directamente (anti-CGRP) ou bloqueiam os receptores onde o CGRP se iria ligar. São usados na enxaqueca frequente (mais de quatro crises por mês) ou crónica. Em Portugal dispomos de três fármacos: dois que se ligam directamente ao CGRP e um que se liga ao receptor impedindo a acção do CGRP, com administração injetável e de periodicidade mensal ou trimestral. Têm um perfil de segurança e de efeitos adversos muito favorável e um óptimo controlo da dor logo desde o início.

Que sintomas deve uma pessoa ter para se considerar “candidata” a um tratamento deste tipo?
Ter enxaqueca frequente ou crónica e ter já feito tratamento com três fármacos diferentes indicados para a prevenção ou ser alérgica ou mesmo não tolerar [estes últimos], devido a efeitos adversos ou outras doenças concomitantes.

Bastará ir ao seu médico de família ou terá de procurar um médico mais especializado?
Os mAbs são prescritos no hospital e cedidos pela farmácia hospitalar. Não existem disponíveis para prescrição em ambulatório. Cabe ao médico de família orientar o doente para uma consulta especializada em cefaleias.

Uma enxaqueca ou cefaleia pode ser tão violenta que provoque danos permanentes no cérebro?
Com a repetição das crises ficam pequenas mazelas no cérebro, quer anatómicas, quer funcionais.

Por outro lado, durante uma crise, embora raramente e mais nas mulheres que usam a pílula e têm enxaqueca com aura, pode ocorrer um evento vascular, um enfarte migranoso.

Há uma idade-tipo para a enxaqueca?
Sim, de facto é na terceira e quarta década que a enxaqueca é mais frequente. Nos rapazes surge habitualmente mais cedo. Com a menopausa, a enxaqueca desaparece em dois terços das mulheres.

Há uma dieta alimentar que possa minimizar ou aligeirar a ocorrência de cefaleias?
Cada doente reconhece os alimentos que lhe desencadeiam a enxaqueca. No entanto, o chocolate, o vinho, os morangos, o glutamato monossódico [ler abaixo]

Para além da alimentação, as alterações do sono, as mudanças do tempo, o cansaço, as alterações hormonais, etc., podem desencadear enxaqueca.

Glutamato monossódico é um aditivo que se associa aos alimentos para realçar sabor; é usado nos restaurantes chineses e nos cubos que se juntam aos alimentos na cozinha, comida com nitratos como os cachorros-quentes, alimentos que contêm tiramina, como queijos maturados, soja, favas, peixe fumado ou desidratado e alguns tipos de frutas secas.

Alguma vez teremos uma cura?
Sim, cada vez mais temos uma medicina de precisão dirigida à causa das patologias. Sabida toda a constelação etiológica, surgirá a cura, em minha opinião.

As dores de cabeça são com ela

Presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia há dois anos, a neurologista Isabel Luzeiro (pela Universidade de Coimbra) tem ainda especialização em Ciências da Dor. Além disso, graduou-se em eEG/neurofisiologia clínica e tem competências ao nível do estudo do sono. A experiência adquirida e a actividade permanente – actualmente dá consultas na CUF Coimbra – permitem-lhe ter uma perspectiva actualizada do conhecimento científico de uma área cuja evolução não para de progredir. Os actuais tratamentos não existiam há uma década.

ricardo.s.ferreira@dn.pt

Diário de Notícias
Ricardo Simões Ferreira
24 Outubro 2021 — 00:13

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