1488: Afinal, por que motivo é que a carne vermelha prejudica o coração?

– Não sou nutricionista nem ando por lá perto, mas estudei bastante sobre alimentação racional ou dieta mediterrânica e desde há bastantes anos que não como um grama de carne vermelha. Optei pela carne branca (frango e/ou peru), peixe, vegetais de toda a espécie, leguminosas, hidratos de carbono, proteína vegetal (soja texturizada), temperos à base de molho de soja (evita a utilização do sal), produtos de origem biológica, etc..

SAÚDE PÚBLICA/ALIMENTAÇÃO/DIETA MEDITERRÂNICA

(CC0/PD) mali maeder / pexels

O consumo de carne vermelha aumenta o risco de desenvolver doenças cardíacas através de uma cadeia de acontecimentos que se desenrolam no intestino, sugere um novo estudo.

De acordo com muitos estudos feitos ao longo dos anos, as dietas ricas em carnes vermelhas e alimentos processados estão associadas a um risco acrescido de doença cardíaca e AVC.

Agora, uma nova análise explica o “porquê”.

Investigadores descobriram que determinadas bactérias intestinais, mais abundantes nos indivíduos que comem carne vermelha, são fundamentais para transformar a Lcarnitina num químico conhecido como TMAO – considerado um inimigo para a nossa saúde, já que promove a coagulação do sangue e artérias entupidas.

Para a pessoa dita comum, os dados reforçam o que já é conhecido sobre alimentação saudável: que a dieta mediterrânica tradicional reduz o risco de desenvolver doenças cardíacas e AVC, disse Stanley Hazen, coautor do estudo e responsável pelo Clinic’s Center for Microbiome and Human Health, em Cleveland.

Isto porque a dieta mediterrânica é rica em peixe, frutas, vegetais, legumes, azeite e nozes – e pobre em carne vermelha e alimentos processados.

Agora, um estudo, publicado a 23 de Dezembro na Nature Microbiology, aprofundou a relação entre a dieta, o microbioma intestinal e a saúde humana.

O microbioma – bactérias e micróbios que habitam naturalmente no corpo humano, especialmente no intestino – é vital não só na digestão, mas também nas defesas do sistema imunitário, na função cerebral e na saúde do sistema cardiovascular.

As pessoas com dietas ricas em carne vermelha têm tipicamente um maior risco de doença cardíaca e AVC do que aquelas que comem pouca carne vermelha. No entanto, e ao contrário do que se pensava, isso pode não estar relacionado com a gordura saturada, disse Hazen.

A gordura saturada aumenta o “mau” colesterol (LDL), o que contribui para as doenças cardiovasculares, mas isso não explica o maior risco de desenvolver doenças cardíacas.

As novas descobertas apontam para um mecanismo que pode explicá-lo, disse Lauri Wright, presidente da cadeira de nutrição e dietética da Universidade do Norte da Florida, em Jacksonville.

Há ainda muito a aprender sobre o microbioma intestinal, disse Wright, mas, em geral, as dietas ricas em alimentos como vegetais, frutas e grãos ricos em fibra ajudam a “alimentar” micróbios intestinais benéficos.

E Hazen concorda que, em alternativa aos suplementos probióticos, a dieta é a forma mais eficaz de alterar o microbioma intestinal.

“Mudar a dieta muda o solo” que alimenta os micróbios intestinais, explicou.

As últimas descobertas acrescentam valor a estudos anteriores sobre o TMAO, o químico criado quando as bactérias intestinais quebram a carnitina, um nutriente particularmente abundante na carne vermelha.

De acordo com a WebMD, investigadores já tinham demonstrado que o TMAO parece aumentar o risco de doença cardíaca e derrame cerebral.

Num estudo de 2019, ficou demonstrado que adicionar carne vermelha à dieta de pessoas saudáveis durante um curto período de tempo aumenta os níveis sanguíneos de TMAO – mas esses níveis descem quando a carne vermelha é trocada por carne branca ou proteínas vegetais.

No novo estudo, analisando tanto humanos como ratos de laboratório, a equipa de cientistas descobriu que um grupo de bactérias intestinais (Emergencia timonensis) transforma a carnitina em TMAO. Assim, enquanto os comedores de carne abrigam uma quantidade relevante desses micróbios, os vegetarianos e veganos de longa data têm muito poucos.

Nas experiências com ratos, os cientistas descobriram ainda que a introdução de E. timonensis impulsionou os níveis de TMAO e, portanto, a propensão do sangue para formar coágulos.

Além disso, foram também analisadas as amostras de fezes de pessoas que participaram no estudo de 2019 e descobriu-se que, quando os participantes comiam muita carne vermelha, as suas fezes abrigavam mais micróbios E. timonensis.

Há testes sanguíneos disponíveis para medir os níveis de TMAO e, na opinião de Hazen, que estes poderiam permitir que os prestadores de cuidados de saúde dessem aos doentes conselhos dietéticos mais personalizados. Se, por exemplo, os níveis de TMAO de uma determinada pessoa fossem elevados, a limitação do consumo de carne vermelha seria particularmente importante.

Para Wright, o fundamental é manter uma dieta saudável, mas também é importante consumir alimentos fermentados, como iogurtes.

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10 Janeiro, 2022

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