“Na quimioterapia só 5% a 10% do fármaco chega ao local. Na nanotecnologia não há dispersão, é mais eficaz e menos tóxico”

SAÚDE PÚBLICA/CANCRO/NANOTECNOLOGIA

João Conde, professor de Genética, investigador do Centro de Estudos de Ciências Médicas (ToxOmics), da Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa, defende que as farmacêuticas devem apoiar a investigação e que a nano-medicina é uma aposta de futuro.

© André Luís Alves / Global Imagens

É um dos autores do estudo “Facts and Figures on Materials Science and Nanotechnology Progress and Investment”, sobre a eficácia dos nano-produtos. Como funcionam?
No caso dos tumores, conseguimos colocar nas células cancerígenas uma série de nano-materiais que nos ajudam a que os fármacos sejam mais eficazes, ao mesmo tempo que se poupa as células normais, o que não acontece na quimioterapia. Através da nanotecnologia, podemos colocar todo o tipo de bio-moléculas para que os fármacos não sejam descartados tão facilmente pelo nosso organismo ou transportados para outras células que não estejam doentes.

Significa que essas terapias são mais eficazes para as células cancerígenas sendo menos agressivas para as células normais?
É uma das grandes vantagens. Nos tumores cerebrais, com a quimioterapia, o fármaco é injectado e só uma pequena parte chega ao local, na ordem dos 5% a 10%. Vai acumular-se em outros órgãos, nos rins, fígado, etc. Nestas aplicações não há dispersão, produz menos toxicidade, menos efeitos secundários.

© André Luís Alves / Global Imagens

Qual é a terapia que desenvolve na empresa da qual é co-fundador, a TargTex, criada há dois anos?
Estamos a desenvolver implantes para tratar tumores cerebrais. Estes são muito difíceis de tratar porque, muitas vezes, a quimioterapia e os fármacos injectados na circulação não chegam ao cérebro. Este tem uma espécie de membrana que não deixa entrar uma série de substâncias, ainda bem porque não passam bactérias e vírus mas, por outro lado, impede a entrada dos fármacos. Estamos a desenvolver um gel que é aplicado directamente no cérebro e que difunde qualquer molécula terapêutica, permite-nos ter uma concentração mais elevada do fármaco e é direccionado. É uma medicina de precisão.

É uma espécie de autoestrada da terapêutica, vai mais depressa e directamente ao destino.

É um pouco isso. Conseguimos pôr mais concentração do fármaco num espaço pequeno e, se fosse injectado, a maior parte seria descartada pelo organismo. Fazemos isto para evitar a cirurgia para retirar o tumor e assim não provocamos danos no tecido cerebral.

Esse medicamento já é utilizado?
Descobrimos um novo fármaco que nunca tinha sido utilizado em tumores cerebrais, os glioblastomas, que são mais agressivos (12 a 15 meses de vida), mas que tem uma eficácia superior ao fármaco que é utilizado na quimioterapia que é pouco eficiente, ronda os 20% a 30 %.

Os investigadores são todos portugueses?
A empresa é portuguesa, conseguimos um financiamento da Portugal Ventures de cerca de 2 milhões de euros. Mas a base do estudo envolve investigadores de muitos outros países, EUA, Alemanha, Suíça, Espanha. Levámos cinco anos até chegar aqui. Primeiro, tivemos de descobrir um novo fármaco para tumores cerebrais e compará-lo com os usados, o que se fez através de um algoritmo de inteligência artificial para ver as bases de moléculas terapêuticas que se podem ligar a novos alvos nas células

A Moderna e a Pfizer utilizam esse tipo de partículas, quais são as vantagens em relação à AstraZeneca e à Johnson & Johnson?
Usam nano-partículas, que são muito mais inertes do que os vírus. E, como são feitas com lípidos (e colesterol), dos mesmos materiais que as células, fundem-se com as nossas membranas muito mais facilmente e de uma forma muito mais natural do que os vírus, que são mais agressivos. Além de que essas duas vacinas usam o ARN mensageiro em vez do ADN, que é um subproduto do ADN, e que leva a célula a produzir proteínas virais.

Daí se ter chegado mais facilmente a uma vacina?
Exactamente, nós já utilizávamos estes tipos de nano-partículas e a tecnologia do ARN, que estava a ser desenvolvida para tumores, por nós e outros grupos, principalmente do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts].

Também explica terem uma eficácia mais elevada, acima dos 90%?
A AstraZeneca e a Johnson & Johnson utilizam adenovírus, como as vacinas da gripe, com uma eficácia na ordem dos 60%. O vírus tem de ultrapassar o núcleo da célula e depositar o ADN, depois o ADN é transformado em ARN e este em proteínas virais. O ARN mensageiro já não precisa de ir ao núcleo, fica dentro da célula e faz logo a transformação para a proteína viral, é muito mais rápido.

Já foi vacinado?
Já, com a Pfizer.

Se pudesse escolher, o que faria?
Escolhia a Pfizer ou a Moderna porque confio mais na tecnologia, sei que é mais eficiente. Mas aceitava qualquer uma das quatro aprovadas pela Agência Europeia de Medicamentos. Têm dados publicados.

Concorda em que se avance para a terceira dose da vacina?
Não sou da área da virologia, mas o que sabemos é que estas quatro vacinas estão a ser eficientes, as mortes e as hospitalizações reduziram drasticamente em relação às outras vagas. O que não sabemos é por quanto tempo o nosso sistema imunitário vai ter esta memória para prevenir a infecção e os casos mais graves da doença. Vamos ser infectados, o ideal é que o vírus da doença não se consiga multiplicar, mas só vamos saber com o tempo. Em alguns casos, talvez seja preciso a terceira dose, mas antes há um grande problema para resolver.

A solidariedade para com os milhões que não levaram a vacina…
Não é só um problema de solidariedade, é sobretudo de saúde pública. Mais de metade do mundo não tem acesso à vacina, esses países serão verdadeiras incubadoras deste vírus e novas variantes poderão surgir. Estávamos em confinamento e a variante inglesa chegou, a variante indiana chegou.

Porque é que demoraram a descobrir esses tratamentos?
A nanotecnologia surgiu há vários anos mas só nos últimos 15 é que se tem investido muito e mais na saúde, está presente em outras áreas.

Fala em mais de 3 mil produtos.
A nanotecnologia está envolvida em electrónica, cosmética, construção, agricultura, indústria têxtil, saúde, em várias áreas, com o predomínio na electrónica e na saúde.

Já está a ser utilizada em algum tratamento do cancro?
Ainda não está a ser usada na parte clínica. Os produtos têm de passar os ensaios clínicos e é o que tencionamos fazer nos tumores cerebrais. O problema é que o ensaio de fase 2, por exemplo, pode custar 15 milhões de euros, e é preciso o apoio de grandes farmacêuticas.

Seriam os primeiros a aplicar essa tecnologia?
Para tumores cerebrais e com este gel, sim. O grupo do professor Robert Langer, um dos colaboradores no artigo sobre o investimento em nanotecnologia, usou uma espécie de pastilhas que seriam colocadas no cérebro. Só que, como eram um modelo muito rígido, tinha pouca eficiência, na ordem dos 40%. O nosso gel adapta-se ao tecido e tem uma eficácia de 90%. É bio-degradável e, à medida que se degrada, vai libertando o fármaco.

O que é que falta para avançar?
Temos de aplicar a técnica em modelos de animais mais complexos, porcos, coelhos, para entrar na fase 1, quando se avalia a toxicidade, os efeitos secundários. Segue-se a fase 2: testar a eficiência.

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Esse gel também está a ser investigado pelo seu grupo do CEDOC?
Sim, mais para o cancro da mama e do cólon.

Quando prevê que essa terapêutica chegue aos doentes?
Os ensaios pré-clínicos e clínicos podem demorar dois a quatro anos. Com as vacinas, vimos isto acontecer em tempo real porque se investiu muito dinheiro, muitos recursos humanos e em infra-estruturas.

E quando refere o que se passa em Portugal fala à escala global?
Colaboramos com grupos de todo o mundo, é uma rede de mais de 200 pessoas, não faz muito sentido falar só em Portugal. Os melhores projectos são os que envolvem muitos grupos, investigadores com diferentes valências e experiências.

O que significa que o facto de Portugal investir menos em nanotecnologia não é um problema.
Podemos ter sempre acesso a essas investigações desde que tenhamos essa visão de colaboração. Mas não estamos muito mal, estamos a meio da tabela, tem-se investido muito nos últimos dez a 15 anos. O grande problema do investimento na ciência em Portugal é o facto de não haver um financiamento certo, dependendo muito de bolsas e projectos e que, muitas vezes, são recusados.

Quem investe mais?
Os EUA e a China lideram. Os EUA lideram na investigação e na indústria, como a Inglaterra, a Alemanha, a Suíça e a França. Ao nível de trabalhos publicados, Portugal não está mal. Há cada vez mais grupos e que trouxeram financiamento, eu próprio ganhei há dois anos 1,5 milhões de euros para um projecto com gel para tumores da mama. E tem-se investido em institutos.

A ligação à indústria é o caminho?
É cada vez mais importante. A indústria farmacêutica investe pouco nos investigadores. Nos EUA, as farmacêuticas financiam a investigação para fazer os seus produtos, 80% do dinheiro vem da indústria. Em Portugal, as grandes farmacêuticas estão cá para vender os produtos e não para investir na investigação. É pena, primeiro porque somos considerados dos melhores investigadores do mundo; segundo, temos uma mão-de-obra que não é assim tão cara.

Criou uma empresa, já é uma tendência no país?
Temos sempre de ir atrás de todo o tipo de financiamento, É essencial que os investigadores procurem a indústria farmacêutica, até para perceberem quais são as suas necessidades. Muitas vezes, só querem fazer investigação mais básica e fundamental e esquecem-se das necessidades da indústria.

Essa mentalidade está a mudar?
Está a mudar com os novos investigadores, que também estiveram fora. No MIT ouvia: “Vamos falar com os médicos para saber o que precisam para tratar os doentes.” E voltávamos ao laboratório para desenvolver produtos para eles.

Qual o impacto da pandemia no futuro da nanotecnologia?
A pandemia veio desmistificar o uso de nano-materiais nos humanos. Temos centenas de milhões de pessoas vacinadas com o uso de nano-partículas que transportam o ARN viral e isto prova que, quando foi precisa, a nano-medicina respondeu mais rapidamente do que outras áreas da saúde. Vai levar a um boom na área da nanotecnologia.

Diário de Notícias
Céu Neves
26 Agosto 2021 — 00:13

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977: Do fundo do mar, uma luz de esperança contra o cancro

SAÚDE/CANCRO/QUIMIOLUMINESCÊNCIA

Quimioluminescência é o fenómeno que leva vários organismos vivos a emitir luz. Luís Pinto da Silva, bioquímico da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, está a investigar uma forma de transformar essa energia numa arma de combate a vários tipos de cancro

Investigador Luís Pinto da Silva
© Pedro Correia / Global Imagens

Pode o segredo da cura para o cancro (ou para alguns tipos de cancro, pelo menos) ser uma luz vinda do fundo do mar? Essa é uma hipótese que está a ser explorada pelo investigador Luís Pinto da Silva e pela sua equipa na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). Este bioquímico está a aplicar os princípios da quimioluminescência associada a animais que costumam habitar as profundezas marítimas, como as anémonas, para produzir um composto capaz de matar as células tumorais sem danificar as células saudáveis em volta. Até agora, os resultados dos testes in vitro têm-se revelado promissores.

Comecemos pelo “palavrão”: quimioluminescência. Mais não é do que “uma reacção química que gera energia em forma de luz”, explica Luís Pinto da Silva. Uma capacidade que também está presente “em vários organismos vivos” e que associamos, por exemplo, de forma mais comum aos pirilampos, capazes de brilhar no escuro. Não são os únicos, contudo. “Há uma percentagem muito alta de espécies marinhas capazes dessa luminescência, bio ou quimio. Existe em muitas anémonas, tubarões, bactérias e também em muitos peixes que habitam o chamado deep sea (mar profundo)”, refere o investigador da FCUP e do Centro de Investigação Química da Universidade do Porto (CIQUP).

Ora, refira-se que a quimioluminescência é uma ferramenta “já muito utilizada em biologia molecular, para monitorizar a expressão de genes”. Como tem “uma sensibilidade muito apurada”, é bastante utilizada em bio-imagem. Ou seja, “mediante a emissão de luz pode ver-se a ocorrência ou não de alguns processos, como expressão de genes ou anticorpos” no organismo. Tem sido, por exemplo, aplicada recentemente em alguns dos testes feitos para a detecção de anticorpos contra o SARS-Cov-2.

Aqui, no projecto de investigação liderado por Luís Pinto da Silva, as propriedades quimioluminescentes são utilizadas para a formação de um composto (fármaco) que reage à presença de marcadores tumorais (ou seja, genes ou moléculas que são identificados como sinais de existência de um tumor) libertando energia não em forma de luz, mas em forma de espécies reactivas de oxigénio que vão atacar e destruir as células com cancro. No fundo, é como uma pequena alteração no código de programação dessa molécula, chamada coelenterazina.

“O que fizemos foi basearmo-nos numa molécula que está presente, por exemplo, nas anémonas, mas também em várias outras espécies marinhas, e modificá-la. Essas moléculas são activadas por um marcador tumoral, isto é, uma espécie que está mais expressa, ou sobre-produzida, nas células tumorais. E o que fizemos foi alterar a molécula de forma a que, quando for activada e gerar essa reacção quimioluminescente, ela liberte energia mas não sob forma de luz. A energia passa a ser usada para converter o oxigénio presente nas células em espécies reactivas de oxigénio, que são capazes de destruir os tumores”, explica o DN o investigador.

“Quimioluminescência mais não é do que uma reacção química que gera energia em forma de luz. Há uma percentagem muito alta de espécies marinhas capazes dessa luminescência.”

Os organismos expostos ao oxigénio, como são os humanos, produzem espécies reactivas de oxigénio no seu metabolismo normal. Estas são normalmente poderosos agentes oxidantes com capacidade para danificar vários tipos de estrutura celular. Essas espécies reactivas de oxigénio “têm um poder oxidante elevado” e dentro da célula podem começar a reagir com bio-moléculas e oxidam-nas. “No fundo, vão alterá-las e degradá-las de modo a que o metabolismo celular fique alterado e seja destruído. Ou seja, vão destruindo os componentes da célula, fazendo com que ela deixe de funcionar”, acrescenta.

Assim, o que a equipa liderada por Luís Pinto da Silva faz é modificar a forma dessa molécula se expressar. “Esta molécula tem várias formas de expressar a energia. A sua forma natural é a emissão de luz, mas nós, digamos, obrigamo-la a mudar de faixa, para outro caminho, e converter energia de outra forma. É uma alteração estrutural que leva a que ela reaja de uma maneira diferente”, reforça o cientista, que viu o seu projecto, designado de ChemiTumorTher, receber um financiamento de 250 mil euros da Fundação Para a Ciência e Tecnologia (FCT) para os próximos três anos.

Investigador Luís Pinto da Silva
© Pedro Correia / Global Imagens

A molécula bioluminescente mais presente na vida marinha

O factor-chave neste projecto é então a coelenterazina, “a molécula bioluminescente mais prevalecente na vida marinha” e presente em muitas espécies marinhas, como as anémonas. A coelenterazina é designada como uma luciferina e reage a enzimas luciferase. Estas causam a oxidação da molécula, o que por seu turno desencadeia o fenómeno de luminescência.
A molécula foi descoberta, em meados da década de 1970, por duas equipas diferentes de investigadores: Milton J. Cormier et al. na Universidade da Geórgia (Atenas) e Osamu Shimamura e Frank Johnson na Universidade de Princeton (NJ), através do estudo de duas espécies pertencentes à família filo cnidaria: a Renilla reniformis (amor-perfeito do mar) e a Aequorea victoria (gelatina de cristal). Shimamura acabou por ganhar um Prémio Nobel da Química em 2008.

Mas as propriedades desta molécula acabaram por revelar um espectro mais amplo, que levaram à sua escolha por parte de Luís Pinto da Silva e da sua equipa. A aposta do cientista famalicense, de 33 anos, na coelenterazina presente nas anémonas deve-se aqui à capacidade desta para reagir também à presença de um marcador tumoral específico, o que permite abrir novas vias na procura de uma terapia eficaz no combate a diferentes tipos de cancro.

“O que fizemos foi basear-nos numa molécula que está presente, por exemplo, nas anémonas e que é activada por marcadores tumorais.”

O interesse do investigador na quimioluminescência já é antigo, pelo menos desde o doutoramento, que dedicou a “tentar perceber como é que esses organismos emitem luz”. O bioquímico focou-se, na altura, no pirilampo e em perceber todos os mecanismos químicos que explicam a sua luminescência. Era uma “investigação mais fundamental, a estudar o funcionamento destes sistemas”, mas foi esse trabalho que lhe deu “as bases para perceber como poder manipular alguns mecanismos”, um estudo essencial para agora tentar colocar a coelenterazina no epicentro de uma terapia revolucionária contra o cancro. “Quando acabei o doutoramento, em 2016, a ideia foi aproveitar esse conhecimento de muitos anos e tentar aplicá-lo. Foi aí que surgiu esta ideia para o aplicar no tratamento do cancro”, recorda.

“Além de poderem manifestar luminescência em reacção a uma enzima que as catalisa, essas moléculas das anémonas conseguem emitir luminescência por outra via, quando entram em contacto com uma espécie oxidante que se chama anião super-óxido, o qual é um marcador tumoral”, diz o investigador.

Ou seja, “a coelenterazina tem a vantagem de não precisar de uma enzima nem de outro auxiliar qualquer para ser activada. Só precisa do marcador tumoral, o tal anião super-óxido. Como este anião está geralmente sobre-expresso em células tumorais, o que nós então formulámos foi: se esta molécula já tem potencial para ser activada selectivamente em tumores, na presença do anião super-óxido, vamos tentar modificá-la para que em vez de gerar luz, essa reacção química possa traduzir-se na produção de oxigénio singuleto, uma espécie reactiva de oxigénio mais forte do que o anião super-óxido e que vai destruir o tumor”, descreve o bioquímico, apontando outra importante vantagem da coelenterazina. “Estas moléculas parecem ter potencial para tratar vários tumores sem afectar tecidos saudáveis, o que é algo bastante importante para reduzir potenciais efeitos secundários no tratamento, que são sempre uma das principais preocupações”, sublinha Luís Pinto da Silva.

Vantagens sobre a terapia foto-dinâmica

A destruição de células tumorais por espécies reativas de oxigénio não é, em si, a novidade neste projecto. Já há um tratamento específico que faz isso, a terapia foto-dinâmica (PTD, na sigla inglesa), “que é basicamente um composto inactivo ao qual é adicionado luz para activar esse fármaco no paciente, num local específico”. “Esse fármaco, ao absorver a luz, produz essas espécies reactivas que vão destruir os tumores”, explica o cientista da FCUP.

De facto, desde a década de 1960 que vários estudos detalharam os processos de geração e consumo de oxigénio singuleto em organismos vivos, levando a uma aplicação cada vez mais crescente desta molécula em terapias de tratamento de cancro, como acontece na terapia foto-dinâmica. Mas a terapia foto-dinâmica tem limitações, pois tradicionalmente só é possível tratar pequenos tumores localizados e muito próximos da superfície da pele, já que a luz usada na PTD só pode penetrar até um centímetro de pele. Logo, não é utilizável em casos de cancros mais avançados e metastizados, lembra o cientista.

“Conseguimos alterar a molécula de forma que, quando for activada e gerar essa reacção quimioluminescente, ela liberte energia, mas não sob forma de luz.”

Com o composto que está a ser testado pela equipa de Luís Pinto da Silva, a terapia poderá ficar acessível a um maior número de pacientes e ser aplicada a diferentes tipos de cancro, já que a coelenterazina não vai precisar de luz para ser activada, mas apenas do tal anião super-óxido que não só assinala a presença de uma célula tumoral como vai desencadear a reacção química necessária para levar a molécula a produzir o oxigénio singuleto. “Dessa forma, será possível superar as limitações da terapia foto-dinâmica”, expõe o investigador.

Os investigadores modificaram a coelenterazina, natural e não tóxica, e produzem-na actualmente em laboratório. O objectivo é a produção de um composto que possa actuar localmente nas células afectadas. Em ensaios laboratoriais realizados na Faculdade de Farmácia e na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, o potencial fármaco tem revelado boa eficácia em diferentes células tumorais: do neuroblastoma aos cancros da mama, próstata e cólon. Numa primeira fase, num outro projecto também financiado pela FCT, os investigadores desenvolveram oito moléculas candidatas a partir da alteração da coelenterazina.

Depois de terem concluído com sucesso os primeiros passos – design e síntese das moléculas e avaliação in vitro -, seguem-se novos desafios. “Já demonstrámos a prova de conceito, neste momento estamos na fase de optimização da sua actividade tumoral, de testar em linhas celulares quais serão os melhores compostos perante os diferentes tipos de cancro, e depois passaremos para ensaios em animais”, projecta o cientista, apontando “provavelmente para o próximo ano” o avanço do projecto para testes em ratinhos (o modelo animal). “Neste momento estamos na fase de optimização dos compostos e selecção dos mais promissores através de ensaios em linhas celulares, para depois podermos passar então para os ensaios animais e comprovar os resultados com testes em ratinhos com vários tipos de cancro.”

Investigador Luís Pinto da Silva
© Pedro Correia / Global Imagens

Um fármaco, uma patente e uma start-up

A ideia, reforça Luís Pinto da Silva, “é que a molécula seja internalizada dentro das células tumorais e dentro da célula ela reaja perante a presença em excesso do anião super-óxido”. Para já, ainda é cedo para determinar se a administração ao paciente poderá ser por via oral ou via intravenosa. “Ainda estamos em fase precoce. Geralmente um fármaco demora uns 10 anos a passar todas as fases e são precisos uns milhões de euros para os ensaios clínicos (em humanos).” A ambição depende de parcerias e “avultados investimentos”. Mas no horizonte está também a criação de uma start-up para o desenvolvimento de ensaios clínicos.

Além do financiamento da FCT, o projecto de Luís Pinto da Silva, que se designa Chemi-Tumor, contou já com o apoio dos programas HiTech One e HiTech Two, da HiSeedTech, uma associação que faz a interligação entre projectos de investigação e as necessidades do mercado e das empresas privadas, e tem também um pedido de patente em análise.

“A energia passa a ser usada para converter o oxigénio presente nas células em espécies reactivas de oxigénio, que são capazes de destruir os tumores.”

Este bioquímico de Famalicão, que adquiriu o gosto pela investigação durante a licenciatura na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, quando começou a querer perceber os mecanismos da quimioluminescência, está também envolvido em outras linhas de investigação noutras áreas, algumas em colaboração com a indústria de compósitos de madeira, por exemplo, onde faz parte de uma equipa cujos estudos permitiram a concepção de materiais mais sustentáveis e produtores de energia verde, contribuindo para maior eficiência energética.

Além da quimioluminescência, as suas áreas de interesse na investigação estendem-se a outros domínios, como o desenvolvimento de nano-materiais sustentáveis, o estudo do papel de aerossóis nas alterações climáticas ou a composição química e actividade antioxidante de fungos – como, por exemplo, os cogumelos silvestres comestíveis Armillaria mellea e Macrolepiota procera (presentes em Marrocos e Portugal), ou os Lactarius sanguifluus, cogumelos que fazem parte do diversificado património micológico da floresta Koudiat Taifour (um local de interesse biológico e ecológico na região norte de Marrocos) e cujo valor nutricional faz deles antioxidantes naturais e agentes anti-microbianos úteis na preservação de alimentos e da saúde humana.

Mas este projecto de aplicação da quimioluminescência em terapias contra o cancro é especialmente impactante pelo grande potencial de translação para a prática clínica, “abrindo portas a uma terapia que poderá ficar acessível a um grande número de pacientes com cancro.” Neste caso, a luz que se acende chama-se esperança.

rui.frias@dn.pt

Este texto faz parte de uma série de reportagens sobre ciência que o DN publica em Agosto.

Diário de Notícias
Rui Frias
08 Agosto 2021 — 00:03

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918: Retirados do mercado gelados e queijos de barrar com goma de alfarroba contaminada

SAÚDE/ALIMENTAÇÃO/CONTAMINAÇÃO

A directora de Serviços de Nutrição e Alimentação da DGAV explicou que os lotes de goma de alfarroba contaminada com um pesticida cancerígeno estão todos identificados

© Monica Schipper / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP

As autoridades portuguesas já identificaram e retiraram do mercado nacional gelados e queijos para barrar produzidos com lotes de goma de alfarroba contaminada com um pesticida cancerígeno, revelou fonte da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).

Em declarações à Lusa, a directora de Serviços de Nutrição e Alimentação da DGAV, Ana Paula Bico, explicou que os lotes de goma de alfarroba contaminada estão todos identificados, que os operadores estão “a colaborar activamente” e que as autoridades competentes estão a verificar o cumprimento das medidas de retirada e recolha impostas.

“Alguns [dos produtos] nem sequer foram produzidos em Portugal. Estão distribuídos pelo Norte e pelo Sul, os lotes estão todos identificados, já foram retirados. A rastreabilidade está a funcionar” afirmou Ana Paula Bico, sublinhando: “nem toda a goma de alfarroba está contaminada”.

A responsável acrescentou que a goma de alfarroba é um aditivo autorizado em muitos alimentos como estabilizante ou espessante e aconselhou os consumidores a verificarem a lista de ingredientes dos produtos, onde os aditivos estão classificados pela sua função tecnológica (estabilizante ou espessante) e são indicados ou por escrito (goma de alfarroba) ou com o número (E410), e a contactar os locais de compra.

“As grandes cadeias de distribuição, nas campanhas de fidelização dos clientes, sabem exactamente o que o cliente comprou e não nos é estranho receber uma mensagem no telemóvel a dizer ‘comprou uma lasanha que tinha um alergénio não identificado, caso tenha algum problema venha ter connosco'”, acrescentou a responsável, frisando que “pelo menos há dois anos” que a grande distribuição faz esses contactos com os seus clientes.

Ana Paula Bico disse ainda que a DGAV está “a todo o momento a receber informações de toda a Europa sobre lotes que estão a ser identificados para serem retirados”, um processo que deverá ainda levar mais dois ou três dias.

Goma de alfarroba contaminada com pesticida cancerígeno. Produtos devem ser retiradosALERTA
Goma de alfarroba contaminada com pesticida cancerígeno. Produtos devem ser retirados

 

A DGAV tinha alertado hoje, em comunicado, para a possibilidade de existência no mercado nacional de alguns géneros alimentícios, como gelados, com goma de alfarroba contaminada com um pesticida cancerígeno que representa um grave risco para a saúde.

Nessa nota, explicava que tinham sido identificados, em Junho, e notificados através do sistema de Rapid Alert System for Food and Feed (RASFF), alguns géneros alimentícios produzidos com goma de alfarroba (aditivo alimentar E 410) contaminada com óxido de etileno.

Segundo a DGAV, o óxido de etileno é um pesticida não autorizado que “constitui um risco grave para a saúde humana”, uma vez que “está classificado como mutagénico da categoria 1B, cancerígeno da categoria 1B e tóxico para a reprodução da categoria 1B”.

Tendo em consideração os seus efeitos para a saúde, os estados-membros concluíram que, para os produtos que contêm o aditivo E 410 contaminado com o óxido de etileno, “não é possível definir um nível seguro de exposição para os consumidores”, o que significa que a exposição a qualquer teor representa um potencial risco, acrescentava.

Diário de Notícias
DN/Lusa
22 Julho 2021 — 14:19

Eu gostava de saber é se esta goma de alfarroba, que faz parte de gelados TEMPTATION, vendidos no Minipreço, pertencem à mesma classe cancerígena mencionada no artigo acima. É que a CARRAGENINA (E-407), DEVE SER EVITADA.[/aviso]

O que é a Carragenina (E-407) ?

A Carragenina ou Carragena é feita a partir de extractos de algas vermelhas. É usada como:

  •  estabilizante (especialmente em produtos com leite por reagir com as proteínas)
  • espessante e gelificante, produzindo uma amplas variedade de texturas de gel à temperatura ambiente, podendo ser encontrado em produtos com água ou em margarinas para dar efeito de viscosidade;
  • agente de suspensão e de retenção de água;
  • emulsificante (mantém líquidos unidos);
  • clarificante (em bebidas);
  • ou substituto vegetariano ou vegan de gelatinas de origem animal.

Porque evitar a Carragenina?

“Existem dois tipos de carragenina, a degradada (com baixo peso molecular) e a não degradada (com alto peso molecular). A versão não degradada é aprovada para uso em produtos alimentares, enquanto a degradada é um conhecido agente cancerígeno. O problema é que a carragena alimentar (não degradada) também traz uma série de problemas ao organismo, como mostram diversos estudos científicos. Ela pode ser degradada durante o processamento do alimento ou já vir contaminada pelas pequenas moléculas da carragena degradada.” Dra. Tamara Mazaracki in http://benvenutri.blogspot.pt/2016/06/carragena.html

A carragenina alimentar não é digerível, nem tem valor nutricional. As células intestinais absorvem-na facilmente, mas como não a conseguem metabolizar, esta vai-se aí acumulando, podendo levar à destruição da célula e ulceração.

Historial de Contras da Carragenina:

  • Co-factor na produção de lesões cancerosas.
  • Tem um efeito inflamatório no organismo, principalmente na mucosa intestinal, onde produz ulcerações que se assemelham à colite ulcerativa. Está associada a problemas gastro-intestinais, resistência insulínica, diabetes, lesões e até úlceras.
  • Potencia o desenvolvimento de inflamação crónica, a qual é a causa inicial de muitas moléstias graves, incluindo doenças cardíacas, Alzheimer, Parkinson e cancro.

Existem diversos estudos de laboratório que comprovaram que o uso de carragenina em animais acarretou cancro, micro perdas de sangue na urina, dificuldades de crescimento, intolerância à glicose e resistência à insulina.

Então se acontece nos animais, que têm órgãos como nós, será conveniente evitar o consumo de carragenina, uma vez que não é nutritiva e apenas serve para a indústria alimentícia conseguir produtos com maior durabilidade nas prateleiras dos supermercados de uma forma mais económica.

Todavia há alegações de que a Carragenina é inofensiva (ver aqui). Porém, dada a extensa informação contrária, mantenho as minhas reservas e prefiro não a consumir, escolhendo produtos cuja composição seja o mais natural e simples possível.

(Esta substância é muito comum nas natas/creme de leite, por tal convém ler sempre os ingredientes).

In: https://arquetipicocozinhainusitada.wordpress.com/2017/09/14/o-que-e-carragenina-porque-evita-la/

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910: Parkinson, Cancro e Diabetes Tipo 2 têm uma causa em comum

SAÚDE/CANCRO/DIABETES/PARKINSON

Torsten Wittmann / Universidade da California
As mitocôndrias geram energia nas células

O papel da proteína Parkin no processo da mitofagia pode ser a chave no tratamento do Parkinson, cancro e diabetes tipo 2.

Há um elemento em comum que causa cancro, Parkinson e diabetes tipo 2: uma enzima. Quando as células estão sob stress, aciona-se uma proteína chamada Parkin que protege a mitocôndria, a parte da célula que gera energia.

Um estudo publicado este ano na Science Advances descobriu uma ligação entre o sensor do stress das células e a Parkin que está também associada à diabetes tipo 2 e ao cancro, o que pode abrir um caminho para tratar estas doenças.

O papel da Parkin é facilitar o processo da mitofagia, ou seja, desobstruir as mitocôndrias que tenham sido danificadas pelo stress celular para que novas as possam substituir. Quando se sofre de Parkinson, a proteína não é capaz de concluir a mitofagia.

Apesar de já se saber há algum tempo que a Parkin detecta o stress das mitocôndrias, ninguém sabia exactamente como este processo começava. A Parkin dirigia-se para as mitocôndrias depois dos danos, mas não se sabia qual era o sinal que a proteína recebia depois de chegar lá.

“As nossas descobertas representam de longe o passo mais inicial na resposta da Parkin que alguém já conseguiu encontrar até agora. Todos os outros eventos bioquímicos acontecem numa hora, nós encontramos algo que acontece em cinco minutos“, explica Reuben Shaw, professor e director do Centro de Cancro do Instituto de Salk e autor do estudo, à Sci Tech Daily.

“Descodificar este passo importante na forma como as células descartam mitocôndrias danificadas tem implicações em várias doenças”, acrescenta o investigador.

O laboratório de Reuben Shaw, conhecido pelos trabalhos sobre metabolismo e cancro, descobriu há 10 anos uma enzima, AMPK, que é altamente sensível a vários tipos de stress celular e que controla a autofagia ao activar uma outra enzima chamada ULK1.

Depois dessa descoberta, Shaw juntou-se à estudante Portia Lombardo para procurar proteínas relacionadas com a autofagia e directamente activadas pela ULK1 e ficaram surpreendidos quando a Parkin surgiu no topo da lista. Os processos bioquímicos envolvem normalmente muitos participantes, no entanto, a mitofagia é iniciada apenas com três, a AMPK, a ULK1 e a Parkin.

O novo estudo começa agora a explicar este primeiro passo importante na activação da proteína, que começa com um sinal da AMPK até à ULK1 e que depois ordena a Parkin para ir verificar a mitocôndria depois dos primeiros danos e removê-la completamente.

A AMPK é activada por uma proteína LKB1 que está associada a vários tipos de cancro e também por um medicamento para a diabetes tipo 2 chamado metformina. Doentes diabéticos que tomam metformina também têm menos risco de desenvolver cancro e este medicamento está também a ser estudado como uma opção para tratar o envelhecimento neuro-degenerativo.

“A grande conclusão para mim é que o metabolismo e as mudanças na saúde das mitocôndrias são fundamentais no cancro, na diabetes e nas doenças neuro-degenerativas. Isto porque os mecanismos gerais que sustentam a saúde das nossas células estão muito mais integrados do que alguém poderia ter imaginado“, conclui Reuben Shaw.

AP, ZAP //

Por ZAP
23 Julho, 2021

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881: Doentes com cancro e infectados com SARS CoV-2 produzem anticorpos contra o vírus

SAÚDE/COVID-19/CANCRO

Médicos do Hospital de Santa Maria e cientistas do Instituto de Medicina Molecular estudaram 72 pacientes internados com covid e descobriram que os doentes oncológicos também criam anticorpos contra o vírus, independentemente da gravidade da doença base. O estudo já foi publicado na revista The Oncologist.

A equipa: os médicos internos,Miguel Esperança Martins (à dir.) e Pedro Gaspar (à esq.),Catarina Mota e Marc Veldhoen (atrás), no Serviço de Medicina Interna, onde tudo começou.
© Gerardo Santos Global Imagens

O SARS-CoV-2 invadiu o mundo no final de 2019 a partir da província de Wuhan, na China. E a 11 de Março a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciava o que mais se temia: uma pandemia. Nessa altura, Portugal começava a registar os primeiros casos de infecção e os hospitais organizavam-se para abrir portas e tratar uma infecção sobre a qual muito pouco se sabia.

No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o Serviço de Medicina Interna, mais especificamente a enfermaria 2-A, organizou-se e preparou-se para receber só este tipo de doentes. Um ano depois, continua a fazê-lo, mas a equipa médica soube, assim que chegaram os primeiros casos, que além de os tratar haveria algo mais a fazer. “Era nossa obrigação contribuir com investigação clínica e dar o nosso contributo científico no âmbito da infecção SARS-CoV-2”, afirma Catarina Mota, a especialista em Medicina Interna que ajudou a montar o projecto levado a cabo por uma equipa de médicos do Hospital de Santa de Maria e de cientistas do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM). Um trabalho que já deu resultados – foi publicado recentemente na revista científica The Oncologist – e que teve como missão avaliar a reacção de doentes oncológicos à infecção por SARS-CoV-2.

O objectivo era obter resultados que pudessem sustentar as decisões clínicas dos oncologistas. O que conseguiram, também graças à parceria com a ciência, a qual também só é possível por “a nossa instituição estar integrada no Centro Académico de Medicina de Lisboa, que estimula a formação clínica e a investigação. Portanto, quando começámos a ver estes doentes, a tratá-los e a acompanhá-los, sentimos que havia algo a fazer e numa colaboração mais estreita com a investigação científica, pois sabemos que é esta relação entre prática clínica e ciência que nos permitirá, no futuro, prestar melhores cuidados de saúde”, refere Catarina Mota.

A partir daqui, e talvez porque a especialidade de medicina interna tem como característica “uma grande abrangência de conhecimentos e uma visão mais global, multidisciplinar e integrada do doente”, como a define Catarina Mota, muito havia a fazer, quer no combate ao vírus, na forma de lidar com ele, quer no impacto que este estava a ter nos infectados, fossem eles doentes saudáveis, crónicos ou oncológicos.

O envolvimento dos internistas na abordagem e tratamento à infecção por SARS-CoV-2 era já grande deste ponto de vista e desde o início da pandemia, mas faltava o envolvimento científico para se saber mais. Foi então que surgiu este projecto, que, na verdade, partiu da iniciativa de um dos internos de oncologia médica, a fazer estágio no Serviço de Medicina Interna, Miguel Esperança Martins. Aliás, e como salienta a professora Catarina Mota, “este trabalho deve-se muito a todos os internos, quer de medicina interna quer de oncologia médica”, sublinhando também que, desde o início, o projecto teve o apoio do “director do serviço, António Paz Lacerda, e da coordenadora da unidade, Sandra Brás, que estimularam o empenhamento”. E foi então que começaram os contactos com a equipa de Marc Veldhoen, investigador principal do Laboratório de Regulação do Sistema Imunitário do iMM.

Do biobanco à descoberta

A proposta inicial apontou para a criação de um biobanco, com colheitas de amostras biológicas de doentes com SARS-CoV-2 internados na enfermaria 2-A, e numa altura em que “nem sequer tínhamos um projecto objectivo definido, mas sempre a pensar que futuramente iríamos poder beneficiar das amostras que fossem recolhidas para fazer uma série de estudos importantes que nos permitissem perceber melhor o comportamento da infecção”.

O passo seguinte foi o da intensa revisão da literatura sobre a infecção, o qual, sublinha mais uma vez Catarina Mota, “foi um trabalho para o qual contribuíram, e muito, os internos de medicina interna e de oncologia médica”, tendo sido nesta fase que se identificou haver um grupo de doentes sobre os quais havia muito poucos estudos e literatura que sustentasse a decisão médica: o grupo de doentes com neoplasias. O objectivo da investigação estava traçado.

Depois, foi desenhar o trabalho já em equipa com o iMM, abordar os doentes, para que dessem o seu consentimento, recolher amostras, analisá-las em laboratório e fazer o tratamento de dados. Um ano depois, o resultado está à vista: os doentes oncológicos conseguem produzir anticorpos e defender-se do vírus, independentemente da gravidade da sua doença base. Uma descoberta que todos esperam que já esteja a apoiar a prática clínica em relação a estes doentes, sobretudo quando há que tomar a decisão de iniciar, suspender ou manter as terapêuticas antineoplásicas.

“Foi um desafio enorme. Exigiu um investimento muito grande de tempo, físico, emocional e psicológico, no acompanhamento dos doentes, mas não nos demitimos da nossa obrigação de contribuir para a investigação científica e de tratar melhor os doentes.”

Para a médica internista, “foi um desafio enorme”. “Estávamos perante uma situação inédita, na altura ainda sabíamos menos do que agora do ponto de vista clínico e científico, e a exigência era a de que investigássemos em tempo real. Isto exigiu um investimento muito grande de tempo, físico, emocional e psicológico no tratamento e no acompanhamento destes doentes, mas não nos demitimos da nossa obrigação de dar também o nosso contributo à investigação científica e do nosso objectivo de tratar melhor os doentes.”

E, segundo explicam, esta parceria teve, desde logo, uma vantagem: a criação do biobanco com amostras de doentes com covid-19. “O biobanco existente no iMM tinha apenas amostras de 2013 a 2018 e a recolha de amostras de doentes infectados com SARS-CoV-2 acabou por ser uma das grandes vantagens da parceria entre hospital e iMM, porque estas poderão agora ser utilizadas na resposta a novas questões.”

Equipas de Santa Maria e do iMM estudaram 72 doentes, 19 dos quais com cancro. A maioria era do sexo feminino e com uma idade média de 58 anos.
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Recolha de amostras foi feita desde a admissão até aos cuidados intensivos

É à volta de uma mesa no segundo piso do hospital, no gabinete da coordenadora da unidade para o internamento covid, que a nossa conversa com médicos e cientistas se desenrola. Afinal, foi ali que tudo começou, com a chegada dos doentes. Ao lado de Catarina Mota, os médicos internos de oncologia e de medicina interna Miguel Esperança Martins e Pedro Gaspar, e Marc Veldhoen, o investigador holandês radicado em Portugal, que assumiu a coordenação da investigação científica.

O primeiro, e talvez porque apanhou a pandemia em pleno estágio no Serviço de Medicina Interna, assumiu a coordenação clínica do estudo, desenvolvendo um papel importante no desenho das quatro questões para as quais se procuravam respostas. O segundo, teve igualmente um papel importante, mas na abordagem do doente e na recolha de amostras, já que estava, juntamente com Catarina Mota, na linha da frente no tratamento aos doentes. Mas para um e para outro, este trabalho foi uma experiência fundamental para quem vive a medicina, até porque esta, e nas palavras de Miguel Esperança Martins, “é uma ciência de vasos comunicantes com uma interligação cada vez mais definida entre os investigadores e os clínicos, que são também eles investigadores”.

Foi então que se passou à abordagem do doente, para obter o seu consentimento e à recolha de amostras, de acordo com os critérios de selecção também previamente definidos. “Começámos por seleccionar doentes positivos ao SARS-CoV-2, internados no serviço, mas com alguma heterogeneidade em termos de gravidade clínica”, explica Catarina Mota.

Ou seja, “doentes com sintomas ligeiros e com sintomas mais graves para fazermos a recolha de amostras em dois momentos diferentes, na altura da admissão e ao fim de sete dias, o que nos permitiu ter amostras biológicas de doentes numa fase ligeira da doença e já numa fase gravíssima, porque alguns evoluíram para cuidados intensivos”.

A busca de respostas para quatro questões

Em cima da mesa estavam quatro questões que surgiram pelo “interesse de se estudar mais profundamente a resposta imunológica dos doentes oncológicos ao longo do tempo”, explica Miguel Esperança Martins, primeiro autor do trabalho agora publicado. Em primeiro lugar, “tínhamos que perceber qual era a resposta imune, capacidade de produção de anticorpos, por parte dos doentes oncológicos infectados por SARS-CoV-2.

Em segundo, que correlações poderia haver entre esta resposta ou ausência dela e o tipo de neoplasia e estádio e o cumprimento das terapêuticas, como quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia”, especifica o jovem médico, continuando: “A terceira questão passou por compreender se esta resposta serológica estava relacionada ou não com uma melhor ou pior evolução do doente do ponto de vista clínico”. E, por fim, “a quarta questão assentava na comparação directa entre os níveis de anticorpos dos doentes oncológicos e dos doentes não oncológicos. Havia que perceber se existiam diferenças ou não. E os resultados que obtivemos foram extraordinariamente interessantes”, remata o mesmo.

O estudo envolveu 72 doentes, todos infectados com SARS CoV-2, dos quais 19 eram doentes oncológicos. A colheita de amostras para o Biobanco começou logo a 15 de Março e estendeu-se até 17 de Junho.

Ao fim deste tempo, começou a análise em laboratório pela equipa de Marc Veldhoen de todo o material recolhido pela equipa médica. A conclusão chegou meses depois: “Uma proporção plenamente significativa de doentes oncológicos conseguiram criar uma resposta a nível de produção de anticorpos considerada adequada”, sublinha Miguel Esperança Silva.

“A criação de um biobanco foi uma das grandes vantagens desta parceria, já que o biobanco existente no iMM tinha apenas amostras de 2013 a 2018. A recolha de amostras a doentes com SARS-CoV-2 vai permitir dar resposta a novas questões.”

Ou seja, “cerca de 58% dos doentes oncológicos conseguiram criar anticorpos e defender-se do vírus, independentemente da sua doença oncológica, do tipo de neoplasia e do estádio de gravidade”. No estudo participaram doentes oncológicos com doença precoce, estádio 1 a 2, ou em fase avançada, estádio 3 e 4, e, no que diz respeito à produção de anticorpos, o que se verificou foi que a redução de anticorpos de um doente em fase precoce ou avançada da doença “não foi estatisticamente significativo”. Além disto, “todos os doentes, que foram tratados da mesma forma para o SARS-CoV-2, reagiram bem aos tratamentos”.

Miguel Esperança Martins explica que “o único factor que influenciou a produção de anticorpos foi o cumprimento da quimioterapia nos 14 dias antes da identificação da positividade à infecção”, mas “outro resultado importante em relação à positividade foi o de que, independentemente da capacidade de produção de anticorpos e dos níveis de anticorpos destes doentes, não existiram diferenças na sua evolução clínica, o que é um resultado muito interessante, mas que deve ser interpretada com cautela, atendendo ao facto de termos uma amostra relativamente pequena”.

Em relação aos doentes saudáveis infectados com SARS-CoV-2, que participaram no estudo, verificou-se que “os níveis de anticorpos produzidos por estes doentes eram superiores aos níveis produzidos pelos doentes oncológicos”.

Estas são as quatro conclusões principais deste estudo e à pergunta sobre as implicações que vai ter na prática clínica, Miguel Esperança Martins responde: “O nosso objectivo era dotar os clínicos e os oncologistas de mais uma ferramenta para tomarem decisões a iniciar, suspender ou manter terapêuticas antineoplásicas, especificamente a quimioterapia, em doentes infectados com SARS CoV-2, e a partir deste estudo já o podem fazer de forma sustentada”, diz, reforçando, no entanto, que o facto de “termos encontrado uma correlação entre a quimioterapia nos 14 dias previamente à documentação da positividade da infecção, não significa que desaconselhemos o início ou a manutenção da quimioterapia nestes doentes, pura e simplesmente estamos a adicionar algum corpo de conhecimento ou a sustentar melhor a decisão que os oncologistas têm de tomar neste contexto”.

A equipa de Marc Veldhoen, investigador principal do iMM, analisou as amostras recolhidas pelos médicos e chegou a resultados.
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O doente oncológico é um doente muito frágil, com especificidades muito peculiares e que à fragilidade de base associa-se a da infecção por SARS CoV-2. Portanto, a decisão de iniciar ou de manter a quimioterapia, como a radioterapia ou a imunoterapia, é uma decisão individualizada e de doente para doente”, salienta.

Até este estudo, a decisão de iniciar, suspender ou de manter a quimioterapia era norteada pelo estado clínico do doente, pelos seus estados de fragilidade, pelo risco e benefício de iniciar ou de manter estas terapêuticas. Agora, já há um estudo em tempo real que pode sustentar essa decisão.

Da reacção dos doentes aos cientistas

Uma parte muito importante do estudo foi o envolvimento dos doentes – que estes médicos caracterizam por serem grupos muito homogéneos, quer o dos doentes oncológicos quer o dos não oncológicos, já que a maioria, cerca de 60%, é do sexo feminino e com uma idade média de 58 anos.

“Houve um espírito de colaboração e de altruísmo enorme. As pessoas estavam preocupadas com a sua evolução clínica, mas com um grande espírito de combate a esta pandemia. Por isso, sempre que solicitados para participarem em estudos clínicos e científicos mostraram-se muito disponíveis, o que foi fantástico de ver, até porque houve uma relação muito próxima com estes doentes permitindo que fosse fácil abordar a questão do estudo com eles “, sublinha Catarina Mota.

O médico Pedro Gaspar diz mesmo: “Não houve um único doente que se tivesse recusado a participar no estudo, alguns estavam cansados e não faziam muitas perguntas, mas pediam “façam-me tudo para ficar bom” ou “investiguem-nos para melhorarmos”. Na altura, não tínhamos muitas respostas e foi por isso mesmo que se avançou com o estudo, mas tudo lhes foi explicado.”

Este estudo já deu resultados. Neste momento, já há aprovação da comissão de ética do Centro Académico para expandir a investigação e estudar o efeito da vacinação em combinação com o cancro e o tipo de terapia do doente”.

Do lado dos cientistas, Marc Veldhoen recorda que foi logo em Março de 2020, com o primeiro confinamento e o fecho do iMM, que “começámos a trabalhar na resposta e a perceber a ajuda que, enquanto cientistas, poderíamos prestar ao país e aos nossos colegas, que estavam do outro lado do parque de estacionamento (o parque que separa os dois edifícios, o do Hospital de Santa Maria e o edifício da Faculdade de Medicina, onde se situa o iMM)”. “Enquanto que alguns dos meus colegas começaram a parte do diagnóstico molecular à covid-19, o meu grupo de imunologia, em conjunto com outros cientistas de institutos aqui na região de Lisboa, começou por implementar um protocolo para a realização de testes de serologia. Mas quando o Miguel Esperança Martins nos contactou para este projecto, tínhamos todas as ferramentas para analisar as amostras dos pacientes”, afirma, sublinhado que, no contexto da pandemia, era importante saber se os pacientes com certos tipos de cancro e em tratamento responderiam bem a esta infecção viral e se produziriam anticorpos. “Ao mesmo tempo, era também importante perceber em que condições de tratamento e em que tumores essa resposta era mais fraca”, frisa.

Para o investigador holandês, radicado em Portugal, o impacto dos resultados agora alcançados é o mote para os próximos passos. “Estarmos neste campus, onde temos um hospital universitário, uma faculdade de medicina e um instituto de investigação possibilita este tipo de estudos de forma muito orgânica, já que é raro encontrar-se a possibilidade de estabelecer estas sinergias, permitindo que a investigação mais clínica e a investigação mais fundamental trabalhem lado a lado”.

Este primeiro estudo já deu resultados, mas há há mais questões que estão a ser colocadas e que podem ter um impacto importantíssimo na forma como entendemos esta infecção e a podemos tratar. Neste momento, já exista “a aprovação da comissão de ética do Centro Académico para expandir o estudo e estudar o efeito da vacinação em combinação com o cancro e o tipo de terapia do doente”.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
13 Julho 2021 — 00:30

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637: Comprimido com câmara instalada permite detectar cancro no intestino

 

SAÚDE/CANCRO

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Um comprimido com uma micro-câmara instalada vai ser distribuído pelo Serviço Nacional de Saúde inglês – NHS. O objectivo é detectar doenças intestinais como a doença de Crohn e a presença de possíveis células cancerígenas.

Segundo o Correio da Manhã, o comprimido tem um dispositivo com a capacidade de registar duas fotografias por segundo, enquanto viaja pelo sistema digestivo. Assim, permite os médicos realizar o diagnóstico em poucas horas.

O jornal indica que os especialistas garantem que o comprimido – que custa 500 libras (cerca de 580 euros) – é “muito conveniente e poupa os pacientes de um exame desconfortável”.

Peter Johnson, director clínico do NHS, frisa a importância do novo método. “Nós sabemos que existem pessoas que sofrem os primeiros sintomas, como dores e inchaço no estômago ou sangue nas fezes e não se manifestam”, destaca.

Agora, os novos comprimidos podem ajudar a reduzir os tempos de espera e detectar a doença cedo, altura em que esta é mais fácil de tratar.

No Reino Unido, cerca de 16.600 pessoas morrem de cancro do intestino todos os anos, de acordo com o instituto Cancer Research UK.

Em Portugal, este tipo de cancro é o mais mortal e, com a pandemia, o seu rastreio tem sido ainda mais difícil.

Segundo os dados da United European of Gastroenterology morrem em Portugal, diariamente, uma média de 11 pessoas por cancro colorretal.

ZAP ZAP //

Por ZAP
12 Março, 2021

 

 

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