365: Estudo português dá nova vida a velhos fármacos para combater a covid-19

 

SAÚDE/INVESTIGAÇÃO/COVID-19

O Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (LAQV-REQUIMTE), em colaboração com o Grupo de Investigação 3B”s da Universidade do Minho, acredita que o impacto deste estudo – em que se mostra que a dexametasona pode actuar nas lesões pulmonares dos doentes mais graves com covid-19. Entrevista a Ana Rita Duarte, coordenadora do trabalho.

© Orlando Almeida / Global Imagens

O Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (LAQV-REQUIMTE), em colaboração com o Grupo de Investigação 3B”s da Universidade do Minho, acredita que o impacto deste estudo – em que se mostra que a dexametasona pode actuar nas lesões pulmonares dos doentes mais graves com covid-19 – tem relevância não só em Portugal como a nível mundial. “Em Portugal temo-nos tornado pioneiros no estudo de misturas eutécticas para várias aplicações, entre as quais aplicações biomédicas, e a investigação que se faz é muitíssimo reconhecida a nível internacional”, afirma Ana Rita Duarte, coordenadora do trabalho.

Qual a conclusão deste estudo?
Este estudo, tal como outros que temos vindo a realizar com misturas eutécticas para fins farmacêuticos, tem como objectivo melhorar a disponibilidade dos fármacos actualmente disponíveis. Neste estudo demonstramos que a solubilidade da dexametasona num meio aquoso, como o do nosso organismo, aumenta 65 vezes em relação ao fármaco puro; para além disso a sua permeabilidade duplica.

De que forma?
Ou seja, com esta abordagem podemos dar nova vida a fármacos existentes. Uma das principais desvantagens dos medicamentos é o facto de se dissolverem muito pouco em água, o que faz que seja preciso tomar uma dose muito mais elevada do que a necessária para ter o efeito pretendido, aumentando por consequência os efeitos secundários. Com esta tecnologia podemos aumentar a sua eficácia sem ter que aumentar a concentração tomada pelos pacientes tornando os fármacos mais eficazes e mais seguros. Para além disso usando solventes eutécticos, seguimos uma abordagem muito mais simples do que as formulações típicas para este tipo de medicamentos, reduzindo ao mesmo tempo os custos e o impacto ambiental.

O que é a dexametasona e de que forma pode aumentar a sobrevivência dos doentes (graves) com covid-19?
A dexametasona é um fármaco glucocorticoide, da categoria dos corticosteroides (versão sintética de hormonas produzidas pelas glândulas supra-renais), com elevado poder anti-inflamatório e imunossupressor, que tem indicação em diversas patologias. A patologia covid-19 está associada a lesões pulmonares difusas. Os glucocorticoides, e concretamente a dexametasona, podem modular o processo inflamatório subjacente, diminuindo a extensão dessas lesões e, consequentemente, reduzindo a progressão para insuficiência respiratória e morte. É de salientar que no estudo reportado pela Universidade de Oxford se conclui que a administração da dexametasona reduziu em 35% o risco de morte em doentes ventilados, e em 20% em doentes oxigenados, não havendo, no entanto, melhorias significativas em pacientes com sintomas ligeiros.

O vosso estudo é de 2018. Isso quer dizer que foi feito a pensar noutras doenças?
Sim, o nosso estudo foi planeado no âmbito do trabalho de investigação em engenharia de tecidos e medicina regenerativa, realizado no grupo 3B”s. O objectivo inicial era a preparação de um implante para regeneração óssea, no âmbito da engenharia biomédica. A combinação de ácido ascórbico com dexametasona é normalmente utilizada para promover a transformação de células estaminais em células osteogénicas (de osso), pelo que desenvolvemos um biomaterial à base de polímeros naturais impregnado com uma combinação de cloreto de colina com ácido ascórbico e dexametasona.

Qual a importância de estudos como estes para o avanço no uso de fármacos em Portugal e no mundo?
A grande maioria dos fármacos actualmente desenvolvidos pelas farmacêuticas têm problemas de solubilidade e/ou permeabilidade, o que quer dizer que a eficácia quando administrados é relativamente baixa. Daí surge a necessidade de encontrar veículos alternativos que permitam melhorar estes parâmetros. Esta vertente da química verde aliada à farmácia pode permitir novos desenvolvimentos em terapêuticas para as quais os fármacos disponíveis apresentam estas desvantagens.

E qual será o impacto, em termos gerais?
O impacto deste estudo tem relevância não só em Portugal como a nível mundial. Em Portugal temo-nos tornado pioneiros no estudo de misturas eutécticas para várias aplicações, entre as quais aplicações biomédicas, e a investigação que se faz é muitíssimo reconhecida a nível internacional.

Quem é a equipa responsável por este trabalho? Quando tempo demorou a fazê-lo?
A equipa responsável por este trabalho é liderada por mim, Ana Rita Duarte e Alexandre Paiva da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Da equipa fazem ainda parte a Dra. Joana Silva e o Prof. Rui L. Reis, do grupo de investigação 3B”s da Universidade do Minho. O trabalho decorreu durante sensivelmente um ano.

Qual o investimento aplicado neste trabalho e de onde provém?
O investimento vem principalmente de fundos públicos, através de concursos nacionais e/ou internacionais altamente competitivos. Nomeadamente este projecto foi co-financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, através da bolsa de pós-doutoramento da Dra. Joana Silva, do projecto DESzyme, e pela Comissão Europeia através da bolsa ERC Consolidator DES Solve do European Research Council (Conselho Europeu para a Investigação), financiada em 1,87 milhões de euros, em 2017.

Este artigo faz parte de uma série dedicada aos investigadores portugueses e é apoiada por abbvie

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