593: Obesidade pode agravar os efeitos da doença de Alzheimer

 

 

SAÚDE/OBESIDADE/ALZHEIMER

Tony Alter / Flickr

O excesso de peso é um “fardo adicional” para a saúde do cérebro e pode agravar os efeitos da doença de Alzheimer, que afecta cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo e para a qual não há ainda cura.

A conclusão é de uma nova investigação levada a cabo pela Universidade de Sheffield, no Reino Unido, e os seus resultados foram esta semana publicados na revista científica especializada The Journal of Alzheimer’s Disease Reports.

De acordo com a investigação, a obesidade pode contribuir para a vulnerabilidade do tecido neuronal e, em sentido oposto, manter um peso saudável durante um quadro clínico de Alzheimer ou demência pode ajudar a preservar a estrutura do cérebro.

“É importante enfatizar que este estudo não mostra que a obesidade causa a doença de Alzheimer, mostrando antes que o excesso de peso é um fardo adicional para a saúde do cérebro e pode agravar a doença”, explicou a autora principal do estudo, Annalena Venner, citada em comunicado difundido pelo portal Eureka Alert, frisando que a prevenção tem um papel muito importante na luta contra esta doença neuro-degenerativa.

“As doenças que causam a demência, como o Alzheimer e a demência vascular, permanecem em segundo plano durante muitos anos. Por isso, esperar até aos 60 anos para perder peso é tarde de mais. Precisamos de começar a pensar na saúde do cérebro e na prevenção destas doenças muito mais cedo”, sustentou, destacando ainda o papel da educação: “Educar crianças e adolescentes sobre o papel que o excesso de peso desempenha nas multi-morbilidades, incluindo doenças neuro-degenerativas, é vital“.

Recorrendo a técnicas pioneiras de neuro-imagem, a equipa de cientistas analisou imagens de ressonância magnética do cérebro de 172 voluntários: 47 pacientes com diagnóstico clínico de demência leve da doença de Alzheimer, 68 pacientes com comprometimento cognitivo leve e 57 indivíduos cognitivamente saudáveis.

A equipa comparou as imagens e procurou diferenças na anatomia do cérebro, fluxo sanguíneo, bem como nas fibras do cérebro, avaliando o volume da massa cinzenta – que se degenera no início da doença de Alzheimer – e a integridade da substância branca, associada ao fluxo sanguíneo cerebral e à obesidade.

O estudo também evidenciou que manter um peso saudável num quadro de demência leve causada pela doença de Alzheimer pode ajudar a preservar a estrutura do cérebro.

“A perda de peso é, por norma, um dos primeiros sintomas nos estágios iniciais da doença de Alzheimer, quando as pessoas se esquecem de comer ou começam a fazer pequenos lanches com biscoitos ou batatas fritas, em vez de refeições mais nutritivas”, explicou ainda o co-autor do estudo Matteo De Marco.

E rematou: “Descobrimos que manter um peso saudável pode ajudar a preservar a estrutura do cérebro em pessoas que já sofrem de demência leve da doença de Alzheimer”.

Por Sara Silva Alves
4 Fevereiro, 2021

 

 

 

592: Insulina pode ser armazenada em ambientes quentes

 

 

SAÚDE/DIABETES/INSULINA

Um frasco de insulina pode ser armazenado durante quatro semanas após a abertura, com temperaturas até aos 37 graus Celsius, sem perder eficácia, segundo um estudo divulgado esta terça-feira pela Universidade de Genebra (UNIGE), na Suíça.

A insulina aguenta ser armazenada em temperaturas altas
© Global Imagens

Este trabalho da equipa composta por especialistas da UNIGE e dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) contraria o protocolo farmacêutico em vigor, que exige que se respeite a cadeia de frio desde a produção até à injecção, e pode beneficiar, sobretudo, os doentes com diabetes que não tenham acesso a frigoríficos, como acontece com frequência na África subsariana.

“A diabetes requer uma forma diária de tratamento extremamente precisa, tendo os pacientes de se injectar com várias doses de insulina todos os dias, em conformidade com a sua dieta e actividade física”, sublinhou em comunicado a UNIGE, realçando que, quem tem diabetes e não tem frigorífico, necessita de se deslocar aos hospitais numa base diária.

Face a este problema, os peritos testaram o armazenamento de insulina em condições reais, com temperaturas entre os 25 e os 37 graus Celsius durante quatro semanas, o tempo que leva uma pessoa diabética a consumir um frasco de insulina.

As conclusões, publicadas no boletim científico Plos One, demonstram que a estabilidade da insulina armazenada nestas condições é igual à da insulina armazenada no frio, sem impacto na sua eficácia.

“Isto permite que as pessoas com diabetes tratem da sua doença sem ter que visitar um hospital várias vezes ao dia”, assinalou a UNIGE.

A diabetes tipo 1 é caracterizada por níveis elevados de açúcar no sangue, que podem ter consequências extremamente graves (coma, cegueira, amputação ou até morte), e, apesar de actualmente ser possível tratar desta doença, são necessárias injecções diárias de insulina, que ajuda o açúcar a entrar nas células do corpo.

“O protocolo farmacêutico actual exige que os frascos de insulina sejam armazenados entre 2 e 8 graus Celsius até que sejam abertos, após o que a maioria da insulina humana pode ser armazenada a 25 graus Celsius por 4 semanas”, especificou Philippa Boulle, consultora de doenças não transmissíveis dos MSF.

A especialista exemplificou que “este é obviamente um problema em campos de refugiados com temperaturas mais altas do que esta, onde as famílias não têm frigoríficos”, revelando que os MSF recorreram à equipa liderada pelo professor Leonardo Scapozza, da UNIGE, para uma análise detalhada das condições de temperatura sob as quais a insulina pode ser guardada sem uma redução da sua eficácia.

Depois de ser medido que, no campo de refugiados Dagahaley, no Quénia, a temperatura dentro de casa flutua entre os 25 graus Celsius à noite e os 37 graus Celsius durante o dia, os cientistas reproduziram estas condições em laboratório, testando os efeitos sobre a insulina, isto, enquanto as comparavam com frascos mantidos no frio.

“O risco é que a insulina, uma proteína, precipite sob a influência do calor. Noutras palavras, ela começaria a formar ‘flocos’. Como já não estaria em solução, não poderia ser injectada”, frisou Leonardo Scapozza, professor na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNIGE.

Porém, os resultados demonstraram que não há diferença entre os dois métodos de armazenamento, já que a insulina guardada sob temperaturas elevadas registou uma perda potencial de cerca de 1% face à armazenada no frio durante as mesmas quatro semanas.

“A regulação sobre medicamentos farmacêuticos permite uma perda de até 5%, por isso, estamos bem abaixo desse nível”, vincou o professor Scapozza.

Por seu turno, Philippa Boule (MSF), considerou que “estes resultados servem de base para mudar as práticas de gestão da diabetes em cenários de baixos recursos, uma vez que os pacientes já não vão precisar de ir todos os dias ao hospital receber as suas injecções de insulina”, aumentado a qualidade de vida de milhares de pessoas em diferentes regiões do mundo.

Diário de Notícias
DN/Lusa
03 Fevereiro 2021 — 20:32