571: Dentro de 10 anos a covid-19 virá a ser uma constipação ligeira, diz estudo

 

 

SAÚDE/COVID-19

Caso o vírus responsável pela covid-19 se torne endémico, como muitos especialistas defendem, ao longo do tempo e com a maioria da população vacinada, o SARS-CoV-2 poderá traduzir-se numa constipação ligeira nas crianças, sendo que os adultos deverão ficar assintomáticos.

Enfermeira prepara a medicação para um doente com covid-19 no Hospital de Santa Maria, em Lisboa
© EPA/TIAGO PETINGA

Com o mundo de olhos postos nas vacinas como sendo a esperança de que podemos estar a viver o princípio do fim da pandemia, um estudo sugere que ao longo do tempo o vírus que causa a covid-19 poderá traduzir-se numa constipação ligeira quando a maioria da população estiver vacinada.

Caso seja endémico, nunca desapareça, como muitos especialistas defendem, o coronavírus responsável pela pandemia de covid-19 poderá apenas causar “constipação ligeira” em crianças, sendo que os adultos deverão ficar assintomáticos. É, pelo menos, o que indica o estudo publicado pela revista Science, no qual investigadores basearam-se num modelo matemático, que calcula a propagação do novo coronavírus.

Os cientistas consideram que o patogénico tem a tendência de atenuar-se quando a maioria da população estiver vacinada.

“O nosso modelo sugere que esta transformação levará entre um a dez anos”, afirma Jennie Lavine, investigadora da Universidade Emory, nos EUA, e autora principal do estudo, citada pelo jornal espanhol El País.

Tudo depende da velocidade com que o vírus se propaga e como decorre a campanha de vacinação, indica a mesma especialista. É necessário, defendem, os especialistas, manter as medidas para conter a propagação até que o processo de imunização fique concluído.

Diz o estudo que a partir do momento em que o vírus passa a ser endémico “e a exposição primária é na infância, o SARS-CoV-2 pode não ser mais virulento do que a gripe comum”. Logo poderá ter uma letalidade inferior.

Mas esta é uma passagem que deverá ocorrer dentro de alguns anos ou décadas.

Os resultados do trabalho científico levam, por isso, os investigadores a reforçar a “importância da contenção” durante a vacinação contra a covid-19, ao mesmo tempo que são avaliados os “cenários para a continuidade da vacinação na fase endémica”, ou seja, o vírus está sempre presente e poderá ser responsável por surtos sem a gravidade que hoje conhecemos.

O trabalho desenvolvido baseou-se na análise “de dados imunológicos e epidemiológicos sobre os coronavírus endémicos”. Concluíram que a “imunidade que bloqueia a infecção diminui rapidamente, mas a imunidade que reduz a doença tem durabilidade”..

Os cientistas consideram ainda que o SARS-CoV-2 não é tão virulento como SARS de 2001 e o MERS de 2012 e é mais semelhante aos vírus que causam constipação ligeira. Caso se confirme esta posição, quando a maioria da população estiver imunizada, o vírus não deverá causar doença grave devido à vacina.

O que ainda não é claro é se a vacinação impede a transmissão. Resta saber também quanto tempo dura a imunidade quer através da infecção ou da vacina. Em ambos os casos, os especialistas consideram que a pessoa fica protegida de uma forma mais grave da doença.

O mais provável é que “nesta década o vírus seja responsável apenas por picos sazonais no inverno”

“A infecção natural na infância dá imunidade que protege as pessoas mais tarde na vida contra uma doença grave, mas que não evita uma reinfecção periódica”, referiu Lavine.

A cientista afirmou mesmo que a detecção de variantes mais contagiosas, como a do Reino Unido ou a identificada mais recentemente no Brasil, que não representam um aumento da letalidade, poderá reforçar a imunidade e manter o nosso sistema imunitário “actualizado” perante as mutações do vírus.

“O mais razoável é que nesta década o vírus se torne endémico e seja responsável apenas por picos sazonais no inverno“, explica Mark Lipsitch, epidemiologista da Universidade de Harvard, também citado pelo jornal espanhol.

Segundo este epidemiologista, o impacto na saúde pública vai baixar radicalmente quando a imunidade para a forma grave da covid-19 for duradoura, reforçada com reinfecções leves, uma vez que não há uma imunidade total, e quando existir uma ampla cobertura da vacina nas pessoas mais vulneráveis, de modo a que a mortalidade seja muito reduzida.

Diário de Notícias

DN
15 Janeiro 2021 — 20:22

 

 

 

570: Carga viral na saliva pode determinar a vida ou a morte do infectado

 

 

SAÚDE/COVID-19/CARGA VIRAL

A quantidade de vírus na saliva de um doente infectado com o novo coronavírus, pode ajudar a prever o seu futuro. Um estudo da Universidade de Yale conclui que a carga viral na boca está associada à gravidade da doença e pode ajudar a personalizar os tratamentos

© OSCAR DEL POZO / AFP

Os primeiros resultados de um estudo da Yale University (EUA) indicam que a quantidade de vírus na saliva pode ajudar a prever as consequências da doença no infectado com Covid-19.

“A carga viral na saliva nos primeiros momentos está correlacionada com a gravidade da doença e com a mortalidade”, diz a equipa da imunologista da Yale Akiko Iwasaki, que analisou exaustivamente 154 pacientes com Covid-19 no hospital universitário da cidade de New Haven.

De acordo com o El País, a análise destes investigadores mostra que os níveis virais aumentam progressivamente, de um mínimo em pacientes com sintomas leves, a um máximo em pacientes gravemente doentes e em pessoas que morreram de COVID.

A carga viral mais alta na saliva parece estar associada a factores de risco conhecidos, como idade avançada, sexo masculino, cancro, insuficiência cardíaca, hipertensão e doenças pulmonares crónicas.

“Se tirássemos amostras de saliva e analisássemos a carga viral – principalmente no início da infecção, quando a pessoa chega ao hospital – poderia ajudar muito os médicos a prever o prognóstico do paciente e a escolher os tratamentos”, diz o microbiologista espanhol Arnau Casanovas , que participou do novo estudo, que ainda aguarda revisão para ser publicado numa revista especializada.

A equipa liderada por Iwasaki argumenta que a saliva ajuda a prever a progressão da doença muito melhor do que amostras colhidas com um cotonete nasofaríngeo – a já conhecida zaragatoa inserida pelo nariz .

Estes investigadores defendem que estas amostras recolhidas com a zaragatoa apenas refletem a multiplicação do vírus no trato respiratório superior, enquanto a saliva também mostra a situação nos pulmões.

De acordo ainda com o artigo publicado no diário espanhol este sábado, algumas pesquisas mostram que a maior carga viral na saliva também está associada a uma maior quantidade de biomarcadores no sangue da reacção inflamatória característica dos casos graves Covid. Essa carga viral mais alta está ligada a níveis mais baixos de plaquetas, leucócitos e anticorpos específicos contra o coronavírus.

Conclusão prematura?

Elisabet Pujadas , patologista espanhola e pesquisadora da Escola de Medicina Icahn do Hospital Mount Sinai, em Nova York, aplaude o novo estudo. “Traz uma perspectiva valiosa: que a saliva pode ter um valor maior do que se pensava para diagnóstico e prognóstico”, sublinhou ao El País.

A equipe do Pujadas já publicou em Agosto a relação entre a maior carga viral analisada em amostras de nasofaringe e a mortalidade por Covid-19. “É possível que a saliva reflita melhor a infecção do trato respiratório inferior”, afirma.

Pujadas, que trabalha nos Estados Unidos há mais de 15 anos, realça, porém, que a nova análise inclui apenas 154 pacientes, por isso seria “prematuro” concluir que a saliva deveria agora ser usada em vez das amostras nasofaríngeas.

Para Pujadas, a principal lição é que não se devem classificar pacientes Covid apenas com um simples positivo ou negativo. É preciso medir a respectiva carga viral. “Para certos vírus, como o HIV, o padrão de qualidade é a carga viral, porque anos de pesquisa mostraram que ela tem implicações importantes para o risco do paciente e afecta a estratégia de tratamento. O mesmo deve acontecer com a Covid-19 “, afirma Pujadas.

Iwasaki, Casanovas e outros colegas já publicaram um estudo em Setembro que sugeria o potencial da saliva para diagnosticar novas infecções por coronavírus. Uma revisão sistemática de 37 investigações acaba de mostrar que as amostras de saliva podem substituir as amostras nasofaríngeas para o diagnóstico de covid, com a mesma precisão e menor preço.

“Há muito que dizemos que seria melhor usar a saliva como amostra prioritária. É muito mais fácil recolher saliva do que um cotonete nasofaríngeo. Não é preciso uma equipa de enfermagem. Cada pessoa pode cuspir em casa num pequeno tubo. E ainda se evita o risco associado à recolha de uma amostra com o cotonete, porque às vezes as pessoas espirram ou tossem e geram aerossóis “, argumenta Casanovas.

Diário de Notícias
DN
16 Janeiro 2021 — 11:06