“Mutação do coronavírus com origem em Itália teve uma disseminação única e inimaginável em Portugal”

 

 

SAÚDE/COVID-19

João Paulo Gomes, director do Departamento de Doenças Infecciosas do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, explica, em entrevista ao DN, que circularam várias mutações do SARS-CoV-2 em Portugal. Só uma infectou quase quatro mil pessoas.

João Paulo Gomes é investigador do Instituto Dr. Ricardo Jorge e Director do Departamento de Doenças Infecciosas e diz que a principal preocupação em relação à Covid-19 é a parte económica, porque as vacinas resolverão os problemas de saúde.
© Orlando Almeida

Aos primeiros dias da pandemia, os investigadores do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) sabiam ser necessário avançar com a caracterização do novo coronavírus. E logo em Abril, com o apoio do Instituto Gulbenkian da Ciência e de mais de 60 unidades laboratoriais, quer hospitalares quer privadas, avançaram com um estudo de diversidade genética. No início, o objectivo era sequenciar o genoma de mil coronavírus, mas este número tornou-se insuficiente e a meta passou para os dois mil. Seis meses depois, o director do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA, João Paulo Gomes, confirma ao DN que esta meta foi cumprida e que em breve o cenário resultante de toda a informação recolhida, através de amostras dos vírus que infectaram portugueses nos primeiros meses da pandemia, estará completo. Por agora, já se percebeu que o mesmo vírus tem várias mutações, que uns são mais parecidos do que outros, e que nem todos têm a mesma origem.

Em que é que este estudo desenvolvido pelo INSA poderá ajudar a travar a covid-19?
Acima tudo pode ajudar na definição de medidas profilácticas em saúde pública, não em saúde individual.

Quer concretizar?
A pandemia tem sido uma lição para todos. Ou melhor, para a saúde pública. Se percebermos como se deu a introdução dos primeiros coronavírus em Portugal, se percebermos a sua cronologia, a sua origem – de que países vieram -, se estes estão associados à emigração, a viagens de negócios ou de turismo, se desencadearam ou não cadeias de transmissão e se até estiveram na origem da disseminação de algumas alterações genéticas importantes, poderemos perceber se as medidas tomadas, como o encerramento de escolas, restaurantes, fronteiras, foram ou não atempadas e quais as que se revelaram mais eficazes em termos de bloqueio da transmissão. E estas poderão ser usadas em situações futuras.

O estudo revelou que o primeiro coronavírus a entrar em Portugal veio do norte de Itália, da Lombardia. Este dado é importante para se perceber a evolução da doença?
Não podemos dizer que tenha sido o primeiro. Por agora, podemos dizer seguramente que foi um dos primeiros, porque estamos a terminar o estudo e o rasto mais antigo a que conseguimos chegar foi à da variante genética que veio de Itália.

Porque é que esta mutação está a ser considerada tão importante?
Porque teve uma disseminação massiva no nosso país, a uma escala que, mesmo a nível internacional, seria algo inimaginável. Já se percebeu que é uma variante genética única do novo coronavírus, que parece estar associada à entrada do vírus na célula, e que a comunidade internacional já definiu como de vigilância obrigatória. Em Portugal originou uma cadeia de transmissão que chegou aos quatro mil casos.

Director do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA defende que vigilância genética ao coronavírus deve ser mantida mesmo na era pós-vacinal.
© Orlando Almeida Global Imagens

Cada vírus tem uma variante genética?
Não podemos dizer que cada vírus tem uma variante genética, mas não estamos assim tão longe de chegarmos a essa conclusão.

Porquê?
Porque todos os vírus que vão aparecendo como causadores de covid-19 têm sempre uma série de mutações. Uns mais, outros menos. Uns são mais parecidos, outros menos, mas quanto maior é a identidade genética entre eles, maior probabilidade têm de fazer parte da mesma cadeia de transmissão.

Houve outras mutações a circular no país?
Obviamente, mas nunca tiveram a importância epidemiológica que teve a de Itália. Das que identificámos, umas originaram só dois casos, outras dez ou 15.

Não houve outras curiosidades…
Houve. O estudo também revelou que as variantes genéticas encontradas em pessoas infectadas na região fronteiriça com Espanha, tanto a norte como a leste, eram variantes que tinham sido identificadas no país vizinho, o que indica que as introduções de coronavírus nas zonas de fronteira aconteceram por via terrestre e pelos nuestros hermanos. Também houve coronavírus que vieram de outros países e de outros continentes, mas os dados preliminares apontam para que a maioria dos vírus que circulam em Portugal tenham vindo do continente europeu. O que é um cenário diferente do que aconteceu nos EUA, onde a costa leste foi inundada, numa primeira fase, por vírus que vinham da China, devido aos voos do Pacífico, enquanto na costa ocidental os vírus detectados tinham origem no continente europeu.

Quantos coronavírus analisaram?
Inicialmente, o objectivo era sequenciar mil coronavírus SARS-CoV-2, mas percebemos que este número era insuficiente e acabámos por sequenciar quase dois mil. O estudo teve início em Abril. Começámos por pedir às autoridades de saúde pública que nos fornecessem dados epidemiológicos dos primeiros meses da pandemia que nos permitissem saber de onde vieram, se tinham historial de viagens ou de outro tipo de contacto. Depois passámos à consulta de bases de dados internacionais de grupos que também sequenciaram genomas de coronavírus identificados nos seus países. Quando comparámos a sequência dos nossos coronavírus com as sequências dos coronavírus espalhados pelo mundo – ou seja, quando integrámos estes dados nos inquéritos epidemiológicos a que tivemos acesso – conseguimos, com grande grau de certeza, estimar o número de introduções de coronavírus em Portugal e apurar exactamente de onde vieram.

Quantas mutações entraram no país?
Numericamente ainda não lhe consigo dizer, mas dentro de duas a três semanas já teremos o cenário todo completo.

“Pode dizer-se que em Portugal circula massivamente a mutação do coronavírus que está associada a maior grau de transmissibilidade”.

A informação genética conseguida pode explicar porque há doentes assintomáticos ou porque nos sintomáticos há quem desenvolva a doença mais gravemente?
A informação genética que obtivemos não nos pode dar mais nada senão o historial dos vírus introduzidos em Portugal, as suas origens e as cadeias de transmissão que desencadearam. Mas isso não pode dizer esta investigação, como não pode qualquer outra. Neste momento não há estudos que suportem a associação de dados genéticos a outro tipo de dados – como a maior ou menor severidade da doença ou até mesmo em relação à maior ou menor capacidade de transmissão. Estas questões ainda estão no domínio da especulação, embora já haja fortes suspeitas de que algumas mutações possam estar de facto associadas a uma maior ou menor transmissão do vírus.

Algumas dessas circulam no país?
Posso dizer que a genética do coronavírus que circula massivamente em Portugal tem a mutação que se pensa que esteja associada à maior transmissibilidade do vírus.

O estudo também revelou que o coronavírus terá entrado no país a 20 Fevereiro, duas semanas antes dos primeiros casos diagnosticados. As medidas tomadas poderiam ter avançado ainda mais cedo?
A nível da introdução do vírus em Portugal era muito complicado fazer algo diferente. Sabemos hoje que a introdução deste coronavírus foi através das fronteiras, tanto terrestre como aérea. Não duvido de que, se Portugal tivesse optado por encerrar as fronteiras logo no início da pandemia, teríamos vivido um primeiro período de forma muitíssimo mais suave, mas se me pergunta se tal era razoável, dir-lhe-ia que não. Não sou economista, mas digo que uma medida destas teria provocado um rombo imediato na economia. Portanto, se poderia ter sido feito, digo que sim. Se deveria ter sido feito, eventualmente não. Penso que as autoridades actuaram na altura em que acharam que deveriam actuar.

João Paulo Gomes acredita que Portugal não poderia ter feito mais do que fez nos primeiros tempos de pandemia, embora, reconheça, que algumas medidas foram tardias, como o uso de máscara generalizado.
© Orlando Almeida Global Imagens

E em relação ao uso de máscara generalizado, por exemplo nos transportes públicos?
Em relação ao uso de máscara generalizado penso que poderá ter existido algum atraso na tomada desta medida. Os transportes públicos na hora de ponta estão completamente lotados e a proximidade das pessoas é grande. Talvez esta tenha sido a grande falha. Mas apesar de haver muitas críticas continuo a dizer que Portugal até esteve muito bem e que se as autoridades não fizeram melhor é porque não sabiam como o fazer.

Falou no encerramento de fronteiras. A Nova Zelândia encerrou fronteiras, abriu e fechou. É assim que se consegue conter o vírus?
Não duvido de que é no controlo da mobilidade que vive grande parte da solução para a covid-19. Agora qual o grau de controlo que deve ser feito não sei dizer. O equilíbrio entre a reabertura da economia e o manter a covid-19 em níveis baixos é muito difícil de alcançar. É preciso coragem para tomar medidas que não são populares.

“Mesmo depois da vacina, vigilância ao coronavírus deve ser mantida”.

Como olha para as estratégias dos EUA ou do Brasil em relação à covid-19?
Acho que é uma estratégia louca. Porque a teoria da imunidade de grupo só seria possível num hipotético mundo perfeito no qual pudéssemos resguardar completamente os grupos de risco. Se assim fosse, se se calhar a solução seria essa. Mas não é assim. O mundo não é perfeito, está muito longe disso, e não conseguimos resguardar os mais frágeis. Veja o que se passa nos lares e com os mais desfavorecidos nos EUA ou no Brasil, onde a mortalidade é um cenário absolutamente indescritível.

Mesmo depois de uma vacina o INSA vai continuar a vigilância ao coronavírus?
Espero que as vacinas venham a criar imunidade de grupo e que travem o que se está a passar. Tenho esperança de que as coisas corram bem, mas não tenho dúvidas de que um dos principais temas de investigação na era pós-vacinal vai ser precisamente vigiar geneticamente o aparecimento de mutações no vírus que possam estar associadas a processos de falência individual ou a uma menor eficácia da vacina.

O que o assusta mais na covid-19?
O que me assusta mais é a economia. Acho que estamos a viver algo pelo qual vamos todos pagar muito caro. Acho que ainda não despertámos para a realidade do que se está a passar em todo o mundo. É isto que mais me assusta, porque penso que a vacina irá resolver a maior parte dos problemas que se colocam a nível de saúde.

Diário de Notícias
03 OUT 2020

 

 

450: Portugal passa a barreira das 2 mil mortes no fim de semana com mais casos de covid

 

 

SAÚDE/COVID-19

O boletim epidemiológico da DGS de hoje indica que morreram mais dez pessoas por causa do novo coronavírus e foram confirmados mais 904 casos. Estão hospitalizados 682 doentes (mais 14 do que ontem), 105 destes encontram-se nos cuidados intensivos (menos um).

© Paulo Spranger/Global Imagens

Em Portugal, nas últimas 24 horas, morreram mais dez pessoas, elevando assim o número total de vítimas mortais, desde o início da pandemia, para 2005. A barreira das duas mil mortes foi transposta este domingo, dia em que foram confirmadas também mais 904 infecções de covid-19 (um crescimento de 1,16% em relação ao dia anterior).

Segundo o boletim epidemiológico da Direcção-Geral da Saúde (DGS) de hoje (4 de Outubro), no total, registam-se 79 151 infectados e 50 207 recuperados (mais 362).

Feitas as contas ao número de diagnósticos apurados este sábado (963 novos casos) e este domingo, constata-se que este foi o fim de semana com o maior número de infectados desde que a pandemia chegou a Portugal, em Março. No total, registaram-se 1867 infecções nestes dois dias.

Há, neste momento, 26 939 doentes portugueses activos a ser acompanhados pelas autoridades de saúde, mais 532 do que ontem.

Norte e Lisboa e Vale do Tejo com maioria das infecções e mortes

A maior parte dos casos diagnosticados no último dia encontram-se na região do Norte (mais 490 – 54,2% do total diário) e em Lisboa e Vale do Tejo (mais 316 – 34,9%).

Seguem-se a região do Centro (mais 69 casos), a do Algarve (mais 15), o Alentejo (mais 11), os Açores (mais dois) e a Madeira (mais um).

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DGS
@DGSaude
Já se encontra disponível o relatório de situação de hoje, 4 de Outubro, que pode ser consultado integralmente em dgs.pt/…/relatorio-

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Quanto aos dez óbitos registados, estes distribuem-se por Lisboa e Vale do Tejo (oito) e pelo Norte (dois).

As vítimas mortais são quatro homens e seis mulheres. Cinco tinham mais 80 anos; dois tinham entre 70 e 79; outros dois entre 60 e 69 e havia um homem entre os 50 e os 59 anos.

A taxa de letalidade global do país é hoje de 2,53%, subindo aos 13,14% no caso das pessoas com mais de 70 anos – as principais vítimas mortais.

Mais 14 pessoas hospitalizadas; menos um doente grave

Estão internados 682 doentes, ou seja, mais 14 do que no dia anterior.

Já nos cuidados intensivos há agora 105 pessoas – menos uma do que na véspera.

O boletim da DGS de hoje indica ainda que as autoridades de saúde estão a vigiar 46 348 contactos de pessoas infectadas (mais 120 do que ontem).

35,1 milhões de casos em todo o mundo

O novo coronavírus já infectou mais de 35,1 milhões de pessoas no mundo inteiro até este domingo e provocou um milhão de mortes, segundo dados oficiais. Há agora 26,1 milhões de recuperados.

No total, os Estados Unidos da América são o país com a maior concentração de casos (7 601 182) e de mortes (214 280). Em termos de número de infectados acumulados no mundo, seguem-se a Índia (6 553 027), o Brasil (4 906 833) e a Rússia (1 215 001). Portugal surge em 51.º lugar nesta tabela.

Quanto aos óbitos, depois dos Estados Unidos, o Brasil é a nação com mais mortes declaradas (146 011). Depois, a Índia (101 841) e o México (78 880).

Nas últimas 24 horas, a pandemia fez, pelo menos, 4 862 vítimas mortais e 309 093 novos casos.

Diário de Notícias

 

 

449: COVID-19: Lab. do Porto descobre anticorpos para coronavírus

 

 

SAÚDE/COVID-19

O mundo corre contra o tempo na procura de uma solução para a COVID-19. Nesta investigação, de escala global, Portugal também tem dado o seu contributo.

A FairJourney Biologics, empresa de biotecnologia do Porto, anunciou recentemente que descobriu 15 anticorpos com potencial para tratar pacientes infectados com o vírus SARS-CoV-2 e para proteger a população com maior risco de ser infectada.

A descoberta foi realizada em conjunto com a congénere IONTAS, laboratório sediado em Cambridge, recentemente adquirido pelo grupo do Porto, líder mundial na identificação e fabricação e anticorpos.

Anticorpos bloqueiam infecção com uso de doses baixas

De acordo com as informações, a descoberta confirma a existência de um conjunto de anticorpos que “comprova bloquear a infecção em doses tão baixas quanto 20pM em testes pseudo-virais e 100pM em testes na presença do novo coronavírus”.

Numa janela temporal de apenas dois meses, os dois laboratórios isolaram centenas de anticorpos catalogados como neutralizadores de vírus.

A partir de análises sanguíneas realizadas de forma sistemática a uma amostra de pacientes que estavam a recuperar da infecção por Covid-19, conseguiram chegar a 15 anticorpos com elevado potencial para neutralizar o vírus SARS-CoV-2. Os mesmos “têm propriedades biofísicas adequadas para o desenvolvimento de fármacos”, o que contribui para reduzir o risco nas etapas seguintes dos ensaios clínicos e do fabrico, atestam os investigadores.

O grupo líder neste sector da bio-farmacêutica não desvaloriza a importância das vacinas na luta contra a Covid-19, bem pelo contrário, mas ressalva que “a imunização passiva por anticorpos monoclonais também pode desempenhar um papel fulcral” neste combate, por duas ordens de razão. Por um lado, porque podem ser usados “para tratar indivíduos sintomáticos após exposição aguda ao vírus” e, além disso, porque desempenham um importante papel profilático na protecção de profissionais de saúde e grupos de risco, incluindo indivíduos que reagem mal às vacinas.

Pplware
Autor: Pedro Pinto
02 Out 2020

 

 

448: COVID-19: Imagens microscópicas mostram o coronavírus a infectar células

 

 

SAÚDE/COVID-19

Desde que o novo coronavírus foi detectado, a investigação à escala mundial tem tentado descobrir uma forma de controlar o vírus. Até ao momento existem já vários estudos e até algumas descobertas interessantes.

Através de imagens microscópicas é possível ver o novo coronavírus a infectar células.

Imagens foram ampliadas até 200x para se ver a acção do coronavírus

Com recurso a um microscópio de alta resolução, que consegue ampliar as imagens até 200 mil vezes, é possível ter uma visão impressionante da forma como o vírus se comporta. As novas imagens mostram, em grande detalhe como é que o novo coronavírus, responsável pela doença COVID-19,  infecta as células.

Além disso, é também  possível ver como ocorre a transmissão de partículas virais de uma célula para outra. O trabalho é da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), no Brasil.

De acordo com o trabalho realizado, é possível comprovar que as células infectadas, a verde, apresentam prolongamentos de membrana, mesmo 48 horas depois da infecção. Os investigadores acreditam que são esses prolongamentos que permitem a transferência de partículas virais para as células adjacentes.

Os cientistas afirmam que todo este processo não é muito comum, mas é semelhante ao que acontece noutras infecções, nomeadamente com o vírus do Ébola ou de Marburg.

O estudo foi realizado com células Vero, derivadas de rim de macaco e muito usadas em pesquisas sobre virologia. As imagens são resultados preliminares do projecto de pesquisa ‘Estudo da morfologia, morfogénese e patogénese do Sars-CoV-2 em sistemas in vitro, in vivo’, realizado em colaboração entre Laboratório de Morfologia e Morfogênese Viral e o Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do IOC.

As fotografias foram registadas com um microscópio de alta resolução de feixe triplo de íons, em cooperação com os investigadores Braulio Archanjo e Willian Silva, do Laboratório de Microscopia Electrónica do Inmetro.

Pplware
Autor: Pedro Pinto
03 Out 2020

 

 

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