391: Dores de cabeça, confusão e delírios. Coronavírus pode invadir o cérebro

 

 

SAÚDE/CORONAVÍRUS/EFEITOS

De acordo com o estudo, liderado por Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale, o vírus pode duplicar-se dentro do cérebro e a sua presença priva as células cerebrais próximas de oxigénio.

© EPA/Juan Ignacio Roncoron

Dores de cabeça, confusão e delírios apresentados por alguns pacientes com covid-19 podem ser resultado de uma invasão directa do novo coronavírus no cérebro, segundo um estudo divulgado nesta quarta-feira.

Embora a pesquisa ainda seja preliminar, traz novas evidências para apoiar o que até agora era apenas uma teoria não comprovada.

De acordo com o estudo, liderado por Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale, o vírus pode duplicar-se dentro do cérebro e a sua presença priva as células cerebrais próximas de oxigénio. A frequência com que essa situação acontece ainda não está clara.

Andrew Josephson, chefe do departamento de neurologia da Universidade da Califórnia em São Francisco, elogiou as técnicas usadas no estudo e destacou que “compreender se existe ou não uma participação viral directa no cérebro é extremamente importante”. Entretanto, acrescentou que ele seria cauteloso até que a investigação seja objecto de revisão pelos pares.

Não seria uma grande surpresa o SARS-CoV-2 ser capaz de penetrar a barreira hematoencefálica, uma estrutura que envolve os vasos sanguíneos do cérebro e tenta bloquear substâncias estranhas.

“Tempestade de citocinas”

Os médicos até agora acreditavam que as consequências neurológicas observadas em aproximadamente metade dos pacientes hospitalizados com covid-19 poderiam ser resultado de uma resposta imunológica anormal, “a tempestade de citocinas”, que causava uma inflamação do cérebro em vez de uma invasão do vírus no cérebro.

A professora Iwasaki e os seus colegas decidiram abordar o problema de três maneiras: infectando mini-cérebros criados em laboratório (os chamados organoides cerebrais), infectando ratos e examinando o cérebro de pacientes que morreram de covid-19.

Nos organoides cerebrais, a equipa descobriu que o vírus poderia infectar neurónios e depois “invadir” o mecanismo da célula neuronal para se duplicar.
As células infectadas provocavam a morte das células circundantes ao privá-las de oxigénio.

Um dos principais argumentos contra a teoria da invasão cerebral directa é que o cérebro não possui altos níveis de uma proteína chamada ACE2, à qual o coronavírus se liga e que é encontrada em abundância noutros órgãos, como os pulmões.

No entanto, a equipa descobriu que os organoides tinham ACE2 suficiente para facilitar a entrada do vírus e que as proteínas também estavam presentes nos cérebros dos pacientes falecidos.

Os investigadores também analisaram dois grupos de ratos: um modificado geneticamente para ter receptores ACE2 somente nos pulmões e o outro apenas no cérebro.

Os ratos infectados nos pulmões apresentaram lesões nesses órgãos; os animais infectados no cérebro perderam peso e morreram rapidamente, um potencial sinal de maior letalidade quando o vírus penetra no cérebro.

Além disso, os cérebros de três pacientes que morreram por complicações graves relacionadas com o coronavírus também mostraram rastos do vírus, em vários graus.

Diário de Notícias

DN/AFP

 

390: Nova máscara muda de cor com aumento de temperatura corporal

 

 

SAÚDE/COVID-19/MÁSCARAS

Narendra Shrestha / EPA

Uma empresa espanhola de tecidos criou uma nova máscara de protecção que muda de cor se a temperatura corporal aumentar.

Uma empresa têxtil espanhola desenvolveu uma máscara inovadora que muda de cor caso a temperatura corporal atinja os 37,5 ºC. Além disso, este equipamento de protecção individual tem uma filtração bacteriana de 98%, o que ajuda a detectar pessoas com covid-19.

De acordo com a agência EFE, o tecido foi patenteado pela empresa Colorprint Fashion, sediada em Muro d’Alcoi, em Espanha. A tecnologia já foi homologada pelo Instituto Tecnológico Têxtil (AITEX), que certificou a durabilidade e a eficácia do produto na prevenção do novo coronavírus.

“Com o conhecimento e a tecnologia para desenvolver produtos têxteis inovadores e funcionais e, perante esta situação, não podíamos ficar de braços cruzados. Era hora de apresentar soluções”, disse o fundador da Colorprint, Rafael Torregrosa.

A empresa vai produzir máscaras e utilizar a tecnologia para criar outros objectos capazes de detectar rapidamente o aumento da temperatura, como pulseiras ou adesivos.

Torregrosa diz que o material “está a ter uma óptima recepção” e espera que os produtos “facilitem o trabalho dos profissionais de saúde, além de ajudar a detectar possíveis infecções e impedir, a partir daí, a propagação do vírus”.

ZAP //

Por ZAP
10 Setembro, 2020

 

389: Portugal regista mais 585 casos de covid-19 e 3 mortes em 24 horas

 

 

SAÚDE/COVID-19

O boletim epidemiológico da DGS revela ainda que estão hospitalizados 406 doentes (mais 15 do que ontem), 57 destes encontram-se nos cuidados intensivos (mais cinco).

Metro de Lisboa.
© Lusa

Em Portugal, nas últimas 24 horas, morreram mais três pessoas e foram confirmados mais 585 casos de covid-19 (um crescimento de 0,95% em relação ao dia anterior). Segundo o boletim epidemiológico da Direcção-Geral da Saúde (DGS) desta quinta-feira (10 de Setembro), no total, desde que a pandemia começou, registaram-se 62 126 infectados, 43 441 recuperados (mais 157) e​ 1 852 vítimas mortais no país.

Há, neste momento, 16 833 doentes portugueses activos a ser acompanhados pelas autoridades de saúde, mais 425 do que ontem.

A região com o maior número de infectados nas últimas 24 horas é o Norte, que acrescentou 268 novas infecções (46% do total diário).

Seguem-se Lisboa e Vale do Tejo (mais 239 casos), o Centro (mais 50), o Alentejo (mais 15), o Algarve (mais 6), a Madeira (mais seis) e os Açores (mais um).

Desde o início de Setembro que o número de novos casos de covid tem crescido. No entanto, esta evolução fica “claramente abaixo daquilo que seria um crescimento exponencial da pandemia”, assumiu o primeiro-ministro, António Costa, esta quinta-feira, depois de uma reunião do Conselho de Ministros onde foram apresentadas as novas regras do estado de contingência, em vigor a partir de dia 15 de Setembro.

Segundo as autoridades de saúde, o aumento de casos já era expectável tendo em conta a maior movimentação populacional em tempo de férias, de regresso ao trabalho e agora à escola. O início do novo ano lectivo – agendado para a próxima semana – tem sido apontado pela directora-geral da Saúde como a grande prova de fogo. A maior “mobilidade gera mais contactos, e mais contactos [geram] mais casos”, disse Graça Freitas, em conferência de imprensa, esta quarta-feira, sublinhando que o regresso às aulas envolverá a deslocação de 1,2 milhões de alunos, 120 mil professores e outros milhares membros da comunidade escolar.

Três mortos pertencem à região de Lisboa e Vale do Tejo

Quanto aos três óbitos registados hoje, estes localizam-se nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo. As vítimas mortais são um homem e uma mulher entre os 70 e os 79 anos e outro homem entre os 60 e os 69.

A taxa de letalidade global do país é hoje de 3%, subindo aos 14,7% no caso das pessoas com mais de 70 anos – as principais vítimas mortais.

Nesta quinta-feira, estão internados 406 doentes (mais 15 do que no dia anterior), e nos cuidados intensivos há agora 57 pessoas (mais cindo do que na véspera).

O boletim da DGS de hoje indica ainda que as autoridades de saúde estão a vigiar 35 181 contactos de pessoas infectadas (mais 30 do que ontem).

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DGS
@DGSaude
Já se encontra disponível o relatório de situação de hoje, 10 de setembro, que pode ser consultado integralmente em dgs.pt/em-destaque/re

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António Costa. “Vamos entrar numa nova fase”

A partir do dia 15 de Setembro o estado de contingência é alargado a todo o país, o que implicará novas restrições. O primeiro-ministro lembrou que estas regras não são de cariz moral, mas sim de saúde pública. “Não estamos contra a festa”, disse António Costa, no final do Conselho de Ministros.

Saiba o que muda a partir de terça-feira:

Ajuntamentos ficam limitados a 10 pessoas (como já acontecia na Grande Lisboa);

Ginásios e cabeleireiros abrem só a partir das dez da manhã;

Restaurantes, cafés e pastelarias a 300 metros de escolas só podem receber até quatro pessoas por grupo;

– Autarcas podem decidir a que horas encerram os estabelecimentos (entre as 20 e as 23 horas);

Centros Comerciais também só podem abrir depois das 10:00 e não podem estar mais do que quatro pessoas por grupo;

Está proibida a venda de álcool nas estações de serviço a partir das 20 horas e em todos os locais, à excepção de restaurantes. O consumo de álcool na via pública também não é permitido, com o objectivo de evitar ajuntamentos, justificou o governante.

António Costa referiu ainda que as regras de utilização dos transportes públicos se mantém e o teletrabalho deverá continuar, sempre que possível, principalmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.

Quanto aos lares, o Governo apostou em brigadas de emergência, que se pretende que ajam rapidamente em caso de detecção de casos positivos. Até ao final do mês estarão constituídas 18 equipas; “são 400 profissionais, entre médicos, enfermeiros e técnicos de diagnóstico”, anunciou o primeiro-ministro.

28 milhões de casos em todo o mundo

O novo coronavírus já infectou mais de 28 milhões de pessoas no mundo inteiro até esta quinta-feira e provocou 908 522 mortes, segundo dados oficiais. Há agora 20,1 milhões de recuperados.

No total, os Estados Unidos da América são o país com a maior concentração de casos (6 549 771) e de mortes (195 245), tendo, nas últimas 24 horas, confirmado mais 1 170 vítimas mortais e 33 205 casos, de acordo com uma contagem independente da Universidade Johns Hopkins.

Em termos de número de infectados acumulados no mundo, seguem-se a Índia (4 470 166), o Brasil (4 199 332) e a Rússia (1 046 370). Portugal surge em 49.º lugar nesta tabela.

Quanto aos óbitos, depois dos Estados Unidos, o Brasil é a nação com mais mortes declaradas (128 653). Depois, a Índia (75 119) e o México (69 095).

Já a China – país onde o novo coronavírus foi descoberto no final do ano passado – não registou casos de contágio local nos últimos 25 dias, uma vez que as sete infecções confirmadas hoje têm origens no exterior, informou a Comissão de Saúde da China.

Diário de Notícias

 

388: Restaurantes e cafés a 300 metros da escolas com limite de quatro pessoas por grupo

 

 

SAÚDE/CONTINGÊNCIA/COVID-19

Acompanhe aqui as notícias desta quinta-feira sobre a pandemia de covid-19 em Portugal e no mundo.

O primeiro-ministro António Costa apelou ao cumprimento das regras sanitárias
© HUGO DELGADO/LUSA

10 set14:31
Centros comerciais: não podem estar mais de quatro pessoas por grupo

Os estabelecimentos comerciais só podem abrir depois das dez horas da manhã (com excepções).

Para todos os estabelecimentos – exceptuando a restauração – o horário de fecho situa-se entre as 20 e as 23 horas – nestes casos são as câmaras municipais que determinam o horário de encerramento.

10 set14:26
Transportes: regras mantêm-se. Uso de máscara e higienização

“É preciso jogar com os horários. O comércio geral abrir às dez horas é para evitar ajuntamentos“, diz António Costa.

Por isso o Governo pede também o desfasamento de horários na entrada dos trabalhadores nas empresas.

O teletrabalho é para continuar, também nos serviços públicos, mas tem de haver “um esforço de organização”, pede o primeiro-ministro.

10 set14:23
“Batalha não está ganha”. Uma das linhas vermelhas é o aumento dos óbitos

António Costa diz que a guerra contra a covid-19 não acabou, mas que o país não pode voltar a parar.

Sobre as linhas vermelhas que poderão reverter a situação actual está o aumento do número de óbitos, mas o fecho das escolas não está no horizonte, tal como aconteceu em Março, disse o primeiro-ministro.

10 set14:16
Lisboa e Porto.Teletrabalho vai continuar nas áreas metropolitanas

“É preciso um esforço acrescido” nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

Mantêm-se nestas regiões as medidas previstas de teletrabalho e ficará em consulta pelos parceiros sociais um conjunto de medidas que visam a organização do trabalho em espelho, por exemplo, entre outras regras, anunciou o primeiro-ministro.

10 set14:12
Lares. Brigadas de emergência vão agir rapidamente em surtos

Serão 18 equipas e estarão todas operacionais até ao final do mês: “são 400 profissionais, entre médicos, enfermeiros e técnicos de diagnóstico”, anuncia o primeiro-ministro.

Costa recordou que só um por cento dos lares – num universo de 2500 – é que apresentam casos de covid-19.

10 set14:04
Costa: “Vamos entrar numa nova fase”. Limite de quatro pessoas por grupo junto às escolas

A partir do dia 15 de Setembro o estado de contingência é alargado a todo o país. Algumas das regras são:

– Ajuntamentos limitados a 10 pessoas (como já acontecia na Grande Lisboa);

– Ginásios e cabeleireiros abrem só a partir das dez da manhã;

Restaurantes cafés e pastelarias a 300 metros da escolas com limite de quatro pessoas por grupo;

– Autarcas podem decidir a que horas encerram os estabelecimentos (entre as 20 e as 23 horas);

Proibição de venda de álcool nas estações de serviço a partir das 20 horas e em todos os locais, à excepção de restaurantes;

– Proibido também o consumo de álcool na via pública, para evitar ajuntamentos.

O primeiro-ministro disse que as regras não têm cariz moral, “não estamos contra a festa”, mas que são necessárias do ponto de vista da saúde pública.

10 set13:56
Stayaway Covid. Costa pede para ser usada nas escolas, empresas, transportes públicos

Já foram efectuados 735 243 downloads até hoje e António Costa diz que é “muito importante” usar a aplicação nas escolas, empresas, transportes públicos e redacções (comunicação social).

“As informações são anónimas”, ressalva o primeiro-ministro, acrescentado que a maior parte dos novos casos são de pessoas assintomáticas.

Já foram testados mais de dois milhões de portugueses

“Portugal continua a ser um dos países que mais testa os seus habitantes”, diz Costa, justificando que o aumento no número de novos casos também está relacionado com a maior capacidade de testagem.

No dia 8 de Setembro foram realizados 20 527 testes, um número recorde, segundo o primeiro-ministro.

Costa: “Numero de óbitos tem-se mantido estável”

António Costa: “Desde Agosto tem havido um crescimento sustentado de novos casos”, diz o primeiro-ministro, recordando que “o maior número de novos casos na faixa etária “entre os 20 e os 30 anos”

“Números de ontem e de hoje são significativos“, assume Costa.

Um aumento justificado pelo “período de férias e um natural relaxamento do comportamento individual de cada um” alem da mobilidade social desta altura de verão.

As novas regras para o plano de contingência, que entram em vigor a 15 de Setembro, vão ser anunciadas pelo primeiro-ministro.

Diário de Notícias
10 Setembro 2020 — 06:48

 

“Prometeram-nos algo que é irrealista: uma vacina em alguns meses”

 

 

SAÚDE/COVID-19/VACINAS

Com os ensaios da vacina da AstraZeneca/Universidade de Oxford suspensos, o cientista Miguel Castanho lembra que o recorde de produção de uma vacina é de quatro anos. Virologista Pedro Simas sublinha que esta medida é uma garantia de que a futura vacina – e há quase 200 em testes – será segura.

Recorde mundial de obtenção de uma vacina está em quatro anos, sublinha o bioquímico Miguel Castanho.

A suspensão da fase 3 dos ensaios clínicos da vacina contra a covid-19 que está a ser desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca e pela Universidade de Oxford é um acontecimento “comum” no processo de desenvolvimento de uma vacina. Mas vem mostrar que os prazos que estão a ser apontados para a disponibilização de uma vacina são “irrealistas”, diz Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular (IMM) . E este percalço terá como provável consequência, acrescenta, um atraso relativamente aos prazos que estavam a ser postos em cima da mesa para disponibilização de uma vacina e que apontavam, no melhor dos cenários, já para o final deste ano.

O investigador diz que a detecção de um caso de reacção adversa grave entre os indivíduos que estão a testar a vacina (mas que não se sabe ainda se está correlacionado) “não surpreende”. “É relativamente comum isto acontecer no desenvolvimento de uma vacina, de um medicamento” e é, aliás, uma das razões que explicam o longo e moroso processo de investigação e testes. “Uma vacina, em média, demora 15 anos a ser desenvolvida. Não é porque os cientistas sejam todos incompetentes ou todos preguiçosos, é porque estes casos acontecem, é preciso repensar, reanalisar os dados, voltar atrás. Eventualmente é preciso reformular”, diz o bioquímico do IMM. “O que acontece é que nos prometeram a vacina em tempo recorde, prometeram-nos algo que é irrealista: uma vacina em alguns meses, estando o recorde mundial de obtenção de uma vacina em quatro anos”, sublinha Miguel Castanho.

A cientista chefe da Organização Mundial de Saúde, Soumya Swaminathanaúde, veio dizer ontem que só os grupos de risco deverão ter acesso a uma vacina em 2021. Para a maioria da população só deverá ficar disponível em 2022.

Miguel Castanho dirige o Laboratório de Bioquímica de Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, em Lisboa. © Filipa Bernardo/Global Imagens

A vacina da AstraZeneca é precisamente a que está na linha da frente das actuais negociações na União Europeia (UE) no sentido de adquirir uma vacina para todo o espaço da UE – é uma das que estão em fase mais avançada e já foi objecto de um contrato, a nível europeu, que contempla 300 milhões de unidades destinadas aos países da UE. Deste total, 2,3% caberão a Portugal – 6,9 milhões de vacinas. Se “vier a ser autorizada e estiver disponível” a vacina poderá ser disponibilizada num período que vai “desde o final deste ano, princípio de 2021, até meados de 2021”, disse na última segunda-feira o presidente do Infarmed, Rui Santos Ivo, na reunião sobre a situação epidemiológica no país que voltou a juntar especialistas e decisores políticos.

Na tarde desta quarta-feira o Infarmed emitiu um comunicado sublinhando que “se aguardam as conclusões sobre a reacção adversa e a sua relação com a administração da vacina”. Voltando a garantir que “nenhuma das vacinas para a covid-19 poderá ser disponibilizada sem ter sido sujeita a uma avaliação de segurança e eficácia”, a autoridade nacional do medicamento diz que “esta suspensão é demonstrativa do rigor” deste processo. O mesmo disse o presidente da instituição, Rui Santos IVO, durante a conferência de imprensa da DGS, garantindo que a avaliação que agora se seguirá sobre este caso de reacção adversa “faz parte das boas práticas da investigação clínica”.

Uma opinião partilhada por Miguel Castanho, e também pelo virologista Pedro Simas: “Isto demonstra que o sistema está a funcionar e que se pode confiar” na futura vacina que vier a ser disponibilizada. E a confiança é um dado fundamental – “a vacinação é a melhor e mais eficiente medida de saúde pública a seguir à agua potável”.

Suspensão vai atrasar o aparecimento de uma vacina?

Miguel Castanho considera que esta suspensão dos ensaios da vacina da AstraZeneca vai reflectir-se não só nesta vacina, mas também noutras.”Acho que o que vai acontecer agora é um atraso no desenvolvimento das vacinas em geral, não só porque esta era uma das mais avançadas, uma das candidatas a ser das primeiras, como pelo facto de a outra vacina que estava a par desta, a vacina russa, usar o mesmo princípio de funcionamento. E se se criam reservas em relação a esta, também se criam reservas em relação à russa.”

Já quanto às restantes não se cria uma dúvida automática, acrescenta, na medida em que seguem outras fórmulas. “Mas tal como aconteceram problemas nesta, também podem acontecer nas outras.”

Pedro Simas é mais optimista e diz esperar que os ensaios possam ser retomados em breve, o que significaria que foi afastada a hipótese de uma relação entre a reacção adversa e a vacina. “Se se vier a demonstrar que o caso não teve nada que ver com a vacina, o atraso é insignificante. Se houver provas de que é uma reacção adversa à vacina, ou uma causa provável, então aí a vacina não podia prosseguir”, sublinha o epidemiologista, mas lembrando que há outras também já numa fase avançada de ensaios.

Virologista Pedro Simas.
© Gerardo Santos/Global Imagens

De acordo com os dados mais recentes da Organização Mundial de Saúde há actualmente 179 vacinas em desenvolvimento, das quais 34 estão em fase de avaliação clínica (ou seja, já estão a ser testadas em pessoas) e nove estão na última fase de testes, o patamar prévio antes de serem sujeitas à autorização das autoridades de saúde. Mas dizer que estão na última fase está muito longe de ser sinónimo de que a vacina está iminente.

“A fase 3 não é um pro-forma, é precisamente ao contrário. É quando aparecem os dados reais, quando se faz a prova dos nove”, diz Miguel Castanho, explicando as três fases dos ensaios clínicos.

Na fase 1, que é uma fase preliminar, “só se testa segurança e princípio de acção” – se não há efeitos adversos graves em ninguém, sendo que o universo testado é limitado e composto por indivíduos jovens e saudáveis. Por outro lado, esta primeira fase serve também para testar se a administração da vacina levou à produção de anticorpos (o que não é um sinónimo automático de imunidade, que só será testada mais tarde).

Acontece que há muitos efeitos adversos que são graves, mas não são muito comuns. É na fase 2 e, sobretudo na 3 que esta hipótese é testada: “Só na fase 2/3 é que vamos testar essas formulações em muita gente. Se houver um efeito adverso que é relativamente raro ele aparecerá. Estatisticamente, se existir, vai aparecer.” E não é totalmente improvável que isso aconteça: “Perdi a conta ao número de candidatos a vacinas contra o VIH que falharam na fase 3. Morrer na praia, infelizmente, não é uma coisa rara no desenvolvimento de medicamentos e de vacinas.”

O vírus “não tem calendário político”

A informação de que os ensaios da vacina da Universidade de Oxford foram suspensos devido a uma reacção adversa grave num voluntário, no Reino Unido, foi avançada pelo site de jornalismo de saúde Stat News, citando um porta-voz da farmacêutica segundo o qual os ensaios foram suspensos para proceder a uma “revisão dos dados de segurança”. A notícia original não avança qual o tipo de reacção adversa em causa – embora diga que o paciente deve recuperar -, mas o The New York Times noticiou entretanto que se trata de mielite transversa, uma doença neurológica da medula espinal que é relativamente rara. Agora, trata-se de saber se a doença está relacionada com a vacina.

Segundo o editor de saúde da BBC é a segunda vez que os ensaios clínicos desta vacina são suspensos.

Miguel Castanho fala numa “politização” em torno da questão das vacinas e repete que “muito provavelmente os prazos para a criação da vacina vão estar mais próximos dos prazos normais e não serão prazos absolutamente recorde, como nos criaram a expectativa”.

“No início da pandemia falava-se numa vacina para Setembro, para este mês. Entretanto esses prazos têm vindo a ser dilatados e agora estávamos no final do ano.” Prazos com muito pouco de científico: “Trump até já queria a vacina para antes das eleições, como se estivéssemos a falar de algo que fosse próprio do calendário político. A questão da vacina tinha chegado a uma politização tal que se achava que o vírus devia obedecer a um calendário político.”

Numa resposta às preocupações que se levantam sobre eventuais pressões de Trump para autorizar uma vacina antes das presidenciais de Novembro, nove empresas que estão a trabalhar no desenvolvimento de vacinas divulgaram esta terça-feira um acordo que reflete um compromisso público de respeito pelo rigor científico. “Nós, as empresas bio-farmacêuticas signatárias, assumimos o compromisso de continuar a desenvolver e a testar potenciais vacinas contra a covid-19 no respeito por elevadas normas éticas e princípios científicos rigorosos”, declararam em comunicado conjunto os directores gerais das farmacêuticas AstraZeneca, BioNTech, GlaxoSmithKline, Johnson & Johnson, Merck Sharp & Dohme, Moderna, Novavax, Pfizer e Sanofi.

Diário de Notícias
10 SET 2020

 

386: Um super computador analisou a covid-19 e propôs uma nova teoria

 

 

SAÚDE/COVID-19/TECNOLOGIA

Oak Ridge National Laboratory / Flickr
O supercomputador Summit

O supercomputador Summit analisou o novo coronavírus e sugeriu uma nova teoria que pode explicar o impacto da doença no corpo humano: a Hipótese de Bradicinina.

O Summit é um supercomputador desenvolvido pela IBM e que é usado pelo Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos Estados Unidos. Os investigadores recorreram ao seu poder para analisar mais de 40 mil genes de 17 mil amostras genéticas para tentar compreender melhor o novo coronavírus.

Quando os cientistas analisaram os resultados, que demoraram mais de uma semana a ficarem prontos, foi um “momento eureka”, salientou Daniel Jacobson, investigador-chefe de biologia de sistemas computacionais em Oak Ridge, citado pelo portal Elemental.

O supercomputador sugeria uma nova teoria sobre como a covid-19 afectava o corpo humano: a Hipótese de Bradicinina. Esta teoria oferece um modelo que explica vários aspectos da doença, incluindo alguns dos seus sintomas mais bizarros. Além disso, sugere dez tratamentos potenciais, descritos num estudo publicado na revista científica eLife, em Julho.

Aparentemente, o vírus entra no corpo através dos receptores ACE2 no nariz. Depois, segue para o corpo, entrando noutras células onde ACE2 também está presente, como os intestinos, rins e coração.

A análise do Summit mostra que a covid-19 não só infecta as células que já expressam vários receptores ACE2, como sequestra os próprios sistemas do corpo, induzindo-os a aumentar esses receptores noutros sítios. É assim que, acreditam os investigadores, o coronavírus chega aos pulmões.

O sistema renina-angiotensina (SRA) controla muitos aspectos do sistema circulatório, incluindo os níveis corporais de uma substância química chamada bradicinina, que normalmente ajuda a regular a tensão arterial. Quando o coronavírus atinge o SRA, faz com que os mecanismos para regular bradicinina fiquem descontrolados e haja uma acumulação excessiva desta substância no corpo.

A Hipótese de Bradicinina apresentada pelo Summit sugere que esta “avalanche” é responsável por muitos dos efeitos mortais da covid-19.

O excesso de bradicinina no corpo faz com que os vasos sanguíneos vazem. À medida que isto acontece, os investigadores sustentam que os pulmões podem encher-se de líquido. Adicionalmente, as células imunes também vazam para os pulmões, causando inflamação.

Os efeitos da covid-19 não se ficam por aqui. A doença também aumenta a produção de ácido hialurónico nos pulmões. É geralmente usado em sabonetes e loções, já que consegue absorver mais de mil vezes o seu peso em fluidos. Quando combinado com o fluido nos pulmões, forma uma espécie de hidrogel.

“É como tentar respirar através da gelatina”, descreve Jacobson.

ZAP //

Por ZAP
10 Setembro, 2020

 

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