636: Neurocirurgião diz que Brasil é um celeiro de novas estirpes capazes de criar outro vírus

 

 

SAÚDE/COVID-19/BRASIL

Neuro-cirurgião brasileiro Miguel Nicolelis avisa que o Brasil poderá produzir um novo vírus se a doença não for controlada.

© EPA/Raphael Alves

O médico brasileiro Miguel Nicolelis considera que o Brasil constitui um celeiro de novas estirpes do vírus SARS-CoV-2, causador da covid-19, e poderá produzir um novo vírus se a doença não for controlada, um ‘SARS-CoV-3’.

“O Brasil virou o foco, o epicentro da pandemia neste momento uma vez que nos Estados Unidos houve uma queda de mais de um terço dos óbitos. O Brasil é o foco [da doença] no mundo”, afirmou o neuro-cientista em entrevista à Lusa.

Médico e neuro-cientista, Miguel Nicolelis liderou por onze meses um grupo de especialistas responsáveis por orientar um consórcio de governadores no nordeste do país para o combate à pandemia. Também professor da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, já esteve numa lista dos maiores cientistas do mundo, realizada pela revista Scientific American.

À Lusa, Nicolelis afirmou que a nova estirpe registada no país, conhecida como variante brasileira ou amazónica, é mais transmissível e, embora ainda não existam dados confiáveis sobre a sua letalidade – não há certeza se ela é ou não mais mortal do que outras variantes do SARS-CoV-2 em circulação no país – é um sinal de alerta, já que uma transmissão pode provocar o surgimento de um novo tipo de coronavírus.

Números de contágio no Brasil potenciam as mutações do vírus, avisa o neurocirurgião brasileiro Miguel Nicolelis.
© Wikimedia Commons

“O perigo é que nós estamos dando chance para o coronavírus, aqui no Brasil, se replicar e [infectar] entre 70 mil e 80 mil pessoas por dia. Isto gera um número incrível de mutações no vírus. Isto pode dar origem a novas variantes e inclusive, no limite, a mistura do material genético de diferentes variantes pode gerar um novo vírus, um SARS-Cov-3″, explicou.

Nicolelis salientou que o aparecimento de um novo vírus ainda é uma possibilidade teórica, mas há uma probabilidade biológica de que este cenário se concretize.

Dados divulgados pelo Imperial College de Londres em 05 de Março indicam que a taxa de transmissão da covid-19 no Brasil estava em 1,1.

“Estamos criando um reservatório gigantesco de pessoas infectadas gravemente. Estamos criando [novas estirpes], como esta variante amazónica. É muito provável que nós tenhamos outras variantes surgindo no Brasil, como esta ocorrendo nos Estados Unidos”, afirmou.

“Quando você tem um reservatório humano muito grande de um vírus e o vírus se multiplica demais é inevitável que ocorram mutações por acidente na replicação do vírus. Nós estamos dando para a biologia [o vírus] o que ela necessita para gerar mutações e variantes”, acrescentou.

O Brasil registou uma média acima de 60 mil nos últimos 14 dias, segundo dados do Ministério da Saúde.

Mais de 11,2 milhões de pessoas já foram diagnosticadas com a doença desde que houve a confirmação do primeiro caso em território brasileiro, em 26 de Fevereiro de 2020.

Também foram registadas oficialmente mais de 275 mil mortes provocadas pela doença.

Nicolelis também explicou que a taxa de crescimento e replicação do vírus muda constantemente, mas usando os valores médios dos últimos 14 dias para fazer uma estimativa, uma curva de crescimento de casos e óbitos, é possível prever que o Brasil vá superar a marca de 500 mil mortes por covid-19 em Julho.

“No caso [do Brasil] o valor está tão alto, há um crescimento ainda exponencial, que é possível fazer uma aritmética simples. Estamos com mais de 270 mil óbitos, se fizer [um cálculo] com 2 mil óbitos em média por dia, nos próximos 90 dias, haverá 180 mil óbitos. Em três meses batemos 450 mil óbitos. Se houver um colapso completo vai morrer gente e [muitos] nem vão chegar ao hospital”, explicou.

“Se usar uma média de 2 mil a 3 mil [mortes diárias] chega nos quinhentos mil óbitos em 90 dias a partir do final de Março. Três meses, entre Abril até Julho, não tem muito segredo, é aritmética”, avisou.

DN/Lusa

Mas não são o presidente e os filhos dele que até mandam o povo meter a máscara no rabo? Onde está a admiração?

 

 

 

625: O vírus veio para ficar? Sim. E as vacinas protegem mesmo? Há uma forte possibilidade

 

 

SAÚDE/SARS-CoV-2/COVID-19

Mais de um ano depois de se começar a ouvir falar da chegada à Europa do novo coronavírus, que tinha sido detectado no final de 2019 na cidade chinesa de Whuan, ainda há muitas dúvidas por esclarecer.

© Diana Quintela / Global Imagens

Desde Março de 2020 que a atenção dos portugueses tem sido focada nas consequências do vírus SARS-CoV-2. Com muitas questões ainda por resolver, o DN colocou a três especialistas algumas dúvidas — as mesmas questões a cada um — que ainda existem na sociedade sobre este vírus, a sua evolução e as vacinas.

Manuel Santos Rosa

Imunologista, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

O SARS-CoV-2 veio para ficar?

Os vírus podem manter-se longo tempo, dependendo da existência de hospedeiros que lhes permitam a replicação e propagação. Os coronavírus têm mostrado aspectos erráticos na sua adaptação ao hospedeiro, mas o SARS-CoV-2 tem, de alguma forma, surpreendido pelo sucesso mutacional, pelo que pode ter vindo para ficar.

O vírus pode enfraquecer e evoluir para uma “gripezinha” ou as novas estirpes podem torná-lo mais perigoso?

Sim, pode acontecer, seria bom que acontecesse, que o vírus pudesse modificar-se por forma a tornar-se menos patogénico e a ter menos capacidade de infecção. Muitas mutações poderão mesmo ser suicidas, ou muito enfraquecedoras da sua capacidade agressora, mas outras (e muitas já foram detectadas) permitem uma melhor adaptação do SARS-CoV-2 ao ser humano, com a consequente facilitação da entrada no nosso organismo e do aumento da patogenicidade.

As vacinas são eficazes para interromper a transmissão comunitária ou apenas para prevenir as formas mais graves da doença e/ou mortes?

Tudo depende da eficácia vacinal, da capacidade de vacinação (percentagem da população vacinada e rapidez de vacinação), do tempo de manutenção da imunização (tempo em que o indivíduo vacinado se mantém protegido), das mutações do vírus e de um conjunto vasto de factores que podem influenciar a relação vírus-hospedeiro. De qualquer forma, parece ser definitivo que haverá uma forte capacidade para prevenir as formas mais graves de doença e/ou as mortes.

E se as vacinas não forem suficientes para atingir a tão desejada imunidade de grupo no tempo que seria desejável? Há algo mais que se possa fazer?

Muito se poderá, se pode, fazer. Por exemplo, se a imunidade de grupo estiver ameaçada pela capacidade mutacional do vírus, novas vacinas direccionadas para essas variantes poderão ajudar significativamente. Por outro lado, estamos longe de esgotar as capacidades de defesa contra o SARS-CoV-2: parece-nos fundamental evoluir no processo vacinal para o estímulo da imunidade inata, especialmente através da capacidade de a treinar a melhor responder face a agressores como o SARS-CoV-2. Também entendemos ser fundamental o desenvolvimento de terapias que possam complementar a profilaxia vacinal. Muitos fármacos têm sido propostos e inclusive alguns na área da imunoterapia, como é o caso do EXO-CD24, que poderão representar uma nova capacidade de impedir a agressividade do vírus e uma resposta imunitária desajustada.

O SARS-CoV-2 pode contribuir para que o sistema imunitário dos humanos reforce as suas defesas para enfrentar futuras pandemias?

Não me parece. Embora os estudos ainda não sejam suficientes, alguns apontam para, depois de infecção pelo SARS-CoV-2, a resposta imunitária ter falhas de coordenação, especialmente entre as vertentes de imunidade por anticorpos e celular, e também entre as formas inatas e adquiridas. Também é factual que distintos patogénicos (vírus ou outros) têm um grau elevado de especialização (quer dos receptores, que lhes permitem a entrada nas nossas células, quer de sinalização imunitária) e por isso não conferem reforço significativo face a outras agressões. Veja-se, por exemplo, a gripe sazonal, que ao longo dos anos em nada melhorou a nossa capacidade de resposta. Por outro lado, sabe-se que estímulos/agressões imunitárias por via respiratória são muito pouco educativos para a nossa imunidade, contrariamente ao que acontece com estímulos/agressões por via digestiva, esses, sim, podem ser fortemente protectores e educativos, reforçando a nossa capacidade de resposta e de resistência.

Margarida Saraiva

Presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia e investigadora do i3s (Porto)

O SARS-CoV-2 veio para ficar?

Muito provavelmente sim, mas associado a formas menos graves de doença. Claro que isto vai depender muito da imunidade atingida, quer por infecção natural quer por vacinação. Os outros quatro coronavírus que causam as constipações são “bem tolerados” pela população, não exigindo confinamentos, distanciamento social, máscaras, etc.

O vírus pode enfraquecer e evoluir para uma “gripezinha” ou as novas estirpes podem torná-lo mais perigoso?

Se conseguirmos atingir um nível de imunidade (por infecção natural e vacinação) que permita uma protecção de manifestações severas da doença, sim, a pandemia pode evoluir para uma situação de vírus endémico, sem causar os problemas actualmente conhecidos. Algumas das mutações que o vírus adquire podem traduzir-se numa vantagem competitiva para o vírus, que normalmente assenta numa maior transmissão e, eventualmente, maior replicação. Isto explica a predominância de algumas estirpes relativamente a outras. No entanto, a relação entre mutação/transmissão e gravidade da doença não é directa.

As vacinas são eficazes para interromper a transmissão comunitária ou apenas para prevenir as formas mais graves da doença e/ou mortes?

Os dados que temos até ao momento permitem concluir uma eficácia na prevenção de formas mais graves da doença, mas ainda não são suficientes para concluir definitivamente sobre a questão da transmissão. Com o aumento e follow up do número de pessoas vacinadas, vamos começar a ter uma melhor ideia do que acontece em termos de transmissão. De qualquer forma, para já pelo menos, é imperativo que as regras e os comportamentos preventivos individuais se mantenham, mesmo para quem já foi vacinado.

E se as vacinas não forem suficientes para atingir a tão desejada imunidade de grupo no tempo que seria desejável? Há algo mais que se possa fazer?

A imunidade de grupo resulta em princípio da vacinação e também da infecção natural. O tempo que demorará a atingir depende obviamente do progresso/taxa de vacinação. O que podemos fazer enquanto sociedade é manter uma atitude colectiva com comportamentos individuais adequados, de forma a contribuir para a manutenção de um baixo número de casos, alívio do SNS e, consequentemente, a mínima disrupção.

O SARS-CoV-2 pode contribuir para que o sistema imunitário dos humanos reforce as suas defesas para enfrentar futuras pandemias?

Há sempre uma co-evolução do sistema imune com os patogénos, no sentido de haver uma certa adaptação mútua. É difícil prever até que ponto esta pandemia poderá ter um impacto no sistema imunitário, sendo certo que dependerá também do tipo de “pandemia futura”.

Luís Graça

Imunologista, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa e investigador no iMM

© Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

O SARS-CoV-2 veio para ficar?

O SARS-CoV-2 já está disseminado por todo o mundo e é certo que ficará connosco. É muito raro conseguir-se erradicar um vírus com uma disseminação tão grande. Aconteceu uma vez, com o vírus da varíola, e o vírus da poliomielite está perto de ser erradicado. Contudo, mesmo para vírus em que se atinge a imunidade de grupo, como o vírus do sarampo, não é possível a sua erradicação. Deste modo, teremos de viver com o SARS-CoV-2, embora com um novo equilíbrio, menos grave, próximo do que sucede com outros vírus endémicos.

O vírus pode enfraquecer e evoluir para uma “gripezinha” ou as novas estirpes podem torná-lo mais perigoso?

É pouco provável assistirmos a uma mudança muito profunda da biologia do vírus. A mudança que vai fazer que o SARS-CoV-2 cause menos problemas de saúde dependerá, sobretudo, da alteração da nossa resposta imune ao vírus, e não de uma mudança do vírus. Estamos a caminhar, fruto da vacinação, para um estado em que a generalidade da população estará protegida contra doença grave. Com o tempo, a circulação do vírus, mesmo entre pessoas vacinadas, reforçará essas defesas, de um modo semelhante a uma nova dose da vacina. Deste modo, a percepção será que o vírus enfraqueceu, mas na realidade as nossas defesas é que se adaptaram. Isto é o que sucede quando um vírus deixa de ser pandémico. Um bom exemplo deste fenómeno foram as doenças que os navegadores europeus levaram para o Novo Mundo: os vírus eram os mesmos, mas a adaptação do sistema imunitário dos europeus e dos americanos a esses vírus era diferente.

As vacinas são eficazes para interromper a transmissão comunitária ou apenas para prevenir as formas mais graves da doença e/ou mortes?

Já temos uma resposta a esta pergunta baseada em factos. As vacinas conseguem reduzir, mas não eliminar completamente a capacidade de transmissão do SARS-CoV-2. Também é importante lembrar que nenhuma vacina tem eficácia de 100%. Sabe-se, por isso, que haverá pessoas vacinadas, ainda que poucas, que ficarão doentes, embora a probabilidade de desenvolver doença grave seja muito reduzida.

E se as vacinas não forem suficientes para atingir a tão desejada imunidade de grupo no tempo que seria desejável? Há algo mais que se possa fazer?

É mais importante centrar a atenção na protecção de toda a população, e especialmente as pessoas mais vulneráveis, contra as formas mais graves da doença, do que na imunidade de grupo. Desse modo, estando todos protegidos das formas graves da doença, será mais fácil retomar as actividades sociais mesmo que a imunidade de grupo ainda não tenha sido plenamente atingida.

O SARS-CoV-2 pode contribuir para que o sistema imunitário dos humanos reforce as suas defesas para enfrentar futuras pandemias?

Não. A história de infecções passadas não permite ao sistema imunitário adquirir protecção contra infecções futuras (excepto em casos muito especiais de vírus com muitas semelhanças com vírus de infecções passadas).

Diário de Notícias
05 MAR 2021

 

 

 

611: Mutação em proteína do SARS-Cov-2 torna-o até oito vezes mais infeccioso

 

 

SAÚDE/INFECÇÕES/COVID-19/MUTAÇÕES

Investigação revela que a mutação D614G, existente nas variantes britânica, sul-africana e brasileira, torna o novo coronavírus até oito vezes mais infeccioso nas células humanas, em comparação com o que surgiu na China.

© D.R.

Uma mutação na proteína Spike do SARS-Cov-2, existente nas variantes britânica, sul-africana e brasileira, torna o novo coronavírus até oito vezes mais infeccioso em células humanas do que o que surgiu inicialmente na China, revela um estudo científico.

A investigação, publicada na revista eLife, liderada por especialistas da Universidade de Nova Iorque (UNY), do Centro do Genoma de Nova Iorque e do Hospital Mount Sinai, “confirma as descobertas de que a mutação D614G torna o SARS-CoV-2 mais transmissível”.

Estas descobertas acrescentam “um consenso cada vez maior” entre os cientistas de que esta mutação é mais infecciosa, mas ainda não é claro se a sua rápida propagação “tem um impacto clínico na progressão da doença”, já que vários estudos sugerem que esta mutação “não está associada a uma doença mais grave ou à hospitalização”, indicou a UNY em comunicado.

Mutação “atingiu uma prevalência quase universal”

Um dos autores do estudo, Neville Sanjana, daquela universidade, assinalou que nos meses que se seguiram ao início da investigação, a D614G “atingiu uma prevalência quase universal” e está incluída em todas as variantes relevantes atualmente.

“Confirmar que a mutação conduz a uma maior transmissibilidade pode ajudar a explicar, em parte, por que o vírus se propagou tão rapidamente no último ano”, acrescentou.

Esta mutação, que está localizada na proteína Spike (a que o vírus utiliza para entrar nas células), surgiu provavelmente no início de 2020 e é agora a forma mais prevalecente e dominante em muitos países do mundo.

Para o estudo, os cientistas introduziram um vírus com a mutação D614G em células humanas do pulmão, fígado e cólon. Paralelamente introduziram uma versão do mesmo vírus sem a mutação nos mesmos tipos de células, e compararam os resultados, concluindo que a variante D614G aumentava a transmissibilidade do vírus “até oito vezes em comparação com o vírus original”, além de o tornar mais resistente.

Descobertas “podem influenciar” o desenvolvimento da vacina contra a covid-19

A equipa destacou que estas descobertas “podem influenciar” o desenvolvimento da vacina contra a covid-19, nomeadamente, incluindo nas futuras vacinas de reforço “diversas formas da proteína Spike, das diferentes variantes em circulação”.

As vacinas licenciadas e as vacinas em desenvolvimento foram criadas utilizando a sequência original da proteína Spike, e estão agora em curso estudos para avaliar a sua eficácia contra as variantes que surgiram no Reino Unido, África do Sul e Brasil, todas elas contendo a mutação D614G, recorda o estudo.

Trabalhos recentes sugerem que as vacinas com a forma inicial de D614 podem proteger contra a forma mais recente, embora seja necessário mais trabalho para compreender como as múltiplas mutações podem interagir umas com as outras e afectar a resposta imunitária.

Diário de Notícias
Lusa
19 Fevereiro 2021 — 08:11

 

 

 

591: Variante britânica sofreu mais uma mutação. Cientistas mostram-se preocupados

 

 

SAÚDE/COVID-19/VARIANTES

A variante britânica do novo coronavírus está a espalhar-se no Reino Unido e não só. Esta poderá ser responsável por 50% das infecções na zona de Lisboa e Vale do Tejo em Portugal e, de acordo com cientistas, aparenta estar a sofrer uma nova mutação.

Vários testes em algumas amostras mostram a mutação – a que foi dado o nome de E484K – já detectada na estirpe da África do Sul e do Brasil. Para já, os especialistas britânicos encontraram apenas alguns casos, cerca de uma dezena.

Os investigadores, que se mostram preocupados com as novas mutações, sugerem que estas alterações podem afectar a eficácia da vacina. Contudo, acreditam que as vacinas que estão a ser usadas actualmente devem funcionar.

No Reino Unido as medidas de controlo já foram apertadas para evitar a transmissão da nova variante e de outras, como a sul-africana, que levou a uma campanha massiva de testagem em alguns bairros de Londres e outras zonas de Inglaterra. Foram ainda introduzidas restrições à entrada no país, medidas que afectam também quem as ligações entre Portugal e o Reino Unido.

Em 214 159 amostras analisadas, os especialistas da Public Health England (instituto de saúde inglês) encontraram 11 casos da variante britânica com a mutação E484K.

Embora estejam preocupados, os cientistas não ficam surpreendidos com estes resultados, uma vez que todos os vírus sofrem mutações.

Porém, é “um desenvolvimento preocupante, embora não totalmente inesperado”, refere Julian Tang, especialista em vírus da Universidade de Leicester, em declarações à BBC.

A epidemiologista defende que é necessário que continuem a ser observadas as medidas sanitárias para travar a disseminação do vírus, de modo a reduzir as mutações.

Tang instou a população a respeitar as restrições vigentes para travar a pandemia, uma vez que “os vírus não apenas se propagam, como também evoluem” para se adaptarem ao meio envolvente.

“Caso contrário, o vírus não só pode continuar a espalhar-se, como também pode evoluir”, alerta Tang.

Segundo a BBC, alguns estudos sugerem que a mutação E484K pode ajudar o vírus a escapar da acção dos anticorpos. A Moderna é uma das farmacêuticas que indicou, no entanto, que os resultados da sua vacina indicam que o fármaco ainda é eficaz contra as variantes com esta mutação.

De acordo com a agência de notícias espanhola (Efe), o académico junta-se a outros especialistas que alertam que a propagação desta mutação dentro da variante detectada no Reino Unido pode ter um efeito negativo sobre a eficácia das vacinas, como acontece com as variantes detectadas no Brasil e na África do Sul, ainda que as actuais vacinas consigam oferecer um certo nível de protecção.

Caso seja necessário, as farmacêuticas podem reajustar o processo de desenvolvimento das vacinas, tendo em conta esta nova realidade.

Várias localidades inglesas começam hoje a fazer análises ao domicílio para detectar e isolar casos positivos da variante com origem na África do Sul, face aos indícios que se está a estender entre a população do Reino Unido.

O governo conservador britânico confirmou na segunda-feira esta iniciativa, depois de se terem detectado em diferentes pontos do país os primeiros casos dessa variante que não estão relacionados directamente com viagens à África do Sul ou a outros casos positivos conhecidos.

Ana Moura Ana Moura, ZAP // Lusa

Por Ana Moura
2 Fevereiro, 2021

 

 

 

508: Mutações descobertas do coronavírus revelam que não se tornou mais contagioso

 

 

SAÚDE/COVID-19/MUTAÇÕES

Os investigadores do University College de Londres alertam que a introdução de vacinas fará aumentar a pressão sobre o vírus para o tornar mais esquivo ao sistema imunitário humano.

Nenhuma das mutações descobertas até agora do novo coronavírus que provoca a doença covid-19 o tornam mais contagioso, concluíram investigadores do University College de Londres num estudo publicado esta quarta-feira, em que foram analisados genomas do vírus em 46.000 pessoas.

Até agora, os investigadores identificaram 12.706 mutações no SARS-CoV-2 e viram que 398 delas são repetidas. Dessas, 185 manifestaram-se pelo menos três vezes de forma independente durante os meses da pandemia.

“Descobrimos que nenhuma destas mutações fazem o vírus espalhar-se mais depressa, mas precisamos de continuar a estudar as que ocorrerem, especialmente quando começar a haver vacinas”, afirmou a primeira autora do estudo, Lucy Van Dorp, do Instituto de Genética do UCL.

Os investigadores alertam que a introdução de vacinas fará aumentar a pressão sobre o vírus para o tornar mais esquivo ao sistema imunitário humano.

Isso poderá levar ao surgimento de mutações que escapam à acção da vacina, o que exigirá identificação rápida dessas mutações e adaptação das vacinas.

Os coronavírus como o SARS-CoV-2, que provoca a covid-19, são do tipo RNA, que podem ter mutações de três formas: por erros de cópia durante a replicação do vírus, por interacções com outros vírus que estão a infectar a mesma célula ou podem decorrer da acção do sistema imunitário do anfitrião.

A maior parte das mutações é neutra, mas pode acontecer que sejam boas ou más para o vírus, passando para as gerações seguintes de vírus.

Da investigação não saíram provas de que alguma das mutações comuns estejam a aumentar a transmissibilidade do vírus. A maior parte é neutral, salientam, e deve-se à acção do sistema imunitário humano, não indicando que seja o vírus a adaptar-se ao seu anfitrião humano.

Normalmente, um vírus só sofrerá mutações e dividir-se-á em estirpes diferentes quando se tornar mais comum em populações humanas, mas isso não implica necessariamente que as estirpes sejam mais nocivas ou contagiosas.

Diário de Notícias
Lusa
25 Novembro 2020 — 12:08

 

 

422: Duas mutações genéticas associadas a maior risco de mortalidade por covid-19

 

 

SAÚDE/COVID-19/MUTAÇÕES

Populações europeias têm maior prevalência das mutações. Cientistas que fizeram a descoberta defendem rastreios generalizados e protecção dos portadores.

Cientistas propõem rastreios às populações
© CHANDAN KHANNA / AFP

Duas mutações genéticas responsáveis pela baixa produção, e consequente deficiência, de uma proteína chamada Alfa 1 antitripsina (AAT ou A1AT), que tem uma acção protectora dos pulmões e do fígado em processos inflamatórios, poderão estar associadas a um maior risco de doença severa e mortalidade por covid-19.

O alerta é de um grupo de investigadores israelitas, da Universidade de Telavive, liderado por David Gurwitz, Noam Shomron e Guy Shapira, que acaba de publicar os resultados da sua investigação na revista científica FASEB Journal, da Federação das Sociedades Americanas de Biologia Experimental.

“A nossa análise revela uma correlação forte entre estas mutações e doença grave e maior mortalidade por covid-19”, afirmam os investigadores citados num comunicado da sua universidade.

A confirmar-se em definitivo essa relação de causa-efeito, mediante a realização de estudos clínicos, os investigadores da Universidade de Telavive acreditam que isso abre a porta a uma nova estratégia contra a pandemia: a que passa pela testagem generalizada das populações para as mutações em causa e a protecção em especial das pessoas identificadas como estando em risco, por serem portadoras das mutações.

Estudo abrangeu quase 70 países

A equipa recolheu os dados de 67 países para a prevalência das duas mutações genéticas, designadas PiZ e PiS, que ocorrem no gene SERPINA 1, que codifica a proteína AAT. E depois comparou essa informação com os dados da mortalidade pelo coronavírus nos mesmos 67 países, descobrindo que, mesmo ponderadas as diferenças nas medidas sanitárias tomadas e outros factores como a idade, existe uma forte correlação entre a maior prevalência das duas mutações e uma mortalidade acrescida por covid-19.

Isso é muito claro, por exemplo, para os Estados Unidos, o Reino Unido, a Bélgica, a Espanha ou Itália, entre outros, como sublinham os autores.

Ao invés, a equipa verificou igualmente que em muitos países de África ou do sudoeste asiático, onde a prevalência daquelas duas mutações é muito baixa, as taxas de mortalidade por covid-19 têm sido igualmente mais baixas – pelo menos até à data.

Testar a população e proteger quem precisa

Outros estudos, nomeadamente em Itália, já tinham mostrado que a deficiência na proteína AAT estava associada a casos mais graves e a uma maior taxa de mortalidade por covid-19. Por isso, os investigadores da Universidade de Telavive decidiram seguir aquela pista.

Os dados que recolheram mostram uma tendência clara. Por exemplo, na Bélgica, onde 17 em cada mil pessoas têm a mutação PiZ (a mais frequente das duas avaliadas no estudo), a mortalidade é de 860 por milhão de habitantes. E em Espanha, onde há as mesmas 17 pessoas em cada mil com a mesma mutação, os números da mortalidade por covid-19 não andam longe: 640 por milhão de habitantes.

A tendência repete-se nos diferentes países. Nos Estados Unidos, onde 15 em cada mil habitantes são portadores da mutação, a mortalidade devida ao coronavírus é de 590 por milhão; no Reino Unido a taxa da mutação é de 14 em cada mil, e a mortalidade por covid-19 é de 617 por milhão. E por aí fora. Na Itália os números são respectivamente 13 e 620, e na Suécia 13 e 570.

Portugal, também avaliado no estudo, e com uma prevalência daquela mutação idêntica à de Espanha, tem no entanto um número de mortos por milhão inferior (190), situação que não é especificamente abordada pelo estudo.

A explicação pode estar relacionada com outros factores, como o da disparidade das medidas tomadas pelos países, que é referida de forma geral pelos investigadores. No caso de Portugal, as medidas tomadas logo no início da pandemia, com o confinamento rápido e generalizado, poderão ter sido o elemento-chave para evitar um número maior de contágios e, consequentemente, de uma mortalidade mais pesada ao momento.

A corroborar o padrão, os resultados do estudo mostram que em países como o Japão, onde a mortalidade não excede 12 por milhão, a prevalência daquelas mutações é considerada negligenciável – e o mesmo para outros países, como a Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Vietname ou a própria China.

Face a estes resultados, os autores propõem que sejam agora realizados estudos aprofundados sobre a questão e que, a ser confirmada esta relação se avance para medidas concretas.

“Apelamos à comunidade científica para que teste a nossa hipótese, estudando os dados clínicos, e aos decisores políticos de cada país para que ponham em marcha rastreios populacionais para identificar as pessoas portadoras das mutações”, escrevem os investigadores.

“Essas pessoas devem ser prioritárias para a administração de vacinas contra a covid-19 quando elas estiverem aprovadas e, até lá, devem ser informadas de que são de alto risco e aconselhadas a manter-se em isolamento social”, concluem os investigadores.

Diário de Notícias
Filomena Naves
26 Setembro 2020 — 16:31