508: Mutações descobertas do coronavírus revelam que não se tornou mais contagioso

 

 

SAÚDE/COVID-19/MUTAÇÕES

Os investigadores do University College de Londres alertam que a introdução de vacinas fará aumentar a pressão sobre o vírus para o tornar mais esquivo ao sistema imunitário humano.

Nenhuma das mutações descobertas até agora do novo coronavírus que provoca a doença covid-19 o tornam mais contagioso, concluíram investigadores do University College de Londres num estudo publicado esta quarta-feira, em que foram analisados genomas do vírus em 46.000 pessoas.

Até agora, os investigadores identificaram 12.706 mutações no SARS-CoV-2 e viram que 398 delas são repetidas. Dessas, 185 manifestaram-se pelo menos três vezes de forma independente durante os meses da pandemia.

“Descobrimos que nenhuma destas mutações fazem o vírus espalhar-se mais depressa, mas precisamos de continuar a estudar as que ocorrerem, especialmente quando começar a haver vacinas”, afirmou a primeira autora do estudo, Lucy Van Dorp, do Instituto de Genética do UCL.

Os investigadores alertam que a introdução de vacinas fará aumentar a pressão sobre o vírus para o tornar mais esquivo ao sistema imunitário humano.

Isso poderá levar ao surgimento de mutações que escapam à acção da vacina, o que exigirá identificação rápida dessas mutações e adaptação das vacinas.

Os coronavírus como o SARS-CoV-2, que provoca a covid-19, são do tipo RNA, que podem ter mutações de três formas: por erros de cópia durante a replicação do vírus, por interacções com outros vírus que estão a infectar a mesma célula ou podem decorrer da acção do sistema imunitário do anfitrião.

A maior parte das mutações é neutra, mas pode acontecer que sejam boas ou más para o vírus, passando para as gerações seguintes de vírus.

Da investigação não saíram provas de que alguma das mutações comuns estejam a aumentar a transmissibilidade do vírus. A maior parte é neutral, salientam, e deve-se à acção do sistema imunitário humano, não indicando que seja o vírus a adaptar-se ao seu anfitrião humano.

Normalmente, um vírus só sofrerá mutações e dividir-se-á em estirpes diferentes quando se tornar mais comum em populações humanas, mas isso não implica necessariamente que as estirpes sejam mais nocivas ou contagiosas.

Diário de Notícias
Lusa
25 Novembro 2020 — 12:08

 

 

422: Duas mutações genéticas associadas a maior risco de mortalidade por covid-19

 

 

SAÚDE/COVID-19/MUTAÇÕES

Populações europeias têm maior prevalência das mutações. Cientistas que fizeram a descoberta defendem rastreios generalizados e protecção dos portadores.

Cientistas propõem rastreios às populações
© CHANDAN KHANNA / AFP

Duas mutações genéticas responsáveis pela baixa produção, e consequente deficiência, de uma proteína chamada Alfa 1 antitripsina (AAT ou A1AT), que tem uma acção protectora dos pulmões e do fígado em processos inflamatórios, poderão estar associadas a um maior risco de doença severa e mortalidade por covid-19.

O alerta é de um grupo de investigadores israelitas, da Universidade de Telavive, liderado por David Gurwitz, Noam Shomron e Guy Shapira, que acaba de publicar os resultados da sua investigação na revista científica FASEB Journal, da Federação das Sociedades Americanas de Biologia Experimental.

“A nossa análise revela uma correlação forte entre estas mutações e doença grave e maior mortalidade por covid-19”, afirmam os investigadores citados num comunicado da sua universidade.

A confirmar-se em definitivo essa relação de causa-efeito, mediante a realização de estudos clínicos, os investigadores da Universidade de Telavive acreditam que isso abre a porta a uma nova estratégia contra a pandemia: a que passa pela testagem generalizada das populações para as mutações em causa e a protecção em especial das pessoas identificadas como estando em risco, por serem portadoras das mutações.

Estudo abrangeu quase 70 países

A equipa recolheu os dados de 67 países para a prevalência das duas mutações genéticas, designadas PiZ e PiS, que ocorrem no gene SERPINA 1, que codifica a proteína AAT. E depois comparou essa informação com os dados da mortalidade pelo coronavírus nos mesmos 67 países, descobrindo que, mesmo ponderadas as diferenças nas medidas sanitárias tomadas e outros factores como a idade, existe uma forte correlação entre a maior prevalência das duas mutações e uma mortalidade acrescida por covid-19.

Isso é muito claro, por exemplo, para os Estados Unidos, o Reino Unido, a Bélgica, a Espanha ou Itália, entre outros, como sublinham os autores.

Ao invés, a equipa verificou igualmente que em muitos países de África ou do sudoeste asiático, onde a prevalência daquelas duas mutações é muito baixa, as taxas de mortalidade por covid-19 têm sido igualmente mais baixas – pelo menos até à data.

Testar a população e proteger quem precisa

Outros estudos, nomeadamente em Itália, já tinham mostrado que a deficiência na proteína AAT estava associada a casos mais graves e a uma maior taxa de mortalidade por covid-19. Por isso, os investigadores da Universidade de Telavive decidiram seguir aquela pista.

Os dados que recolheram mostram uma tendência clara. Por exemplo, na Bélgica, onde 17 em cada mil pessoas têm a mutação PiZ (a mais frequente das duas avaliadas no estudo), a mortalidade é de 860 por milhão de habitantes. E em Espanha, onde há as mesmas 17 pessoas em cada mil com a mesma mutação, os números da mortalidade por covid-19 não andam longe: 640 por milhão de habitantes.

A tendência repete-se nos diferentes países. Nos Estados Unidos, onde 15 em cada mil habitantes são portadores da mutação, a mortalidade devida ao coronavírus é de 590 por milhão; no Reino Unido a taxa da mutação é de 14 em cada mil, e a mortalidade por covid-19 é de 617 por milhão. E por aí fora. Na Itália os números são respectivamente 13 e 620, e na Suécia 13 e 570.

Portugal, também avaliado no estudo, e com uma prevalência daquela mutação idêntica à de Espanha, tem no entanto um número de mortos por milhão inferior (190), situação que não é especificamente abordada pelo estudo.

A explicação pode estar relacionada com outros factores, como o da disparidade das medidas tomadas pelos países, que é referida de forma geral pelos investigadores. No caso de Portugal, as medidas tomadas logo no início da pandemia, com o confinamento rápido e generalizado, poderão ter sido o elemento-chave para evitar um número maior de contágios e, consequentemente, de uma mortalidade mais pesada ao momento.

A corroborar o padrão, os resultados do estudo mostram que em países como o Japão, onde a mortalidade não excede 12 por milhão, a prevalência daquelas mutações é considerada negligenciável – e o mesmo para outros países, como a Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Vietname ou a própria China.

Face a estes resultados, os autores propõem que sejam agora realizados estudos aprofundados sobre a questão e que, a ser confirmada esta relação se avance para medidas concretas.

“Apelamos à comunidade científica para que teste a nossa hipótese, estudando os dados clínicos, e aos decisores políticos de cada país para que ponham em marcha rastreios populacionais para identificar as pessoas portadoras das mutações”, escrevem os investigadores.

“Essas pessoas devem ser prioritárias para a administração de vacinas contra a covid-19 quando elas estiverem aprovadas e, até lá, devem ser informadas de que são de alto risco e aconselhadas a manter-se em isolamento social”, concluem os investigadores.

Diário de Notícias
Filomena Naves
26 Setembro 2020 — 16:31

 

 

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