420: Doentes hospitalizados com covid-19 podem vir a sofrer de stress pós-traumático

 

 

SAÚDE/COVID-19/STRESS

O medo da morte e do desconhecido são levados ao limite. Ansiedade, insónias e delírios são alguns dos sintomas a que os doentes devem estar atentos após o evento traumático de um internamento com covid-19.

Doente com covid-19 num hospital em El Salvador
© MARVIN RECINOS / AFP

“Era como estar no inferno. Vi pessoas a morrer e todos os funcionários tinham máscaras e só se viam os seus olhos – foi tão solitário e assustador.” A experiência de Tracy, uma doente com covid-19, relatada pela BBC, é semelhante à de todos os outros doentes hospitalizados devido ao coronavírus. Tracy foi internada no Hospital Whittington, no norte de Londres, em Março e passou mais de três semanas lá – uma das quais nos cuidados intensivos. Desde que recebeu alta em Abril, esta mulher de 59 anos está com dificuldade em dormir, tem constantemente medo de morrer e sofre de flahsbacks que a levam de novo para a cama do hospital.

“Tem sido muito difícil. Fisicamente, estou tão cansado. Estou a começar a recuperar, mas o lado mental é muito difícil”, diz. Tracy está agora a receber apoio psicológico. “Eu tenho uma boa rede de apoio de familiares e amigos e sou uma pessoa positiva – e estou a lutar. Acho que haverá muitas pessoas numa situação semelhante, se não pior.”

Tracy é apenas uma das muitas pessoas que ficaram com cicatrizes psicológicas da sua experiência com o coronavírus. As pessoas que estiveram gravemente doentes internadas no hospital com coronavírus têm grandes probabilidade de sofrer de stress pós-traumático (SPT), dizem os médicos.

No Reino Unido, o Grupo de Trabalho de Resposta ao Trauma Covid considera que os doentes que passaram pelo cuidados intensivos são aqueles que correm um risco maior e que devem ser acompanhados durante pelo menos durante um ano após o internamento. Esta conclusão baseia-se num estudo da University College London que mostra que 30% dos pacientes que sofreram doenças graves em surtos de doenças infecciosas no passado desenvolveram SPT, além de também serem comuns os problemas de depressão e ansiedade.

Hospital no México
© ALFREDO ESTRELLA / AFP

Para chegar a estas conclusões, os investigadores analisaram estudos anteriores realizados em pacientes com outros coronavírus, como o SARS e o MERS. Num período de acompanhamento de quase três anos após a doença, quase um em cada três pacientes recuperados desenvolveu sintomas de stress pós-traumático. Além disso, 15% dos pacientes com SARS ou MERS relataram sintomas de depressão aproximadamente um ano após a recuperação e mais de 15% tiveram vários outros problemas (fadiga constante, mudanças de humor, distúrbios do sono, problemas de memória). Portanto, os autores afirmam que existe um risco de os mesmos problemas surgirem em pacientes com covid-19.

Muitos pacientes com SARS e MERS hospitalizados também apresentaram sintomas de delírio (confusão, agitação, consciência alterada) durante o combate à doença. Os primeiros dados da covid-19 sugerem que o delírio também é comum entre os pacientes actuais.

“A probabilidade de os doentes hospitalizados com covid-19 virem a sofrer de stress pós-traumático é alta”, confirma ao DN a psicóloga Ana Marques. Se para todos nós esta já é uma situação complicada porque estamos perante uma doença grave e desconhecida, que obviamente desperta a ansiedade, os doentes com covid-19 estão ainda mais vulneráveis. Além de terem a saúde debilitada pelo vírus, “as pessoas internadas estiveram isoladas durante bastante tempo, privadas da sua família e das suas rotinas, sem saberem quando era dia ou noite, e ainda por cima rodeadas por toda aquela parafernália. E, além disso, estavam cheias de medo.”

Segundo esta psicóloga, existem dois medos principais que todas as pessoas sentem ao longo da sua vida: o medo do abandono e o medo da morte. Ora, os doentes hospitalizados com covid-19 sentiram estes medos “levados ao limites”, diz, lembrando por exemplo o caso das pessoas mais velhas ou com demência que não conseguem perceber exactamente o que lhes está a acontecer e porque é que, de repente, os seus familiares não as visitam, sentindo-se abandonadas.

Também a psicóloga Cécile Domingues, da Clinica da Mente, concorda que a pandemia acarreta riscos que vão muito para além da doença física. “Toda a gente tem medo porque é uma doença desconhecida. E as imagens que nos chegam dos hospitais são muito assustadoras, muito perturbadoras até para quem está de fora quanto mais para quem está no hospital”. O internamento com covid-19 será, seguramente, “algo traumático”. “O medo da morte é muito real, as pessoas sabem que podem morrer”, diz.

Doente com covid-19 à chegada ao hospital na China
© AFP

Por isso, consideram estas duas especialistas, é normal que após o internamento, algumas pessoas continuem a sofrer de ansiedade, pesadelos ou insónias – ou nos casos mais graves sofram delírios ou possam vir a ter depressões.

Os sintomas são muito diversos e por isso é preciso ficar atento. As crises de ansiedade podem ser provocadas por uma simples ida ao médico ou por um cheiro que seja idêntico ao do hospital. Há pessoas que ficam com tanto medo de infectar os outros que passam a ter comportamentos obsessivos de limpeza. Pode haver uma agressividade latente que, em determinadas situações, dá origem a episódios violentos.

“É importante que estas pessoas sejam acompanhadas durante quatro semanas. Se esses sintomas persistirem podemos dizer que se trata de stress pós-traumático”, explica Cécile Domingues.

Diário de Notícias

Maria João Caetano
29 Junho 2020 — 18:04

 

 

375: “Mindfulness” e meditação podem piorar a depressão e a ansiedade

 

SAÚDE/MEDITAÇÃO

(CC0) leninscape / Pixabay

Tanto a mindfulness como a meditação são vistas como práticas que aliviam o stress, mas às vezes podem deixar as pessoas numa situação ainda pior.

Mindfulness é um termo que tem sido traduzido como Consciência Plena, Presença Plena ou Atenção Plena. Pode ser considerado como um processo de auto-regulação da atenção, com o objectivo de trazer uma qualidade da consciência não-elaborativa ao momento presente, dentro de uma orientação de curiosidade, abertura experiencial e aceitação.

É uma prática meditativa que reflete a capacidade humana básica fundamental para prestar atenção a aspectos relevantes da experiência.

Tanto a mindfulness como a meditação são vistas como práticas que aliviam o stress, mas às vezes podem deixar as pessoas numa situação ainda pior.

Naquela que foi a primeira revisão sistemáticas das evidências relativas a esta matéria, uma equipa de investigadores descobriu que cerca de uma em cada 12 pessoas que tentam meditar sentem um efeito negativo indesejado, nomeadamente o agravamento da depressão ou da ansiedade.

“Para a maioria das pessoas funciona bem, mas sem dúvida tem sido sobrevalorizada e não é universalmente benevolente”, diz Miguel Farias, investigador da Universidade de Coventry e co-autor do estudo, citado pela New Scientist.

Tem havido alguns relatos de pessoas que experienciaram uma degradação da saúde mental após iniciar a meditação, mas ainda não está bem claro com que frequência isso acontece. O estudo foi publicado na versão em papel da revista científica Acta Psychiatrica Scandinavica.

Os investigadores descobriram que cerca de 8% das pessoas que tentam meditação sentem um efeito indesejado. “As pessoas sentiram um pouco de tudo, desde um aumento da ansiedade até ataques de pânico”, diz Farias. Também foram observados casos de psicose ou pensamentos suicidas.

A psicóloga Katie Sparks explica que esta percentagem pode estar inflacionada devido a pessoas que fazem meditação devido a uma depressão ou ansiedade não diagnosticadas. Às vezes, quando as pessoas tentam acalmar os seus pensamentos, a mente pode “rebelar-se”, explicou Sparks.

Isto não significa que as pessoas devem parar de experimentar a técnica, realça a especialista, mas em vez disso, devem optar por sessões de meditação guiada, conduzidas por um professor ou uma aplicação com uma narração gravada.

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ZAP //

Por ZAP
19 Agosto, 2020

 

 

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