566: COVID-19: Encontradas evidências de memória imunológica de longo prazo graças às células B

 

 

SAÚDE/COVID-19

Uma equipa de investigadores procurou preencher as lacunas na compreensão da memória imunológica após uma infecção por SARS-CoV-2. A sua acção levou-os a mergulhar profundamente na resposta com factor imune dos pacientes. Para tal, os cientistas mediram vários componentes do sistema imunológico, incluindo anticorpos circulantes, células B de memória e células T específicas para o novo coronavírus, em pacientes com vários níveis de doença, até oito meses após a infecção.

A boa notícia é que foram encontradas evidências de memória imunológica de longo prazo graças às células B.

Há imunidade para COVID-19 além dos anticorpos

A equipa colaborativa do La Jolla Institute for Immunology (LJI) e do departamento de microbiologia da Icahn School of Medicine em Mount Sinai estudou as respostas das células imunológicas e de anticorpos em mais de 180 homens e mulheres que se recuperaram da COVID-19.

Conforme foi relatado, a memória imunológica destes pacientes ao vírus – em todos os tipos de células imunológicas estudados – era mensurável até oito meses após o aparecimento dos sintomas.

Segundo os autores, os resultados indicam “que a imunidade durável contra a doença secundária COVID-19 é uma possibilidade na maioria dos indivíduos”.

Os nossos dados mostram que a memória imunológica em pelo menos três compartimentos imunológicos foi mensurável em ~ 95% dos indivíduos cinco a oito meses após o início dos sintomas.

Escreveram os autores do estudo.

Como o número de casos diários de COVID-19 em todo o mundo continua a aumentar, se uma infecção inicial com SARS-CoV-2 leva a imunidade protectora de longa duração contra COVID-19 permanece uma questão.

O estudo da natureza da resposta humoral ao vírus, que inclui uma resposta de anticorpos, e da resposta imunitária celular, que inclui células B e células T, ao longo de períodos de seis meses após o início dos sintomas poderia ajudar a informar a duração da imunidade protectora.

Para tal, Jennifer Dan, investigadora na LJI, e os seus colegas recrutaram mais de 180 homens e mulheres dos Estados Unidos que recuperaram da doença. A maioria tinha tido sintomas ligeiros que não exigiam hospitalização, embora 7% tivessem sido hospitalizados.

A memória das células

A maioria dos sujeitos forneceu uma amostra de sangue num único momento, entre seis dias e oito meses após a ocorrência dos sintomas, embora 43 amostras tenham sido fornecidas aos seis meses ou mais após o início dos sintomas.

Em 254 amostras totais de 188 casos COVID-19, a equipa localizou anticorpos, células B, e dois tipos de células T. O anticorpo (IgG) para a proteína Spike foi relativamente estável durante mais de 6 meses e exibiu apenas declínios modestos com seis a oito meses após o início dos sintomas.

As células B de memória específica da proteína Spike eram mais abundantes aos seis meses do que a um mês após o início dos sintomas. As células T, entretanto, apresentavam apenas uma ligeira decadência no corpo. Mais especificamente, as células T CD4+ específicas da SARS-CoV-2 e as células T CD8+ declinaram com uma meia-vida de 3 a 5 meses.

Embora os autores advirtam que “as conclusões directas sobre a imunidade protectora não podem ser feitas com base [nas suas conclusões] porque os mecanismos de imunidade protectora contra a SARS-CoV-2 ou COVID-19 não estão definidos nos humanos”, também dizem que várias “interpretações razoáveis” podem ser feitas a partir do seu estudo.

Estas incluem o apoio a compartimentos de memória imunitária em repouso, contribuindo potencialmente “de formas significativas para a imunidade protectora contra pneumonia ou COVID-19 secundária severa”, escreveram os investigadores.

O trabalho é publicado no portal Science no jornal “Immunological memory to SARS-CoV-2 assessed for up to eight months after infection“.

Pplware
Autor: Vítor M.
08 Jan 2021

 

 

 

559: Nem todas as pessoas vacinadas vão ficar imunizadas, avisa DGS

 

 

SAÚDE/VACINAS/IMUNIZAÇÃO/COVID-19

Tiago Petinga / Lusa

A directora-geral da Saúde avisou esta terça-feira que nem todas as pessoas vacinadas contra a covid-19 vão ficar imunizadas, uma vez que a vacina administrada não é 100% eficaz e ainda não há imunidade de grupo.

Graças Freitas falava na habitual conferência de imprensa na Direcção-Geral da Saúde (DGS), em Lisboa, sobre a evolução da pandemia da covid-19 em Portugal.

Vacinar não quer dizer abandonar critérios de protecção“, frisou, advertindo que “nem todas” as pessoas vacinadas “vão ficar imunizadas”. “A vacina não é 100% eficaz e nós não temos ainda imunidade de grupo”, justificou.

Graça Freitas reforçou, por isso, a necessidade de se manterem medidas de protecção até se atingir a imunidade de grupo, como o uso de máscaras, a higienização das mãos, a ventilação de espaços e o distanciamento físico.

A campanha de vacinação contra a covid-19 iniciou-se em Portugal em 27 de Dezembro com a inoculação de profissionais de saúde nos hospitais.

Na segunda-feira, foi alargada aos lares de idosos.

A vacina que está a ser administrada é a do consórcio Pfizer-BioNTech, para cujo uso de emergência foi aprovada em 21 de Dezembro pela Agência Europeia do Medicamento.

Até à data foram dadas em Portugal 32 mil doses.

Em Portugal, morreram 7.286 pessoas dos 436.579 casos de infecção de covid-19 confirmados, de acordo com o boletim mais recente da DGS. O país contabilizou esta terça-feira mais 90 mortes e 4.956 novos casos de infecção pelo novo coronavírus.

Em declarações ao jornal Observador, o especialista Carlos Antunes considerou que Portugal já entrou numa terceira vaga da doença, alertando ainda que as novas infecções registadas diariamente podem “chegar a valores insuportáveis”.

ZAP // Lusa

Por ZAP
6 Janeiro, 2021

 

 

 

Imunidade: “Se tudo correr bem, penso que voltaremos ao normal em meados do próximo ano”

 

 

SAÚDE/COVID-19/IMUNIDADE

A vacina tão esperada contra a covid-19 está a chegar. E todos querem acreditar que a chamada imunidade de grupo vai começar a existir para se conseguir atenuar o impacto da doença. Mas como se constrói esta imunidade, de que estará dependente? Que estratégia de vacinação e que grupos-alvo devem ser prioritários para se atingir imunidade de grupo? O imunologista Manuel Santos Rosa, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, explica ao DN os cenários que ainda podem surgir.

© Fernando Fontes/Global Imagens

No espaço de uma semana foram anunciadas duas vacinas de combate ao SARSCoV-2, a da Pfizer e a da Moderna. A União Europeia já negociou milhões de doses para que todos os Estados membros as recebam em simultâneo para começarem a vacinar as populações. Cada um terá direito a doses proporcionais à sua população, porque nunca seria possível um cenário de vacinação em massa numa primeira fase, nem as empresas teriam capacidade para tal.

O imunologista e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Manuel Santos Rosa quer acreditar que o mundo está a ir na direcção certa, com a descoberta de uma vacina para travar a doença e também, daqui a uns tempos, com a descoberta de um fármaco que melhor tratará quem ficar infectado.

Mas até se perceber que eficácia terão, de facto, as vacinas, quando forem transpostas para a população em geral e se as estratégias de vacinação estão a ser as mais corretas, ainda há muitas incertezas e questões ligadas ao SARS-CoV-2, o coronavírus que invadiu o mundo há quase um ano, que têm de ser esclarecidas. O importante é que todos, governos e povos, percebam que a imunidade conquistada tem de ser a nível mundial, e não país a país, pois a mobilidade, um factor que hoje é incontornável, pode reacender a transmissão. Em entrevista ao DN, Manuel Santos Rosa explica a necessidade de um conceito de imunidade de grupo alargado e os vários cenários que as sociedades ainda podem ter de enfrentar.

Muito se tem falado de imunidade em relação ao SARS-CoV-2. Fala-se muito de imunidade de grupo: como se constrói e que impacto pode ter na transmissão do vírus?
A imunidade pode ser importantíssima no atenuar ou, se quisermos, na quase erradicação, ou mesmo erradicação, de uma doença. Ao longo da história temos vários sucessos vacinais que levaram à erradicação de algumas doenças – é o caso da varíola e da poliomielite. Mas também há situações em que se criou uma imunidade tão forte e duradoura que, desde que a pessoa seja vacinada uma vez, praticamente não precisa de reforços vacinais – é o caso do tétano. O conceito de imunidade é exactamente este: o de estarmos livres de doença, mas na prática tem muito que se lhe diga.

Porquê?
Vou começar por dizer uma coisa que me parece ser um ensinamento muito importante dos últimos anos em relação à imunidade e que tem a ver com o sarampo. Ou seja, a cobertura vacinal do sarampo foi razoavelmente boa, as pessoas estavam vacinadas, desenvolveram imunidade e deixou de haver surtos. Se estivermos vacinados, o agente patogénico, o agente agressor, muito dificilmente irá incomodar um não vacinado, e mesmo que o encontre, este não vacinado estará em contacto com pessoas vacinadas e o sucesso de poder infectar outros está limitado. Isto é imunidade de grupo. É um conceito muito importante porque significa que, mesmo que não estejamos todos vacinados, todos estamos relativamente protegidos.

Mas em relação ao sarampo têm existido ultimamente alguns surtos no mundo, Portugal registou casos nos últimos anos…
É um facto. O que se verificou em relação ao sarampo foi que, em primeiro lugar, a mobilidade actual das pessoas faz que seja fácil importar uma doença. Em Portugal, por exemplo, estávamos tranquilamente sem sarampo, até que vieram pessoas contaminadas de fora. Tivemos casos importados, e isto aplica-se claramente à situação pandémica que vivemos neste momento.

Quer dizer que o problema é a mobilidade?
Também, porque se não resolvermos o problema da imunidade no mundo vamos ter sempre a possibilidade de ter casos importados, dado a mobilidade que existe hoje, e que é incontornável. É importante perceber isto até para a recuperação da economia e do bem-estar da população. Há um certo cansaço das pessoas à cessação da mobilidade. No dia em que seja possível readquirir a mobilidade plena todos vamos querer viajar, porque estamos desejosos de o fazer. Quando o fizermos haverá um reacender de situações a nível mundial que podem não ter sido devidamente controladas. Este é outro ensinamento importante. Ou seja, o primeiro é percebermos que não podemos funcionar como quintas – estou vacinado e não me interessa o que se passa nos vizinhos -, quer seja em relação ao sarampo quer seja em relação ao SARS-CoV-2, temos de perceber que a transmissão é um problema mundial devido à mobilidade das pessoas. O segundo é verificarmos que a imunidade induzida nas pessoas é suficientemente forte para não permitir que, apesar de tudo, haja disseminação do agente infeccioso.

O imunologista Manuel Santos Rosa defende que temos de ter uma estratégia muito equilibrada e oleada para que vacinação corra bem.
© Fernando Fontes/Global Imagens

Não basta a construção de imunidade de grupo ou comunitária num país, terá de ser a nível mundial?
Sem dúvida, embora o processo de mobilidade não seja homogéneo. Há países onde se viaja mais do que outros. Por outro lado, não sei até que ponto é que a mobilidade continuará a ser exactamente como foi até agora, o hábito que adquirimos de reuniões à distância pode levar a mudanças, mas, seja como for, haverá sempre mobilidade e será muito mais forte nalguns países do que noutros, o que quer dizer que não podemos isolar o problema e pensar que estamos tranquilos se a situação for resolvida na Europa. Aqui pode ficar tudo bem, mas noutros locais não.

A vacinação não vem ajudar?
Vem, mas a situação pode ser morosa, e ainda há muitas dúvidas. Por exemplo, há muitas dúvidas quanto às actuais disponibilidades das vacinas para que se consiga atingir uma imunidade individual e de grupo tão forte, que praticamente não possa haver casos importados. Para isto acontecer era preciso termos uma cobertura vacinal e um sucesso da imunização muito elevado. E não sabemos se o vamos conseguir

Por exemplo, em relação a Portugal, sabe-se quantas pessoas seria necessário vacinar para se criar uma imunidade de grupo?
É difícil dizer. Primeiro porque as percentagens de eficácia conseguidas nos ensaios não são totalmente reprodutíveis na população. Habitualmente há uma queda – que pode ser mais ou menos significativa – quando a vacina é disponibilizada para a população em geral. Obviamente que é um bom sinal que nesta fase avançada do ensaio clínico as vacinas manifestem uma eficácia elevada, não se pode ter a ideia de que não haverá uma quebra. Em segundo, porque a cobertura vacinal vai depender do que falámos anteriormente, da mobilidade. Se estivermos a falar só de Portugal, e tendo em conta que estamos num circuito em que estamos em condições para utilizar qualquer uma das duas vacinas, é uma coisa, mas a estratégia de vacinação vai ter de ser adaptada para se chegar a uma cobertura comunitária elevada. Pode dizer-se que é um número completamente variável, mas sabendo nós que quanto mais melhor, se aproximarmos a taxa de vacinação dos 90% ou mais teremos a certeza quase absoluta de que vamos ter imunidade de grupo.

Diz que a estratégia tem de ser adaptada. O que quer dizer especificamente?
Que temos de saber em primeiro lugar como é que as pessoas vão reagir à vacina. Há algumas informações de que pessoas com mais idade têm vindo a responder bem, mas também sabemos que os idosos têm uma capacidade de resposta menor, como acontece em relação à vacina da gripe, porque estamos a falar de vacinas que precisam de uma resposta eficaz, que destrua o vírus. Por outro lado, temos de saber também como vai reagir todo um grupo de pessoas com outras doenças e debilidades no sistema imunitário. Refiro-me, por exemplo, ao grupo de pessoas imune-deprimidas, quer por doença quer porque já estão a fazer outras terapêuticas. Depois, temos também um outro grupo, que é o das pessoas mal nutridas, tipicamente com debilidades no sistema imunitário. E não podemos esquecer as grávidas, para as quais poderão ter de existir precauções específicas.

Há uma série de grupos sobre os quais ainda não se sabe como vão reagir à vacina e se permitem a imunidade de grupo?
Sem dúvida. Há muitos grupos em que não temos a certeza se a vacina vai ter o mesmo tipo de capacidade de resposta, o que quer dizer que a sua eficácia na população em geral, provavelmente, vai ser menor do que no ensaio clínico. E se chegarmos à conclusão de que 10% a 20% dos idosos não respondem à vacinação, já dificilmente conseguiremos imunidade de grupo.

Mesmo com vacina, o SARS-CoV-2 deixa muitas incertezas…
Incertezas e problemas que se colocam e que é importante que sejam esclarecidos. Por exemplo, não temos a certeza se a imunidade que estamos a induzir é uma imunidade que nos assegure a não transmissão do SARS-CoV-2. Em relação a outras vacinas que conhecemos sabemos isso, temos a certeza de que um indivíduo vacinado não vai transmitir a doença, é o caso do sarampo, mas neste caso não sabemos. A dúvida persiste, tanto mais que há muitas pessoas assintomáticas, e não sabemos se estão assintomáticas porque não responderam ao SARS-CoV-2 ou porque conseguiram neutralizar facilmente o vírus.

O grupo dos doentes assintomáticos tem de ser mais estudado?
São um grupo que terá de ser devidamente estudado e acompanhado para se ter a certeza de que estas pessoas estão imunizadas e não vão propagar o vírus. Outra dúvida que existe é sobre o tempo que irá durar a imunidade. Em relação a outros coronavírus, o que se sabe é que a imunidade não é muito duradoura. Dizendo de outro modo: provavelmente o SARS-CoV-2 irá continuar a existir e vamos ter uma vacinação anual… Não se sabe.

Isso quer dizer que poderemos ter de uma vacina semestral?
Exactamente. Na gripe, e como é um vírus sazonal, todos sabemos qual é o período do ano em que surge e vacinamo-nos preventivamente. O SARS-CoV-2 já mostrou muito claramente que não é sazonal e que pode persistir em qualquer época do ano. A sua persistência poderá levar a que, se não conseguirmos perceber qual é a duração da imunidade num grupo, as pessoas percam a imunidade e sejam de novo infectadas. Esta é uma hipótese, mas há outra muito mais optimista: o SARS-CoV-2 irá desaparecer e não é preciso aumentar a imunidade, porque a que existe é suficiente para globalmente travar o vírus, tal como aconteceu com o anterior coronavírus, que ficou apenas em certos pontos geográficos do globo. Mas pode dar-se o caso mais pessimista de que, mesmo com a vacina, nada seja seguro.

Os critérios de vacinação vão ter de ser revistos?
Esse é um passo muito importante. Vai ser moroso, porque não é possível vacinar uma população na sua quase totalidade de um dia ou de um mês para o outro. Tem de haver uma estratégia de vacinação, mas diria que o primeiro critério iria para a vacinação dos profissionais mais expostos, depois seguir-se-iam os grupos mais transmissores, quer o sejam por mobilidade elevada quer por outros factores.

Está a querer dizer que os critérios para esta vacinação devem ser diferentes dos que têm sido referidos, como profissionais de saúde, doentes crónicos, imuno-deprimidos, idosos, etc.?
Numa primeira fase é fundamental proteger sempre os profissionais de saúde. É uma estratégia de defesa, é uma população que não pode cair em combate. E também grupos-alvo específicos, pela sua fragilidade. Numa segunda fase, vêm as pessoas ligadas à produtividade quotidiana. Estas pessoas são fundamentais para que o país continue a funcionar.

A população activa é um grupo a proteger de imediato?
É fundamental que seja, como a população de grande mobilidade, a população escolar, sobretudo a do ensino superior. São populações que têm de estar na vacinação prioritária. Depois é fundamental que se vá adaptando a estratégia conforme o próprio êxito de imunização. Se o êxito for muito bom, já quase não será preciso uma estratégia, mas ir vacinando. Se o êxito for limitado, temos de ser muito selectivos e estratégicos com o que fazer em cada fase.

Professor catedrático da Faculdade de Medicina de Coimbra sublinha que conceito de imunidade tem der ser alargado, não pode ser a nível nacional ou europeu, mas mundial.
© Fernando Fontes/Global Imagens

A União Europeia já anunciou ter comprado milhões de doses de vacinas que estão para entrar no mercado já no início do ano. Portugal irá receber proporcionalmente à população, seis a nove milhões de doses, o que representa vacinas para 3,4 milhões de pessoas. Será suficiente nesta primeira fase para se criar imunidade?
Acredito que para uma primeira fase será, mas temos de ter em atenção dois cenários completamente opostos. Primeiro: conseguimos montar uma boa estratégia de vacinação e que tudo corre bem. Segundo: havendo uma estratégia muito equilibrada e oleada para que tudo funcione bem, penso que será suficiente e vamos conseguir bloquear uma série de cadeias de transmissão do vírus.

E se as coisas não correrem bem?
Se a estratégia vacinal falhar, ou porque o número de vacinas não foi suficiente ou porque os grupos-alvo que se incluíram na vacinação não resultaram em eficácia, em termos de não transmissão, é evidente que a única hipótese que nos restaria era a da vacinação em massa. Ainda há um grau de incerteza enorme, portanto a única coisa que nos é útil pensar é que a vacinação vai ter eficácia e que a estratégia vai funcionar.

É neste sentido que o mundo está a ir, mas tem havido países que têm preferido outras estratégias, como a Suécia. O que pensa destas estratégias?
Às vezes, é preciso ser demasiado directo nas afirmações para que as pessoas percebam. É evidente que se deixarmos os idosos todos infectarem-se e uma percentagem muito elevada morrer, que daqui a uns meses não teremos problemas com um grupo frágil – porque, infelizmente, uns morreram e outros podem ter desenvolvido imunidade. É falsa a ideia de que se pode viver uma pandemia no século em que vivemos de igual forma a outras que se viveram noutros séculos. Ou seja, quase que se optássemos por uma selecção natural, os mais fracos morriam e os mais fortes resistiam. Isto hoje não é admissível. Mas, vejamos, a Suécia também tomou a posição inicial de perceber se conseguiria criar imunidade de grupo, o que teria sido muito bom, porque tem outros hábitos quotidianos e que são muito diferentes dos dos latinos. O tipo de interacção das pessoas é muito mais limitado do que o nosso, eles quase que não precisavam de confinamento obrigatório porque eles próprios têm uma atitude natural de confinamento, bem diferente da nossa.

Mas já se percebeu que essa atitude não resultou.
Sim, passado algum tempo percebeu-se que não estava a surtir efeito. Agora, já fazem a apologia da protecção, do uso de máscara e de outras medidas. Penso que a Suécia acreditou que o seu sistema funcionaria, senão seria um sistema criticável, diria mesmo repudiável.

Com a esperança da vacina, como olha para o futuro?
É chamada a pergunta do milhão. Na minha modesta opinião, acho que, como em tudo na vida, estamos numa encruzilhada, tanto pode ser o caminho para a direita que está certo como pode ser o da esquerda, porque não sabemos onde vão dar. Quero acreditar que vamos pelo caminho que me parece o mais certo e o mais provável, que é o de se alcançar com a vacina uma eficácia relativa e conseguir-se moderar significativamente a capacidade de infecção do vírus. E se conseguirmos que a distribuição geográfica da vacina seja feita pelos vários continentes, diria mesmo que a vida voltava ao normal em meados do próximo ano. Mas, como imunologista, tenho de dizer também que temos de perceber que é uma possibilidade nunca mais voltarmos a uma situação de tranquilidade em relação a este tipo de agressores, vírus como o SARS- CoV-2, ou bem diferentes dele que poderão surgir, enfim é o inexorável avanço dos tempos.

Diário de Notícias

São precisos quatro a seis meses até ter “níveis significativos de vacinação”, alerta a OMS

 

 

SAÚDE/VACINAS/COVID-19

Responsável pelo programa de emergências sanitárias da OMS avisa que as vacinas contra a covid-19 não devem ser vistas como uma solução mágica nesta segunda vaga da pandemia.

O director executivo do programa de emergências sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan
© Christopher Black / World Health Organization / AFP

O director executivo do programa de emergências sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou, esta quarta-feira, que as vacinas não chegam a tempo de derrotar a segunda onda da pandemia de covid-19.

Michael Ryan afirmou que as vacinas não devem ser vistas como uma solução mágica e que os países que lutam contra o ressurgimento do vírus têm de combater esta segunda vaga de infecções sem elas, mesmo que ainda sejam disponibilizadas durante este inverno.

“Acho que são precisos pelo menos quatro a seis meses antes de termos níveis significativos de vacinação em qualquer lugar”, afirmou o responsável da OMS durante uma sessão pública de perguntas e respostas ao vivo nas redes sociais.

Apesar dos recentes anúncios promissores sobre a fase final dos ensaios clínicos de vacinas, nomeadamente a da Pfizer e da Moderna, Ryan alertou: “Ainda não chegámos lá com as vacinas. Chegaremos, mas ainda não estamos lá”

Enfatizou que muitos países vão ter de enfrentar esta segunda onda da pandemia sem as vacinas. “Temos de entender e interiorizar isto, e perceber: desta vez, temos que escalar esta montanha sem vacinas.”

Esta quarta-feira, a Pfizer referiu que o resultado final do teste clínico da vacina mostra eficácia de 95%, enquanto a Moderna disse esta semana que sua própria candidata era 94,5% eficaz contra a infecção pelo novo coronavírus. Já a Rússia afirma que a sua vacina, Sputnik V, tem mais de 90% de eficácia.

Apesar das boas notícias para o combate à pandemia, Ryan alertou para a possibilidade de se abrandar no que se refere à vigilância individual contra o novo coronavírus, tendo a percepção errada de que as vacinas resolveriam agora o problema.

Algumas pessoas acham que uma vacina será, em certo sentido, a solução: o unicórnio que todos nós temos perseguido. Não é”, disse o irlandês.

“Se adicionarmos vacinas e esquecermos as outras coisas, a covid-19 não fica reduzida a zero.”

Número de casos diminui na Europa, mas mortes continuam a subir

O número de novos casos de covid-19 na Europa diminuiu na semana passada pela primeira vez em mais de três meses, mas as mortes na região continuaram a subir, segundo dados da OMS.

Pelo menos 55,6 milhões de casos em todo o mundo foram registados desde o início da pandemia na China, onde foram detectados as primeiras infecções em Dezembro do ano passado. Mais de 1,3 milhões de pessoas já morreram devido à covid-19, de acordo com um balanço feito pela AFP, tendo como base dados oficiais.

Preocupação no impacto das restrições nas crianças

Ryan expressou preocupação sobre como a pandemia deixou muitos netos enlutados que não conseguiram passar pelo processo normal de luto devido às restrições impostas para combater o vírus. “Muitas crianças perderam avós”, disse. “Existe um grande trauma entre as crianças”, considerou.

Para o responsável da OMS, o processo de luto para as crianças foi interrompido devido às medidas restritivas, que impossibilitaram as pessoas de se despedirem dos entes queridos. Manifestou preocupação pelo impacto que isto teve nos mais jovens, o de “lamentar a perda de um avô que foi interrompida”. “Tem um impacto para toda a vida”, reforçou.

Diário de Notícias
DN/AFP
18 Novembro 2020 — 21:37

Entretanto, Portugal tem mais 5.891 casos e 79 mortes nas últimas 24 horas
No dia em que a ministra da Saúde diz esperar ter tudo a postos para distribuir as primeiras doses de vacinas em Janeiro, regista-se um total de 3632 mortos e 236015 infectados por covid-19.

 

 

498: Novos dados indicam que imunidade à covid-19 pode durar anos

 

 

SAÚDE/COVID-19

Amostras de sangue de pacientes recuperados sugerem uma resposta imunológica poderosa e duradoura, relataram os investigadores

© EPA/STR

Mais um sinal de que há luz ao fundo do túnel em relação à pandemia de covid-19. Um novo estudo sugere que a imunidade à covid-19 possa durar anos e talvez até décadas, dando assim a esperança de que a vacina possa colocar termo ao novo coronavírus, avança o New York Times.

Segundo os novos dados, a maioria das pessoas que recuperou da infecção apresenta células imunológicas suficientes para afastar o vírus e prevenir doenças oito meses após a infecção e ao que tudo indica essas células podem persistir no corpo durante muito mais tempo.

A investigação, publicada online, não foi revista por pares nem difundida numa revista científica, mas é o estudo mais abrangente sobre a memória imunológica em relação ao coronavírus feito até hoje.

“Essa quantidade de memória provavelmente evitará que a grande maioria das pessoas contraiam doenças graves durante muitos anos”, disse Shane Crotty, virologista do Instituto de Imunologia La Jolla, dos Estados Unidos, que co-liderou o novo estudo.

As descobertas provavelmente poderão aliviar os especialistas preocupados com a possibilidade de a imunidade ao vírus poder ter vida curta, o que significaria que as vacinas teriam de ser administradas repetidamente para manter a pandemia sob controlo.

Esta investigação foca-se ainda em outra descoberta recente: os sobreviventes da SARS, causada por outro coronavírus, ainda carregam certas células imunológicas importantes 17 anos após a recuperação.

Investigadores da Universidade de Washington, liderados pela imunologista Marion Pepper, já haviam mostrado que certas células de “memória” que foram produzidas após a infecção pelo coronavírus persistem no corpo durante pelo menos três meses. E um estudo publicado na semana passada também chegou à conclusão que as pessoas que recuperaram da Covid-19 têm células imunes que são poderosas e protectoras mesmo quando os anticorpos não são detectáveis.

Estes estudos “estão todos a pintar o mesmo quadro, de que após umas primeiras semanas críticas, a resposta imunológica parece bastante convencional”, disse Deepta Bhattacharya, imunologista da Universidade do Arizona.

Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale, disse que não ficou surpreendida com o fato de o corpo ter uma resposta duradoura porque “é isso que deve acontecer”. Ainda assim, ficou animada com a investigação: “Esta é uma notícia empolgante”.

Um pequeno número de pessoas infectadas no novo estudo não tinha imunidade duradoura após a recuperação, talvez por causa das diferenças nas quantidades de coronavírus a que foram expostas. Mas as vacinas podem superar essa variabilidade individual, disse Jennifer Gommerman, imunologista da Universidade de Toronto. “Isso ajudará a focar a resposta, para que não se obtenha o mesmo tipo de heterogeneidade que se vê numa população infectada”, referiu.

Estes novos dados contrariam a preocupação causada nos últimos tempos pelos relatos de que a diminuição dos níveis de anticorpos pudesse fazer com que a imunidade desaparecesse ao fim de alguns meses, deixando assim as pessoas vulneráveis a uma reinfecção.

No entanto, muitos imunologistas frisam que é natural que os níveis de anticorpos caiam, pois são apenas uma pequena parte do sistema imunológico. E, embora sejam necessários para bloquear o vírus e prevenir uma segunda infecção – algo conhecido como imunidade esterilizante -, as células imunológicas que se “lembram” do vírus com mais frequência são responsáveis ​​pela prevenção de doenças graves.

“A esterilização da imunidade não acontece com muita frequência – essa não é a norma”, disse Alessandro Sette, imunologista do Instituto de Imunologia La Jolla.

O que acontece mais frequentemente nas re-infecções é o sistema imunológico reconhecer o invasor e extinguir rapidamente o vírus, até porque a covid-19 é particularmente lento a causar danos, dando assim ao sistema imunológico tempo suficiente para entrar em acção.

Para este estudo, Alessandro Sette e seus colegas recrutaram 185 homens e mulheres, com idades entre 19 e 81 anos, que se recuperaram da covid-19. A maioria apresentou sintomas leves, que não exigiram uma hospitalização. E a maior parte das pessoas envolvidas no estudo forneceu apenas uma amostra de sangue, enquanto 38 forneceram várias amostras ao longo de muitos meses.

A equipa acompanhou quatro componentes do sistema imunológico: anticorpos, células B que produzem mais anticorpos conforme necessário; e dois tipos de células T que matam outras células infectadas. A ideia era construir uma imagem da resposta imunológica ao longo do tempo, observando os seus constituintes. “Se se olhar apenas para um, podemos estar a perder o quadro completo”, disse Crotty.

O estudo é o primeiro a mapear a resposta imunológica a um vírus em detalhes tão granulares, dizem os especialistas.

Diário de Notícias
DN
18 Novembro 2020 — 09:54

 

 

“Uma vacina que não seja segura e eficaz não deve sequer ser contemplada”

 

SAÚDE/COVID-19/VACINAS

No Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, Miguel Castanho dirige o Laboratório de Bioquímica de Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos, onde estuda moléculas capazes de inactivar o SARS-CoV-2. Ao DN fala das incógnitas que persistem sobre a covid-19, da preocupação que lhe inspiram vacinas feitas à pressa e de como isso pode vir a impulsionar os movimentos anti-vacinação.

O investigador Miguel Castanho
© Filipa Bernardo/ Global Imagens

Em entrevista ao DN, o cientista Miguel Castanho fala das incógnitas que ainda persistem sobre o novo coronavírus e a covid-19. Uma delas é a da duração da imunidade. Casos confirmados de reinfecção, embora em número muito reduzido e sem impacto na saúde pública, mostram que ainda não passou o tempo suficiente para haver certezas sobre isso. O investigador, que está a estudar moléculas que possam inactivar o SARS-CoV-2 , acompanha com preocupação a corrida às vacinas e alerta para a necessidade de não se queimarem etapas no seu desenvolvimento. O que vê, diz, é que os políticos falam numa vacina para o novo coronavírus como a salvação, num momento em que ainda há muitas incertezas no ar. “Vejo com alguma preocupação o alastrar da ideia de que a ciência pode ser abreviada para dar essa resposta urgente”, diz.

Passado pouco mais de meio ano do início da pandemia, que incógnitas persistem sobre o novo coronavírus e a covid-19?
Sobretudo os seus efeitos de médio e longo prazo, que são ainda desconhecidos. Não passou ainda tempo suficiente. E isso é ainda mais notório na duração da imunidade ao vírus, que é uma grande interrogação, e está agora de novo em foco por causa dos recentes casos confirmados de reinfecção. Antes eram casos muito duvidosos, porque poderiam ser falsos positivos. Mas agora foi feita a sequenciação dos vírus da primeira e da segunda infecções e verificou-se que não eram exactamente o mesmo vírus. Apesar de tudo, o número de pessoas com reinfecção confirmada é muito baixo em relação ao total de casos de covid-19, portanto não tem expressão na saúde pública. Mas devem ser analisados porque nos podem dizer alguma coisa sobre os mecanismos do vírus.

Esses casos poderão aumentar?
É uma incógnita. Não sabemos se mais à frente, daqui a meses, um ano, ou dois, começamos a ter isto numa escala maior. Isso pode fazer parte de uma sazonalidade do vírus que, a acontecer, dará maior dimensão ao problema e tem implicações nas vacinas. Se as vacinas funcionarem, e esse é um ponto de interrogação muito grande, não se sabe quanto tempo durará a imunidade. Mas há outras incógnitas.

Quais são?
Por exemplo, as diferenças na resposta ao vírus, que não sabemos porque acontecem. Há pessoas que têm uma resposta imunitária muito exacerbada que desencadeia uma desregulação completa do organismo, e as pessoas morrem mais por causa disso do que por uma acção muito agressiva do vírus. Não se sabe exactamente qual é aí o factor-chave. Era extremamente importante percebê-lo, porque se pudéssemos identificar em cada pessoa se esse elemento está presente ou não, poderíamos saber quem está em alto risco, e desenvolver estratégias terapêuticas. Por outro lado, houve coisas que não se confirmaram, como a da transmissão através das superfícies. Isto é importante porque derramaram-se toneladas de desinfectantes no planeta, sem que isso tivesse impacto na evolução da situação. Devemos aprender qualquer coisa com o facto de não termos conseguido fazer uma leitura correta de alguns estudos científicos feitos em laboratório, que não têm automaticamente uma tradução para a nossa vida do dia-a-dia.

Com uma pandemia a acontecer em directo, isso não era um pouco inevitável?
Essa é uma discussão interessante e importante. Para a ciência, esta pandemia não é a primeira nem será a última. A ciência tem uma imagem pública de uma actividade muito ponderada, linear e consensual, mas isso não corresponde à ciência tal como ela se faz. Temos uma pandemia em directo e toda a gente está a olhar para a ciência e espera uma solução rápida e eficaz. E, de repente, as pessoas descobrem com alguma perplexidade que a ciência não é um mundo linear, está cheio de avanços e recuos, nem sempre os cientistas concordam uns com os outros, e há muita discussão. Nada é consensual até que várias fontes independentes, várias técnicas e vários laboratórios cheguem a um mesmo resultado. Seja em tempo de pandemia ou não, a ciência é feita da mesma maneira, e tem de ser assim. Não é admissível atropelar o método científico porque está toda a gente à espera de uma solução rápida. Vejo com alguma preocupação alastrar a ideia de que a ciência pode ser abreviada para dar essa resposta urgente.

Onde é que isso está a acontecer?
No debate sobre as vacinas, que tem sido enviesado, com base na ideia de que é preciso queimar etapas porque a vacina é muito necessária. Há uma obsessão pela vacina, como se não houvesse mais nada para fazer, o que é extremamente perigoso porque faz divergir atenção, e consequentemente os recursos, da investigação nos medicamentos. As terapêuticas de anticorpos, por exemplo, podem vir a dar mais resultados contra o SARS-CoV-2. Isto está a começar a ser explorado, nomeadamente pela Universidade de Oxford, mas se se deslocarem todos os recursos para a vacina, isso poderá prejudicar o desenvolvimento deste campo. Outra coisa que a obsessão da vacina pode levar a que não seja desenvolvida tão rapidamente como seria desejável é a área de diagnóstico e detecção. Se conseguíssemos ter testes mais fiáveis, mais baratos e mais rápidos do que os actuais, o mundo mudava. Se em cada aeroporto pudesse haver esse teste rápido, as ligações aéreas poderiam ser retomadas. Ir atrás da vacina de forma obsessiva retira a atenção de outras áreas, e quando isso acontece caem os recursos disponíveis para outras questões, que poderiam ter um impacto muito grande na pandemia. De alguma maneira, o discurso político sobrepôs-se ao discurso científico, e a questão política afunilou para a vacina, com os chefes de Estado a falar dela como quem fala da salvação.

Tornou-se uma obsessão negativa, a vacina?

Sim. Não digo obviamente que não se deve fazer, mas não devíamos esgotar tudo na vacina.

A corrida às vacinas para a SARS-CoV-2 tornou-se frenética, como nunca se viu. A Rússia até já aprovou uma, o que levantou um coro de preocupações. Quais são os potenciais problemas de uma vacina desenvolvida à pressa?
A vacina russa usa o mesmo princípio de acção da vacina de Oxford, mas os primeiros resultados da vacina russa não foram publicados, e isso faz toda a diferença. A Rússia aprovou a vacina, mas não está mais à frente no seu desenvolvimento, embora dê essa aparência. Foi uma decisão política, uma jogada de antecipação. Chamam-lhe Sputnik V, com um sentido político e uma carga histórica, como nunca tinha acontecido antes com uma vacina. Mas há várias vacinas e fornecedores, e convinha saber que critérios ditam a escolha de uma ou de outra. Isso tem sido comunicado de forma muito confusa.

Nesta altura, as vacinas ainda não estão terminadas.
Pois, mas já estão a ser feitos acordos. Ainda não se sabe o que vai sair dali, mas não sabemos com que critérios estão a ser feitos esses acordos, para se ter a garantia de que se vai comprar algo eficaz e seguro. Nunca se comunicou com grande clareza qual é o princípio desses acordos. E quando se fez uma micro-discussão pública sobre se a vacina vai ser universal e gratuita, quando do primeiro acordo, continuámos todos sem perceber em que circunstâncias a vacina será universal e gratuita. Houve até declarações, não só confusas mas um pouco preocupantes, de que se a vacina for eficaz e segura, a vacinação será universal e gratuita. Mas se não for, não devemos sequer contemplar a hipótese de estar disponível. Por outro lado, se queremos apostar na vacinação para controlar a pandemia, não vejo como isso pode ser feito sem vacinação universal. Se metade das pessoas não se quiser vacinar, então não atingimos a imunidade de grupo, a menos que ela seja muito menor do que estamos à espera.

São demasiados ses?
Para conseguirmos uma vacinação eficaz, é necessário que as pessoas estejam convencidas de que a vacinação é eficaz e segura e de que ela é necessária para todos. Mas para isso é preciso apresentar factos e ter uma comunicação baseada na clareza. Faria parte dessa estratégia conseguir explicar hoje quais são os critérios para aceitar, ou não, tomar uma determinada vacina destas todas que estão em desenvolvimento. Vemos os políticos a apresentar as vacinas de forma muito linear, como se elas fossem uma certeza que vai fazer a grande diferença.

Mesmo em situação de pandemia, o que é que não devia acontecer?
Mesmo no meio de uma pandemia, devia ser seguido todo o procedimento normal para o desenvolvimento de uma vacina. Há muito que se persegue uma vacina para a dengue. Vivemos numa permanente epidemia de dengue em África, na Ásia e na América Latina, e a doença começa agora a surgir na Europa e nos Estados Unidos, mas nunca passou pela cabeça de ninguém atalhar o caminho para se ter uma vacina para a dengue, ou para a sida. Neste último caso, houve candidatas que chumbaram na última fase de testes, porque se descobriu nos ensaios clínicos de larga escala que afinal não conferiam protecção adicional ou, nalguns casos, tinham problemas de segurança para determinados grupos. Uma das críticas aos testes que estão a ser feitos para estas candidatas a vacinas, embora as pessoas tendam a desvalorizar as críticas porque querem a vacina, é que eles não contemplam a diversidade étnica, geográfica e populacional, que normalmente é necessária no desenvolvimento de medicamentos e vacinas, e que poderia haver problemas com esses grupos sub-representados. Tudo o que se conhece são testes de fase 1, que são preliminares e feitos em indivíduos saudáveis para avaliar se há efeitos adversos graves. Sabe-se que houve uma resposta imunitária, mas não se sabe se ela é do tipo e da intensidade suficiente para conseguir combater uma potencial infecção. Isso só se saberá com os testes que estão agora a ser feitos. Os resultados dos testes de fase 1 foram anunciados com muitos adjectivos, mas, olhando para o que foi publicado, veem-se alguns efeitos adversos que, não sendo muito graves, são os que normalmente precisam de ser trabalhados mais à frente no desenvolvimento da vacina, como febres, desmaios, indisposições ou dores de cabeça. Neste caso, não sabemos se serão trabalhados, porque já tivemos notícia de que não vai haver atraso na produção e distribuição das vacinas.

Isto pode ter consequências adversas, nomeadamente no fortalecimento da corrente anti-vacinas?
O que o mundo científico arrisca é a credibilidade. As pessoas são levadas a ter uma fé quase cega na vacina e a ciência não se coaduna com isso, ainda que toda a expectativa tenha sido criada mais pelo mundo político. Mas foi exportada para o mundo científico, e este não conseguiu comunicar com clareza que o que lhe estava a ser imputado não era da sua essência. Caso exista algum problema com as vacinas, isso impulsionará as correntes anti-vacinação, que estavam muito activas antes da pandemia e agora estão em silêncio. Pode ser que corra tudo muito bem, mas estamos um pouco a brincar com o fogo.

Há muitas candidatas a vacinas contra o SARS-CoV-2. Apesar disso, poderemos chegar a não ter uma vacina?
Se a questão da vacina não tivesse sido politizada, eu diria que sim. Vimos isso acontecer muitas vezes, por exemplo no caso do VIH. Mas neste momento, para o mundo político, já não é comportável que não haja pelo menos qualquer coisa, que pode ser uma vacina imperfeita. Estou convencido de que alguma coisa vai ser apresentada.

A Organização Mundial da Saúde já admitiu que esta pandemia pode durar cerca de dois anos, talvez um pouco menos, numa perspectiva optimista. Como vê esse prazo?
Se estamos a falar de uma situação em que a pandemia desaparece na sua configuração actual, diminui o seu impacto e entra numa espécie de estado estacionário a um nível bastante mais baixo do que temos hoje, tornando-se endémico e persistente, mas como um problema relativamente menor, acho que sim. Mas, menos do que isso, não me parece plausível.

Tem estudado os eventuais efeitos de algumas moléculas sobre o SARS-CoV-2. Já tem resultados?
Estudamos antivirais há muito tempo, para vírus como o VIH, a dengue e o zika. Para nós, o SARS-CoV-2 era só uma questão de transposição do que já estávamos a fazer, porque os vírus têm semelhanças estruturais. Temos um projecto europeu para desenvolver formas de levar fármacos até ao cérebro, para protecção dos efeitos neurológicos do zika, e incluímos o SARS-CoV-2 no projecto, porque se confirmou que este coronavírus em muitos casos tem efeitos no sistema nervoso central. Descobriu-se que as pessoas com uma forma moderada de covid-19 podem desenvolver sequelas ao nível do sistema nervoso. A inclusão do SARS-CoV-2 no projecto foi acordada com a Comissão Europeia. Neste momento, já demonstrámos que se consegue levar até ao cérebro as moléculas que estamos a usar. Por outro lado, demonstrámos também que as que lhes agregamos para obter uma atividade antiviral, as porfirinas, inactivam o vírus in vitro. Falta-nos conjugar as duas coisas e demonstrar que isso acontece em modelo animal. Ou seja, que essas moléculas conjugadas chegam ao cérebro e conseguem inactivar o SARS-CoV-2 se aí o encontrarem.

Quando vão avançar para essa fase do estudo?
Para o zika tencionamos ter o modelo animal pronto para ser usado até final do ano. Para o SARS-CoV-2, pensamos já estar em condições de iniciar os testes em modelo animal no princípio do próximo ano.

Este artigo faz parte de uma série dedicada aos investigadores portugueses e é apoiada por Abbvie.

Diário de Notícias
30 AGO 2020