São precisos quatro a seis meses até ter “níveis significativos de vacinação”, alerta a OMS

 

 

SAÚDE/VACINAS/COVID-19

Responsável pelo programa de emergências sanitárias da OMS avisa que as vacinas contra a covid-19 não devem ser vistas como uma solução mágica nesta segunda vaga da pandemia.

O director executivo do programa de emergências sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan
© Christopher Black / World Health Organization / AFP

O director executivo do programa de emergências sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou, esta quarta-feira, que as vacinas não chegam a tempo de derrotar a segunda onda da pandemia de covid-19.

Michael Ryan afirmou que as vacinas não devem ser vistas como uma solução mágica e que os países que lutam contra o ressurgimento do vírus têm de combater esta segunda vaga de infecções sem elas, mesmo que ainda sejam disponibilizadas durante este inverno.

“Acho que são precisos pelo menos quatro a seis meses antes de termos níveis significativos de vacinação em qualquer lugar”, afirmou o responsável da OMS durante uma sessão pública de perguntas e respostas ao vivo nas redes sociais.

Apesar dos recentes anúncios promissores sobre a fase final dos ensaios clínicos de vacinas, nomeadamente a da Pfizer e da Moderna, Ryan alertou: “Ainda não chegámos lá com as vacinas. Chegaremos, mas ainda não estamos lá”

Enfatizou que muitos países vão ter de enfrentar esta segunda onda da pandemia sem as vacinas. “Temos de entender e interiorizar isto, e perceber: desta vez, temos que escalar esta montanha sem vacinas.”

Esta quarta-feira, a Pfizer referiu que o resultado final do teste clínico da vacina mostra eficácia de 95%, enquanto a Moderna disse esta semana que sua própria candidata era 94,5% eficaz contra a infecção pelo novo coronavírus. Já a Rússia afirma que a sua vacina, Sputnik V, tem mais de 90% de eficácia.

Apesar das boas notícias para o combate à pandemia, Ryan alertou para a possibilidade de se abrandar no que se refere à vigilância individual contra o novo coronavírus, tendo a percepção errada de que as vacinas resolveriam agora o problema.

Algumas pessoas acham que uma vacina será, em certo sentido, a solução: o unicórnio que todos nós temos perseguido. Não é”, disse o irlandês.

“Se adicionarmos vacinas e esquecermos as outras coisas, a covid-19 não fica reduzida a zero.”

Número de casos diminui na Europa, mas mortes continuam a subir

O número de novos casos de covid-19 na Europa diminuiu na semana passada pela primeira vez em mais de três meses, mas as mortes na região continuaram a subir, segundo dados da OMS.

Pelo menos 55,6 milhões de casos em todo o mundo foram registados desde o início da pandemia na China, onde foram detectados as primeiras infecções em Dezembro do ano passado. Mais de 1,3 milhões de pessoas já morreram devido à covid-19, de acordo com um balanço feito pela AFP, tendo como base dados oficiais.

Preocupação no impacto das restrições nas crianças

Ryan expressou preocupação sobre como a pandemia deixou muitos netos enlutados que não conseguiram passar pelo processo normal de luto devido às restrições impostas para combater o vírus. “Muitas crianças perderam avós”, disse. “Existe um grande trauma entre as crianças”, considerou.

Para o responsável da OMS, o processo de luto para as crianças foi interrompido devido às medidas restritivas, que impossibilitaram as pessoas de se despedirem dos entes queridos. Manifestou preocupação pelo impacto que isto teve nos mais jovens, o de “lamentar a perda de um avô que foi interrompida”. “Tem um impacto para toda a vida”, reforçou.

Diário de Notícias
DN/AFP
18 Novembro 2020 — 21:37

Entretanto, Portugal tem mais 5.891 casos e 79 mortes nas últimas 24 horas
No dia em que a ministra da Saúde diz esperar ter tudo a postos para distribuir as primeiras doses de vacinas em Janeiro, regista-se um total de 3632 mortos e 236015 infectados por covid-19.

 

 

498: Novos dados indicam que imunidade à covid-19 pode durar anos

 

 

SAÚDE/COVID-19

Amostras de sangue de pacientes recuperados sugerem uma resposta imunológica poderosa e duradoura, relataram os investigadores

© EPA/STR

Mais um sinal de que há luz ao fundo do túnel em relação à pandemia de covid-19. Um novo estudo sugere que a imunidade à covid-19 possa durar anos e talvez até décadas, dando assim a esperança de que a vacina possa colocar termo ao novo coronavírus, avança o New York Times.

Segundo os novos dados, a maioria das pessoas que recuperou da infecção apresenta células imunológicas suficientes para afastar o vírus e prevenir doenças oito meses após a infecção e ao que tudo indica essas células podem persistir no corpo durante muito mais tempo.

A investigação, publicada online, não foi revista por pares nem difundida numa revista científica, mas é o estudo mais abrangente sobre a memória imunológica em relação ao coronavírus feito até hoje.

“Essa quantidade de memória provavelmente evitará que a grande maioria das pessoas contraiam doenças graves durante muitos anos”, disse Shane Crotty, virologista do Instituto de Imunologia La Jolla, dos Estados Unidos, que co-liderou o novo estudo.

As descobertas provavelmente poderão aliviar os especialistas preocupados com a possibilidade de a imunidade ao vírus poder ter vida curta, o que significaria que as vacinas teriam de ser administradas repetidamente para manter a pandemia sob controlo.

Esta investigação foca-se ainda em outra descoberta recente: os sobreviventes da SARS, causada por outro coronavírus, ainda carregam certas células imunológicas importantes 17 anos após a recuperação.

Investigadores da Universidade de Washington, liderados pela imunologista Marion Pepper, já haviam mostrado que certas células de “memória” que foram produzidas após a infecção pelo coronavírus persistem no corpo durante pelo menos três meses. E um estudo publicado na semana passada também chegou à conclusão que as pessoas que recuperaram da Covid-19 têm células imunes que são poderosas e protectoras mesmo quando os anticorpos não são detectáveis.

Estes estudos “estão todos a pintar o mesmo quadro, de que após umas primeiras semanas críticas, a resposta imunológica parece bastante convencional”, disse Deepta Bhattacharya, imunologista da Universidade do Arizona.

Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale, disse que não ficou surpreendida com o fato de o corpo ter uma resposta duradoura porque “é isso que deve acontecer”. Ainda assim, ficou animada com a investigação: “Esta é uma notícia empolgante”.

Um pequeno número de pessoas infectadas no novo estudo não tinha imunidade duradoura após a recuperação, talvez por causa das diferenças nas quantidades de coronavírus a que foram expostas. Mas as vacinas podem superar essa variabilidade individual, disse Jennifer Gommerman, imunologista da Universidade de Toronto. “Isso ajudará a focar a resposta, para que não se obtenha o mesmo tipo de heterogeneidade que se vê numa população infectada”, referiu.

Estes novos dados contrariam a preocupação causada nos últimos tempos pelos relatos de que a diminuição dos níveis de anticorpos pudesse fazer com que a imunidade desaparecesse ao fim de alguns meses, deixando assim as pessoas vulneráveis a uma reinfecção.

No entanto, muitos imunologistas frisam que é natural que os níveis de anticorpos caiam, pois são apenas uma pequena parte do sistema imunológico. E, embora sejam necessários para bloquear o vírus e prevenir uma segunda infecção – algo conhecido como imunidade esterilizante -, as células imunológicas que se “lembram” do vírus com mais frequência são responsáveis ​​pela prevenção de doenças graves.

“A esterilização da imunidade não acontece com muita frequência – essa não é a norma”, disse Alessandro Sette, imunologista do Instituto de Imunologia La Jolla.

O que acontece mais frequentemente nas re-infecções é o sistema imunológico reconhecer o invasor e extinguir rapidamente o vírus, até porque a covid-19 é particularmente lento a causar danos, dando assim ao sistema imunológico tempo suficiente para entrar em acção.

Para este estudo, Alessandro Sette e seus colegas recrutaram 185 homens e mulheres, com idades entre 19 e 81 anos, que se recuperaram da covid-19. A maioria apresentou sintomas leves, que não exigiram uma hospitalização. E a maior parte das pessoas envolvidas no estudo forneceu apenas uma amostra de sangue, enquanto 38 forneceram várias amostras ao longo de muitos meses.

A equipa acompanhou quatro componentes do sistema imunológico: anticorpos, células B que produzem mais anticorpos conforme necessário; e dois tipos de células T que matam outras células infectadas. A ideia era construir uma imagem da resposta imunológica ao longo do tempo, observando os seus constituintes. “Se se olhar apenas para um, podemos estar a perder o quadro completo”, disse Crotty.

O estudo é o primeiro a mapear a resposta imunológica a um vírus em detalhes tão granulares, dizem os especialistas.

Diário de Notícias
DN
18 Novembro 2020 — 09:54

 

 

“Uma vacina que não seja segura e eficaz não deve sequer ser contemplada”

 

SAÚDE/COVID-19/VACINAS

No Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, Miguel Castanho dirige o Laboratório de Bioquímica de Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos, onde estuda moléculas capazes de inactivar o SARS-CoV-2. Ao DN fala das incógnitas que persistem sobre a covid-19, da preocupação que lhe inspiram vacinas feitas à pressa e de como isso pode vir a impulsionar os movimentos anti-vacinação.

O investigador Miguel Castanho
© Filipa Bernardo/ Global Imagens

Em entrevista ao DN, o cientista Miguel Castanho fala das incógnitas que ainda persistem sobre o novo coronavírus e a covid-19. Uma delas é a da duração da imunidade. Casos confirmados de reinfecção, embora em número muito reduzido e sem impacto na saúde pública, mostram que ainda não passou o tempo suficiente para haver certezas sobre isso. O investigador, que está a estudar moléculas que possam inactivar o SARS-CoV-2 , acompanha com preocupação a corrida às vacinas e alerta para a necessidade de não se queimarem etapas no seu desenvolvimento. O que vê, diz, é que os políticos falam numa vacina para o novo coronavírus como a salvação, num momento em que ainda há muitas incertezas no ar. “Vejo com alguma preocupação o alastrar da ideia de que a ciência pode ser abreviada para dar essa resposta urgente”, diz.

Passado pouco mais de meio ano do início da pandemia, que incógnitas persistem sobre o novo coronavírus e a covid-19?
Sobretudo os seus efeitos de médio e longo prazo, que são ainda desconhecidos. Não passou ainda tempo suficiente. E isso é ainda mais notório na duração da imunidade ao vírus, que é uma grande interrogação, e está agora de novo em foco por causa dos recentes casos confirmados de reinfecção. Antes eram casos muito duvidosos, porque poderiam ser falsos positivos. Mas agora foi feita a sequenciação dos vírus da primeira e da segunda infecções e verificou-se que não eram exactamente o mesmo vírus. Apesar de tudo, o número de pessoas com reinfecção confirmada é muito baixo em relação ao total de casos de covid-19, portanto não tem expressão na saúde pública. Mas devem ser analisados porque nos podem dizer alguma coisa sobre os mecanismos do vírus.

Esses casos poderão aumentar?
É uma incógnita. Não sabemos se mais à frente, daqui a meses, um ano, ou dois, começamos a ter isto numa escala maior. Isso pode fazer parte de uma sazonalidade do vírus que, a acontecer, dará maior dimensão ao problema e tem implicações nas vacinas. Se as vacinas funcionarem, e esse é um ponto de interrogação muito grande, não se sabe quanto tempo durará a imunidade. Mas há outras incógnitas.

Quais são?
Por exemplo, as diferenças na resposta ao vírus, que não sabemos porque acontecem. Há pessoas que têm uma resposta imunitária muito exacerbada que desencadeia uma desregulação completa do organismo, e as pessoas morrem mais por causa disso do que por uma acção muito agressiva do vírus. Não se sabe exactamente qual é aí o factor-chave. Era extremamente importante percebê-lo, porque se pudéssemos identificar em cada pessoa se esse elemento está presente ou não, poderíamos saber quem está em alto risco, e desenvolver estratégias terapêuticas. Por outro lado, houve coisas que não se confirmaram, como a da transmissão através das superfícies. Isto é importante porque derramaram-se toneladas de desinfectantes no planeta, sem que isso tivesse impacto na evolução da situação. Devemos aprender qualquer coisa com o facto de não termos conseguido fazer uma leitura correta de alguns estudos científicos feitos em laboratório, que não têm automaticamente uma tradução para a nossa vida do dia-a-dia.

Com uma pandemia a acontecer em directo, isso não era um pouco inevitável?
Essa é uma discussão interessante e importante. Para a ciência, esta pandemia não é a primeira nem será a última. A ciência tem uma imagem pública de uma actividade muito ponderada, linear e consensual, mas isso não corresponde à ciência tal como ela se faz. Temos uma pandemia em directo e toda a gente está a olhar para a ciência e espera uma solução rápida e eficaz. E, de repente, as pessoas descobrem com alguma perplexidade que a ciência não é um mundo linear, está cheio de avanços e recuos, nem sempre os cientistas concordam uns com os outros, e há muita discussão. Nada é consensual até que várias fontes independentes, várias técnicas e vários laboratórios cheguem a um mesmo resultado. Seja em tempo de pandemia ou não, a ciência é feita da mesma maneira, e tem de ser assim. Não é admissível atropelar o método científico porque está toda a gente à espera de uma solução rápida. Vejo com alguma preocupação alastrar a ideia de que a ciência pode ser abreviada para dar essa resposta urgente.

Onde é que isso está a acontecer?
No debate sobre as vacinas, que tem sido enviesado, com base na ideia de que é preciso queimar etapas porque a vacina é muito necessária. Há uma obsessão pela vacina, como se não houvesse mais nada para fazer, o que é extremamente perigoso porque faz divergir atenção, e consequentemente os recursos, da investigação nos medicamentos. As terapêuticas de anticorpos, por exemplo, podem vir a dar mais resultados contra o SARS-CoV-2. Isto está a começar a ser explorado, nomeadamente pela Universidade de Oxford, mas se se deslocarem todos os recursos para a vacina, isso poderá prejudicar o desenvolvimento deste campo. Outra coisa que a obsessão da vacina pode levar a que não seja desenvolvida tão rapidamente como seria desejável é a área de diagnóstico e detecção. Se conseguíssemos ter testes mais fiáveis, mais baratos e mais rápidos do que os actuais, o mundo mudava. Se em cada aeroporto pudesse haver esse teste rápido, as ligações aéreas poderiam ser retomadas. Ir atrás da vacina de forma obsessiva retira a atenção de outras áreas, e quando isso acontece caem os recursos disponíveis para outras questões, que poderiam ter um impacto muito grande na pandemia. De alguma maneira, o discurso político sobrepôs-se ao discurso científico, e a questão política afunilou para a vacina, com os chefes de Estado a falar dela como quem fala da salvação.

Tornou-se uma obsessão negativa, a vacina?

Sim. Não digo obviamente que não se deve fazer, mas não devíamos esgotar tudo na vacina.

A corrida às vacinas para a SARS-CoV-2 tornou-se frenética, como nunca se viu. A Rússia até já aprovou uma, o que levantou um coro de preocupações. Quais são os potenciais problemas de uma vacina desenvolvida à pressa?
A vacina russa usa o mesmo princípio de acção da vacina de Oxford, mas os primeiros resultados da vacina russa não foram publicados, e isso faz toda a diferença. A Rússia aprovou a vacina, mas não está mais à frente no seu desenvolvimento, embora dê essa aparência. Foi uma decisão política, uma jogada de antecipação. Chamam-lhe Sputnik V, com um sentido político e uma carga histórica, como nunca tinha acontecido antes com uma vacina. Mas há várias vacinas e fornecedores, e convinha saber que critérios ditam a escolha de uma ou de outra. Isso tem sido comunicado de forma muito confusa.

Nesta altura, as vacinas ainda não estão terminadas.
Pois, mas já estão a ser feitos acordos. Ainda não se sabe o que vai sair dali, mas não sabemos com que critérios estão a ser feitos esses acordos, para se ter a garantia de que se vai comprar algo eficaz e seguro. Nunca se comunicou com grande clareza qual é o princípio desses acordos. E quando se fez uma micro-discussão pública sobre se a vacina vai ser universal e gratuita, quando do primeiro acordo, continuámos todos sem perceber em que circunstâncias a vacina será universal e gratuita. Houve até declarações, não só confusas mas um pouco preocupantes, de que se a vacina for eficaz e segura, a vacinação será universal e gratuita. Mas se não for, não devemos sequer contemplar a hipótese de estar disponível. Por outro lado, se queremos apostar na vacinação para controlar a pandemia, não vejo como isso pode ser feito sem vacinação universal. Se metade das pessoas não se quiser vacinar, então não atingimos a imunidade de grupo, a menos que ela seja muito menor do que estamos à espera.

São demasiados ses?
Para conseguirmos uma vacinação eficaz, é necessário que as pessoas estejam convencidas de que a vacinação é eficaz e segura e de que ela é necessária para todos. Mas para isso é preciso apresentar factos e ter uma comunicação baseada na clareza. Faria parte dessa estratégia conseguir explicar hoje quais são os critérios para aceitar, ou não, tomar uma determinada vacina destas todas que estão em desenvolvimento. Vemos os políticos a apresentar as vacinas de forma muito linear, como se elas fossem uma certeza que vai fazer a grande diferença.

Mesmo em situação de pandemia, o que é que não devia acontecer?
Mesmo no meio de uma pandemia, devia ser seguido todo o procedimento normal para o desenvolvimento de uma vacina. Há muito que se persegue uma vacina para a dengue. Vivemos numa permanente epidemia de dengue em África, na Ásia e na América Latina, e a doença começa agora a surgir na Europa e nos Estados Unidos, mas nunca passou pela cabeça de ninguém atalhar o caminho para se ter uma vacina para a dengue, ou para a sida. Neste último caso, houve candidatas que chumbaram na última fase de testes, porque se descobriu nos ensaios clínicos de larga escala que afinal não conferiam protecção adicional ou, nalguns casos, tinham problemas de segurança para determinados grupos. Uma das críticas aos testes que estão a ser feitos para estas candidatas a vacinas, embora as pessoas tendam a desvalorizar as críticas porque querem a vacina, é que eles não contemplam a diversidade étnica, geográfica e populacional, que normalmente é necessária no desenvolvimento de medicamentos e vacinas, e que poderia haver problemas com esses grupos sub-representados. Tudo o que se conhece são testes de fase 1, que são preliminares e feitos em indivíduos saudáveis para avaliar se há efeitos adversos graves. Sabe-se que houve uma resposta imunitária, mas não se sabe se ela é do tipo e da intensidade suficiente para conseguir combater uma potencial infecção. Isso só se saberá com os testes que estão agora a ser feitos. Os resultados dos testes de fase 1 foram anunciados com muitos adjectivos, mas, olhando para o que foi publicado, veem-se alguns efeitos adversos que, não sendo muito graves, são os que normalmente precisam de ser trabalhados mais à frente no desenvolvimento da vacina, como febres, desmaios, indisposições ou dores de cabeça. Neste caso, não sabemos se serão trabalhados, porque já tivemos notícia de que não vai haver atraso na produção e distribuição das vacinas.

Isto pode ter consequências adversas, nomeadamente no fortalecimento da corrente anti-vacinas?
O que o mundo científico arrisca é a credibilidade. As pessoas são levadas a ter uma fé quase cega na vacina e a ciência não se coaduna com isso, ainda que toda a expectativa tenha sido criada mais pelo mundo político. Mas foi exportada para o mundo científico, e este não conseguiu comunicar com clareza que o que lhe estava a ser imputado não era da sua essência. Caso exista algum problema com as vacinas, isso impulsionará as correntes anti-vacinação, que estavam muito activas antes da pandemia e agora estão em silêncio. Pode ser que corra tudo muito bem, mas estamos um pouco a brincar com o fogo.

Há muitas candidatas a vacinas contra o SARS-CoV-2. Apesar disso, poderemos chegar a não ter uma vacina?
Se a questão da vacina não tivesse sido politizada, eu diria que sim. Vimos isso acontecer muitas vezes, por exemplo no caso do VIH. Mas neste momento, para o mundo político, já não é comportável que não haja pelo menos qualquer coisa, que pode ser uma vacina imperfeita. Estou convencido de que alguma coisa vai ser apresentada.

A Organização Mundial da Saúde já admitiu que esta pandemia pode durar cerca de dois anos, talvez um pouco menos, numa perspectiva optimista. Como vê esse prazo?
Se estamos a falar de uma situação em que a pandemia desaparece na sua configuração actual, diminui o seu impacto e entra numa espécie de estado estacionário a um nível bastante mais baixo do que temos hoje, tornando-se endémico e persistente, mas como um problema relativamente menor, acho que sim. Mas, menos do que isso, não me parece plausível.

Tem estudado os eventuais efeitos de algumas moléculas sobre o SARS-CoV-2. Já tem resultados?
Estudamos antivirais há muito tempo, para vírus como o VIH, a dengue e o zika. Para nós, o SARS-CoV-2 era só uma questão de transposição do que já estávamos a fazer, porque os vírus têm semelhanças estruturais. Temos um projecto europeu para desenvolver formas de levar fármacos até ao cérebro, para protecção dos efeitos neurológicos do zika, e incluímos o SARS-CoV-2 no projecto, porque se confirmou que este coronavírus em muitos casos tem efeitos no sistema nervoso central. Descobriu-se que as pessoas com uma forma moderada de covid-19 podem desenvolver sequelas ao nível do sistema nervoso. A inclusão do SARS-CoV-2 no projecto foi acordada com a Comissão Europeia. Neste momento, já demonstrámos que se consegue levar até ao cérebro as moléculas que estamos a usar. Por outro lado, demonstrámos também que as que lhes agregamos para obter uma atividade antiviral, as porfirinas, inactivam o vírus in vitro. Falta-nos conjugar as duas coisas e demonstrar que isso acontece em modelo animal. Ou seja, que essas moléculas conjugadas chegam ao cérebro e conseguem inactivar o SARS-CoV-2 se aí o encontrarem.

Quando vão avançar para essa fase do estudo?
Para o zika tencionamos ter o modelo animal pronto para ser usado até final do ano. Para o SARS-CoV-2, pensamos já estar em condições de iniciar os testes em modelo animal no princípio do próximo ano.

Este artigo faz parte de uma série dedicada aos investigadores portugueses e é apoiada por Abbvie.

Diário de Notícias
30 AGO 2020

 

360: Número significativo da população com imunidade natural ao vírus?

 

Investigador de Oxford diz que células T podem ser as responsáveis por bloquear os vírus em pessoas assintomáticas, reforçando a teoria de que a imunidade de grupo pode já ser nesta altura maior do que se pensa

© NICOLAS ASFOURI /AFP

Um largo número de pessoas pode ter imunidade natural contra o novo coronavírus, mesmo que nunca tenha sido infectado, acreditam os cientistas que estão a desenvolver uma vacina.

Sir John Bell, professor de Medicina na Universidade de Oxford, Inglaterra, que lidera a equipa que está a trabalhar na vacina para a covid-19, diz que é provável que exista um “nível de protecção” imunitária para um “número significativo de pessoas”, avança o The Telegraph.

Estudos recentes sugerem que o sistema imunológico pode estar preparado por outros coronavírus, como a gripe comum – o que permite ao corpo humano ganhar alguma vantagem na luta contra a covid-19.

Segundo o jornal, há estudos que mostram que uma parte separada do sistema imunológico, as células T, responde a cadeias de aminoácidos produzidas por diferentes tipos de coronavírus e pode ser responsável por interromper o vírus em pessoas que nunca apresentam sintomas.

As células T morrem em pessoas mais velhas e essa pode ser a razão pela qual os idosos têm maior probabilidade de desenvolver a doença de uma forma mais grave.

“O que parece claro é que há uma reacção cruzada de células T activadas por coronavírus padrão endémicos. E estão presentes num número significativo de pessoas”, disse o professor.

A vacina que está a ser desenvolvida pela Universidade de Oxford visa não só estimular os anticorpos, mas também aumentar a resposta das células T. Se, como a investigação sugere, um largo número da população já estiver protegida, a imunidade de grupo será mais fácil de alcançar.

Sarah Gilbert, que integra o grupo de cientistas que está a desenvolver a vacina, é peremptória: “É possível que estejamos a subestimar a imunidade natural ou já adquirida ao vírus e temos de estar atentos.”

“Há evidências de que pessoas infectadas com covid-19 não desenvolveram anticorpos, mas desenvolveram uma resposta de células T, e isso provavelmente irá protegê-las contra outra infecção”, acrescentou.

Estudo sueco

A teoria defendida pelos investigadores de Oxford reforça a ideia da possibilidade de haver uma imunidade de grupo maior do que a demonstrada até aqui e vai de encontro a um estudo revelado pelo Hospital Universitário Karolinska, na Suécia.

Nos resultados do estudo sueco, “uma em cada três pessoas que testaram positivo para anticorpos, também tinham células T que identificam e destroem células infectadas”. Cerca de 30% dos suecos pode assim ter desenvolvido imunidade ao coronavírus, segundo a equipa responsável pelo estudo.

Os pacientes foram testados para saber se tinham anticorpos e células T, um tipo de glóbulos brancos especializado no reconhecimento de células infectadas por vírus e que são uma parte essencial do sistema imunológico.

Em Itália, o professor Alberto Mantovani, director científico do Instituto Humanitas, sublinha outro aspecto importante que ainda precisa ser esclarecido. ” Não temos certeza de que os anticorpos sejam protectores ou garantam imunidade, apesar do que foi dito, nem de que a terapia plasmática [transfusão de plasma de doentes recuperados] também funcione “.

O especialista explica que um vírus geralmente não é eliminado por anticorpos , mas precisamente pelas células T , que reconhecem diferentes partes do vírus relativamente aos anticorpos. “Algumas dessas células matam e interrompem o vírus, e é razoável pensar que são críticas para a defesa contra o coronavírus.”

actualizado às 08.56

Diário de Notícias
DN
03 Julho 2020 — 06:55

 

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