370: Curados de covid-19 mais expostos a depressão, insónia e ansiedade, revela estudo

 

SAÚDE/COVID-19

GovBogotá / Fotos Publicas

As pessoas que recuperaram da covid-19 estão a revelar crescentes desordens psiquiátricas, como ansiedade, depressão, sintomas compulsivos e stress pós-traumático, segundo um novo estudo italiano.

Segundo o estudo, realizado no hospital San Raffaele, em Milão, mais de metade dos 402 pacientes monitorizados depois do tratamento à covid-19 evidenciaram pelo menos uma dessas desordens, avançou na segunda-feira o Guardian. Os participantes – 265 homens e 137 mulheres – foram observados durante mês depois de terem alta.

“Ficou imediatamente claro que a inflamação causada pela doença podia também ter repercussões a nível psiquiátrico”, disse Francesco Benedetti, responsável de investigação da unidade de psiquiatria e psicobiologia clínica do hospital de San Raffaele, um dos autores do estudo, publicado no Brain, Behaviour and Immunity.

A equipa identificou stress traumático em 28% dos pacientes, depressão em 42%, insónia em 40% e sintomas obsessivo-compulsivos em 20%. As mulheres ficaram mais expostas a ansiedade e depressão. “A hipótese que colocamos é que isto se pode dever às diferentes formas de funcionamento do sistema imunitário”, referiu Francesco Benedetti.

Pacientes com sintomas ligeiros de infecção podem ter desordens cerebrais graves e, segundo os investigadores, com repercussões psíquicas mais sérias do que os doentes que foram hospitalizados.

Esses efeitos podem ser originados pela resposta do sistema imunitário ao vírus, pelo stress psicológico associado ao estigma, pelo isolamento social e pela preocupação em infectar outras pessoas, revelou ainda o estudo.

ZAP //

Por ZAP
4 Agosto, 2020

 

 

367: Estudo revela os factores que maior risco de morte têm para os doentes com covid-19

 

SAÚDE/COVID-19

(CC0/PD) OrnaW / Pixabay

A idade é o factor que mais peso tem na mortalidade por covid-19 e das doenças preexistentes as que mais aumentam o risco de morte são as cardíacas e renais, concluiu um estudo nacional com mais de 20.000 infectados.

O estudo conclui que, depois dos problemas cardíacos e renais, as deficiências imunológicas (por exemplo, o vírus da sida), a doença neurológica e a doença hematológica crónica são os factores que maior risco de morte têm para os doentes com covid-19. De seguida aparecem a doença hepática, a doença pulmonar, a doença oncológica e a diabetes.

O trabalho foi elaborado por um grupo de investigadores portugueses de sete institutos/departamentos da Faculdade de Medicina (Universidade de Lisboa) e de outras instituições, como o Instituto Ricardo Jorge e a Universidade Católica.

Este primeiro estudo nacional publicado numa revista científica internacional inclui dados — cedidos pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) – de 20.293 pessoas infectadas com SARS-CoV-2 entre 01 de Janeiro e 21 de Abril 2020.

“É a primeira vez que a mortalidade por COVID-19 foi modelada em Portugal tendo em conta a publicação oficial numa revista científica internacional revista por pares”, sublinha um dos autores.

A modelação estatística da mortalidade neste estudo usou três modelos. O principal registou uma influência dominante da idade superior a 55 anos no aumento das chances de mortalidade por covid-19, mesmo ajustando para a presença de comorbilidades (doenças que a pessoa já tinha quando ficou infectada).

O primeiro modelo secundário, que analisou apenas os doentes sem comorbilidades, registou igualmente uma influência acentuada da idade superior a 55 anos no aumento das chances de mortalidade por covid-19, e o segundo, específico para cada uma das comorbilidades, ajustando para o sexo e idade, registou que as doenças com maior risco de morte é a cardíaca (com 6,40 de rácio de probabilidades), seguida da renal (4,97).

De qualquer forma, os autores sublinham que os resultados apurados “devem ser interpretados com precaução” pois têm limitações como o facto de serem referentes ao primeiro período de infecção em Portugal, compreendido entre Janeiro e Abril 2020, “podendo sofrer alterações se entretanto novos dados forem cedidos pela DGS” e não haver dados sobre os sintomas e resultados dos testes laboratoriais.

Apontam ainda como limitações a possibilidade de “existir um sub-relatório de casos com manifestações ligeiras”, a “impossibilidade de ajustar a sequência temporal dos eventos” e a falta de alguns dados.

O estudo foi elaborado por investigadores do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública (IMPSP) da Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa (UL), do Instituto de Saúde Baseada na Evidência (ISBE), do Laboratório de Biomatemática da Faculdade de Medicina, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing, da Universidade Católica Portuguesa, da Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, do Cochrane Portugal (Faculdade de Medicina), e da Unidade de Epidemiologia do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública (UL), da Clínica Universitária de Estomatologia e do Instituto de Saúde Ambiental (ISAMB), ambos da Faculdade de Medicina.

ZAP // Lusa

Por Lusa
30 Julho, 2020

 

366: Estudo: Extracto de algas é eficaz para combater o novo coronavírus

 

SAÚDE/CORONAVÍRUS

Investigadores norte-americanos procuraram criar um antivírus que sirva de isco para enganar e neutralizar o covid-19. E mostrou resultados melhores que o medicamento Remdesivir.

Um extracto de algas comestíveis demonstrou ser mais eficaz a inibir a infecção por SARS-CoV-2 em células de mamíferos do que o medicamento Remdesivir.

O antiviral habitualmente utilizado para combater a covid-19 e que a Comissão Europeia anunciou, esta quarta-feira, um investimento de 63 milhões de euro no Remdevisir para garantir o tratamento de cerca de 30 mil pacientes da União Euroeia que apresentam sintomas graves de covid-19.

O artigo, publicado pela Cell Discovery e citado pelo jornal espanhol ABC, analisou a actividade antiviral de três variantes da heparina anticoagulante e dois fucoidanos (RPI-27 e RPI-28) extraídos de algas marinhas. Os investigadores compararam a eficácia desses compostos em testes de laboratório com a do Remdesivir.

Esta investigação faz parte da estratégia do Centro de Biotecnologia e Estudos Interdisciplinares (CBIS) do Instituto Politécnico Rensselear, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, que estão a desenvolver um antivírus para combater a covid-19.

Sabe-se que a proteína spike na superfície do SARS-CoV-2 se liga ao receptor ACE-2, uma molécula na superfície das células humanas. Uma vez ancorado, o vírus insere o seu próprio material genético na célula para produzir réplicas do vírus.

Investigações anteriores mostraram que esta técnica funciona para capturar outros vírus, incluindo dengue, zika e gripe A.

“Estamos a aprender a travar a infecção viral; este é o conhecimento de que necessitamos se quisermos enfrentar rapidamente outras pandemias”, diz o investigador principal, Jonathan Dordick. “A verdade é que não temos grandes antivirais. Para nos protegermos contra futuras pandemias, precisaremos de um arsenal que possamos adaptar rapidamente aos vírus emergentes”, admitiu.

Os investigadores realizaram um estudo de resposta à dose conhecida como EC50, abreviatura da concentração efectiva do composto que inibe 50% da infecciosidade viral, com cada um dos cinco compostos nas células. Os resultados de um EC50, dados numa concentração molar, são um valor mais baixo que indica um composto mais potente.

De todos os compostos, o extracto de algas RPI-27 foi o mais potente: produziu um valor de EC50 de cerca de 83 nanomolar, enquanto o remdesivir, num trabalho anterior, produziu um EC50 de 770 nanomolar.

“O que nos interessa é encontrar uma nova maneira de travar a infecção”, explica Robert Linhardt. “Actualmente, acredita-se que a infecção por covid-19 começa no nariz e acreditamos que qualquer uma dessas substâncias possa ser a base de um spray nasal. Dessa forma, o tratamento precoce da infecção, ou mesmo antes da infecção, travaria o vírus antes de ele entrar no organismo”.

Diário de Notícias

DN

 

365: Estudo português dá nova vida a velhos fármacos para combater a covid-19

 

SAÚDE/INVESTIGAÇÃO/COVID-19

O Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (LAQV-REQUIMTE), em colaboração com o Grupo de Investigação 3B”s da Universidade do Minho, acredita que o impacto deste estudo – em que se mostra que a dexametasona pode actuar nas lesões pulmonares dos doentes mais graves com covid-19. Entrevista a Ana Rita Duarte, coordenadora do trabalho.

© Orlando Almeida / Global Imagens

O Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (LAQV-REQUIMTE), em colaboração com o Grupo de Investigação 3B”s da Universidade do Minho, acredita que o impacto deste estudo – em que se mostra que a dexametasona pode actuar nas lesões pulmonares dos doentes mais graves com covid-19 – tem relevância não só em Portugal como a nível mundial. “Em Portugal temo-nos tornado pioneiros no estudo de misturas eutécticas para várias aplicações, entre as quais aplicações biomédicas, e a investigação que se faz é muitíssimo reconhecida a nível internacional”, afirma Ana Rita Duarte, coordenadora do trabalho.

Qual a conclusão deste estudo?
Este estudo, tal como outros que temos vindo a realizar com misturas eutécticas para fins farmacêuticos, tem como objectivo melhorar a disponibilidade dos fármacos actualmente disponíveis. Neste estudo demonstramos que a solubilidade da dexametasona num meio aquoso, como o do nosso organismo, aumenta 65 vezes em relação ao fármaco puro; para além disso a sua permeabilidade duplica.

De que forma?
Ou seja, com esta abordagem podemos dar nova vida a fármacos existentes. Uma das principais desvantagens dos medicamentos é o facto de se dissolverem muito pouco em água, o que faz que seja preciso tomar uma dose muito mais elevada do que a necessária para ter o efeito pretendido, aumentando por consequência os efeitos secundários. Com esta tecnologia podemos aumentar a sua eficácia sem ter que aumentar a concentração tomada pelos pacientes tornando os fármacos mais eficazes e mais seguros. Para além disso usando solventes eutécticos, seguimos uma abordagem muito mais simples do que as formulações típicas para este tipo de medicamentos, reduzindo ao mesmo tempo os custos e o impacto ambiental.

O que é a dexametasona e de que forma pode aumentar a sobrevivência dos doentes (graves) com covid-19?
A dexametasona é um fármaco glucocorticoide, da categoria dos corticosteroides (versão sintética de hormonas produzidas pelas glândulas supra-renais), com elevado poder anti-inflamatório e imunossupressor, que tem indicação em diversas patologias. A patologia covid-19 está associada a lesões pulmonares difusas. Os glucocorticoides, e concretamente a dexametasona, podem modular o processo inflamatório subjacente, diminuindo a extensão dessas lesões e, consequentemente, reduzindo a progressão para insuficiência respiratória e morte. É de salientar que no estudo reportado pela Universidade de Oxford se conclui que a administração da dexametasona reduziu em 35% o risco de morte em doentes ventilados, e em 20% em doentes oxigenados, não havendo, no entanto, melhorias significativas em pacientes com sintomas ligeiros.

O vosso estudo é de 2018. Isso quer dizer que foi feito a pensar noutras doenças?
Sim, o nosso estudo foi planeado no âmbito do trabalho de investigação em engenharia de tecidos e medicina regenerativa, realizado no grupo 3B”s. O objectivo inicial era a preparação de um implante para regeneração óssea, no âmbito da engenharia biomédica. A combinação de ácido ascórbico com dexametasona é normalmente utilizada para promover a transformação de células estaminais em células osteogénicas (de osso), pelo que desenvolvemos um biomaterial à base de polímeros naturais impregnado com uma combinação de cloreto de colina com ácido ascórbico e dexametasona.

Qual a importância de estudos como estes para o avanço no uso de fármacos em Portugal e no mundo?
A grande maioria dos fármacos actualmente desenvolvidos pelas farmacêuticas têm problemas de solubilidade e/ou permeabilidade, o que quer dizer que a eficácia quando administrados é relativamente baixa. Daí surge a necessidade de encontrar veículos alternativos que permitam melhorar estes parâmetros. Esta vertente da química verde aliada à farmácia pode permitir novos desenvolvimentos em terapêuticas para as quais os fármacos disponíveis apresentam estas desvantagens.

E qual será o impacto, em termos gerais?
O impacto deste estudo tem relevância não só em Portugal como a nível mundial. Em Portugal temo-nos tornado pioneiros no estudo de misturas eutécticas para várias aplicações, entre as quais aplicações biomédicas, e a investigação que se faz é muitíssimo reconhecida a nível internacional.

Quem é a equipa responsável por este trabalho? Quando tempo demorou a fazê-lo?
A equipa responsável por este trabalho é liderada por mim, Ana Rita Duarte e Alexandre Paiva da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Da equipa fazem ainda parte a Dra. Joana Silva e o Prof. Rui L. Reis, do grupo de investigação 3B”s da Universidade do Minho. O trabalho decorreu durante sensivelmente um ano.

Qual o investimento aplicado neste trabalho e de onde provém?
O investimento vem principalmente de fundos públicos, através de concursos nacionais e/ou internacionais altamente competitivos. Nomeadamente este projecto foi co-financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, através da bolsa de pós-doutoramento da Dra. Joana Silva, do projecto DESzyme, e pela Comissão Europeia através da bolsa ERC Consolidator DES Solve do European Research Council (Conselho Europeu para a Investigação), financiada em 1,87 milhões de euros, em 2017.

Este artigo faz parte de uma série dedicada aos investigadores portugueses e é apoiada por abbvie

363: Primeira máscara que inactiva novo coronavírus criada em Portugal

 

CIÊNCIA/SAÚDE/COVID-19/PROTECÇÃO

(dr) Mo

A primeira máscara têxtil e reutilizável com capacidade comprovada para inactivar o novo coronavírus foi criada em Portugal, num projecto de cooperação entre a comunidade empresarial, académica e científica.

Em causa está a máscara MOxAd-Tech, que “superou com sucesso os testes realizados pelo Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, tornando-a na primeira máscara com capacidade de inactivar o vírus SARS-CoV-2”, informa, em comunicado, o consórcio responsável pela inovação.

Composto pela fabricante Adalberto, a retalhista do grupo Sonae Fashion (Mo), o Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, o Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal e a Universidade do Minho, este projecto “de cooperação entre a comunidade empresarial, académica e científica” permitiu, então, “o desenvolvimento de uma máscara reutilizável de elevado desempenho”, que além de ser feita de um tecido com características anti-microbianas, tem agora “protecção adicional” comprovada.

Após vários testes realizados pelo Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes chegou-se à conclusão de que “a máscara beneficia de um revestimento inovador que neutraliza o vírus SARS-CoV-2 quando este entra em contacto com o tecido, efeito que se mantém mesmo depois da realização de 50 lavagens”.

Pedro Simas, investigador e virologista deste instituto, explica, em nota de imprensa, que “os testes à máscara MOxAdtech revelaram uma inactivação eficaz do SARS-CoV-2 mesmo após 50 lavagens, onde se observou uma redução viral de 99% ao fim de uma hora de contacto com o vírus, de acordo com os parâmetros de testes indicados na norma internacional”.

“De forma simplificada, estes testes consistem na análise do tecido após o contacto com uma solução que contém uma determinada quantidade de vírus, cuja viabilidade se mede ao longo do tempo”, adianta o especialista.

Estas máscaras, produzidas em Portugal, estão já a ser comercializadas por 10 euros no país e também em toda a União Europeia.

ZAP // Lusa

Por Lusa
25 Julho, 2020

Eu já utilizo esta máscara desde que saiu para o mercado.

 

358: Dexametasona é o maior avanço contra o vírus? Calma, diz o Infarmed

 

SAÚDE/COVID-19

Um grupo de investigadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, acredita que a dexametasona é o primeiro fármaco com resultados positivos no tratamento de doentes graves com covid-19 e o ministério da Saúde britânico quer disseminar a sua utilização. No entanto, estes dados ainda não foram avaliados de forma independente. Ao DN, a Autoridade do Medicamento em Portugal lembra que se trata de “resultados preliminares” e promete acompanhar a situação.

© Mário Cruz/Lusa

Da família dos corticoides, a dexametasona é prima de medicamentos como a hexametasona ou a betametasona, disponíveis em qualquer farmácia em pomadas e comprimidos para tratar desde doenças respiratórias, reumáticas, de pele a picadas de insectos. É barata e”há às toneladas em todo o lado”, explica, ao DN, o infecciologista Jaime Nina, sobre o fármaco apontado como uma esperança para o tratamento da covid-19.

O anti-inflamatório é um dos medicamentos incluídos em ensaios clínicos mundiais dedicados ao novo coronavírus e, segundo uma equipa de investigadores da Universidade britânica de Oxford, já com resultados que mostram uma diminuição da mortalidade em doentes graves a tomar dexametasona. Ao início da noite, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, chamou-lhe mesmo “o maior avanço” contra a covid-19 até ao momento.

Já o Infarmed aconselha mais calma. E lembra, em resposta ao DN, que “as informações do ensaio clínico Recovery, a decorrer no Reino Unido, dão nota dos resultados preliminares”.

Por isso, para a Autoridade do Medicamento portuguesa ainda é cedo para tomar uma posição mais firme sobre a recomendação ou não deste fármaco também em Portugal, no contexto da pandemia de covid-19. “O Infarmed está a acompanhar esta situação aguardando de momento a publicação na íntegra dos resultados”, dizem.

Segundo a investigação, realizada com cerca de dois mil doentes no Reino Unido, o esteróide, tomado via oral, intravenosa ou com aplicação externa, diminuiu a inflamação dos doentes internados por causa da covid-19 e reduziu a letalidade em um terço, no caso das pessoas ligadas a ventiladores. Já os que estão apenas a receber oxigénio terão visto a probabilidade de morte reduzida em um quinto, de acordo com um documento do grupo de trabalho britânico, divulgado esta terça-feira.

A dexametasona é um derivado simples da cortisona (uma hormona natural), usada como anti-inflamatório e “pode ser uma manobra que salva vidas”, aponta o infecciologista Jaime Nina, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT).

“Os corticoides são medicamentos que diminuem a resposta imunitária e a base da sua utilização na covid está relacionada com os doentes mais graves, que muitas vezes têm danos muito para além dos provados pelo vírus. ​​​​​Assim, dar corticoides para diminuir a resposta imunitária faz algum sentido, mas são medicamentos de alto risco, que só devem ser utilizados em ensaios clínicos”, ou seja em ambiente controlado, alerta o especialista.

Apesar de ter benefícios comprovados e integrar a lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial de Saúde, estes fármacos apresentam efeitos secundários “perigosos”, como insuficiência cardíaca, disfunção renal ou diabetes.

Universidade de Oxford fala numa redução da mortalidade em um terço nos cuidados intensivos

O estudo da Universidade de Oxford, parcialmente financiado pelo governo britânico, ainda não foi avaliado de forma independente, mas um relatório preliminar, divulgado esta terça-feira, aponta vantagens claras na adopção do fármaco em doentes graves com covid.

“Um total de 2104 pacientes foram escolhidos de forma aleatória para receber dexametasona uma vez por dia (por via oral ou através de injecção intravenosa) durante dez dias. Estes foram comparados com 4321 pacientes, escolhidos da mesma forma, que receberam apenas os cuidados habituais [para doentes covid]. Entre os pacientes que receberam os cuidados normais, durante 28 dias, a taxa de mortalidade foi mais alta do que no grupo que necessitou de ventilação (41%), nos que apenas precisaram de oxigénio (25%) e menor entre aqueles que não necessitaram de intervenção respiratória (13%)”, pode ler-se no documento agora divulgado, citado pela BBC.

“Este é um resultado extremamente bem-vindo. O benefício para a sobrevivência é claro e imenso em pessoas doentes o suficiente para necessitar de tratamento com oxigénio. A dexametasona deve tornar-se um medicamento padrão para ser usado no tratamento a estas pessoas. A dexametasona é barata, está disponível, e pode ser usada imediatamente para salvar vidas em todo o mundo”, apontou Peter Horby, professor de doenças infecciosas emergentes na Universidade de Oxford e um dos principais responsáveis pelo ensaio clínico.

Os investigadores estimam ainda que se a dexametasona estivesse a ser usada desde o início da pandemia poderia ter salvado mais cerca de cinco mil vidas no Reino Unido, país que tem quase 42 mil vítimas mortais por causa da covid-19.

Tendo em conta estes resultados, o ministro da saúde britânico, Matt Hancock, anunciou que a Grã-Bretanha começará imediatamente a dar dexametasona aos doentes com coronavírus. Hancock referiu ainda que o país começou a armazenar amplamente o medicamento quando o seu potencial se tornou aparente há três meses. “Como vimos os primeiros sinais do potencial da dexametasona, estamos a armazenar desde Março”, afirma, num vídeo divulgado no Twitter.

Matt Hancock

@MattHancock

WATCH: Delighted to announce the first successful clinical trial for a life-saving #coronavirus treatment- reducing mortality by up to a third & further protecting our NHS

This global first exemplifies the power of science- huge thanks to the team, @oxforduni & Jonathan Van-Tam

Desde Março deste ano que foi criado um estudo no Reino Unido para testar uma variedade de fármacos utilizados para tratar outras doenças com o objectivo de encontrar que um pudesse ser aplicado na covid. Para além dos testes com dexametasona, foram ainda usados o ritonavir, o antibiótico zitromicina ou a polémica hidroxicloroquina – entretanto desaconselhada.

OMS fala em “avanço científico”

Para o director-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), o estudo britânico é um “avanço científico”. Tedros Adhanom Ghebreyesus referiu-se, esta terça-feira, à dexametasona como o “primeiro tratamento comprovado que reduz a mortalidade em pacientes” que apenas conseguem respirar com recurso a um ventilador.

“São boas notícias e congratulo o Governo britânico, a Universidade de Oxford e os muitos hospitais e pacientes no Reino Unido que contribuíram para este avanço científico que salvou vidas”, acrescentou o responsável pela OMS.

World Health Organization (WHO)

@WHO

WHO welcomes the initial clinical trial results from the #UnitedKingdom that show #dexamethasone, a corticosteroid, can be lifesaving for patients who are critically ill with #COVID19  https://bit.ly/30Jswgq 

WHO welcomes preliminary results about dexamethasone use in treating critically ill COVID-19…

The World Health Organization (WHO) welcomes the initial clinical trial results from the United Kingdom (UK) that show dexamethasone, a corticosteroid, can be lifesaving for patients who are critic…

who.int

Vacina com abordagem inovadora inicia testes clínicos no Reino Unido

Até ao momento, ainda não existe um tratamento único aprovado para combater a covid, nem uma vacina, apesar das dezenas de tentativas e fórmulas em fase de teste. No Reino Unido, cientistas da universidade Imperial College London vão iniciar, esta semana, testes clínicos em humanos com o objectivo de ter um produto final em 2021, anunciou a instituição.

Nas próximas semanas, 300 voluntários vão receber duas doses da vacina e se esta produzir uma resposta imunológica promissora serão feitos testes maiores no final do ano com cerca de 6 000 voluntários para testar a eficácia.

A primeira fase de testes vai pôr à prova uma nova técnica com “potencial para revolucionar o desenvolvimento de vacinas e permitir que os cientistas respondam mais rapidamente a doenças [infecciosas] emergentes”, destaca o instituto, em comunicado.

Em vez de usar o método tradicional de inocular pessoas com uma forma enfraquecida ou modificada do vírus, este projecto adopta uma nova abordagem, que usa filamentos sintéticos de ARN com base no material genético do vírus. Uma vez injectado no músculo, o ARN auto-amplifica-se, gerando cópias de si próprio, e instruí as células do próprio corpo a produzirem cópias de uma proteína espinhosa encontrada na parte externa do vírus.

Este processo pretende treinar o sistema imunológico a responder ao novo coronavírus para que o corpo possa reconhecê-lo facilmente e defender-se contra a covid-19 no futuro.

Diário de Notícias

 

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