345: E se um remédio para a malária fosse solução para o coronavírus?

 

SAÚDE/CODIV-19

É uma velha conhecida da medicina tropical, mas de repente está no centro das atenções por causa da pandemia de covid-19. Estudos preliminares apontaram para a possibilidade de a cloroquina, que há décadas é utilizada para tratar a malária, vir a ser usada em doentes infectados com o novo coronavírus.

É preciso, no entanto, esperar que os ensaios clínicos em curso demonstrem a sua eficácia e segurança no tratamento do covid-19, o que só acontecerá, na melhor das hipóteses, dentro de algumas semanas.

Isso não impediu, no entanto, o presidente americano de anunciar que a FDA, a agência dos Estados Unidos para os medicamentos e a alimentação, tinha aprovado uma “droga muito poderosa” para tratar o coronavírus. Referia-se à cloroquina e as repercussões não tardaram.

Apesar de a própria FDA ter emitido um comunicado a desmentir, uma vez que não existe nesta altura qualquer medicamento para a nova doença, o que se seguiu às declarações de Donald Trump foi uma corrida às farmácias no país, que quase limpou das prateleiras aquele medicamento e um seu derivado, a hydroxychloroquine.

Foi tanto assim que os doentes de lúpus, os que o usam no seu tratamento, enfrentam agora a incerteza da sua escassez. Um pouco como aconteceu com o pânico que há cerca de duas semanas fez esgotar temporariamente o papel higiénico nos supermercados em vários países, mas de forma mais grave, aquele medicamento, que é usado no tratamento de lúpus e da artrite reumatóide, duas doenças auto-imunes, quase desapareceu das farmácias, pondo agora em risco a saúde destes doentes, como noticia o ProPublica, um site de jornalismo de investigação nos Estados Unidos.

A Lupus Foundation of America já fez entretanto saber que está a trabalhar para garantir que os cerca de 1,5 milhões de cidadãos americanos que sofrem de lúpus vão continuar a ter acesso a este medicamento agora tão cobiçado em tempos de pandemia de covid-1

E houve histórias mais ridículas. Em Phoenix, no estado do Arizona, um homem morreu e a mulher ficou em estado crítico depois de ambos terem tomado fosfato de cloroquina, um produto usado para limpar aquários. Depois de melhorar, a mulher falou com o canal de televisão NBC e disse que tinha tomado a substância depois de ter ouvido o presidente Donald Trump e porque tinha medo de ficar doente. “Tinha cá aquilo, porque costumava ter carpas koi. Olhei para o frasco na prateleira e perguntei ao meu marido: ‘Hey, isto não é o que eles estavam a falar na tv?'” Os frascos destas pastilhas vendidas em lojas de animais tinham subido para centenas de dólares no eBay – isto apesar dos avisos públicos de que 1) não era a mesma coisa e 2) não há nenhum medicamento contra o covid-19.

Na Nigéria pelo menos três pessoas tiveram de ser hospitalizadas por intoxicação medicamentosa, depois de terem tomado uma overdose daquela droga – comum em África por causa da malária, sendo a única que previne os seus efeitos mais negativos. As autoridades de saúde nigerianas viram-se obrigadas a lançar um alerta público contra a utilização indiscriminada de medicamentos contra a malária no contexto da pandemia.

No Brasil, o presidente Bolsonaro também ajudou a disseminar a ideia: publicou um vídeo nas redes sociais dizendo que o pesquisadores do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, teriam iniciado um programa de testes com cloroquina para tratamento de pacientes diagnosticados com covid-19 e que os laboratórios do Exército brasileiro iriam aumentar a produção daquele composto. Medida adicional do seu governo: o Brasil deixou de vender a cloroquina a outros países.

O ensaio do médico estranho

A cloroquina saltou para as notícias a propósito do novo coronavírus SARS-CoV-2 depois de um grupo de médicos e investigadores franceses terem anunciado na semana passada “resultados promissores” no tratamento de alguns destes doentes, como afirmou Didier Raoult, o diretor do hospital de Marselha onde o estudo foi feito.

Segundo aquele médico, citado na revista francesa Science et Avenir , três quartos dos doentes que foram tratados com hydroxychloroquine não apresentavam rasto do vírus seis dias depois do início do tratamento, ao passo que 90% dos que não receberam aquela droga mantinham a presença do vírus no organismo decorrido o mesmo período de tempo. Este estudo, no entanto, não foi revisto pela comunidade científica.

Dos 20 doentes que foram tratados naquele pequeno ensaio, seis receberam também, além da hydroxychloroquine, um medicamento chamado azitromicina (que é normalmente administrada para prevenir infecções severas do trato respiratório em pacientes com infecções virais) e, nesses, a eficácia do tratamento na eliminação do vírus foi de 100%. Face a estes resultados, e mesmo com dúvidas, o governo francês decidiu alargar a outros hospitais e a um maior número de doentes de covid-19 a administração das duas moléculas combinadas, em contexto de ensaios clínicos, para obter conclusões robustas.

Ensaios clínicos estão a testar a eficácia de medicamentos da malária no tratamento do covid-19.
© EPA/Olivier Hoslet

Segundo o site de jornalismo de investigação The Intercept, no entanto, este médico e o seu ensaio têm levantado muitas dúvidas na comunidade científica, “pelo seu tamanho pequeno”, e escolhas estranhas como foi conduzido. “Há o facto de que seis dos pacientes tratados tiveram condições muito adversas em três dias: um morreu, três foram retirados do estudo para irem para os cuidados intensivos, um estava negativo e um parou o tratamento por causa das náuseas. Estes falhanços foram simplesmente retirados das estatísticas” diz a peça do jornalista Robert Mackey

O médico Didier Raoult é visto como pouco ortodoxo pela comunidade médica – que, como todos, está tão esperançada numa possível cura que escolhe dar o benefício da dúvida ao médico, bastante conhecido e cronista habitual da revista Le Point. Negacionista ambiental, e conhecido pelas suas boutades sobre este vírus – disse, nomeadamente que “este vírus não justifica medidas como se fosse uma catástrofe atómica”, anunciou que vai já publicar um livro chamado Epidemias, Verdadeiros Perigos e Falsos Alertas, segundo o jornal local La Provence. La Nouvel Observateur. Um maverick, como ele próprio se descreve à revista francesa Nouvel Observateur, diz que é ” uma estrela mundial.”

E outros ensaios

Mas a verdade é que a comunidade científica e política está em tanta aflição que a esperança acaba por sobrepor-se à cautela. E este não é o único ensaio clínico em curso com a cloroquina. Tudo começou, aliás, na China, onde os investigadores foram os primeiros a dar conta de efeitos positivos do medicamento contra o vírus SARS-CoV-2 que provoca a covid-19.

Segundo a agência de notícias chinesas Xinhua, a cloroquina, a cloroquina foi testada em 135 doentes numa dezena de hospitais em Pequim e na província de Cantão. 130 passaram a apresentar sintomas moderados e apenas cinco evoluíram para o estado grave. E, segundo, Xu Nanping, vice-ministra da Ciência chinesa, nenhum dos 130 viu a sua situação agravar-se.

Numa conferência de imprensa em Pequim, Sun Yanrong, vice-líder do Centro Nacional Chinês para o Desenvolvimento da Biotecnologia, deu o caso de uma doente de 54 anos que testou negativo depois de ter recebido aquele tratamento durante uma semana apenas. Segundo esta especialista, a maior parte dos doentes tratados levou também menos tempo a recuperar.

A Comissão para a Saúde chinesa ouviu também um conjunto de peritos, liderado pelo renomado médico Zhong Nanshan, especialista da Academia Chinesa de Engenharia, que ficou impressionado com os resultados obtidos.

A cloroquina, uma esperança em testes para o coronavírus.
© DR

Apesar das cautelas, o mundo está a ver aqui um sinal positivo e está a ir atrás dele. A Europa e os Estados Unidos também estão lançados nesta demanda para se perceber se existe aqui um caminho viável para um tratamento eficaz. Em Nova Iorque, o governador Andrew Cuomo anunciou que o estado ia usar 750 mil doses de cloroquina e 70 mil de hydroxychloroquina e 10 mil de azithromycina para fazerem o seu próprio ensaio médico. Mas fez também questão de proibir a venda do medicamento a quem não o use, já, e em pequenas quantidades, apenas para 14 dias de uso. “Nenhuma outra experiência é permitida”, disse.

Em Marrocos, decidiu-se recorrer à cloroquina como tratamento em todos os pacientes internados com covid-se, segundo o jornal local La Quotidiene. A nota foi enviada pelo ministério da Saúde para todos os centros hospitalares e directores regionais. As autoridades instam aos responsáveis que se aprovisionem do medicamento. A farmacêutica Sanofi, que tem uma fábrica deste medicamento em Marrocos, recusou-se a exportar o Nivaquine e o Plaquenil, na semana passada, apesar das demandas. Alegou que só tinha autorização para aquele mercado.

A atenção de Marrocos deveu-se ao facto de o ministro dos transportes, Abdelkader Amara, ter testado positivo para o covid-19, de volta de uma missão à Europa, e ter revelado nas redes sociais que se tinha tratado com nivaquine, um “medicamento para o tratamento da malária, fabricado em Marrocos”. ​​​​Os testes em Marrocos estão a ser feitos com um protocolo elaborado por um comité científico e técnico. Marrocos tem 143 casos, cinco mortos.

A cloroquina, uma esperança em testes para o coronavírus, é produzida pela Sanofi em Marrocos.
© DR

Medicamento bem conhecido

A Bélgica também começou também nesta segunda-feira a testar um novo tratamento para a covid-19 à base de cloroquina. Uma das vantagens da utilização das moléculas de hydroxychloroquine prende-se o facto de estar amplamente testada para a malária, sendo a sua “toxicidade bem conhecida” dos especialistas, como o microbiologista do laboratório de referência da Universidade Católica de Lovaina, Emmanuel Andre, que anunciou o tratamento.

“Já está também a ser feito um ensaio clínico a nível europeu com a combinação das duas moléculas”, informa a investigadora portuguesa em malária, Joana Tavares, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto. Diz que face aos “resultados promissores” este é um passo essencial para se determinar com rigor como se “comportam estas droga com estes pacientes de covid-19”, quais as dosagens óptimas ou a duração do tratamento.

Joana Tavares acredita que no contexto urgente da pandemia poderá haver uma resposta mais concreta sobre a real eficácia daqueles medicamentos contra o SARS-CoV-2 “dentro de algumas semanas, talvez um mês”. “Mesmo que os doentes não fiquem completamente curados, se deixarem de ter carga viral deixam de transmitir a doença, e isso já será muito positivo”, conclui a investigadora.

O laboratório farmacêutico Novartis anunciou entretanto que doará doses de hydroxychloroquine em quantidade suficiente para tratar milhões de pessoas se se comprovar que ela é eficaz no tratamento do covid-19. A farmacêutica suíça está, aliás, a colaborar com os ensaios clínicos em curso. Dentro de algumas semanas saber-se-á a resposta.

Diário de Notícias
Filomena Naves com Catarina Carvalho e João Francisco Guerreiro em Bruxelas
24 Março 2020 — 17:23

 

312: Saiba quais são os quatro medicamentos para a azia retirados pelo Infarmed

 

Autoridade do medicamento ordenou a retirada do mercado de medicamentos para a azia.

Infarmed retirou do mercado quatro medicamentos para a azia.
© Gonçalo Villaverde/Global Imagens

Bloculcer, Ranitidina, Ranitine e Zantac: são estes os medicamentos retirados do mercado pela autoridade do medicamento, segundo a SIC. A presença de uma substância potencialmente cancerígena levou o Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed) a ordenar a retirada imediata do mercado estes medicamentos de protecção gástrica, que contém o princípio activo ranitidina.

O Infarmed informou que todos os doentes em tratamento com estes medicamentos indicados para a azia, úlcera duodenal ou gástrica e refluxo gastro-esofágico devem interromper a toma de imediato e consultar um médico ou farmacêutico.

“Na sequência da detecção de uma impureza, N-Nitrosodimethylamine (NDMA), na substância activa ranitidina, o Infarmed determina a recolha e suspensão imediata da comercialização dos lotes de medicamentos (…) O motivo desta determinação decorre da presença em alguns lotes da referida impureza, da classe das nitrosaminas, já identificada em 2018 em alguns fármacos anti-hipertensores”, pode ler-se no comunicado do Infarmed.

O Infarmed recorda que as entidades que tenham estes medicamentos em stock devem proceder à sua devolução e que estão proibidas de vendê-las ou dispensá-las.

Diário de Notícias
DN
21 Setembro 2019 — 22:33

 

185: Remédio elimina sinais de doença em leucemias graves

 

Ensaios clínicos que estão a ser realizados nos Estados Unidos e em França obtiveram resultados muito positivos. Mecanismo inovador faz que as células se regenerem e retomem função normal.

dn25092014Um medicamento que está a ser testado em França e nos Estados Unidos eliminou na totalidade os sinais da doença em várias pessoas com leucemia mieloide aguda, uma das mais graves, e que têm uma mutação no gene IDH-2, em pouco tempo.

Até agora, mais de metade dos doentes envolvidos no ensaio recuperaram total ou parcialmente ao fim de poucos meses, nalguns em três ou quatro semanas.

Leia mais pormenores no e-paper do DN.

In Diário de Notícias online
25/09/2014
por Diana Mendes

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