510: Investigadores britânicos indicam qual o sintoma mais comum de covid-19. E não é a tosse

 

 

SAÚDE/COVID-19/SINTOMAS

Após analisar os dados referentes àqueles que testaram positivo à covid-19 entre Agosto e Outubro, investigadores concluíram que a perda do paladar e/ou do olfacto foi o sintoma mais reportado pelos doentes, sobretudo nos mais jovens.

© EPA/ANDY RAIN

O vírus responsável pela covid-19 continua a ser estudado pelos cientistas e agora sabe-se mais sobre o SARS-Cov-2 do que no início da pandemia que já provocou milhões de infectados em todo o mundo. Num trabalho recente, levado a cabo por investigadores britânicos, foi possível concluir o sintoma mais comum da doença.

A tosse seca e a febre começaram por ser indicados como fazendo parte da sintomatologia de covid-19 e sinais a que devíamos dar atenção. A estes acrescentaram-se outros sintomas, como fadiga, dor de estômago, perda de olfacto e do paladar, bem como perturbações a nível mental.

Agora, uma equipa de investigadores britânicos assegura que o sintoma mais comum entre os doentes infectados pelo novo coronavírus, sobretudo nos mais jovens, é a anosmia, termo usado para a perda parcial ou total do olfacto, e ageusia, enfraquecimento do sentido do paladar.

Chegou-se a esta conclusão após análise de dados do Serviço Nacional de Estatística (ONS, na siga em inglês), no Reino Unido.

Entre 15 de Agosto e 26 de Outubro, o gabinete de estatística britânico verificou que o número de pessoas que testaram positivo para a covid-19 e que relataram perda de paladar e de olfacto aumentou significativamente em todas as faixas etárias. Ou seja, trata-se de um sintoma que está a tornar-se cada vez mais frequente entre os que contraíram a doença.

Nos doentes com mais de 35 anos, entre 20% e 40% apresentaram perda de olfacto ou de paladar, em comparação com cerca de 15% a 25%, do mesmo grupo, que reportaram febre e entre 13% e 18% dos que indicaram tosse.

A prevalência deste sintoma foi mais evidente nos mais jovens. Nos doentes com menos de 35 anos, até 60% dos que testaram positivo para a covid-19 apresentaram anosmia, face aos cerca de 15 a 25% que reportaram febre e os que tiveram febre (menos de 10%).

Nas crianças, a tosse é pouco comum

“As pessoas que testam positivo à covid-19 são geralmente mais propensas a ter sintomas de perda de gosto ou cheiro e febre“, lê-se no relatório do ONS, citado pelo Daily Mirror.

Na análise, os investigadores do ONS referem que a febre é o segundo sintoma mais comum.

Os resultados desta investigação também mostram que as crianças em idade escolar infectadas pelo vírus têm menos probabilidade de ter tosse. “A taxa de positividade de crianças em idade escolar que apresentam tosse mantém-se baixa (cerca de 5%)”, refere a análise, referindo-se a dados entre Agosto e Outubro. Por outro lado, diz a estatística, o mesmo indicador para jovens com menos de 35 anos e para os que tem 35 anos ou mais “aumentou de forma constante para cerca de 10% a 15%”.

É, aliás, revelado que os dados analisados pelo King’s College mostraram que 52% das crianças infectadas não registaram os sintomas clássicos de adultos.

O que diz a DGS sobre os sintomas?

A Direcção-Geral da Saúde (DGS) refere que “os sinais e sintomas da covid-19 variam em gravidade, desde a ausência de sintomas (sendo assintomáticos) até febre (temperatura igual ou superior 38.0 ºC), tosse, dor de garganta, cansaço e dores musculares”. Nos casos mais graves, a DGS indica “pneumonia grave, síndrome respiratória aguda grave, septicemia, choque séptico e eventual morte”.

A autoridade de saúde nacional afirma que mais recentemente foi “verificada anosmia (perda do olfacto) e em alguns casos a perda do paladar, como sintoma da covid-19”. “Existem evidências da Coreia do Sul, China e Itália de que doentes com covid-19 desenvolveram perda parcial ou total do olfacto, em alguns casos na ausência de outros sintomas”, lê-se no site da DGS.

A investigação, no entanto, prossegue sobre o novo coronavírus para que se conheça melhor os efeitos da doença nas pessoas, quais as sequelas, mas também as formas de transmissão do vírus, de modo a combatê-lo de forma eficaz.

Diário de Notícias
DN
25 Novembro 2020 — 14:21

 

 

509: Como é que o novo coronavírus sobrevive em portas e dispositivos?

 

 

CIÊNCIA/SAÚDE/COVID-19

O novo coronavírus sobrevive nas superfícies? Dois físicos indianos dizem que sim e comparam-no a lagartos e salamandras

Estudo de dois físicos indianos defende que novo coronavírus pode viver até 150 horas em superfícies de plástico
© AFP

O novo coronavírus sobrevive nas superfícies? A pergunta tem sido feita por cientistas de todo o mundo e um novo estudo vem reforçar a tese de que o SARS-CoV-2, responsável pela covid-19, pode manter-se activo durante horas ou mesmo dias. Como?

Desde a Índia, dois físicos do Instituto de Tecnologia de Bombaim, citados pelo jornal ABC, investigaram como o vírus continua contagioso quando as gotas que expelimos quando tossimos, espirramos, ou até quando falamos, tocam as mais variadas superfícies. A resposta pode estar nas finas películas líquidas que ficam quando as gotas da respiram evaporam, dizem num artigo publicado no Physics of Fluids.

“A película líquida, com espessura da ordem dos nanómetros, adere À superfície”, diz o físico Rajneesh Bhardwaj ao ABC. O cientista e o colega, Amit Agrawal, concluíram que depois de quase todo o fluido respiratório evaporar o que fica é uma película ultra-fina que adere à superfície graças às forças Van der Waals – as mesmas que explicam como os lagartos e salamandras aderem às paredes. Dependendo do material, o SARS-Cov-2 pode viver mais ou menos tempo. De poucas horas a vários dias, dizem.

Por exemplo, metal seca mais rápido mas foi sobre plásticos que as películas ultra-finas mostraram viver mais tempo, dizem os modelos criados pelos físicos para a sua teoria.

Sobre cobre o novo coronavírus pode viver entre 10 a 15 horas. Mais, umas 40 a 60 horas, sobre aço inoxidável. No vidro pode chegar às 60 ou 80 horas, mas é sobre plástico que mostra mais resistência: até 150 horas.

“A nossa maior surpresa foi que aguentasse horas”, diz o Bhardwaj. “A película nano-métrica proporciona o meio adequado para a sobrevivência do novo coronavírus. Ainda que não a possamos ver, pode durar vários dias”, defende.

A conclusão não podia, pois, ser outra: desinfectar as superfícies que se tocam com frequência, como portas ou dispositivos portáteis, dentro de hospitais e outras áreas propensas a surtos”.

Aquecer os materiais é outra recomendação dos físicos, “porque as altas temperaturas, mesmo por pouco tempo, podem ajudar a evaporar a película nano-métrica e destruir o vírus”.

Diário de Notícias
DN
25 Novembro 2020 — 13:31

 

 

508: Mutações descobertas do coronavírus revelam que não se tornou mais contagioso

 

 

SAÚDE/COVID-19/MUTAÇÕES

Os investigadores do University College de Londres alertam que a introdução de vacinas fará aumentar a pressão sobre o vírus para o tornar mais esquivo ao sistema imunitário humano.

Nenhuma das mutações descobertas até agora do novo coronavírus que provoca a doença covid-19 o tornam mais contagioso, concluíram investigadores do University College de Londres num estudo publicado esta quarta-feira, em que foram analisados genomas do vírus em 46.000 pessoas.

Até agora, os investigadores identificaram 12.706 mutações no SARS-CoV-2 e viram que 398 delas são repetidas. Dessas, 185 manifestaram-se pelo menos três vezes de forma independente durante os meses da pandemia.

“Descobrimos que nenhuma destas mutações fazem o vírus espalhar-se mais depressa, mas precisamos de continuar a estudar as que ocorrerem, especialmente quando começar a haver vacinas”, afirmou a primeira autora do estudo, Lucy Van Dorp, do Instituto de Genética do UCL.

Os investigadores alertam que a introdução de vacinas fará aumentar a pressão sobre o vírus para o tornar mais esquivo ao sistema imunitário humano.

Isso poderá levar ao surgimento de mutações que escapam à acção da vacina, o que exigirá identificação rápida dessas mutações e adaptação das vacinas.

Os coronavírus como o SARS-CoV-2, que provoca a covid-19, são do tipo RNA, que podem ter mutações de três formas: por erros de cópia durante a replicação do vírus, por interacções com outros vírus que estão a infectar a mesma célula ou podem decorrer da acção do sistema imunitário do anfitrião.

A maior parte das mutações é neutra, mas pode acontecer que sejam boas ou más para o vírus, passando para as gerações seguintes de vírus.

Da investigação não saíram provas de que alguma das mutações comuns estejam a aumentar a transmissibilidade do vírus. A maior parte é neutral, salientam, e deve-se à acção do sistema imunitário humano, não indicando que seja o vírus a adaptar-se ao seu anfitrião humano.

Normalmente, um vírus só sofrerá mutações e dividir-se-á em estirpes diferentes quando se tornar mais comum em populações humanas, mas isso não implica necessariamente que as estirpes sejam mais nocivas ou contagiosas.

Diário de Notícias
Lusa
25 Novembro 2020 — 12:08

 

 

Imunidade: “Se tudo correr bem, penso que voltaremos ao normal em meados do próximo ano”

 

 

SAÚDE/COVID-19/IMUNIDADE

A vacina tão esperada contra a covid-19 está a chegar. E todos querem acreditar que a chamada imunidade de grupo vai começar a existir para se conseguir atenuar o impacto da doença. Mas como se constrói esta imunidade, de que estará dependente? Que estratégia de vacinação e que grupos-alvo devem ser prioritários para se atingir imunidade de grupo? O imunologista Manuel Santos Rosa, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, explica ao DN os cenários que ainda podem surgir.

© Fernando Fontes/Global Imagens

No espaço de uma semana foram anunciadas duas vacinas de combate ao SARSCoV-2, a da Pfizer e a da Moderna. A União Europeia já negociou milhões de doses para que todos os Estados membros as recebam em simultâneo para começarem a vacinar as populações. Cada um terá direito a doses proporcionais à sua população, porque nunca seria possível um cenário de vacinação em massa numa primeira fase, nem as empresas teriam capacidade para tal.

O imunologista e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Manuel Santos Rosa quer acreditar que o mundo está a ir na direcção certa, com a descoberta de uma vacina para travar a doença e também, daqui a uns tempos, com a descoberta de um fármaco que melhor tratará quem ficar infectado.

Mas até se perceber que eficácia terão, de facto, as vacinas, quando forem transpostas para a população em geral e se as estratégias de vacinação estão a ser as mais corretas, ainda há muitas incertezas e questões ligadas ao SARS-CoV-2, o coronavírus que invadiu o mundo há quase um ano, que têm de ser esclarecidas. O importante é que todos, governos e povos, percebam que a imunidade conquistada tem de ser a nível mundial, e não país a país, pois a mobilidade, um factor que hoje é incontornável, pode reacender a transmissão. Em entrevista ao DN, Manuel Santos Rosa explica a necessidade de um conceito de imunidade de grupo alargado e os vários cenários que as sociedades ainda podem ter de enfrentar.

Muito se tem falado de imunidade em relação ao SARS-CoV-2. Fala-se muito de imunidade de grupo: como se constrói e que impacto pode ter na transmissão do vírus?
A imunidade pode ser importantíssima no atenuar ou, se quisermos, na quase erradicação, ou mesmo erradicação, de uma doença. Ao longo da história temos vários sucessos vacinais que levaram à erradicação de algumas doenças – é o caso da varíola e da poliomielite. Mas também há situações em que se criou uma imunidade tão forte e duradoura que, desde que a pessoa seja vacinada uma vez, praticamente não precisa de reforços vacinais – é o caso do tétano. O conceito de imunidade é exactamente este: o de estarmos livres de doença, mas na prática tem muito que se lhe diga.

Porquê?
Vou começar por dizer uma coisa que me parece ser um ensinamento muito importante dos últimos anos em relação à imunidade e que tem a ver com o sarampo. Ou seja, a cobertura vacinal do sarampo foi razoavelmente boa, as pessoas estavam vacinadas, desenvolveram imunidade e deixou de haver surtos. Se estivermos vacinados, o agente patogénico, o agente agressor, muito dificilmente irá incomodar um não vacinado, e mesmo que o encontre, este não vacinado estará em contacto com pessoas vacinadas e o sucesso de poder infectar outros está limitado. Isto é imunidade de grupo. É um conceito muito importante porque significa que, mesmo que não estejamos todos vacinados, todos estamos relativamente protegidos.

Mas em relação ao sarampo têm existido ultimamente alguns surtos no mundo, Portugal registou casos nos últimos anos…
É um facto. O que se verificou em relação ao sarampo foi que, em primeiro lugar, a mobilidade actual das pessoas faz que seja fácil importar uma doença. Em Portugal, por exemplo, estávamos tranquilamente sem sarampo, até que vieram pessoas contaminadas de fora. Tivemos casos importados, e isto aplica-se claramente à situação pandémica que vivemos neste momento.

Quer dizer que o problema é a mobilidade?
Também, porque se não resolvermos o problema da imunidade no mundo vamos ter sempre a possibilidade de ter casos importados, dado a mobilidade que existe hoje, e que é incontornável. É importante perceber isto até para a recuperação da economia e do bem-estar da população. Há um certo cansaço das pessoas à cessação da mobilidade. No dia em que seja possível readquirir a mobilidade plena todos vamos querer viajar, porque estamos desejosos de o fazer. Quando o fizermos haverá um reacender de situações a nível mundial que podem não ter sido devidamente controladas. Este é outro ensinamento importante. Ou seja, o primeiro é percebermos que não podemos funcionar como quintas – estou vacinado e não me interessa o que se passa nos vizinhos -, quer seja em relação ao sarampo quer seja em relação ao SARS-CoV-2, temos de perceber que a transmissão é um problema mundial devido à mobilidade das pessoas. O segundo é verificarmos que a imunidade induzida nas pessoas é suficientemente forte para não permitir que, apesar de tudo, haja disseminação do agente infeccioso.

O imunologista Manuel Santos Rosa defende que temos de ter uma estratégia muito equilibrada e oleada para que vacinação corra bem.
© Fernando Fontes/Global Imagens

Não basta a construção de imunidade de grupo ou comunitária num país, terá de ser a nível mundial?
Sem dúvida, embora o processo de mobilidade não seja homogéneo. Há países onde se viaja mais do que outros. Por outro lado, não sei até que ponto é que a mobilidade continuará a ser exactamente como foi até agora, o hábito que adquirimos de reuniões à distância pode levar a mudanças, mas, seja como for, haverá sempre mobilidade e será muito mais forte nalguns países do que noutros, o que quer dizer que não podemos isolar o problema e pensar que estamos tranquilos se a situação for resolvida na Europa. Aqui pode ficar tudo bem, mas noutros locais não.

A vacinação não vem ajudar?
Vem, mas a situação pode ser morosa, e ainda há muitas dúvidas. Por exemplo, há muitas dúvidas quanto às actuais disponibilidades das vacinas para que se consiga atingir uma imunidade individual e de grupo tão forte, que praticamente não possa haver casos importados. Para isto acontecer era preciso termos uma cobertura vacinal e um sucesso da imunização muito elevado. E não sabemos se o vamos conseguir

Por exemplo, em relação a Portugal, sabe-se quantas pessoas seria necessário vacinar para se criar uma imunidade de grupo?
É difícil dizer. Primeiro porque as percentagens de eficácia conseguidas nos ensaios não são totalmente reprodutíveis na população. Habitualmente há uma queda – que pode ser mais ou menos significativa – quando a vacina é disponibilizada para a população em geral. Obviamente que é um bom sinal que nesta fase avançada do ensaio clínico as vacinas manifestem uma eficácia elevada, não se pode ter a ideia de que não haverá uma quebra. Em segundo, porque a cobertura vacinal vai depender do que falámos anteriormente, da mobilidade. Se estivermos a falar só de Portugal, e tendo em conta que estamos num circuito em que estamos em condições para utilizar qualquer uma das duas vacinas, é uma coisa, mas a estratégia de vacinação vai ter de ser adaptada para se chegar a uma cobertura comunitária elevada. Pode dizer-se que é um número completamente variável, mas sabendo nós que quanto mais melhor, se aproximarmos a taxa de vacinação dos 90% ou mais teremos a certeza quase absoluta de que vamos ter imunidade de grupo.

Diz que a estratégia tem de ser adaptada. O que quer dizer especificamente?
Que temos de saber em primeiro lugar como é que as pessoas vão reagir à vacina. Há algumas informações de que pessoas com mais idade têm vindo a responder bem, mas também sabemos que os idosos têm uma capacidade de resposta menor, como acontece em relação à vacina da gripe, porque estamos a falar de vacinas que precisam de uma resposta eficaz, que destrua o vírus. Por outro lado, temos de saber também como vai reagir todo um grupo de pessoas com outras doenças e debilidades no sistema imunitário. Refiro-me, por exemplo, ao grupo de pessoas imune-deprimidas, quer por doença quer porque já estão a fazer outras terapêuticas. Depois, temos também um outro grupo, que é o das pessoas mal nutridas, tipicamente com debilidades no sistema imunitário. E não podemos esquecer as grávidas, para as quais poderão ter de existir precauções específicas.

Há uma série de grupos sobre os quais ainda não se sabe como vão reagir à vacina e se permitem a imunidade de grupo?
Sem dúvida. Há muitos grupos em que não temos a certeza se a vacina vai ter o mesmo tipo de capacidade de resposta, o que quer dizer que a sua eficácia na população em geral, provavelmente, vai ser menor do que no ensaio clínico. E se chegarmos à conclusão de que 10% a 20% dos idosos não respondem à vacinação, já dificilmente conseguiremos imunidade de grupo.

Mesmo com vacina, o SARS-CoV-2 deixa muitas incertezas…
Incertezas e problemas que se colocam e que é importante que sejam esclarecidos. Por exemplo, não temos a certeza se a imunidade que estamos a induzir é uma imunidade que nos assegure a não transmissão do SARS-CoV-2. Em relação a outras vacinas que conhecemos sabemos isso, temos a certeza de que um indivíduo vacinado não vai transmitir a doença, é o caso do sarampo, mas neste caso não sabemos. A dúvida persiste, tanto mais que há muitas pessoas assintomáticas, e não sabemos se estão assintomáticas porque não responderam ao SARS-CoV-2 ou porque conseguiram neutralizar facilmente o vírus.

O grupo dos doentes assintomáticos tem de ser mais estudado?
São um grupo que terá de ser devidamente estudado e acompanhado para se ter a certeza de que estas pessoas estão imunizadas e não vão propagar o vírus. Outra dúvida que existe é sobre o tempo que irá durar a imunidade. Em relação a outros coronavírus, o que se sabe é que a imunidade não é muito duradoura. Dizendo de outro modo: provavelmente o SARS-CoV-2 irá continuar a existir e vamos ter uma vacinação anual… Não se sabe.

Isso quer dizer que poderemos ter de uma vacina semestral?
Exactamente. Na gripe, e como é um vírus sazonal, todos sabemos qual é o período do ano em que surge e vacinamo-nos preventivamente. O SARS-CoV-2 já mostrou muito claramente que não é sazonal e que pode persistir em qualquer época do ano. A sua persistência poderá levar a que, se não conseguirmos perceber qual é a duração da imunidade num grupo, as pessoas percam a imunidade e sejam de novo infectadas. Esta é uma hipótese, mas há outra muito mais optimista: o SARS-CoV-2 irá desaparecer e não é preciso aumentar a imunidade, porque a que existe é suficiente para globalmente travar o vírus, tal como aconteceu com o anterior coronavírus, que ficou apenas em certos pontos geográficos do globo. Mas pode dar-se o caso mais pessimista de que, mesmo com a vacina, nada seja seguro.

Os critérios de vacinação vão ter de ser revistos?
Esse é um passo muito importante. Vai ser moroso, porque não é possível vacinar uma população na sua quase totalidade de um dia ou de um mês para o outro. Tem de haver uma estratégia de vacinação, mas diria que o primeiro critério iria para a vacinação dos profissionais mais expostos, depois seguir-se-iam os grupos mais transmissores, quer o sejam por mobilidade elevada quer por outros factores.

Está a querer dizer que os critérios para esta vacinação devem ser diferentes dos que têm sido referidos, como profissionais de saúde, doentes crónicos, imuno-deprimidos, idosos, etc.?
Numa primeira fase é fundamental proteger sempre os profissionais de saúde. É uma estratégia de defesa, é uma população que não pode cair em combate. E também grupos-alvo específicos, pela sua fragilidade. Numa segunda fase, vêm as pessoas ligadas à produtividade quotidiana. Estas pessoas são fundamentais para que o país continue a funcionar.

A população activa é um grupo a proteger de imediato?
É fundamental que seja, como a população de grande mobilidade, a população escolar, sobretudo a do ensino superior. São populações que têm de estar na vacinação prioritária. Depois é fundamental que se vá adaptando a estratégia conforme o próprio êxito de imunização. Se o êxito for muito bom, já quase não será preciso uma estratégia, mas ir vacinando. Se o êxito for limitado, temos de ser muito selectivos e estratégicos com o que fazer em cada fase.

Professor catedrático da Faculdade de Medicina de Coimbra sublinha que conceito de imunidade tem der ser alargado, não pode ser a nível nacional ou europeu, mas mundial.
© Fernando Fontes/Global Imagens

A União Europeia já anunciou ter comprado milhões de doses de vacinas que estão para entrar no mercado já no início do ano. Portugal irá receber proporcionalmente à população, seis a nove milhões de doses, o que representa vacinas para 3,4 milhões de pessoas. Será suficiente nesta primeira fase para se criar imunidade?
Acredito que para uma primeira fase será, mas temos de ter em atenção dois cenários completamente opostos. Primeiro: conseguimos montar uma boa estratégia de vacinação e que tudo corre bem. Segundo: havendo uma estratégia muito equilibrada e oleada para que tudo funcione bem, penso que será suficiente e vamos conseguir bloquear uma série de cadeias de transmissão do vírus.

E se as coisas não correrem bem?
Se a estratégia vacinal falhar, ou porque o número de vacinas não foi suficiente ou porque os grupos-alvo que se incluíram na vacinação não resultaram em eficácia, em termos de não transmissão, é evidente que a única hipótese que nos restaria era a da vacinação em massa. Ainda há um grau de incerteza enorme, portanto a única coisa que nos é útil pensar é que a vacinação vai ter eficácia e que a estratégia vai funcionar.

É neste sentido que o mundo está a ir, mas tem havido países que têm preferido outras estratégias, como a Suécia. O que pensa destas estratégias?
Às vezes, é preciso ser demasiado directo nas afirmações para que as pessoas percebam. É evidente que se deixarmos os idosos todos infectarem-se e uma percentagem muito elevada morrer, que daqui a uns meses não teremos problemas com um grupo frágil – porque, infelizmente, uns morreram e outros podem ter desenvolvido imunidade. É falsa a ideia de que se pode viver uma pandemia no século em que vivemos de igual forma a outras que se viveram noutros séculos. Ou seja, quase que se optássemos por uma selecção natural, os mais fracos morriam e os mais fortes resistiam. Isto hoje não é admissível. Mas, vejamos, a Suécia também tomou a posição inicial de perceber se conseguiria criar imunidade de grupo, o que teria sido muito bom, porque tem outros hábitos quotidianos e que são muito diferentes dos dos latinos. O tipo de interacção das pessoas é muito mais limitado do que o nosso, eles quase que não precisavam de confinamento obrigatório porque eles próprios têm uma atitude natural de confinamento, bem diferente da nossa.

Mas já se percebeu que essa atitude não resultou.
Sim, passado algum tempo percebeu-se que não estava a surtir efeito. Agora, já fazem a apologia da protecção, do uso de máscara e de outras medidas. Penso que a Suécia acreditou que o seu sistema funcionaria, senão seria um sistema criticável, diria mesmo repudiável.

Com a esperança da vacina, como olha para o futuro?
É chamada a pergunta do milhão. Na minha modesta opinião, acho que, como em tudo na vida, estamos numa encruzilhada, tanto pode ser o caminho para a direita que está certo como pode ser o da esquerda, porque não sabemos onde vão dar. Quero acreditar que vamos pelo caminho que me parece o mais certo e o mais provável, que é o de se alcançar com a vacina uma eficácia relativa e conseguir-se moderar significativamente a capacidade de infecção do vírus. E se conseguirmos que a distribuição geográfica da vacina seja feita pelos vários continentes, diria mesmo que a vida voltava ao normal em meados do próximo ano. Mas, como imunologista, tenho de dizer também que temos de perceber que é uma possibilidade nunca mais voltarmos a uma situação de tranquilidade em relação a este tipo de agressores, vírus como o SARS- CoV-2, ou bem diferentes dele que poderão surgir, enfim é o inexorável avanço dos tempos.

Diário de Notícias

506: Mais 4.788 casos e 73 mortes em Portugal nas últimas 24 horas

 

 

SAÚDE/COVID-19

Horas após as autoridades reguladoras dos EUA darem aprovação a uma terapia de anticorpos e o G20 ter prometido um acesso global às futuras vacinas, Portugal regista 83 942 casos activos de covid-19 e um total de 3897 óbitos.

© Cesar Manso / AFP

O país tem mais 4788 casos de covid-19 e 73 óbitos nas últimas 24 horas, informou a Direcção Geral da Saúde (DGS) através do boletim epidemiológico.

O número de pessoas em internamento hospitalar continua a subir e a bater recordes. Há agora 3151, mais 126 pessoas do que na véspera, e 491 doentes em unidades de cuidados intensivos, um aumento de 6.

Há mais 3540 pessoas recuperadas, pelo que há agora 83 942 casos activos num total de 260 758 pessoas infectadas desde Março.

Com mais 73 óbitos, o número total de mortes é agora de 3897.

Por regiões, o Norte mantém-se na frente das transmissões e das mortes: adicionou mais 3091 casos e 39 óbitos, totalizando 135 363 casos e 1822 mortes.

Lisboa e Vale do Tejo registou novas 844 transmissões e mais 20 óbitos, contabilizando agora 88 983 casos e 1421 mortes. A região Centro registou 637 casos e 12 mortes, atingindo 25 013 infecções e 499 vítimas mortais. O Alentejo teve mais 112 casos e 2 mortes, num total de 5169 casos e 96 óbitos.

O Algarve continua a ser a região com menos casos. Conta agora mais 73 pessoas com covid-19, perfazendo no total 4679 casos e 42 óbitos.

Nas regiões autónomas, Açores e Madeira, têm um número total semelhante: 779 e 772, respectivamente, depois de adicionados os novos 18 casos açorianos e 13 madeirenses.

A DGS que, entretanto, simplificou as normas de admissão de utentes em lares e outras instituições, ao emitir uma orientação que dispensa a realização de um teste à covid-19 se a pessoa em causa tiver cumprido nos últimos 90 dias os critérios de fim de isolamento.

Novas medidas no estado de emergência

Ontem o governo anunciou as novas medidas a vigorar a partir de terça-feira, altura do novo estado de emergência, que inicia às 00.00 do dia 24 de Novembro e cessará às 23.59 do dia 8 de Dezembro.

Passa a ser obrigatório o uso de máscara nos locais de trabalho, excepto quando os postos de trabalho são isolados ou quando haja separação física entre diferentes postos.

O governo decretou também para todo o continente proibição da circulação entre concelhos nos dias que vão rodear os feriados de 1 e 8 de Dezembro – ambos a uma terça-feira: das 23.00 de 27 de Novembro às 5h00 de 2 de Dezembro; e das 23.00 de 4 de Dezembro às 5.00 de 9 Dezembro.

Ao mesmo tempo, nas vésperas desses feriados (30 de Novembro e 7 de Dezembro) haverá suspensão de actividades lectivas, tolerância de ponto para a administração pública e um “apelo às entidades privadas para dispensa de trabalhadores” – sendo estas, mais uma vez, medidas gerais para todo o continente.

Também criou quatro escalões de concelhos consoante a incidência da pandemia: risco moderado, risco elevado, risco muito elevado e risco extremamente elevado. Em risco “extremamente elevado” estão 47 concelhos, por apresentarem mais de 960 casos de doença por 100 mil habitantes.

Na conferência de imprensa em que apresentou as medidas, o primeiro-ministro rejeitou a oposição entre a economia e o combate à crise sanitária: “Não existe essa dicotomia”.

“A nossa vida é só uma, precisamos de saúde para viver, precisamos de trabalho para viver. Precisamos de empresas a funcionar para podermos viver e, portanto, temos de trabalhar em todas essas dimensões”, sustentou António Costa.

Tratamento aprovado nos EUA

A entidade reguladora norte-americana concedeu no sábado autorização urgente à empresa de biotecnologia Regeneron para a utilização no país do tratamento com anticorpos mono-clonais que o presidente dos EUA recebeu em Outubro contra a covid-19.

A autorização Food and Drug Administration (FDA) limita o uso do fármaco a pessoas com mais de 12 anos que tenham apresentado resultados positivos no teste à covid-19 e que estejam em risco de desenvolver um caso grave da doença, explicou a cientista chefe da FDA Denise M. Hinton num comunicado enviado à empresa.

O medicamento contém dois anticorpos potentes que, em estudos preliminares, mostraram resultados promissores na contenção da infecção, especialmente se administrado durante as fases iniciais da doença.

A autorização dá-se no dia em que os Estados Unidos passaram os 12 milhões de casos confirmados de infecção (12 051 253), os quais provocaram 255 588 mortes, de acordo com o relatório independente da Universidade Johns Hopkins. Segundo este balanço há, nas últimas 24 horas, mais 155 377 novas infecções e 1291 mortes.

A barreira dos 12 milhões de casos foi ultrapassada apenas seis dias depois de os EUA alcançarem os 11 milhões de infecções e apenas 12 dias depois de atingir os 10 milhões, um sinal de que o país tem uma forte propagação de infecções.

G20 promete acesso à vacina

Os dirigentes do G20 prometeram hoje “não desistir de nenhum esforço” para garantir o acesso equitativo às vacinas contra a covid-19, de acordo com um rascunho da declaração final da cimeira, num tom consensual, mas sem anúncios concretos.

“Não desistiremos de nenhum esforço para garantir o acesso acessível e equitativo [às vacinas, testes e tratamentos] para todos”, está escrito no texto consultado pela AFP.

A cimeira das 20 maiores potências económicas mundiais realiza-se, este ano, num formato virtual sob a presidência da Arábia Saudita, o que suscitou críticas das organizações da defesa dos direitos humanos.

A pandemia de covid-19 matou, pelo menos, 1 381 915 pessoas no mundo, desde que foi relatado o início da doença na China, no final de Dezembro de 2019, segundo um balanço da AFP deste domingo, a partir de fontes oficiais.

O balanço até hoje, às 11.00, contabiliza 58 165 460 casos de infecção em todo o mundo, oficialmente diagnosticados desde o início da propagação – que a Organização Mundial de Saúde (OMS) veio a assumir como pandemia – e, destes, pelo menos, 37 053 500 são considerados curados.

Diário de Notícias

DN
22 Novembro 2020 — 14:35

 

 

505: Os três sintomas que podem antecipar um caso grave de covid-19

 

 

SAÚDE/COVID-19/SINTOMAS

Febre, tosse e dificuldade em respirar. São estes os três sintomas que podem indicar que se está perante um caso grave da doença provocada pelo SARS-CoV-2, conclui um estudo da Sociedade Espanhola de Medicina Interna.

Unidade de Cuidados Intensivos num hospital em Madrid
© OSCAR DEL POZO / AFP

Existem sintomas que podem antecipar um caso grave de covid-19. São eles: febre, tosse e dificuldade em respirar, conclui um estudo da Sociedade Espanhola de Medicina Interna (SEMI). A investigação, que envolveu mais de 12 mil doentes, sugere que estes três sintomas indicam que se está perante uma situação que poderá ter uma evolução mais grave da infecção causada pelo SARS-CoV-2.

O vírus responsável pela covid-19 representa um desafio para a humanidade e é no conhecimento científico que se depositam muitas das esperanças para o combater de forma eficaz, a par do desenvolvimento das vacinas. É por isso que se multiplicam estudos que levantam um pouco mais do véu sobre o novo coronavírus que já infectou mais de 56 milhões de pessoas em todo o mundo. É o caso do trabalho de investigação levado a cabo pela Sociedade Espanhola de Medicina, que teve a participação do Hospital de Salamanca.

Neste estudo foi possível associar sintomas dos doentes com covid-19 à antecipação da evolução da doença e os resultados preliminares apontam um trio preocupante que pode revelar-se fatal.

“Doentes com dispneia [falta de ar] seriam a priori aqueles com qualquer outro tipo de pneumonia, mas se febre e tosse forem adicionadas, a sua evolução pode ser pior”, explica José Ángel Martín Oterino, chefe do serviço de Medicina Interna do Hospital de Salamanca, citado pela La Gaceta de Salamanca.

Já quem manifesta sintomas de uma constipação comum, além da perda de paladar e de olfacto, geralmente desenvolve uma infecção menos grave, refere o estudo, cujos dados preliminares foram dados a conhecer num artigo publicado no Journal of Clinical Medicine.

Do grupo de pessoas com dor de cabeça e de garganta ou dores musculares, apenas 10% tiveram que ser internados em Unidade de Cuidados Intensivos (UCI).

Os doentes que apresentam uma sintomatologia que inclui vómitos e diarreia também podem sofrer uma forma mais grave da doença provocada pelo novo coronavírus, mas, ainda assim, não atingem o nível de risco dos que tem dificuldade respiratória.

“Pacientes que apresentam a tríade clássica de febre, tosse e dispneia, bem como aqueles que também apresentam vómitos e diarreia são os que têm o pior prognóstico ,a priori; por outro lado, aqueles com sintomas como os de uma constipação comum ou com nítida perda de olfacto e paladar são os que apresentam um melhor prognóstico”, refere o médico Manuel Rubio-Rivas, membro do SEMI.

Análise abrangeu mais de 12 mil doentes internados com covid-19

Neste estudo, que envolveu 12 066 pessoas internados com covid-19 de diferentes hospitais espanhóis, os especialistas traçaram quatro grupos fenotípicos de pacientes hospitalizados e os sintomas que podem indicar como será a evolução da doença.

O primeiro grupo, com 8737 pacientes, 72,4% dos que participaram do estudo, foi o maior e mais numeroso e composto por pacientes com os três sintomas: febre, tosse e dificuldade em respirar. Nele se incluem sobretudo “homens mais velhos com maior prevalência de comorbidades”. “O tempo entre o início dos sintomas e a admissão também foi menor neste subgrupo de pacientes, em comparação com os outros grupos identificados. Um em cada 10 pacientes desse grupo necessitou de internamento em Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) e um quarto deles morreu, representando a maior taxa de mortalidade entre os quatro grupos”, refere a SEMI.

O segundo grupo, com 9,9% dos pacientes, um total de 1196, apresenta dificuldade no paladar e perda de olfacto, “muitas vezes acompanhada de febre, tosse e/ou dispneia”. “Este grupo apresentou a menor percentagem de admissão em UCI e taxa de mortalidade”.

Em relação ao terceiro grupo, com 880 pacientes, 7,3% “apresentavam dor nas articulações e/ou músculos, dor de cabeça e dor de garganta”, que também costuma ser acompanhada de febre, tosse e/ou dispneia. Até 10,8% dos pacientes deste grupo necessitaram de cuidados intensivos.

O quarto grupo, com 1253 pacientes, 10,4% do total, manifestou sintomas como diarreia, vómitos e dores abdominais, “também muitas vezes acompanhadas de febre, tosse e/ou dispneia”. “Destes, 8,5% necessitaram de internamento em UCI e 18,6% morreram. Esta taxa de mortalidade é a segunda mais alta dos quatro grupos identificados”, lê-se no comunicado da Sociedade Espanhola de Medicina.

Uma classificação dos sintomas, divida por grupos, que, segundo Manuel Rubio-Rivas, pode ajudar os médicos a aplicar medidas de tratamento “mais adequadas em cada caso”, numa “medicina de maior precisão”.

Diário de Notícias
DN
20 Novembro 2020 — 01:24

 

 

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