65: Análise para detecção do cancro da próstata divide especialistas

 

Um estudo norte-americano concluiu que a análise do PSA – exame utilizado para detectar o cancro da próstata – tem afinal mais efeitos nocivos que vantagens. A pesquisa está a ser fortemente contestada nos EUA e cá.

Com base em cinco ensaios clínicos, um grupo de especialistas concluiu que a análise sanguínea que mede o PSA (antigénio específico da próstata) – exame recomendado a todos os homens com mais de 50 anos, para detectar o cancro – não é afinal eficaz.

Mais, a equipa norte-americana do Grupo de Trabalho dos Serviços de Prevenção (Preventive Services Task Force, no original) alerta para o facto de a análise em questão poder gerar mais danos que benefícios.

A pesquisa está, no entanto, a ser muito criticada, contestação que o presidente da Associação Portuguesa de Urologia subscreve, ao recordar que este a análise do PSA é a forma mais eficaz de detectar o cancro da próstata na sua fase inicial e ainda curável.

Para Tomé Lopes, o estudo em causa reflecte apenas uma preocupação economicista: “A realização deste exame custa na ordem dos 300 milhões de dólares, creio, ao principal sistema de saúde nos Estados Unidos. O objectivo será reduzi-los”.

Os resultados iniciais da pesquisa, realizada para avaliar a utilização da análise do PSA na detecção do cancro da próstata em homens com mais de 50 anos e o seu efeito na redução da mortalidade, foram revelados em Outubro, desencadeando uma onda generalizada de críticas.

Agora, a equipa ratifica as conclusões iniciais, desaconselhando a realização sistemática desta análise. Não põe de lado, contudo, a possibilidade de o exame ser recomendado em função da avaliação clínica de cada caso.
Percentagem alta de resultados falsos positivos

Na revisão do estudo, publicada na revista “Annals of Internal Medicine”, são dois os tipos de efeitos negativos destacados: o sobre-diagnóstico e o sobre-tratamento.

Refere o grupo de trabalho que 12-13% dos homens que efectuam a análise recebem resultados falsos positivos, além de muitos outros serem encaminhados para biópsia sem que se detectem posteriormente tumores.

Quanto às formas de tratamento, diz o mesmo estudo que nem sempre o recurso à prostatectomia ou a radioterapia se justifica ou se traduz em menor taxa de mortalidade. Os cancros da próstata podem estar anos sem progredir ou dar problemas, é dito, e estas terapias, por seu turno, podem provocar casos de disfunção eréctil ou de incontinência urinária.

Tomé Lopes, presidente da Associação Portuguesa de Urologia, não podia estar em maior desacordo. “O cancro da próstata só é curável quando detectado no seu estadio inicial, ou seja, numa fase em que em mais de 90% dos casos não dá sintomas”, explicou ao Expresso o urologista. “A diferença entre fazer e não fazer essa análise”, acrescentou, “é curar ou não curar a doença, já que não existe nenhum marcador tumoral melhor” para auxiliar o diagnóstico.

Aliás, na mesma edição de “Annals of Internal Medicine”, o director da Fundação norte-americana para a Investigação Urológica, William Catalona, assinala a sua total discordância com este estudo, que acusa de ignorar os benefícios da análise para sobre-avaliar os seus riscos. Critica ainda a falta de urologistas no grupo de trabalho e a escassez do tempo de acompanhamento aos doentes que envolveu a pesquisa.

In Expresso online
Mafalda Ganhão (www.expresso.pt)
13:55 Quarta feira, 23 de Maio de 2012

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