417: Parkinson afinal não é uma doença… são duas

 

 

SAÚDE/PARKINSON

radioalfa / Flickr

Um estudo dinamarquês veio mostrar que a doença de Parkinson se divide em dois tipos diferentes – um começa no cérebro e outro nos intestinos – que são os responsáveis pelos diferentes sintomas reportados pelos pacientes.

A doença de Parkinson é caracterizada pela deterioração lenta do cérebro devido à acumulação de alpha-synuclein, proteína que danifica as células nervosas. Isto causa os movimentos lentos e rígidos, normalmente associados à doença, para os quais existe já dispositivo que os pode ajudar a lidar com a condição.

O estudo publicado na Brain revela que a doença se divide em dois tipos diferentes, o que poderá justificar os sintomas bastante diferentes sentidos pelos pacientes, e aponta para tratamentos personalizados como sendo caminho a seguir para estes doentes.

“Com a ajuda de técnicas de scanning avançadas, mostramos que a doença de Parkinson pode estar dividida em duas variantes, que começam em diferentes sítios do corpo“, revelou Borghammer, um dos responsáveis pelo estudo realizado na Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

“Para alguns pacientes, a doença começa nos intestinos e espalha-se até ao cérebro através de ligações neurais”, explicou.

Os investigadores usaram técnicas de imagem – Tomografia Nuclear de Positrões e Ressonância Magnética – para examinar pacientes com Parkinson e pessoas não diagnosticadas, mas com alto risco de a desenvolver, como é o caso de quem sofre de Transtorno Comportamental do Sono REM, que tem risco acrescido de a desenvolver.

O estudo mostrou que alguns pacientes apresentavam danos no sistema de dopamina do cérebro antes dos intestinos ou coração ficarem afetados. Noutros pacientes, os exames revelaram estragos no sistema nervoso dos intestinos e do coração, antes do sistema de dopamina do cérebro ser afetado.

Segundo a Science Daily, para Borghammer esta descoberta é muito importante e desafia a compreensão da doença de Parkinson. Além disso, poderá ser muito importante para o tratamento de Parkinson no futuro, visto que deveria ser baseado no padrão da doença em cada indivíduo.

“Até agora, muitas pessoas viam a doença como relativamente homogénea e classificaram-na com base nos distúrbios de movimento típicos. Mas, ao mesmo tempo, ficamos intrigados sobre o porquê de existir uma grande diferença entre os sintomas dos pacientes”, disse Borghammer.

Os investigadores referem-se aos dois tipos de Parkinson como body-first (primeiro o corpo) e brain-first (primeiro o cérebro). No primeiro caso, poderá ser interessante e pertinente investigar a composição da microbiota intestinal.

“Já foi demonstrado há muito tempo que os pacientes de Parkinson têm um microbioma nos intestinos diferente das pessoas saudáveis, sem se entender verdadeiramente o significado disto”, disse o investigador, que considera pertinente examinar a possibilidade de o tipo body-first ser curado através do tratamento dos intestinos.

“A descoberta do tipo brain-first é um desafio maior. Esta variante da doença é provavelmente assintomática até aparecerem sintomas relacionados com o movimento. Nessa altura, o paciente já perdeu mais de metade do sistema de dopamina e, consequentemente, será mais difícil encontrá-los a tempo de atrasar a doença”, afirmou.

Segundo uma investigação realizada há cerca de três anos, existe uma análise sanguínea que poderá revelar sinais de Parkinson 10 anos antes do diagnóstico.

O estudo da Universidade de Aarhus é longitudinal, o que significa que os pacientes são chamados de novo após três e seis meses para que possam ser reexaminados. De acordo com Borghammer, isto faz com que o estudo faculte aos investigadores informação válida e clara sobre o Parkinson.

“Agora temos informação que nos dá esperança para tratamentos mais direcionados e melhor adaptados às pessoas afetadas pela doença de Parkinson no futuro”, disse Borghammer.

De acordo com a Associação Dinamarquesa da Doença de Parkinson, há em todo o mundo mais de oito milhões de pessoas diagnosticadas com esta doença. Em 2050, espera-se que aumente para 15 milhões, devido à população mais envelhecida, sendo que o risco de ter a doença aumenta drasticamente quanto mais velha for a população.

ZAP //

 

 

403: FOTOVID: Terapia inovadora portuguesa elimina o vírus em segundos

 

 

SAÚDE/COVID-19

O combate à COVID-19 precisa urgentemente de soluções. Pelo mundo as equipas de investigadores desdobram-se em análises e estudos, mas até ao momento, ainda não existe nenhuma solução eficaz.

Da Universidade de Coimbra, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e duas empresas chega-nos agora a informação de uma terapia inovadora com objectivo a eliminar o vírus em segundos.

FOTOVID: O objectivo é eliminar o vírus logo na “porta de entrada” no organismo….

Denominado de FOTOVID, o projecto pretende eliminar o vírus SARS-CoV-2, responsável pela doença de COVID-19, “logo na principal ‘porta de entrada’ no organismo, isto é, nas fossas nasais, usando a terapia foto-dinâmica”, afirma a Universidade de Coimbra (UC), numa nota enviada hoje à agência Lusa.

De acordo com os responsáveis pelo consórcio, o FOTOVID assenta no “conhecimento recente de que o SARS-CoV-2 se associa a uma proteína preferencialmente presente nas cavidades nasais, onde se cria um reservatório de vírus responsável pela transmissão da doença e generalização da infecção. A inactivação dos vírus presentes nas cavidades nasais nas fases iniciais da doença COVID-19 poderá acelerar o tratamento, permitir que apenas se manifestem as formas mais benignas da doença e contribuir para impedir a propagação da pandemia”.

Esta terapia inovadora capaz de matar o vírus, tem como base uma tecnologia de desinfecção nasal criada pela empresa canadiana parceira no projecto, que já é utilizada em todo o mundo para eliminar bactérias multi-resistentes.

Luís Arnaut da Universidade de Coimbra, um dos cientistas envolvidos na investigação, refere que…

Esta é a inovação do projecto, pois a tecnologia nunca foi aplicada na inactivação de vírus.

Estamos a propor um procedimento já com elevado grau de sofisticação, que já demonstrou ser eficaz na desinfecção de fossas nasais, mesmo para bactérias multi-resistentes onde as alternativas terapêuticas existentes falham sempre, ou seja, tem sido possível fazer a inactivação de bactérias multi-resistentes com a terapia foto-dinâmica

Este elevado grau de sofisticação faz prever o maior sucesso da terapia para combater a COVID-19

A terapia foto-dinâmica é um tratamento não invasivo, rápido (pode durar apenas alguns segundos) e de baixo custo. Os responsáveis do projecto defendem que esta tecnologia tem como objectivo ser a primeira opção terapêutica, eliminando o vírus numa fase muito inicial e impedindo, deste modo, a evolução da doença para fases mais graves.

Pplware
Autor: Pedro Pinto
23 Set 2020

 

399: Fátima. A única unidade de cuidados continuados do país para pessoas com demência

 

SAÚDE/ALZHEIMER

Tem o nome de Bento XVI e é a única unidade de cuidados continuados vocacionada para doentes com demência, onde se destaca a doença de Alzheimer. São cerca de 120 vagas que estão sempre lotadas. A maioria dos doentes chega da Grande Lisboa e quando termina o programa de reabilitação, não tem para onde voltar. Manuel Caldas de Almeida, director clínico e responsável da União das Misericórdias pela unidade, sonha agora com um Lar ou Residência que dê continuidade ao trabalho iniciado há sete anos.

É um edifício triangular, amplo, pensado para que quem o habita (mesmo que temporariamente) possa deambular livremente, e sentir que não está preso. A Unidade de Cuidados Continuados (UCC) Bento XVI é a única do país preparada para receber pessoas com demência, sendo que se destaca a doença de Alzheimer.

Manuel Caldas de Almeida, médico e vice-presidente do secretariado nacional da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), proprietária do espaço, em Fátima, chama-lhe “a cereja no topo do bolo” de um projecto mais alargado – o projecto Vidas. “A certa altura nós começámos a perceber que havia muitas pessoas com demência não só na população em geral – são hoje à volta de 200 mil, com tendência a crescer bastante – como também nos nosso lares, nos nossos centros de dia, e até nos apoios domiciliários tínhamos cada vez mais população nesse registo. E não tínhamos respostas organizadas para isso. Porque os lares, na sua maioria, não foram feitos para ter pessoas com demência. E o nosso pessoal não tinha formação”.

Ao princípio, a UMP necessitava de um diagnóstico mais preciso. Com o apoio de duas universidades, estudou a realidade de 25 lares que fossem representativos de todo o território nacional. Um conjunto de psicólogos fez um inquérito que respondesse às dúvidas, auxiliado por dois neurologistas. Desse trabalho foi possível retirar conclusões importantes: a maioria da população dos lares tem mais de 80 anos e cada um dos utentes sofre de duas ou mais doenças crónicas, e cerca de 85% tem dependência física, necessitando de terceiros para fazer a sua higiene ou alimentar-se, por exemplo.

“Isto permite-nos concluir que a população dos lares, hoje, não tem nada a ver com aquela para a qual os lares foram feitos”, diz ao DN o responsável da UCC, onde actualmente, por razões de ordem sanitária, estão vedadas as visitas de elementos externos.

Mas nesse estudo, houve um outro dado preocupante: 78% da população dos lares manifestava um défice cognitivo. E desses, 50% tinha demência.

“Esses resultados estiveram na origem de várias exposições aos Ministérios da Saúde e da Segurança Social, a quem nunca ligou nenhuma”, lembra Caldas de Almeida, enquanto sublinha que essa realidade veio agora “revelar-se dramática, em tempo de pandemia”. “Há anos que vínhamos a alertar para a situação dos lares, para necessidade de terem médico, serviços vários a quem nunca ninguém ligou”.

O caminho da formação

Recuando a 2013. Ainda antes de inaugurar a UCC, a 7 de Dezembro, num investimento superior a quatro milhões de euros, era preciso formar todo o pessoal dos lares. Este responsável acredita que hoje o panorama é consideravelmente diferente, depois de levado a cabo o programa Largo – que privilegiou a formação para dirigentes, técnicos e ajudantes de Lar. No caso dos últimos – que se revelam tantas vezes os primeiros, no grau de importância relacional – recorda que está provado internacionalmente que uma boa relação com a pessoa mais próxima “evita, sem farmacologia, as reacções secundárias da doença: agitação, agressividade e ansiedade”. Foi assim que nasceu a Unidade Bento XVI, respondendo ao apelo antigo das Misericórdias que ansiavam por um lugar “onde tratar os casos mais complicados, e também onde dar formação ao pessoal”.

Nos últimos sete anos o caminho faz-se com outro auxílio, no que toca às demências. A UMP sabia que o espaço tinha de ser cuidadosamente cuidado, desde a arquitectura ao design, passando pela decoração. E por isso constituiu uma equipa multidisciplinar, que envolveu uma arquitecta, uma terapeuta ocupacional, uma neuro-psicóloga, entre outras, e daí resultou um espécie de modelo-base que se aconselha como o mínimo, num espaço/lar para pessoas com demência. “A boa notícia é que a maioria dos lares, construídos nos últimos anos, consegue fazer uma adaptação mínima às necessidades das pessoas com demência”. De resto, o médico geriatra lembra que é preciso “separar as pessoas com das pessoas sem demência, na fase final”. Muitas acabam por ser recebidas na UCC Bento XVI.

Maioria dos doentes vem da Grande Lisboa

A maioria dos utentes chega da região de Lisboa e Vale do Tejo, uma vez que a unidade está sediada em Fátima, concelho de Ourém, e o distrito de Santarém integra essa administração regional de saúde. Existem 30 vagas para doentes em média duração, e outras 30 em longa duração. Caldas de Almeida explica que têm objectivos diferentes: “a média duração tem um objectivo mais reabilitativo, de neuro-estimulação, de optimizar (do ponto de vista da capacidade funcional e cognitiva) e permitir que as pessoas voltem para casa, para os centros de dia ou apoio domiciliário. Já os de longa duração são, muitas vezes, pessoas com demência muito avançada, que carecem de um programa que inclua a manutenção, conforto.

Manuel Caldas de Almeida confirma que a lotação está quase sempre esgotada, embora sublinhe que “na unidade de média duração temos uma rotação muito agradável: as pessoas entram, fazem o programa de reabilitação, e lá conseguimos que voltem às suas origens”. O problema reside, sobretudo, na ocupação da longa duração. “Temos um problema social muito grave. Nós recebemos sobretudo pessoas da Grande Lisboa, e muitas daquelas que os hospitais nos mandam são pessoas com demência, mas também, com isolamento social total. Muitos vivem em quartos alugados, não têm família, e quando lhes acontece partir uma perna ou ter um AVC, os hospitais mandam para nós. Só que depois, quando cumprimos o nosso programa, as pessoas não têm para onde ir”. E por isso, o sonho da direcção passa agora por “construir um Lar, ou uma unidade residencial, vocacionado para acolher essas pessoas com demência”.

Ainda assim, Caldas de Almeida acredita que a maioria dos lares pertencentes às Misericórdias portuguesas já fizeram esse processo de adaptação nos espaços, e uma grande percentagem dos trabalhadores já tem formação na área. “Mas estamos ainda longe do desejável, que é ter toda a gente com formação”.

Vocacionada para as demências, a Unidade de Cuidados Continuados Bento XVI destina-se a receber pessoas que, independentemente da idade, se encontrem em situação de dependência e necessitem de cuidados de saúde especializados.

Integrada na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), a Unidade é dotada de competências ambientais, profissionais, clínicas e terapêuticas próprias tendo como finalidade ser “um modelo de referência na área de cuidados continuados para utentes com defeito cognitivo ou demência”. Conta dois médicos (incluindo Caldas de Almeida como director clínico), sendo um deles neurologista. A direcção técnica está a cargo de Catarina Cerqueira, que coordena todo o trabalho em Fátima.

“A Unidade Bento XVI aposta numa política de qualidade centrada no utente, considerando as suas necessidades pessoais, físicas, psíquicas e morais, numa abordagem multidisciplinar e de proximidade, com vista à promoção do bem-estar e da autonomia, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da pessoa com defeito cognitivo ou demência e sua família”, destaca a carta de princípios.

Lar do futuro, o próximo passo

A União das Misericórdias tem neste momento em mãos um projecto que conta por na rua até final do ano. Chama-se “lar do futuro – envelhecer em Portugal”. “A ideia é, perante tudo isto que aconteceu com a pandemia, sabermos o que deve ser o Lar, para dar resposta a todas essas necessidades. Se já sabemos que os lares não estão desenhados para quem lá está, vamos ver então quem lá está e como devem ser os lares”, enfatiza o vice-presidente da UMP.

As Misericórdias conseguiram entretanto um novo financiamento, para o ano de 2020/21, para novo pacote de formação – mas a pandemia veio atrasar esse processo.

“Se pensarmos além disso que aos 65 anos 5% da população tem demência e que aos 85 isso acontece com quase 30%. Tendo aumentado muito o número de pessoas com mais de 80 anos, aumenta muito o número de pessoas com demência”. E para esses, há apenas uma única unidade de cuidados continuados diferenciada, em todo o universo nacional.

Diário de Notícias
Paula Sofia Luz
21 Setembro 2020 — 15:49

 

397: Partículas de ouro dentro de tumores podem ajudar a matar cancro

 

 

SAÚDE/CANCRO

cottonbro / Pexels

Uma equipa de investigadores descobriu uma forma de bio-sintetizar pequenas nano-partículas de ouro dentro das células cancerígenas para auxiliar na obtenção de imagens de raios-X – e até mesmo destruí-las.

Os cientistas descobriram uma forma de cultivar nano-partículas de ouro directamente dentro das células cancerosas em 30 minutos, o que pode ajudar na obtenção de imagens de raios-X. As partículas podem mesmo ser aquecidas de forma a matar os tumores.

De acordo com o NewAtlas, esta não seria a primeira vez que os cientistas usariam nano-partículas de ouro para combater crescimentos cancerígenos. Porém, até agora, as técnicas eram limitadas na forma como eram introduzidas no cancro. Alguns métodos persuadiam as partículas a prenderem-se aos peptídeos ou às células brancas do sangue.

Esta nova técnica permite a biossíntese das nano-partículas de ouro directamente dentro das células cancerígenas, uma “abordagem altamente promissora para aplicação de entrega de drogas”, de acordo com Dipanjan Pan, professor da Universidade de Maryland, em comunicado.

A equipa dissolveu as nano-partículas de ouro numa solução de “polietilenoglicol” para criar ouro iónico – sais de ouro num líquido. Uma vez injectado, as nano-partículas de ouro começaram a ser geradas nas células cancerígenas durante uma experiência de laboratório, um processo que demorou apenas alguns minutos.

“Desenvolvemos um sistema único onde as nano-partículas de ouro são reduzidas por bio-moléculas celulares e são capazes de reter a sua funcionalidade, incluindo a capacidade de guiar o cluster remanescente para o núcleo”, explicou Pan.

Os investigadores demonstraram a mesma abordagem dentro de um tumor de camundongo antes de destruí-lo com o aquecimento das nano-partículas com um laser, um processo conhecido como “remediação foto-térmica”.

Este método é muito mais rápido do que outras abordagens e não exige muito ouro. O tratamento pode funcionar num período de tempo tão curto quanto 30 minutos, em comparação com outras opções que podem demorar 24 horas ou mais.

Para Pan, “a investigação mais desafiadora que temos pela frente será encontrar novos métodos de produção dessas partículas com reprodutibilidade descomprometida” e avaliar a forma como as nano-partículas afectarão a saúde humana a longo prazo.

Este estudo foi publicado este mês na revista científica Nature Communications.

ZAP //

Por ZAP
17 Setembro, 2020

 

396: Descoberto o “calcanhar de Aquiles” dos coronavírus

 

 

SAÚDE/CORONAVÍRUS/COVID-19

NIAID / Flickr

Uma equipa de cientistas da Escola Superior de Economia, na Rússia, afirma que tanto o SARS-CoV-2 como outros coronavírus possuem a capacidade de “atrair” um mecanismo pelo qual as células do hospedeiro impedem a replicação viral.

As moléculas conhecidas como miARN hsa-miR-21-3p podem ser o calcanhar de Aquiles da covid-19, uma vez que poderiam ser capazes de reprimir a replicação do coronavírus humano, inibindo o crescimento nos primeiros estágios da infecção e atrasando a imunidade activa.

Ao analisar os sete tipos de coronavírus conhecidos que infectam os humanos, os autores do estudo comprovaram que seis deles, incluindo o responsável pela covid-19, mostram locais de união mútuos para miARN hsa-miR-21-3p e outro miARN chamado hsa-miR-421.

De acordo com o News Medical, quando o vírus entra na célula, começa a interagir activamente com várias moléculas dentro da célula. Uma dessas classes de moléculas são os miARN, que são pequenos ARNs cuja função principal é regular a expressão dos genes. Quando um vírus entra, os miARNs começam a ligar-se a certas partes do ARN do seu genoma, o que leva à destruição dos ARNs do vírus.

Esse ataque pode interromper a replicação do vírus completamente. No entanto, nos casos em que os miARNs não são muito “agressivos”, as interacções não destroem o vírus, mas retardam a sua replicação. Esse cenário é benéfico para o vírus, pois ajuda a evitar uma resposta imunológica rápida na célula.

Alguns dos vírus acumulam intencionalmente sítios de ligação de miARNs do hospedeiro. Isso torna-se a sua vantagem: os vírus com mais sítios de ligação sobrevivem e reproduzem-se melhor, o que leva à sua dominação evolutiva.

Para analisar o papel que desempenha após a entrada do coronavírus nas células humanas, os cientistas decidiram analisar o processo de infecção nos pulmões de ratos de laboratório, comprovando que, quando ocorre uma infecção, a produção de miARN aumenta em oito vezes, indicando que o vírus “promove” a união destas moléculas ao seu próprio ARN, afectando a sua multiplicação.

Agora, os cientistas pretendem analisar as possibilidades de um efeito medicinal sobre o vírus que é atraído aos miARN descobertos e analisar se a introdução ou eliminação artificial deste mecanismo pode prevenir a reprodução do vírus.

Este estudo foi publicado esta segunda-feira na revista científica PeerJ.

ZAP //

Por ZAP
16 Setembro, 2020

 

“Prometeram-nos algo que é irrealista: uma vacina em alguns meses”

 

 

SAÚDE/COVID-19/VACINAS

Com os ensaios da vacina da AstraZeneca/Universidade de Oxford suspensos, o cientista Miguel Castanho lembra que o recorde de produção de uma vacina é de quatro anos. Virologista Pedro Simas sublinha que esta medida é uma garantia de que a futura vacina – e há quase 200 em testes – será segura.

Recorde mundial de obtenção de uma vacina está em quatro anos, sublinha o bioquímico Miguel Castanho.

A suspensão da fase 3 dos ensaios clínicos da vacina contra a covid-19 que está a ser desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca e pela Universidade de Oxford é um acontecimento “comum” no processo de desenvolvimento de uma vacina. Mas vem mostrar que os prazos que estão a ser apontados para a disponibilização de uma vacina são “irrealistas”, diz Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular (IMM) . E este percalço terá como provável consequência, acrescenta, um atraso relativamente aos prazos que estavam a ser postos em cima da mesa para disponibilização de uma vacina e que apontavam, no melhor dos cenários, já para o final deste ano.

O investigador diz que a detecção de um caso de reacção adversa grave entre os indivíduos que estão a testar a vacina (mas que não se sabe ainda se está correlacionado) “não surpreende”. “É relativamente comum isto acontecer no desenvolvimento de uma vacina, de um medicamento” e é, aliás, uma das razões que explicam o longo e moroso processo de investigação e testes. “Uma vacina, em média, demora 15 anos a ser desenvolvida. Não é porque os cientistas sejam todos incompetentes ou todos preguiçosos, é porque estes casos acontecem, é preciso repensar, reanalisar os dados, voltar atrás. Eventualmente é preciso reformular”, diz o bioquímico do IMM. “O que acontece é que nos prometeram a vacina em tempo recorde, prometeram-nos algo que é irrealista: uma vacina em alguns meses, estando o recorde mundial de obtenção de uma vacina em quatro anos”, sublinha Miguel Castanho.

A cientista chefe da Organização Mundial de Saúde, Soumya Swaminathanaúde, veio dizer ontem que só os grupos de risco deverão ter acesso a uma vacina em 2021. Para a maioria da população só deverá ficar disponível em 2022.

Miguel Castanho dirige o Laboratório de Bioquímica de Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, em Lisboa. © Filipa Bernardo/Global Imagens

A vacina da AstraZeneca é precisamente a que está na linha da frente das actuais negociações na União Europeia (UE) no sentido de adquirir uma vacina para todo o espaço da UE – é uma das que estão em fase mais avançada e já foi objecto de um contrato, a nível europeu, que contempla 300 milhões de unidades destinadas aos países da UE. Deste total, 2,3% caberão a Portugal – 6,9 milhões de vacinas. Se “vier a ser autorizada e estiver disponível” a vacina poderá ser disponibilizada num período que vai “desde o final deste ano, princípio de 2021, até meados de 2021”, disse na última segunda-feira o presidente do Infarmed, Rui Santos Ivo, na reunião sobre a situação epidemiológica no país que voltou a juntar especialistas e decisores políticos.

Na tarde desta quarta-feira o Infarmed emitiu um comunicado sublinhando que “se aguardam as conclusões sobre a reacção adversa e a sua relação com a administração da vacina”. Voltando a garantir que “nenhuma das vacinas para a covid-19 poderá ser disponibilizada sem ter sido sujeita a uma avaliação de segurança e eficácia”, a autoridade nacional do medicamento diz que “esta suspensão é demonstrativa do rigor” deste processo. O mesmo disse o presidente da instituição, Rui Santos IVO, durante a conferência de imprensa da DGS, garantindo que a avaliação que agora se seguirá sobre este caso de reacção adversa “faz parte das boas práticas da investigação clínica”.

Uma opinião partilhada por Miguel Castanho, e também pelo virologista Pedro Simas: “Isto demonstra que o sistema está a funcionar e que se pode confiar” na futura vacina que vier a ser disponibilizada. E a confiança é um dado fundamental – “a vacinação é a melhor e mais eficiente medida de saúde pública a seguir à agua potável”.

Suspensão vai atrasar o aparecimento de uma vacina?

Miguel Castanho considera que esta suspensão dos ensaios da vacina da AstraZeneca vai reflectir-se não só nesta vacina, mas também noutras.”Acho que o que vai acontecer agora é um atraso no desenvolvimento das vacinas em geral, não só porque esta era uma das mais avançadas, uma das candidatas a ser das primeiras, como pelo facto de a outra vacina que estava a par desta, a vacina russa, usar o mesmo princípio de funcionamento. E se se criam reservas em relação a esta, também se criam reservas em relação à russa.”

Já quanto às restantes não se cria uma dúvida automática, acrescenta, na medida em que seguem outras fórmulas. “Mas tal como aconteceram problemas nesta, também podem acontecer nas outras.”

Pedro Simas é mais optimista e diz esperar que os ensaios possam ser retomados em breve, o que significaria que foi afastada a hipótese de uma relação entre a reacção adversa e a vacina. “Se se vier a demonstrar que o caso não teve nada que ver com a vacina, o atraso é insignificante. Se houver provas de que é uma reacção adversa à vacina, ou uma causa provável, então aí a vacina não podia prosseguir”, sublinha o epidemiologista, mas lembrando que há outras também já numa fase avançada de ensaios.

Virologista Pedro Simas.
© Gerardo Santos/Global Imagens

De acordo com os dados mais recentes da Organização Mundial de Saúde há actualmente 179 vacinas em desenvolvimento, das quais 34 estão em fase de avaliação clínica (ou seja, já estão a ser testadas em pessoas) e nove estão na última fase de testes, o patamar prévio antes de serem sujeitas à autorização das autoridades de saúde. Mas dizer que estão na última fase está muito longe de ser sinónimo de que a vacina está iminente.

“A fase 3 não é um pro-forma, é precisamente ao contrário. É quando aparecem os dados reais, quando se faz a prova dos nove”, diz Miguel Castanho, explicando as três fases dos ensaios clínicos.

Na fase 1, que é uma fase preliminar, “só se testa segurança e princípio de acção” – se não há efeitos adversos graves em ninguém, sendo que o universo testado é limitado e composto por indivíduos jovens e saudáveis. Por outro lado, esta primeira fase serve também para testar se a administração da vacina levou à produção de anticorpos (o que não é um sinónimo automático de imunidade, que só será testada mais tarde).

Acontece que há muitos efeitos adversos que são graves, mas não são muito comuns. É na fase 2 e, sobretudo na 3 que esta hipótese é testada: “Só na fase 2/3 é que vamos testar essas formulações em muita gente. Se houver um efeito adverso que é relativamente raro ele aparecerá. Estatisticamente, se existir, vai aparecer.” E não é totalmente improvável que isso aconteça: “Perdi a conta ao número de candidatos a vacinas contra o VIH que falharam na fase 3. Morrer na praia, infelizmente, não é uma coisa rara no desenvolvimento de medicamentos e de vacinas.”

O vírus “não tem calendário político”

A informação de que os ensaios da vacina da Universidade de Oxford foram suspensos devido a uma reacção adversa grave num voluntário, no Reino Unido, foi avançada pelo site de jornalismo de saúde Stat News, citando um porta-voz da farmacêutica segundo o qual os ensaios foram suspensos para proceder a uma “revisão dos dados de segurança”. A notícia original não avança qual o tipo de reacção adversa em causa – embora diga que o paciente deve recuperar -, mas o The New York Times noticiou entretanto que se trata de mielite transversa, uma doença neurológica da medula espinal que é relativamente rara. Agora, trata-se de saber se a doença está relacionada com a vacina.

Segundo o editor de saúde da BBC é a segunda vez que os ensaios clínicos desta vacina são suspensos.

Miguel Castanho fala numa “politização” em torno da questão das vacinas e repete que “muito provavelmente os prazos para a criação da vacina vão estar mais próximos dos prazos normais e não serão prazos absolutamente recorde, como nos criaram a expectativa”.

“No início da pandemia falava-se numa vacina para Setembro, para este mês. Entretanto esses prazos têm vindo a ser dilatados e agora estávamos no final do ano.” Prazos com muito pouco de científico: “Trump até já queria a vacina para antes das eleições, como se estivéssemos a falar de algo que fosse próprio do calendário político. A questão da vacina tinha chegado a uma politização tal que se achava que o vírus devia obedecer a um calendário político.”

Numa resposta às preocupações que se levantam sobre eventuais pressões de Trump para autorizar uma vacina antes das presidenciais de Novembro, nove empresas que estão a trabalhar no desenvolvimento de vacinas divulgaram esta terça-feira um acordo que reflete um compromisso público de respeito pelo rigor científico. “Nós, as empresas bio-farmacêuticas signatárias, assumimos o compromisso de continuar a desenvolver e a testar potenciais vacinas contra a covid-19 no respeito por elevadas normas éticas e princípios científicos rigorosos”, declararam em comunicado conjunto os directores gerais das farmacêuticas AstraZeneca, BioNTech, GlaxoSmithKline, Johnson & Johnson, Merck Sharp & Dohme, Moderna, Novavax, Pfizer e Sanofi.

Diário de Notícias
10 SET 2020

 

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