592: Insulina pode ser armazenada em ambientes quentes

 

 

SAÚDE/DIABETES/INSULINA

Um frasco de insulina pode ser armazenado durante quatro semanas após a abertura, com temperaturas até aos 37 graus Celsius, sem perder eficácia, segundo um estudo divulgado esta terça-feira pela Universidade de Genebra (UNIGE), na Suíça.

A insulina aguenta ser armazenada em temperaturas altas
© Global Imagens

Este trabalho da equipa composta por especialistas da UNIGE e dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) contraria o protocolo farmacêutico em vigor, que exige que se respeite a cadeia de frio desde a produção até à injecção, e pode beneficiar, sobretudo, os doentes com diabetes que não tenham acesso a frigoríficos, como acontece com frequência na África subsariana.

“A diabetes requer uma forma diária de tratamento extremamente precisa, tendo os pacientes de se injectar com várias doses de insulina todos os dias, em conformidade com a sua dieta e actividade física”, sublinhou em comunicado a UNIGE, realçando que, quem tem diabetes e não tem frigorífico, necessita de se deslocar aos hospitais numa base diária.

Face a este problema, os peritos testaram o armazenamento de insulina em condições reais, com temperaturas entre os 25 e os 37 graus Celsius durante quatro semanas, o tempo que leva uma pessoa diabética a consumir um frasco de insulina.

As conclusões, publicadas no boletim científico Plos One, demonstram que a estabilidade da insulina armazenada nestas condições é igual à da insulina armazenada no frio, sem impacto na sua eficácia.

“Isto permite que as pessoas com diabetes tratem da sua doença sem ter que visitar um hospital várias vezes ao dia”, assinalou a UNIGE.

A diabetes tipo 1 é caracterizada por níveis elevados de açúcar no sangue, que podem ter consequências extremamente graves (coma, cegueira, amputação ou até morte), e, apesar de actualmente ser possível tratar desta doença, são necessárias injecções diárias de insulina, que ajuda o açúcar a entrar nas células do corpo.

“O protocolo farmacêutico actual exige que os frascos de insulina sejam armazenados entre 2 e 8 graus Celsius até que sejam abertos, após o que a maioria da insulina humana pode ser armazenada a 25 graus Celsius por 4 semanas”, especificou Philippa Boulle, consultora de doenças não transmissíveis dos MSF.

A especialista exemplificou que “este é obviamente um problema em campos de refugiados com temperaturas mais altas do que esta, onde as famílias não têm frigoríficos”, revelando que os MSF recorreram à equipa liderada pelo professor Leonardo Scapozza, da UNIGE, para uma análise detalhada das condições de temperatura sob as quais a insulina pode ser guardada sem uma redução da sua eficácia.

Depois de ser medido que, no campo de refugiados Dagahaley, no Quénia, a temperatura dentro de casa flutua entre os 25 graus Celsius à noite e os 37 graus Celsius durante o dia, os cientistas reproduziram estas condições em laboratório, testando os efeitos sobre a insulina, isto, enquanto as comparavam com frascos mantidos no frio.

“O risco é que a insulina, uma proteína, precipite sob a influência do calor. Noutras palavras, ela começaria a formar ‘flocos’. Como já não estaria em solução, não poderia ser injectada”, frisou Leonardo Scapozza, professor na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNIGE.

Porém, os resultados demonstraram que não há diferença entre os dois métodos de armazenamento, já que a insulina guardada sob temperaturas elevadas registou uma perda potencial de cerca de 1% face à armazenada no frio durante as mesmas quatro semanas.

“A regulação sobre medicamentos farmacêuticos permite uma perda de até 5%, por isso, estamos bem abaixo desse nível”, vincou o professor Scapozza.

Por seu turno, Philippa Boule (MSF), considerou que “estes resultados servem de base para mudar as práticas de gestão da diabetes em cenários de baixos recursos, uma vez que os pacientes já não vão precisar de ir todos os dias ao hospital receber as suas injecções de insulina”, aumentado a qualidade de vida de milhares de pessoas em diferentes regiões do mundo.

Diário de Notícias
DN/Lusa
03 Fevereiro 2021 — 20:32