399: Fátima. A única unidade de cuidados continuados do país para pessoas com demência

 

SAÚDE/ALZHEIMER

Tem o nome de Bento XVI e é a única unidade de cuidados continuados vocacionada para doentes com demência, onde se destaca a doença de Alzheimer. São cerca de 120 vagas que estão sempre lotadas. A maioria dos doentes chega da Grande Lisboa e quando termina o programa de reabilitação, não tem para onde voltar. Manuel Caldas de Almeida, director clínico e responsável da União das Misericórdias pela unidade, sonha agora com um Lar ou Residência que dê continuidade ao trabalho iniciado há sete anos.

É um edifício triangular, amplo, pensado para que quem o habita (mesmo que temporariamente) possa deambular livremente, e sentir que não está preso. A Unidade de Cuidados Continuados (UCC) Bento XVI é a única do país preparada para receber pessoas com demência, sendo que se destaca a doença de Alzheimer.

Manuel Caldas de Almeida, médico e vice-presidente do secretariado nacional da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), proprietária do espaço, em Fátima, chama-lhe “a cereja no topo do bolo” de um projecto mais alargado – o projecto Vidas. “A certa altura nós começámos a perceber que havia muitas pessoas com demência não só na população em geral – são hoje à volta de 200 mil, com tendência a crescer bastante – como também nos nosso lares, nos nossos centros de dia, e até nos apoios domiciliários tínhamos cada vez mais população nesse registo. E não tínhamos respostas organizadas para isso. Porque os lares, na sua maioria, não foram feitos para ter pessoas com demência. E o nosso pessoal não tinha formação”.

Ao princípio, a UMP necessitava de um diagnóstico mais preciso. Com o apoio de duas universidades, estudou a realidade de 25 lares que fossem representativos de todo o território nacional. Um conjunto de psicólogos fez um inquérito que respondesse às dúvidas, auxiliado por dois neurologistas. Desse trabalho foi possível retirar conclusões importantes: a maioria da população dos lares tem mais de 80 anos e cada um dos utentes sofre de duas ou mais doenças crónicas, e cerca de 85% tem dependência física, necessitando de terceiros para fazer a sua higiene ou alimentar-se, por exemplo.

“Isto permite-nos concluir que a população dos lares, hoje, não tem nada a ver com aquela para a qual os lares foram feitos”, diz ao DN o responsável da UCC, onde actualmente, por razões de ordem sanitária, estão vedadas as visitas de elementos externos.

Mas nesse estudo, houve um outro dado preocupante: 78% da população dos lares manifestava um défice cognitivo. E desses, 50% tinha demência.

“Esses resultados estiveram na origem de várias exposições aos Ministérios da Saúde e da Segurança Social, a quem nunca ligou nenhuma”, lembra Caldas de Almeida, enquanto sublinha que essa realidade veio agora “revelar-se dramática, em tempo de pandemia”. “Há anos que vínhamos a alertar para a situação dos lares, para necessidade de terem médico, serviços vários a quem nunca ninguém ligou”.

O caminho da formação

Recuando a 2013. Ainda antes de inaugurar a UCC, a 7 de Dezembro, num investimento superior a quatro milhões de euros, era preciso formar todo o pessoal dos lares. Este responsável acredita que hoje o panorama é consideravelmente diferente, depois de levado a cabo o programa Largo – que privilegiou a formação para dirigentes, técnicos e ajudantes de Lar. No caso dos últimos – que se revelam tantas vezes os primeiros, no grau de importância relacional – recorda que está provado internacionalmente que uma boa relação com a pessoa mais próxima “evita, sem farmacologia, as reacções secundárias da doença: agitação, agressividade e ansiedade”. Foi assim que nasceu a Unidade Bento XVI, respondendo ao apelo antigo das Misericórdias que ansiavam por um lugar “onde tratar os casos mais complicados, e também onde dar formação ao pessoal”.

Nos últimos sete anos o caminho faz-se com outro auxílio, no que toca às demências. A UMP sabia que o espaço tinha de ser cuidadosamente cuidado, desde a arquitectura ao design, passando pela decoração. E por isso constituiu uma equipa multidisciplinar, que envolveu uma arquitecta, uma terapeuta ocupacional, uma neuro-psicóloga, entre outras, e daí resultou um espécie de modelo-base que se aconselha como o mínimo, num espaço/lar para pessoas com demência. “A boa notícia é que a maioria dos lares, construídos nos últimos anos, consegue fazer uma adaptação mínima às necessidades das pessoas com demência”. De resto, o médico geriatra lembra que é preciso “separar as pessoas com das pessoas sem demência, na fase final”. Muitas acabam por ser recebidas na UCC Bento XVI.

Maioria dos doentes vem da Grande Lisboa

A maioria dos utentes chega da região de Lisboa e Vale do Tejo, uma vez que a unidade está sediada em Fátima, concelho de Ourém, e o distrito de Santarém integra essa administração regional de saúde. Existem 30 vagas para doentes em média duração, e outras 30 em longa duração. Caldas de Almeida explica que têm objectivos diferentes: “a média duração tem um objectivo mais reabilitativo, de neuro-estimulação, de optimizar (do ponto de vista da capacidade funcional e cognitiva) e permitir que as pessoas voltem para casa, para os centros de dia ou apoio domiciliário. Já os de longa duração são, muitas vezes, pessoas com demência muito avançada, que carecem de um programa que inclua a manutenção, conforto.

Manuel Caldas de Almeida confirma que a lotação está quase sempre esgotada, embora sublinhe que “na unidade de média duração temos uma rotação muito agradável: as pessoas entram, fazem o programa de reabilitação, e lá conseguimos que voltem às suas origens”. O problema reside, sobretudo, na ocupação da longa duração. “Temos um problema social muito grave. Nós recebemos sobretudo pessoas da Grande Lisboa, e muitas daquelas que os hospitais nos mandam são pessoas com demência, mas também, com isolamento social total. Muitos vivem em quartos alugados, não têm família, e quando lhes acontece partir uma perna ou ter um AVC, os hospitais mandam para nós. Só que depois, quando cumprimos o nosso programa, as pessoas não têm para onde ir”. E por isso, o sonho da direcção passa agora por “construir um Lar, ou uma unidade residencial, vocacionado para acolher essas pessoas com demência”.

Ainda assim, Caldas de Almeida acredita que a maioria dos lares pertencentes às Misericórdias portuguesas já fizeram esse processo de adaptação nos espaços, e uma grande percentagem dos trabalhadores já tem formação na área. “Mas estamos ainda longe do desejável, que é ter toda a gente com formação”.

Vocacionada para as demências, a Unidade de Cuidados Continuados Bento XVI destina-se a receber pessoas que, independentemente da idade, se encontrem em situação de dependência e necessitem de cuidados de saúde especializados.

Integrada na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), a Unidade é dotada de competências ambientais, profissionais, clínicas e terapêuticas próprias tendo como finalidade ser “um modelo de referência na área de cuidados continuados para utentes com defeito cognitivo ou demência”. Conta dois médicos (incluindo Caldas de Almeida como director clínico), sendo um deles neurologista. A direcção técnica está a cargo de Catarina Cerqueira, que coordena todo o trabalho em Fátima.

“A Unidade Bento XVI aposta numa política de qualidade centrada no utente, considerando as suas necessidades pessoais, físicas, psíquicas e morais, numa abordagem multidisciplinar e de proximidade, com vista à promoção do bem-estar e da autonomia, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da pessoa com defeito cognitivo ou demência e sua família”, destaca a carta de princípios.

Lar do futuro, o próximo passo

A União das Misericórdias tem neste momento em mãos um projecto que conta por na rua até final do ano. Chama-se “lar do futuro – envelhecer em Portugal”. “A ideia é, perante tudo isto que aconteceu com a pandemia, sabermos o que deve ser o Lar, para dar resposta a todas essas necessidades. Se já sabemos que os lares não estão desenhados para quem lá está, vamos ver então quem lá está e como devem ser os lares”, enfatiza o vice-presidente da UMP.

As Misericórdias conseguiram entretanto um novo financiamento, para o ano de 2020/21, para novo pacote de formação – mas a pandemia veio atrasar esse processo.

“Se pensarmos além disso que aos 65 anos 5% da população tem demência e que aos 85 isso acontece com quase 30%. Tendo aumentado muito o número de pessoas com mais de 80 anos, aumenta muito o número de pessoas com demência”. E para esses, há apenas uma única unidade de cuidados continuados diferenciada, em todo o universo nacional.

Diário de Notícias
Paula Sofia Luz
21 Setembro 2020 — 15:49

 

“Cada vez surgem pessoas mais novas com demência”

 

 

SAÚDE/ALZHEIMER

No Dia Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer, fica o alerta da associação que, em Portugal, dá apoio directo a cerca de sete mil pessoas. Quase uma gota no oceano se tivermos em conta que o país regista cerca de 200 mil pessoas com demência – número que poderá triplicar até 2050. Enquanto a investigação e os fármacos não avançam na cura, a Alzheimer Portugal aposta na sensibilização, através de uma campanha nacional com a colaboração de figuras públicas

© Adelino Meireles/Global Imagens

Estima-se que em Portugal existam cerca de 200 mil pessoas com demência, e que esse número irá triplicar até 2050, chegando a mais de meio milhão de pessoas em Portugal e a cerca de 135 milhões em todo o mundo.

A demência é causada por doenças do cérebro, sendo a de Alzheimer a forma mais comum de demência, constituindo cerca de 60% a 70% de todos os casos. A medicina utiliza a palavra demência para descrever um grupo alargado de sintomas – que podem incluir a perda de memória, dificuldades de raciocínio e de resolução de problemas, assim como alterações da linguagem, do humor ou do comportamento. “Estas mudanças são pequenas ao início, mas com o tempo tornam-se suficientemente graves para afectar o dia-a-dia da pessoa com demência”, explica ao DN a psicóloga Ana Margarida Cavaleiro, que é também responsável pela formação da Alzheimer Portugal. Nesta segunda-feira a associação (que está sediada em Lisboa e conta com delegações no norte e centro) lança uma campanha solidária que conta com o Alto Patrocínio da Presidência da República. Pretende com isso “apresentar-se como um ‘recomeço’ com que as pessoas podem contar, após conhecerem o seu diagnóstico, ou do seu familiar, e dar a conhecer os seus serviços, ao mesmo tempo que chama a atenção para os sinais de alerta e a importância do diagnóstico precoce, tendo sempre presente o objectivo de conseguir uma sociedade mais amiga das pessoas com demência”.

Ivo Canelas, Mariama Barbosa, Rita Brutt, Sandra Santos, Sara Norte e Vítor Norte são as caras desta campanha que será lançada a partir de hoje, “onde surgem imagens que parecem ser de despedida, mas que acabam por se transformar em recomeços, indicando que a Alzheimer Portugal está disponível para ajudar no recomeço após o diagnóstico”. Ana Bola e o DJ e produtor Branko participam também, com voz e música, respectivamente.

A ideia é dizer ao país que “quanto mais cedo forem detectados sinais, mas cedo se pode obter o diagnóstico e mais facilmente se pode contribuir para retardar os seus sintomas. Pessoas mais novas também podem desenvolver demência e podem continuar a viver bem durante vários anos, quando a demência é detectada em fases iniciais”.

A pandemia que atravessamos obrigou os mais velhos a um maior isolamento. Até que ponto se terá traduzido num acelerar das demências, nomeadamente da doença de Alzheimer?
Uma das grandes consequências desta pandemia, foi o facto de terem sido decretadas medidas de confinamento, protecção e segurança, que levaram à restrição de algumas das actividades realizadas pelas Instituições, nomeadamente o encerramento dos centros de dia. E se a reabertura dos mesmos já é possível em várias zonas do país, existem outras áreas em que isso ainda não acontece, não existindo ainda data para a sua abertura. A frequência dos centros de dia e de outros serviços de estimulação cognitiva é essencial para a manutenção da qualidade de vida das pessoas com demência. Com o confinamento a que a pandemia obrigou, as pessoas com demência veem as suas rotinas subitamente alteradas, ficando sujeitas a efeitos negativos com forte impacto a nível cognitivo, funcional, comportamental e de mobilidade.

Até nos cuidadores…
Sim, também os cuidadores ficaram sujeitos a uma maior pressão ao nível da prestação de cuidados, aumentando a sua sobrecarga emocional e física, o que pode dar origem a situações complicadas na prestação de cuidados.
É fundamental que a pessoa com demência e os seus cuidadores consigam manter rotinas em casa e que continuem a realizar actividade de estimulação. A Alzheimer Portugal disponibiliza no seu site vários cadernos de estimulação e outros documentos de apoio aos cuidadores, para que possam organizar o seu dia-a-dia de forma o mais adequada possível à manutenção das capacidades da pessoa com demência e ao bem-estar de ambos.

Quantos doentes existem em Portugal, neste momento? O apoio que existe (centros de dia, terapia ocupacional) é suficiente para esse universo ou, pelo contrário, estamos muito longe de conseguir prestar a atenção devida ao problema da doença?
Estima-se que actualmente existam mais de 200 mil pessoas com demência em Portugal (OCDE, 2017). Perante estes números poderemos referir que ainda não existe em Portugal um número suficiente de equipamentos especificamente pensados para pessoas com demência. Cientes desta realidade, a Alzheimer Portugal procura através dos seus equipamentos e serviços reunir um leque de boas práticas, que nos permitam através da formação e de outros projectos transmitir conhecimentos especializados na área das demências. Pretende-se que outras instituições possam replicar estas boas práticas que assentam num novo paradigma de prestação de cuidados humanizados, baseado na abordagem centrada na pessoa com demência e no respeito pela sua autodeterminação.

O que faz, em concreto, a Alzheimer Portugal e em que zonas do país?
Nos últimos 32 anos, com o objectivo de promover a qualidade de vida das pessoas com demência e dos seus familiares e cuidadores, a Alzheimer Portugal, única organização de âmbito nacional nesta área, tem-se especializado na prestação de serviços, sendo pioneira na criação de centros de dia, lares e serviços de apoio domiciliário especialmente concebidos para pessoas com demência. Desta forma, conta com uma estrutura residencial para pessoas com demência (Casa do Alecrim – Alapraia), quatro centros de dia (Lisboa, Alapraia, Lavra, Pombal), dois serviços de apoio domiciliário (Lisboa e Alapraia), e vários gabinetes de apoio na demência por todo o país. No entanto, a associação aposta ainda na realização de outros serviços e actividades para pessoas com demência e para os seus cuidadores, como seja a realização de consultas de especialidade, apoio psicológico, grupos de memória, avaliações neuropsicológicas, estimulação cognitiva, sessões de fisioterapia, entre outros serviços clínicos, que se realizam na sede (em Lisboa), nas suas delegações (norte, centro, região autónoma da Madeira) e Núcleos (Ribatejo e Algarve).A nível nacional, realiza também sessões do Café Memória (agora via Zoom), destinadas a pessoas com problemas de memória ou demência, aos seus familiares, amigos e cuidadores, para partilha de experiências e suporte mútuo. Acrescem ainda actividades de consciencialização da sociedade, através da campanha para uma mudança social Amigos na Demência e do projecto Memo e Kelembra nas Escolas que visa sensibilizar e consciencializar os mais jovens, do 1.º ao 12.º ano de escolaridade. Ainda nesta linha, a associação faz uma forte aposta na comunicação, estando activamente presente nas redes sociais (Facebook, Instagram e LinkedIn) e através do seu website. Através da Linha de Apoio na Demência, procura dar resposta, com carácter imediato, aos pedidos de informação de todos os que a contactem. Por fim, aposta na formação, como veículo de conhecimentos, boas práticas e literacia, sendo entidade formadora certificada pela DGERT desde 2006.

Como é que se financia?
A sustentabilidade da Alzheimer Portugal advém de acordos de cooperação e outros apoios estatais/municipais, apoio do Instituto Nacional para a Reabilitação, apoios de mecenas, quotização, mensalidades de utentes e pagamento de alguns serviços e projectos financiados por candidaturas.

A campanha que entretanto estará na rua conta com a participação de várias caras conhecidas. Considera que só uma maior mediatização da doença pode contribuir para a colocar na agenda, destapando o que por vezes parece ser preconceito?
Ainda existe muito estigma e preconceito na área das demências. No entanto, acreditamos que ao longo dos últimos anos a associação, através dos seus projectos, tem conseguido transmitir à sociedade uma nova perspectiva das demências, combatendo a visão menos positiva que as pessoas têm. A campanha Recomeços, lançada para assinalar o Mês Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer, pretende apresentar a associação como um recomeço com que as pessoas podem contar perante um diagnóstico de demência. O facto de contar com caras conhecidas, a voz da Ana Bola e a música de um artista como o Branko, está a ser muito importante para chegar a mais pessoas. Acreditamos que só falando mais sobre este tema podemos aumentar o nível de conhecimento da sociedade na área das demências, e no futuro conseguirmos diagnósticos mais atempados e uma melhor qualidade de vida tanto para as pessoas com demência, como para os cuidadores.

A psicóloga Ana Rita Cavaleiro sublinha o papel da sensibilização. Porque “ainda há muito estigma”.

Qual é o grande objectivo desta campanha?
Esta campanha está em linha com o nosso grande objectivo de tornar a sociedade mais amiga das pessoas com demência, pelo que convidamos todos a tornarem-se amigos na demência através do site www.amigosnademencia.org. Ao longo dos anos a associação tem procurado estar na linha da frente no combate ao estigma e à discriminação das pessoas com demência, procurando ainda actuar junto dos decisores políticos, estando actualmente integrada em projectos governamentais que visam melhorar a qualidade de vida das pessoas com demência e dos seus cuidadores.

De quando em vez aparecem notícias da área da investigação que prometem a cura ou o retardamento dos sintomas. Com o que é que podemos, efectivamente, contar para o tratamento, actualmente?
Muito embora a quase totalidade dos estudos que vão sendo divulgados ainda estejam em fases iniciais das respectivas investigações científicas, o que implica que os resultados apenas sejam conhecidos a longo prazo, existem já alguns tratamentos farmacológicos disponíveis, com vista ao retardamento da sintomatologia. A par destes, é fundamental o recurso a tratamentos não farmacológicos, como estimulação cognitiva, terapia das reminiscências, musico-terapia, terapia ocupacional, entre outros, que se mostram imprescindíveis no controlo da sintomatologia, manutenção das capacidades cognitivas e promoção do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas com demência, e consequentemente, também dos seus cuidadores.

O que vos dizem os últimos estudos sobre a doença: aparece cada vez mais cedo ou mais tarde?
Sabemos que Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo, estimando-se que possa vir a transformar-se no país mais envelhecido da Europa nos próximos 30 anos. O nosso país apresenta uma percentagem de população com mais de 60 anos a rondar os 29,4%, estimando-se que em 2050 esse número possa chegar aos 40,8% (United Nations, 2019). Este aumento acontece mesmo quando é previsto um ligeiro declínio da população portuguesa neste período, uma vez que se prevê uma duplicação no número de pessoas com mais de 70 anos, entre 2018 e 2050. Por outro lado, sabemos que a idade é o principal factor de risco não modificável para o desenvolvimento de demência, pelo que não é de estranhar que a maior parte das pessoas com demência apresentem uma idade mais avançada. Não obstante estes factores, a verdade é que cada vez mais surgem pessoas com demência com menos idade, o que nos vem trazer um novo paradigma. Os factores de risco associados à demência são a pouca actividade física, níveis baixos de educação, poucos contactos sociais, hipertensão, tabagismo, perda de audição, obesidade, depressão, diabetes, consumo de álcool em excesso, traumatismos cranianos e poluição atmosférica (Lancet, 2020), pelo que é possível perceber que actualmente vivemos expostos a muitos factores que se torna necessário combater com vista a tentarmos prevenir o aparecimento de demência ou promover o seu surgimento o mais tarde possível. Actualmente vivemos numa sociedade que se debate ainda com sedentarismo, stress, hábitos tabágicos, entre outros, o que urge mudar.

O diagnóstico continua a ser difícil. Porquê?
Apesar de todas as conquistas que temos alcançado, de a sociedade se encontrar com níveis de literacia na área das demências mais elevados, e de os meios complementares de diagnóstico serem mais precisos, debatemo-nos ainda com a dificuldade de as pessoas não recorrerem a um especialista atempadamente. Muitas vezes, só quando os sinais de que algo não está bem são muito evidentes e recorrentes é que as pessoas procuram um especialista, o que vem dificultar a realização de diagnósticos precoces. Existe ainda a ideia de que o prognóstico de um diagnóstico de demência é “somente negativo” e não se consideram os aspectos positivos de um diagnóstico precoce. Para além de ser fundamental que a pessoa perceba o que se passa consigo o mais precocemente possível para se poder informar sobre os tratamentos disponíveis, como se pode proteger legalmente e quais são os seus direitos, é imprescindível que possa perspectivar “o que é que pode fazer por si por forma a estar segura e a retardar o desenvolvimento da patologia”. A Alzheimer Portugal disponibiliza a Linha de Apoio na Demência (213 610 465), que visa responder a dúvidas, prestar informações, esclarecimentos e apoio emocional e psicológico a todos os que a ela recorram. Uma sociedade esclarecida é uma sociedade mais preparada para lidar com as demências.

Diário de Notícias
21 SET 2020

 

369: Exame ao sangue pode revelar Alzheimer antes de aparecerem sintomas

 

SAÚDE/DOENÇAS/ALZHEIMER

Pranidchakan Boonrom / Pixabay

Fazer análises ao sangue pode revelar a doença de Alzheimer antes de começarem a aparecer sintomas. Em causa está uma proteína específica no sangue.

Cerca de duas décadas antes de aparecem sintomas da doença de Alzheimer, uma proteína chamada amilóide começa a formar-se no cérebro dos pacientes. Um exame ao sangue pode detectar a proteína e ajudar a diagnosticar a doença antes que os sintomas apareçam.

À medida que as placas amilóides se vão formando no cérebro, os níveis de uma proteína específica no sangue vão aumentando, revela um novo estudo publicado, na semana passada, na revista científica Journal of Experimental Medicine.

“A descoberta de uma espécie única de tau que está intimamente associada a alterações causadas por placas amilóides ajudará a identificar e prever pessoas que têm ou provavelmente desenvolverão a doença de Alzheimer”, disse o autor do estudo, Randall J. Bateman, professor de neurologia da Universidade de Washington.

“Isto acelerará bastante os estudos de investigação, incluindo a descoberta de novos tratamentos, além de melhorar o diagnóstico clínico com um simples exame ao sangue”, acrescentou.

O objectivo dos cientistas nos últimos anos tem sido tentar identificar pacientes que comecem a desenvolver esta proteína no cérebro o mais rapidamente e economicamente possível. Desta forma, assim que um medicamento eficaz fosse desenvolvido, as pessoas poderiam ser tratadas ainda antes de desenvolver qualquer tipo de sintoma.

A Tomografia por Emissão de Positrões (PET) é uma técnica de imagem médica recente que utiliza moléculas que incluem um componente radioactivo. Quando administradas no corpo humano, estas moléculas permitem detectar e localizar reacções bioquímicas associadas a determinadas doenças, sobretudo nas áreas da Oncologia, Cardiologia e Neurologia.

Esta técnica pode ser usada para detectar placas amilóides, mas é demasiado demorada e cara para ser amplamente utilizada para triagem ou diagnóstico, realça o Futurity. Como tal, os investigadores estão a trabalhar numa exame ao sangue que consiga detectar os níveis de amilóide no cérebro.

Os autores do estudo descobriram anteriormente que as pessoas com placas amilóides tendem a ter certas formas de tau no líquido cefalorraquidiano. No entanto, para conseguir uma amostra é necessário fazer uma punção espinhal, algo que muitos pacientes se mostram relutantes em fazer. Todavia, as proteínas no líquido cefalorraquidiano podem passar para o sangue, que é mais fácil de retirar uma amostra.

Se ao analisa o sangue forem encontradas estas formas específicas de tau, conhecidas como tau fosforilada 217, pode significar que o paciente tenha placas amilóides no cérebro.

“Este é apenas um estudo exploratório, mas achamos que a tau fosforilada 217 é um alvo promissor para um teste de diagnóstico precoce“, disse o co-autor Nicolas Barthélemy.

“Havia uma grande diferença entre os grupos amilóide-positivo e amilóide-negativo, mesmo entre pessoas que eram cognitivamente normais. Tivemos que usar um grande volume de sangue neste estudo, mas estamos a trabalhar para reduzir o volume. Quando melhorarmos a maneira como estamos a preparar e a concentrar a amostra, estaremos um passo mais perto do desenvolvimento de um exame ao sangue baseado em tau que pode identificar pessoas em risco de desenvolver demência de Alzheimer antes que os sintomas surjam”, acrescentou.

ZAP //

Por ZAP
5 Agosto, 2020

 

 

361: Alzheimer pode começar no intestino e espalhar-se para o cérebro

 

SAÚDE/ALZHEIMER

(CC0/PD) Pxhere

A doença de Alzheimer, ao contrário do que se pensava anteriormente, pode começar no intestino e espalhar-se para o cérebro. Esta situação foi observada em ratos.

Alzheimer é um tipo de demência que provoca uma deterioração global, progressiva e irreversível de diversas funções cognitivas, mas um novo estudo indica que a doença pode não começar no cérebro, mas sim no intestino.

Uma equipa de investigadores sugere que a doença de Alzheimer seja causada por uma acumulação anormal de proteína no intestino, que se espalha gradualmente para o cérebro.

Esta situação foi observada em ratos, mas os cientistas acreditam que esta descoberta pode sugerir uma nova abordagem no tratamento da doença, escreve a Medical Xpress.

Com base nos resultados do estudo publicado este mês na revista científica The Journal of Physiology, os cientistas acreditam que factores ambientais podem estar a contribuir para défices cognitivos observados na doença de Alzheimer e noutras condições.

A proteína conhecida por ser a responsável pela doença de Alzheimer, a beta-amilóide, foi injectada nos intestinos de ratos e viajou para o chamado ‘cérebro intestinal’, o sistema nervoso do intestino, e também para o cérebro.

Assim, a equipa de investigadores é da opinião de que caso se consiga reduzir a quantidade desta proteína que chega ao cérebro, ou prendê-la na periferia, será possível atrasar o aparecimento da doença. Este tratamento começaria ainda antes de começarem a aparecer sintomas de Alzheimer nos pacientes.

Segundo a Associação Portuguesa de Familiares e Amigos dos Doentes de Alzheimer, a nível mundial, a demência afecta uma em cada 80 mulheres, com idades compreendidas entre os 65 e 69 anos, sendo que no caso dos homens a proporção é de um em cada 60. Nas idades acima dos 85 anos, para ambos os sexos, a demência afecta aproximadamente uma em cada quatro pessoas.

O desenvolvimento de tratamentos medicamentosos para a Alzheimer tem falhado, razão pela qual a prevenção é uma das principais armas para evitar que estas proporções continuem a aumentar.

“Este conceito é semelhante ao transporte de proteínas dobradas do intestino, como as responsáveis pela doença das vacas loucas. Se esse for o caso, um processo semelhante pode começar em humanos muitos anos antes das manifestações das características clássicas da Alzheimer, incluindo a perda de memória e, portanto, as estratégias de prevenção precisariam de começar mais cedo também”, explicou o autor do estudo, John Rudd, da Universidade Chinesa de Hong Kong.

ZAP //

Por ZAP
20 Julho, 2020


 

354: Investigadores de Coimbra exploram terapia inovadora para doença de Alzheimer

 

 

CIÊNCIA/ALZHEIMER

Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra (UC) descobriu “um possível novo alvo terapêutico para a doença de Alzheimer”, que poderá representar “um passo importante para o tratamento” dessa doença neuro-degenerativa.

© Maria João Gala /Global Imagens

A investigação procurou microARNs (“pequenas sequências genéticas com um papel regulador nas células”) que fossem “possíveis alvos terapêuticos inovadores para a doença de Alzheimer, tendo filtrado o microARN-31 como alvo promissor para este tipo de estratégias”, afirma a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.

Desenvolvido por uma equipa de investigadores do Centro de Neuro-ciências e Biologia Celular (CNC) da UC, o estudo já foi publicado na revista científica Molecular Therapy – Nucleic Acids.

Actualmente sem terapias eficazes, a Alzheimer é “um dos maiores problemas de saúde mundial, tendo um grande impacto económico e social”, sublinha a UC.

A doença caracteriza-se pela progressiva degeneração e morte dos neurónios, especialmente na zona do hipocampo, a região do cérebro responsável pela formação e consolidação de memórias, explica a UC, referindo que se acredita que “a perda de função dos neurónios desta região estará na base da perda de memória observada na doença”.

Este trabalho de investigadores do CNC teve como objectivo principal “estudar se seria possível obter, através da modulação de um microARN específico, um efeito benéfico num modelo animal” da doença de Alzheimer”.

“Queríamos observar se aumentar os níveis do microARN-31 — já identificado em quantidades mais baixas no plasma de doentes, comparando com pessoas saudáveis da mesma idade — traria benefícios relevantes não só no que diz respeito às características histopatológicas da doença, como ao nível das alterações comportamentais características da patologia”, afirma Ana Luísa Cardoso, coordenadora do projecto.

Para avaliar os efeitos benéficos do microARN-31, os especialistas recorreram a um modelo animal de ratinho para o estudo da doença de Alzheimer, utilizando apenas fêmeas.

“Após injecção de um vírus geneticamente modificado que forçasse a expressão do microARN-31, foram avaliados marcadores da doença, como a acumulação de placas beta amilóide (aglomerados tóxicos de um peptídeo, característicos da doença) no cérebro dos animais, assim como a perda de função neuronal na zona do hipocampo”, explicita a UC.

Foram realizados também ensaios comportamentais, para aferir se o microARN-31 poderia prevenir a perda de memória associada à doença de Alzheimer.

“Uma das principais fases deste estudo focou-se no desenvolvimento de uma estratégia lentiviral, ou seja, uma ferramenta de expressão de um vírus, capaz de entregar o microARN-31 aos neurónios e passível de ser entregue no cérebro do modelo animal da doença de Alzheimer”, explica, citada pela UC, Ana Teresa Viegas, primeira autora do estudo.

“Posteriormente, quisemos avaliar a deposição de placas beta amilóide, a função neuronal e o comportamento dos animais após a injecção do microARN, e avaliar se existiam melhorias quando comparado com animais não tratados com a sequência genética”, adianta.

“Observámos que a expressão deste microARN no hipocampo dos animais levava a uma diminuição da deposição de placas beta amilóide, especialmente na zona do subículo – pequena área do hipocampo responsável pela memória de trabalho”, relata Ana Teresa Viegas.

Também se verificou, destaca a investigadora, que, “comparando com os animais não tratados, os animais que receberam o microARN-31 apresentavam menores défices neste tipo de memória, que é recrutada em tarefas simples do dia-a-dia, não implicando vários processos de aprendizagem”.

Simultaneamente, os investigadores observaram “menores níveis de ansiedade e de inflexibilidade cognitiva – características observadas nos humanos em fases iniciais da doença”, acrescenta Ana Teresa Viegas.

A opção de realizar o estudo em modelos animais fêmeas pretendeu “mostrar a relevância de se focarem alguns estudos de doenças neuro-degenerativas no sexo feminino, porque, especialmente no caso da doença de Alzheimer, esta é mais prevalecente em mulheres, e a grande maioria dos estudos são ou foram feitos em animais machos, ignorando possíveis diferenças entre sexos”, refere Ana Luísa Cardoso.

Na próxima fase do estudo, a equipa vai, designadamente, procurar compreender como a utilização deste microARN-31 poderá ser útil para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas para outras doenças neuro-degenerativas.

O estudo contou ainda com a participação de Vítor Carmona, Elisabete Ferreiro, Joana Guedes, Pedro Cunha, Ana Maria Cardoso, Luís Pereira de Almeida, Catarina Resende de Oliveira e João Peça – também investigadores do CNC – e com a colaboração de João Pedro de Magalhães, investigador da Universidade de Liverpool, Reino Unido.

O projecto foi financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), Bial e programa de acções Marie Curie.

Diário de Notícias

Lusa

352: Tecnologia ajuda pacientes de Alzheimer a recuperar a memória

 

SAÚDE/ALZHEIMER

Vielight
Neuro RX Gamma

Uma nova tecnologia semelhante a uns headphones pode ajudar a reverter os sintomas da doença de Alzheimer. O dispositivo aponta luz directamente para as regiões responsáveis pela memória no cérebro.

Uma empresa canadiana criou uma tecnologia que se pode revelar bastante útil para pacientes com a doença de Alzheimer, já que pode ser capaz de restaurar a memória das pessoas. Os cientistas responsáveis pela inovação acreditam que o brilho da luz directamente nas áreas do cérebro danificadas pela doença pode reverter o Alzheimer.

O dispositivo, chamado Neuro RX Gamma, assemelha-se a uns headphones e aponta luzes LED para o cérebro através do nariz e do crânio. Segundo o Tech Explorist, a tecnologia é adequada a um uso doméstico, não é invasiva e foca-se na região do cérebro responsável pela memória.

A luz infravermelha é enviada através de quatro díodos posicionados sobre o couro cabeludo e um posicionado dentro da narina. Os cientistas sugerem que a luz melhora as mitocôndrias que fornecem energia às células e estimula o cérebro a activar células imunes que combatem doenças e tentam livrar-se delas.

O Neuro RX Gamma aprimorou as habilidades de escrita e leitura, recuperou a memória, melhorou o sono, ansiedade e stress, reduziu o mau humor e aumentou o desenvolvimento cognitivo.

Além disso, em experiências iniciais, a inovação mostrou reverter os sintomas de Alzheimer, livrar-se de proteínas tóxicas acumulados no cérebro e melhorar as células responsáveis pela memória. Caso isto se confirme nos ensaios clínicos, esta será a primeira tecnologia capaz de reverter a doença.

ZAP //

Por ZAP
26 Abril, 2020


 

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