593: Obesidade pode agravar os efeitos da doença de Alzheimer

 

 

SAÚDE/OBESIDADE/ALZHEIMER

Tony Alter / Flickr

O excesso de peso é um “fardo adicional” para a saúde do cérebro e pode agravar os efeitos da doença de Alzheimer, que afecta cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo e para a qual não há ainda cura.

A conclusão é de uma nova investigação levada a cabo pela Universidade de Sheffield, no Reino Unido, e os seus resultados foram esta semana publicados na revista científica especializada The Journal of Alzheimer’s Disease Reports.

De acordo com a investigação, a obesidade pode contribuir para a vulnerabilidade do tecido neuronal e, em sentido oposto, manter um peso saudável durante um quadro clínico de Alzheimer ou demência pode ajudar a preservar a estrutura do cérebro.

“É importante enfatizar que este estudo não mostra que a obesidade causa a doença de Alzheimer, mostrando antes que o excesso de peso é um fardo adicional para a saúde do cérebro e pode agravar a doença”, explicou a autora principal do estudo, Annalena Venner, citada em comunicado difundido pelo portal Eureka Alert, frisando que a prevenção tem um papel muito importante na luta contra esta doença neuro-degenerativa.

“As doenças que causam a demência, como o Alzheimer e a demência vascular, permanecem em segundo plano durante muitos anos. Por isso, esperar até aos 60 anos para perder peso é tarde de mais. Precisamos de começar a pensar na saúde do cérebro e na prevenção destas doenças muito mais cedo”, sustentou, destacando ainda o papel da educação: “Educar crianças e adolescentes sobre o papel que o excesso de peso desempenha nas multi-morbilidades, incluindo doenças neuro-degenerativas, é vital“.

Recorrendo a técnicas pioneiras de neuro-imagem, a equipa de cientistas analisou imagens de ressonância magnética do cérebro de 172 voluntários: 47 pacientes com diagnóstico clínico de demência leve da doença de Alzheimer, 68 pacientes com comprometimento cognitivo leve e 57 indivíduos cognitivamente saudáveis.

A equipa comparou as imagens e procurou diferenças na anatomia do cérebro, fluxo sanguíneo, bem como nas fibras do cérebro, avaliando o volume da massa cinzenta – que se degenera no início da doença de Alzheimer – e a integridade da substância branca, associada ao fluxo sanguíneo cerebral e à obesidade.

O estudo também evidenciou que manter um peso saudável num quadro de demência leve causada pela doença de Alzheimer pode ajudar a preservar a estrutura do cérebro.

“A perda de peso é, por norma, um dos primeiros sintomas nos estágios iniciais da doença de Alzheimer, quando as pessoas se esquecem de comer ou começam a fazer pequenos lanches com biscoitos ou batatas fritas, em vez de refeições mais nutritivas”, explicou ainda o co-autor do estudo Matteo De Marco.

E rematou: “Descobrimos que manter um peso saudável pode ajudar a preservar a estrutura do cérebro em pessoas que já sofrem de demência leve da doença de Alzheimer”.

Por Sara Silva Alves
4 Fevereiro, 2021

 

 

 

532: Vinho e queijo podem ajudar a prevenir a demência (e a lutar contra a covid-19)

 

 

CIÊNCIA/SAÚDE/ALZHEIMER

vanessa lollipop / Flickr

As pessoas que comem mais queijo e consumem mais vinho, ainda que de forma moderada, podem apresentar uma maior protecção contra doenças cognitivas, como é o caso da demência ou do Alzheimer, mas também contra a covid-19.

A conclusão é de uma nova investigação da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, que analisou dados de 1.787 adultos britânicos, todos com idades compreendidas entre os 46 e os 77 anos em 2016, precisa o portal IFL Science.

Todos os participantes realizaram um Teste de Inteligência de Fluidos (FIT), que avalia as habilidades de aprendizagem e memória, entre 2006 e 2010.

Os testes de acompanhamento foram realizados de 2012 a 2013 e novamente entre 2015 e 2016, permitindo aos cientistas rastrear as mudanças nas capacidades cognitivas dos participantes ao longo de um período de dez anos.

Ao longo deste período, os participantes também responderam a questões sobre a sua alimentação, fornecendo informações sobre a ingestão diária de 49 alimentos integrais diferente, incluindo frutas, verduras, peixes, carnes e lacticínios, bem como bebidas alcoólicas como vinho, cerveja e cidra.

Em comunicado, o autor principal do estudo, cujos resultados foram recentemente publicados na revista científica especializado Journal of Alzheimer’s Disease, disse ter ficado agradavelmente surpreso com os resultados.

“Fiquei agradavelmente surpresos pelos nosso resultados sugerirem que comer queijo com responsabilidade e beber vinho tinto diariamente não são bons apenas para nos ajudar a lidar com a actual pandemia de covid-19, mas também para lidar com um mundo cada vez mais complexo”, explicou, citado na mesma nota.

Apesar dos resultados, o especialista enfatiza que são necessários mais estudos.

“Embora tenhamos levado em conta se estes resultados se relacionavam apenas com aquilo que pessoas mais ricas comem e bebem, são necessários mais ensaios clínicos para determinar se mudanças fáceis na nossa dieta podem ajudar os nossos cérebros de forma significativa”, continuou, acrescentando: “Dependendo dos factores genéticos que carregam, alguns indivíduos parecem estar mais protegidos dos efeitos do Alzheimer, enquanto outros parecem estar em maior risco”.

Por isso, concluiu, é crucial continuar com a investigação neste campo para apurar o papel das dieta alimentar no declínio cognitivo e nas doenças que provocam.

“Dito isto, acredito que as escolhas alimentares certas podem prevenir a doença e o declínio cognitivo como um todo. Talvez a solução definitiva que estamos a procurar seja a forma como comemos. Descobrir o que isso acarreta contribuiu para uma melhor compreensão do Alzheimer e coloca a doença numa trajectória reversa”.

ZAP //

Por ZAP
17 Dezembro, 2020

 

 

523: Inteligência Artificial detecta doença de Alzheimer através da retina

 

 

SAÚDE/ALZHEIMER

(CC0/PD) Skitterphoto / Pixabay

Uma forma de Inteligência Artificial, que detecta o Alzheimer através da análise de uma combinação de imagens da retina, pode ser uma nova arma preditiva, revela um novo estudo.

No Alzheimer, é importante ter um diagnóstico preciso o mais cedo possível, para determinar se a situação clínica da pessoa é devida ao Alzheimer ou se os sintomas estão a ser causados por outra doença, diferente ou rara, que requeira um tratamento específico.

A doença de Alzheimer é um tipo de demência que provoca uma deterioração global, progressiva e irreversível de diversas funções cognitivas, como a memória, a atenção, a concentração, a linguagem e o pensamento, entre outras. O Alzheimer afecta várias áreas cerebrais, perdendo-se certas funções ou capacidades. Quando a pessoa perde uma capacidade, raramente consegue voltar a recuperá-la ou reaprendê-la.

Segundo o Futurity, o novo software de computador analisa a estrutura da retina e os vasos sanguíneos em imagens do interior do olho que foram correlacionadas a mudanças cognitivas. Assim, a análise de imagens da retina pode constituir uma forma não-invasiva de detectar a doença de Alzheimer em pacientes.

“O diagnóstico da doença de Alzheimer muitas vezes depende de sintomas e testes cognitivos”, explica a autora principal Sharon Fekrat. “Os testes adicionais para confirmar o diagnóstico são invasivos, caros e apresentam alguns riscos”.

“Ter um método mais acessível para identificar a doença de Alzheimer pode ajudar os pacientes de várias maneiras, incluindo melhorar a precisão do diagnóstico, permitir a entrada em ensaios clínicos mais cedo no curso da doença e planear os ajustes necessários no estilo de vida”, acrescentou.

Os cientistas perceberam que pacientes com Alzheimer apresentavam uma diminuição da densidade da rede de vasos capilares em torno do centro da mácula. Sabendo isto, treinaram uma tecnologia de machine learning para identificar os casos em que as retinas poderiam sugerir que o paciente tinha indícios de Alzheimer.

“Testamos várias abordagens diferentes, mas o nosso modelo de melhor desempenho combinou imagens retinais com dados clínicos do paciente”, disse o co-autor C. Ellis Wisely. O investigador salientou que a Inteligência Artificial diferenciou, com sucesso, pessoas saudáveis de pacientes de Alzheimer.

Os resultados do estudo foram publicados recentemente na revista científica British Journal of Ophthalmology.

ZAP //

Por ZAP
6 Dezembro, 2020

 

 

489: O ruído a que somos expostos no dia-a-dia pode aumentar a probabilidade de ter Alzheimer

 

 

SAÚDE/RUÍDO/ALZHEIMER

CooperB333 / Flickr

Um estudo recente publicado na Associação de Alzheimer revelou que a probabilidade de desenvolver a doença aumenta em 36% quando estamos sujeitos a níveis de ruído diário dez decibéis mais elevados do que a média utilizada na investigação.

A doença de Alzheimer e outras formas de demência afectam milhões de adultos em todo o mundo e investigações realizadas anteriormente já identificaram factores de risco, como a genética, a educação e a poluição do ar. Agora, vários estudos apontam o ruído como outra influência no risco de demência.

“Continuamos nos estágios iniciais de investigação da relação entre o ruído e a demência, mas até agora os sinais sugerem que devemos prestar mais atenção à possibilidade de o ruído afectar o risco cognitivo à medida que envelhecemos”, diz Jennifer Weuve, uma das autoras do estudo, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston, nos EUA.

“Se se provar que isso é verdade, podemos usar políticas e outras intervenções para reduzir os níveis de ruído referenciados por milhões de pessoas”, explicou.

Há mais de quatro décadas, a Agência de Protecção Ambiental dos EUA definiu directrizes do nível de ruído na comunidade, mas “essas directrizes foram definidas para proteger as pessoas contra a perda auditiva. Muitos de nossos participantes foram expostos a níveis muito mais baixos” e isso afectou a capacidade cognitiva de qualquer forma, disse Weuve.

O estudo publicado no fim de outubro incluiu 5.227 idosos que participaram no Chicago Health and Aging Project – iniciativa que acompanhou 10.802 indivíduos com 65 anos ou mais do South Side de Chicago desde a década de 1990.

Os participantes foram entrevistados e a sua função cognitiva testada em ciclos de três anos, tendo em conta a média dos níveis de ruído da vizinhança – a qual foi calculada através de um estudo da área de Chicago que reuniu amostras de ruído A-weighted (as frequências que são importantes para a audição humana) em 136 locais durante o dia.

No novo estudo, foi analisada a relação entre a função cognitiva dos participantes e os níveis de ruído do sítio onde viveram durante 10 anos. Além disso, tiveram em conta a data de nascimento, sexo, raça, nível de educação, renda familiar, consumo de álcool, tabagismo, actividade física e condição sócio-económica da zona residencial.

De acordo com a Futurity, a investigação descobriu que as pessoas que viviam em locais com 10 decibéis a mais de ruído durante o dia tinham 36% mais probabilidade de ter algum problema cognitivo leve e 30% mais probabilidade de ter Alzheimer.

O único outro factor que terá afectado a relação entre o nível de ruído e os problemas cognitivos foi o nível socioeconómico do bairro – os residentes de locais com baixo nível socioeconómico mostravam uma associação mais forte entre eles.

“Estas descobertas sugerem que nas comunidades urbanas típicas dos EUA, os níveis mais elevados de ruído podem afectar o cérebro de adultos mais velhos e dificultar o seu funcionamento sem assistência”, disse Sara D. Adar, autora do estudo e professora associada de epidemiologia na Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan.

Adar considera ainda que esta será uma descoberta importante, já que milhões de pessoas são afectadas por elevados níveis de ruído.

“Embora os níveis de ruído não tenham recebido muita atenção nos Estados Unidos até agora, há uma oportunidade de saúde pública aqui, visto que há intervenções que podem reduzir a exposição tanto a nível individual quanto populacional”, disse.

ZAP //

Por ZAP
13 Novembro, 2020


399: Fátima. A única unidade de cuidados continuados do país para pessoas com demência

 

SAÚDE/ALZHEIMER

Tem o nome de Bento XVI e é a única unidade de cuidados continuados vocacionada para doentes com demência, onde se destaca a doença de Alzheimer. São cerca de 120 vagas que estão sempre lotadas. A maioria dos doentes chega da Grande Lisboa e quando termina o programa de reabilitação, não tem para onde voltar. Manuel Caldas de Almeida, director clínico e responsável da União das Misericórdias pela unidade, sonha agora com um Lar ou Residência que dê continuidade ao trabalho iniciado há sete anos.

É um edifício triangular, amplo, pensado para que quem o habita (mesmo que temporariamente) possa deambular livremente, e sentir que não está preso. A Unidade de Cuidados Continuados (UCC) Bento XVI é a única do país preparada para receber pessoas com demência, sendo que se destaca a doença de Alzheimer.

Manuel Caldas de Almeida, médico e vice-presidente do secretariado nacional da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), proprietária do espaço, em Fátima, chama-lhe “a cereja no topo do bolo” de um projecto mais alargado – o projecto Vidas. “A certa altura nós começámos a perceber que havia muitas pessoas com demência não só na população em geral – são hoje à volta de 200 mil, com tendência a crescer bastante – como também nos nosso lares, nos nossos centros de dia, e até nos apoios domiciliários tínhamos cada vez mais população nesse registo. E não tínhamos respostas organizadas para isso. Porque os lares, na sua maioria, não foram feitos para ter pessoas com demência. E o nosso pessoal não tinha formação”.

Ao princípio, a UMP necessitava de um diagnóstico mais preciso. Com o apoio de duas universidades, estudou a realidade de 25 lares que fossem representativos de todo o território nacional. Um conjunto de psicólogos fez um inquérito que respondesse às dúvidas, auxiliado por dois neurologistas. Desse trabalho foi possível retirar conclusões importantes: a maioria da população dos lares tem mais de 80 anos e cada um dos utentes sofre de duas ou mais doenças crónicas, e cerca de 85% tem dependência física, necessitando de terceiros para fazer a sua higiene ou alimentar-se, por exemplo.

“Isto permite-nos concluir que a população dos lares, hoje, não tem nada a ver com aquela para a qual os lares foram feitos”, diz ao DN o responsável da UCC, onde actualmente, por razões de ordem sanitária, estão vedadas as visitas de elementos externos.

Mas nesse estudo, houve um outro dado preocupante: 78% da população dos lares manifestava um défice cognitivo. E desses, 50% tinha demência.

“Esses resultados estiveram na origem de várias exposições aos Ministérios da Saúde e da Segurança Social, a quem nunca ligou nenhuma”, lembra Caldas de Almeida, enquanto sublinha que essa realidade veio agora “revelar-se dramática, em tempo de pandemia”. “Há anos que vínhamos a alertar para a situação dos lares, para necessidade de terem médico, serviços vários a quem nunca ninguém ligou”.

O caminho da formação

Recuando a 2013. Ainda antes de inaugurar a UCC, a 7 de Dezembro, num investimento superior a quatro milhões de euros, era preciso formar todo o pessoal dos lares. Este responsável acredita que hoje o panorama é consideravelmente diferente, depois de levado a cabo o programa Largo – que privilegiou a formação para dirigentes, técnicos e ajudantes de Lar. No caso dos últimos – que se revelam tantas vezes os primeiros, no grau de importância relacional – recorda que está provado internacionalmente que uma boa relação com a pessoa mais próxima “evita, sem farmacologia, as reacções secundárias da doença: agitação, agressividade e ansiedade”. Foi assim que nasceu a Unidade Bento XVI, respondendo ao apelo antigo das Misericórdias que ansiavam por um lugar “onde tratar os casos mais complicados, e também onde dar formação ao pessoal”.

Nos últimos sete anos o caminho faz-se com outro auxílio, no que toca às demências. A UMP sabia que o espaço tinha de ser cuidadosamente cuidado, desde a arquitectura ao design, passando pela decoração. E por isso constituiu uma equipa multidisciplinar, que envolveu uma arquitecta, uma terapeuta ocupacional, uma neuro-psicóloga, entre outras, e daí resultou um espécie de modelo-base que se aconselha como o mínimo, num espaço/lar para pessoas com demência. “A boa notícia é que a maioria dos lares, construídos nos últimos anos, consegue fazer uma adaptação mínima às necessidades das pessoas com demência”. De resto, o médico geriatra lembra que é preciso “separar as pessoas com das pessoas sem demência, na fase final”. Muitas acabam por ser recebidas na UCC Bento XVI.

Maioria dos doentes vem da Grande Lisboa

A maioria dos utentes chega da região de Lisboa e Vale do Tejo, uma vez que a unidade está sediada em Fátima, concelho de Ourém, e o distrito de Santarém integra essa administração regional de saúde. Existem 30 vagas para doentes em média duração, e outras 30 em longa duração. Caldas de Almeida explica que têm objectivos diferentes: “a média duração tem um objectivo mais reabilitativo, de neuro-estimulação, de optimizar (do ponto de vista da capacidade funcional e cognitiva) e permitir que as pessoas voltem para casa, para os centros de dia ou apoio domiciliário. Já os de longa duração são, muitas vezes, pessoas com demência muito avançada, que carecem de um programa que inclua a manutenção, conforto.

Manuel Caldas de Almeida confirma que a lotação está quase sempre esgotada, embora sublinhe que “na unidade de média duração temos uma rotação muito agradável: as pessoas entram, fazem o programa de reabilitação, e lá conseguimos que voltem às suas origens”. O problema reside, sobretudo, na ocupação da longa duração. “Temos um problema social muito grave. Nós recebemos sobretudo pessoas da Grande Lisboa, e muitas daquelas que os hospitais nos mandam são pessoas com demência, mas também, com isolamento social total. Muitos vivem em quartos alugados, não têm família, e quando lhes acontece partir uma perna ou ter um AVC, os hospitais mandam para nós. Só que depois, quando cumprimos o nosso programa, as pessoas não têm para onde ir”. E por isso, o sonho da direcção passa agora por “construir um Lar, ou uma unidade residencial, vocacionado para acolher essas pessoas com demência”.

Ainda assim, Caldas de Almeida acredita que a maioria dos lares pertencentes às Misericórdias portuguesas já fizeram esse processo de adaptação nos espaços, e uma grande percentagem dos trabalhadores já tem formação na área. “Mas estamos ainda longe do desejável, que é ter toda a gente com formação”.

Vocacionada para as demências, a Unidade de Cuidados Continuados Bento XVI destina-se a receber pessoas que, independentemente da idade, se encontrem em situação de dependência e necessitem de cuidados de saúde especializados.

Integrada na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), a Unidade é dotada de competências ambientais, profissionais, clínicas e terapêuticas próprias tendo como finalidade ser “um modelo de referência na área de cuidados continuados para utentes com defeito cognitivo ou demência”. Conta dois médicos (incluindo Caldas de Almeida como director clínico), sendo um deles neurologista. A direcção técnica está a cargo de Catarina Cerqueira, que coordena todo o trabalho em Fátima.

“A Unidade Bento XVI aposta numa política de qualidade centrada no utente, considerando as suas necessidades pessoais, físicas, psíquicas e morais, numa abordagem multidisciplinar e de proximidade, com vista à promoção do bem-estar e da autonomia, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da pessoa com defeito cognitivo ou demência e sua família”, destaca a carta de princípios.

Lar do futuro, o próximo passo

A União das Misericórdias tem neste momento em mãos um projecto que conta por na rua até final do ano. Chama-se “lar do futuro – envelhecer em Portugal”. “A ideia é, perante tudo isto que aconteceu com a pandemia, sabermos o que deve ser o Lar, para dar resposta a todas essas necessidades. Se já sabemos que os lares não estão desenhados para quem lá está, vamos ver então quem lá está e como devem ser os lares”, enfatiza o vice-presidente da UMP.

As Misericórdias conseguiram entretanto um novo financiamento, para o ano de 2020/21, para novo pacote de formação – mas a pandemia veio atrasar esse processo.

“Se pensarmos além disso que aos 65 anos 5% da população tem demência e que aos 85 isso acontece com quase 30%. Tendo aumentado muito o número de pessoas com mais de 80 anos, aumenta muito o número de pessoas com demência”. E para esses, há apenas uma única unidade de cuidados continuados diferenciada, em todo o universo nacional.

Diário de Notícias
Paula Sofia Luz
21 Setembro 2020 — 15:49

 

“Cada vez surgem pessoas mais novas com demência”

 

 

SAÚDE/ALZHEIMER

No Dia Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer, fica o alerta da associação que, em Portugal, dá apoio directo a cerca de sete mil pessoas. Quase uma gota no oceano se tivermos em conta que o país regista cerca de 200 mil pessoas com demência – número que poderá triplicar até 2050. Enquanto a investigação e os fármacos não avançam na cura, a Alzheimer Portugal aposta na sensibilização, através de uma campanha nacional com a colaboração de figuras públicas

© Adelino Meireles/Global Imagens

Estima-se que em Portugal existam cerca de 200 mil pessoas com demência, e que esse número irá triplicar até 2050, chegando a mais de meio milhão de pessoas em Portugal e a cerca de 135 milhões em todo o mundo.

A demência é causada por doenças do cérebro, sendo a de Alzheimer a forma mais comum de demência, constituindo cerca de 60% a 70% de todos os casos. A medicina utiliza a palavra demência para descrever um grupo alargado de sintomas – que podem incluir a perda de memória, dificuldades de raciocínio e de resolução de problemas, assim como alterações da linguagem, do humor ou do comportamento. “Estas mudanças são pequenas ao início, mas com o tempo tornam-se suficientemente graves para afectar o dia-a-dia da pessoa com demência”, explica ao DN a psicóloga Ana Margarida Cavaleiro, que é também responsável pela formação da Alzheimer Portugal. Nesta segunda-feira a associação (que está sediada em Lisboa e conta com delegações no norte e centro) lança uma campanha solidária que conta com o Alto Patrocínio da Presidência da República. Pretende com isso “apresentar-se como um ‘recomeço’ com que as pessoas podem contar, após conhecerem o seu diagnóstico, ou do seu familiar, e dar a conhecer os seus serviços, ao mesmo tempo que chama a atenção para os sinais de alerta e a importância do diagnóstico precoce, tendo sempre presente o objectivo de conseguir uma sociedade mais amiga das pessoas com demência”.

Ivo Canelas, Mariama Barbosa, Rita Brutt, Sandra Santos, Sara Norte e Vítor Norte são as caras desta campanha que será lançada a partir de hoje, “onde surgem imagens que parecem ser de despedida, mas que acabam por se transformar em recomeços, indicando que a Alzheimer Portugal está disponível para ajudar no recomeço após o diagnóstico”. Ana Bola e o DJ e produtor Branko participam também, com voz e música, respectivamente.

A ideia é dizer ao país que “quanto mais cedo forem detectados sinais, mas cedo se pode obter o diagnóstico e mais facilmente se pode contribuir para retardar os seus sintomas. Pessoas mais novas também podem desenvolver demência e podem continuar a viver bem durante vários anos, quando a demência é detectada em fases iniciais”.

A pandemia que atravessamos obrigou os mais velhos a um maior isolamento. Até que ponto se terá traduzido num acelerar das demências, nomeadamente da doença de Alzheimer?
Uma das grandes consequências desta pandemia, foi o facto de terem sido decretadas medidas de confinamento, protecção e segurança, que levaram à restrição de algumas das actividades realizadas pelas Instituições, nomeadamente o encerramento dos centros de dia. E se a reabertura dos mesmos já é possível em várias zonas do país, existem outras áreas em que isso ainda não acontece, não existindo ainda data para a sua abertura. A frequência dos centros de dia e de outros serviços de estimulação cognitiva é essencial para a manutenção da qualidade de vida das pessoas com demência. Com o confinamento a que a pandemia obrigou, as pessoas com demência veem as suas rotinas subitamente alteradas, ficando sujeitas a efeitos negativos com forte impacto a nível cognitivo, funcional, comportamental e de mobilidade.

Até nos cuidadores…
Sim, também os cuidadores ficaram sujeitos a uma maior pressão ao nível da prestação de cuidados, aumentando a sua sobrecarga emocional e física, o que pode dar origem a situações complicadas na prestação de cuidados.
É fundamental que a pessoa com demência e os seus cuidadores consigam manter rotinas em casa e que continuem a realizar actividade de estimulação. A Alzheimer Portugal disponibiliza no seu site vários cadernos de estimulação e outros documentos de apoio aos cuidadores, para que possam organizar o seu dia-a-dia de forma o mais adequada possível à manutenção das capacidades da pessoa com demência e ao bem-estar de ambos.

Quantos doentes existem em Portugal, neste momento? O apoio que existe (centros de dia, terapia ocupacional) é suficiente para esse universo ou, pelo contrário, estamos muito longe de conseguir prestar a atenção devida ao problema da doença?
Estima-se que actualmente existam mais de 200 mil pessoas com demência em Portugal (OCDE, 2017). Perante estes números poderemos referir que ainda não existe em Portugal um número suficiente de equipamentos especificamente pensados para pessoas com demência. Cientes desta realidade, a Alzheimer Portugal procura através dos seus equipamentos e serviços reunir um leque de boas práticas, que nos permitam através da formação e de outros projectos transmitir conhecimentos especializados na área das demências. Pretende-se que outras instituições possam replicar estas boas práticas que assentam num novo paradigma de prestação de cuidados humanizados, baseado na abordagem centrada na pessoa com demência e no respeito pela sua autodeterminação.

O que faz, em concreto, a Alzheimer Portugal e em que zonas do país?
Nos últimos 32 anos, com o objectivo de promover a qualidade de vida das pessoas com demência e dos seus familiares e cuidadores, a Alzheimer Portugal, única organização de âmbito nacional nesta área, tem-se especializado na prestação de serviços, sendo pioneira na criação de centros de dia, lares e serviços de apoio domiciliário especialmente concebidos para pessoas com demência. Desta forma, conta com uma estrutura residencial para pessoas com demência (Casa do Alecrim – Alapraia), quatro centros de dia (Lisboa, Alapraia, Lavra, Pombal), dois serviços de apoio domiciliário (Lisboa e Alapraia), e vários gabinetes de apoio na demência por todo o país. No entanto, a associação aposta ainda na realização de outros serviços e actividades para pessoas com demência e para os seus cuidadores, como seja a realização de consultas de especialidade, apoio psicológico, grupos de memória, avaliações neuropsicológicas, estimulação cognitiva, sessões de fisioterapia, entre outros serviços clínicos, que se realizam na sede (em Lisboa), nas suas delegações (norte, centro, região autónoma da Madeira) e Núcleos (Ribatejo e Algarve).A nível nacional, realiza também sessões do Café Memória (agora via Zoom), destinadas a pessoas com problemas de memória ou demência, aos seus familiares, amigos e cuidadores, para partilha de experiências e suporte mútuo. Acrescem ainda actividades de consciencialização da sociedade, através da campanha para uma mudança social Amigos na Demência e do projecto Memo e Kelembra nas Escolas que visa sensibilizar e consciencializar os mais jovens, do 1.º ao 12.º ano de escolaridade. Ainda nesta linha, a associação faz uma forte aposta na comunicação, estando activamente presente nas redes sociais (Facebook, Instagram e LinkedIn) e através do seu website. Através da Linha de Apoio na Demência, procura dar resposta, com carácter imediato, aos pedidos de informação de todos os que a contactem. Por fim, aposta na formação, como veículo de conhecimentos, boas práticas e literacia, sendo entidade formadora certificada pela DGERT desde 2006.

Como é que se financia?
A sustentabilidade da Alzheimer Portugal advém de acordos de cooperação e outros apoios estatais/municipais, apoio do Instituto Nacional para a Reabilitação, apoios de mecenas, quotização, mensalidades de utentes e pagamento de alguns serviços e projectos financiados por candidaturas.

A campanha que entretanto estará na rua conta com a participação de várias caras conhecidas. Considera que só uma maior mediatização da doença pode contribuir para a colocar na agenda, destapando o que por vezes parece ser preconceito?
Ainda existe muito estigma e preconceito na área das demências. No entanto, acreditamos que ao longo dos últimos anos a associação, através dos seus projectos, tem conseguido transmitir à sociedade uma nova perspectiva das demências, combatendo a visão menos positiva que as pessoas têm. A campanha Recomeços, lançada para assinalar o Mês Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer, pretende apresentar a associação como um recomeço com que as pessoas podem contar perante um diagnóstico de demência. O facto de contar com caras conhecidas, a voz da Ana Bola e a música de um artista como o Branko, está a ser muito importante para chegar a mais pessoas. Acreditamos que só falando mais sobre este tema podemos aumentar o nível de conhecimento da sociedade na área das demências, e no futuro conseguirmos diagnósticos mais atempados e uma melhor qualidade de vida tanto para as pessoas com demência, como para os cuidadores.

A psicóloga Ana Rita Cavaleiro sublinha o papel da sensibilização. Porque “ainda há muito estigma”.

Qual é o grande objectivo desta campanha?
Esta campanha está em linha com o nosso grande objectivo de tornar a sociedade mais amiga das pessoas com demência, pelo que convidamos todos a tornarem-se amigos na demência através do site www.amigosnademencia.org. Ao longo dos anos a associação tem procurado estar na linha da frente no combate ao estigma e à discriminação das pessoas com demência, procurando ainda actuar junto dos decisores políticos, estando actualmente integrada em projectos governamentais que visam melhorar a qualidade de vida das pessoas com demência e dos seus cuidadores.

De quando em vez aparecem notícias da área da investigação que prometem a cura ou o retardamento dos sintomas. Com o que é que podemos, efectivamente, contar para o tratamento, actualmente?
Muito embora a quase totalidade dos estudos que vão sendo divulgados ainda estejam em fases iniciais das respectivas investigações científicas, o que implica que os resultados apenas sejam conhecidos a longo prazo, existem já alguns tratamentos farmacológicos disponíveis, com vista ao retardamento da sintomatologia. A par destes, é fundamental o recurso a tratamentos não farmacológicos, como estimulação cognitiva, terapia das reminiscências, musico-terapia, terapia ocupacional, entre outros, que se mostram imprescindíveis no controlo da sintomatologia, manutenção das capacidades cognitivas e promoção do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas com demência, e consequentemente, também dos seus cuidadores.

O que vos dizem os últimos estudos sobre a doença: aparece cada vez mais cedo ou mais tarde?
Sabemos que Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo, estimando-se que possa vir a transformar-se no país mais envelhecido da Europa nos próximos 30 anos. O nosso país apresenta uma percentagem de população com mais de 60 anos a rondar os 29,4%, estimando-se que em 2050 esse número possa chegar aos 40,8% (United Nations, 2019). Este aumento acontece mesmo quando é previsto um ligeiro declínio da população portuguesa neste período, uma vez que se prevê uma duplicação no número de pessoas com mais de 70 anos, entre 2018 e 2050. Por outro lado, sabemos que a idade é o principal factor de risco não modificável para o desenvolvimento de demência, pelo que não é de estranhar que a maior parte das pessoas com demência apresentem uma idade mais avançada. Não obstante estes factores, a verdade é que cada vez mais surgem pessoas com demência com menos idade, o que nos vem trazer um novo paradigma. Os factores de risco associados à demência são a pouca actividade física, níveis baixos de educação, poucos contactos sociais, hipertensão, tabagismo, perda de audição, obesidade, depressão, diabetes, consumo de álcool em excesso, traumatismos cranianos e poluição atmosférica (Lancet, 2020), pelo que é possível perceber que actualmente vivemos expostos a muitos factores que se torna necessário combater com vista a tentarmos prevenir o aparecimento de demência ou promover o seu surgimento o mais tarde possível. Actualmente vivemos numa sociedade que se debate ainda com sedentarismo, stress, hábitos tabágicos, entre outros, o que urge mudar.

O diagnóstico continua a ser difícil. Porquê?
Apesar de todas as conquistas que temos alcançado, de a sociedade se encontrar com níveis de literacia na área das demências mais elevados, e de os meios complementares de diagnóstico serem mais precisos, debatemo-nos ainda com a dificuldade de as pessoas não recorrerem a um especialista atempadamente. Muitas vezes, só quando os sinais de que algo não está bem são muito evidentes e recorrentes é que as pessoas procuram um especialista, o que vem dificultar a realização de diagnósticos precoces. Existe ainda a ideia de que o prognóstico de um diagnóstico de demência é “somente negativo” e não se consideram os aspectos positivos de um diagnóstico precoce. Para além de ser fundamental que a pessoa perceba o que se passa consigo o mais precocemente possível para se poder informar sobre os tratamentos disponíveis, como se pode proteger legalmente e quais são os seus direitos, é imprescindível que possa perspectivar “o que é que pode fazer por si por forma a estar segura e a retardar o desenvolvimento da patologia”. A Alzheimer Portugal disponibiliza a Linha de Apoio na Demência (213 610 465), que visa responder a dúvidas, prestar informações, esclarecimentos e apoio emocional e psicológico a todos os que a ela recorram. Uma sociedade esclarecida é uma sociedade mais preparada para lidar com as demências.

Diário de Notícias
21 SET 2020