“Temos de olhar com optimismo para o futuro. Estamos cada vez mais imunes ao vírus”

– É bom recordar ao senhor microbiologista, as estatísticas desta pandemia em Portugal, ou seja, “ao fim de dois anos de pandemia, Portugal soma 1.906.891 de infectados e 19.334 óbitos.” Aligeirar a pandemia, é passar um atestado de estupidez a quem não possui canudos académicos, mesmo de especialistas na área microbiológica. E não é incutir medo nas pessoas, como muitos afirmam, mas AVISAR as pessoas, especialmente os acéfalos indigentes que continuam a desenvolver as suas vidinhas “sociais” como se nada se passasse, que esta PANDEMIA AINDA CONTINUA A SER MORTAL e as infecções ainda se desconhecem, a longo prazo, quais as suas consequências no organismo humano. E eu continuo a olhar para o vírus, embora este seja invisível, como um INIMIGO nesta guerra biológica!

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/IMUNIDADE

É microbiologista e coordenador do estudo sobre a diversidade genética do SARS-CoV-2 no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. João Paulo Gomes é dos peritos que desde o início da pandemia marca presença nas reuniões do Infarmed com os políticos para explicar a circulação do vírus no nosso país. Quase dois anos depois, diz nesta entrevista ao DN que temos razões para estar optimistas e que o grande desafio para o futuro será ter a coragem de olhar para a doença e mudar as regras. Ao fim de dois anos de pandemia, Portugal soma 1.906.891 de infectados e 19.334 óbitos.

Nesta entrevista ao DN, o microbiologista do INSA deixa uma dupla mensagem aos portugueses. A primeira é de optimismo, a segunda para continuarem a aderir à vacinação periódica se estar for considerada imperativa para o controlo da doença.
© Orlando Almeida Global Imagens

A nova variante do SARS-CoV-2, a Ómicron, tornou-se dominante no mundo em apenas dois meses. Até agora, tem-se revelado mais transmissível mas menos grave do que a Delta. Como investigador receia que ainda nos possa surpreender em relação ao seu impacto?
Penso que não nos trará grandes surpresas. Está a seguir o caminho que a comunidade científica espera. Ou seja, um vírus começa com variantes severas, mas, depois, e de acordo com a adaptação obrigatória a uma população, vai ficando cada vez mais imune às suas infecções e a sua severidade tende a reduzir. É o que estamos a observar com a Ómicron, mais transmissível do que as variantes anteriores e menos severa, pelo menos na associação ao processo de hospitalização. Contudo, não podemos descartar, no futuro próximo, o aparecimento de outras variantes com características que também nos preocupem, mas, historicamente, sabemos que a tendência dos vírus não é para que se tornem mais agressivos, mas sim menos, ao longo do tempo.

Em termos de futuro o que se pode esperar da pandemia? Já se disse que o pior cenário seria uma variante com a contagiosidade da Ómicron e a severidade da Delta. É o mais previsível?
Esperemos que não. A comunidade científica diz que o que está a acontecer com a nova variante é “o expectável” – menor severidade do vírus, independentemente da sua transmissibilidade, porque a população também está mais preparada para lidar com ele -, mas o futuro é perfeitamente imprevisível.

Quer explicar?
Porque temos países com taxas de vacinação muito díspares. E, nessa perspectiva, tudo pode acontecer. Nos países com taxas de vacinação baixas, o vírus circula mais facilmente e tem mais liberdade para gerar variantes sem qualquer filtro, e é sempre uma incógnita o que pode acontecer quando essas variantes passam a circular em países com elevada taxa de vacinação. O que temos vindo a observar, e independentemente das variantes, é que as vacinas têm resultado. De forma melhor para umas, menos bem para outras, mas têm resultado. Há sempre um grau de imunidade que é conferido contra as variantes em circulação. Portanto, acho que temos de olhar para o futuro com optimismo. Estamos cada vez mais imunes ao vírus, seja pelo processo natural da infecção seja pela vacinação, e diria, apesar de ser impossível fazer uma previsão, que a comunidade científica é unânime neste optimismo.

Falou nas vacinas, mas tem-se dito que as que temos agora não têm tanta eficácia para a Ómicron. Perante isto continuam a ser a maior arma que temos?
Claro. Disso não há dúvida nenhuma. O problema desta última variante prende-se com o facto de o número de mutações que tem ser quase o triplo das de outras variantes, em particular quando comparada com a Delta. Muitas dessas mutações estão alojadas em regiões específicas da tal proteína específica (spike), e às quais sabemos que se ligam os anticorpos. Ora, a partir do momento que as mutações surgem nessas regiões os anticorpos deixam de se ligar e isso justifica que a Ómicron consiga fugir melhor ao nosso sistema imunitário do que todas as outras variantes. No entanto, independentemente de as vacinas terem uma menor eficácia para a Ómicron, não quer dizer que não confiram imunidade. O que já se verificou é que têm uma baixa eficácia contra o processo de infecção. Ou seja, infecta muito facilmente, mesmo uma pessoa com o esquema vacinal completo, até com o reforço. Mas quando é feita uma análise aos seus resultados em termos de hospitalização, esses são excelentes.

“Se as pessoas apanharem a terceira dose voltarão a ter níveis de anticorpos elevados e estarão muito mais protegidas contra a doença severa e contra a hospitalização”.

E isso quer dizer…?
Que as pessoas que já tomaram a terceira dose estão muito protegidas contra esta variante. As vacinas não mudaram, portanto o único e exclusivo problema com esta variante é a queda da imunidade ao longo do tempo. Se as pessoas apanharem a terceira dose voltarão a ter níveis de anticorpos elevados e estarão muito mais protegidas contra a doença severa e contra a hospitalização. Portanto, as vacinas continuam a ser muito eficazes.

Um estudo feito na África da Sul e divulgado na sexta-feira revela que a Ómicron tem menos 25% de risco de hospitalização do que a Delta. Mas em termos de infecção, afecta mais alguns grupos de acordo com a idade ou com comorbilidades?
Pensa-se que seja uma variante muito idêntica às outras. Por exemplo, na Dinamarca e em Portugal verificou-se que a faixa etária onde a Ómicron teve uma grande incidência, nas primeiras seis semanas, foi na dos 20 aos 29 anos. Esta sobreposição total entre os dados de Portugal e da Dinamarca foi muito curiosa, mas ao longo do tempo, já vamos com mais de dois meses de Ómicron, essa tendência diluiu-se, espalhando-se por todos os outros grupos etários.

Que conclusões se podem tirar desse facto?
Não podemos tirar grandes conclusões, porque não sabemos se tal teve que ver com maior circulação por parte dos jovens ou com menor cuidado nas regras. O que for dito é pura especulação. Portanto, não se pode dizer que a Ómicron tenha, preferencialmente, tendência para infectar os grupos mais jovens. Sobre o estudo que referiu, devo dizer que há outros mais optimistas, que mostram que o risco de hospitalização da Ómicron, quando comparado com o da Delta, é da ordem dos 30%. Em Portugal, os primeiros dados que temos também apontam para uma redução muito significativa do risco.

Também se disse que a Ómicron poderia ser particularmente grave para alguns grupos da população, como grávidas e pessoas com outras doenças. Sendo assim seria semelhante à Delta. Está correcto?
Não. Penso que tem que ver com uma questão de rigor dos estudos. Não esqueçamos que com a Ómicron temos incidências muito superiores às que tivemos com a Delta e, nessa perspectiva, temos de fazer comparações adequadas, não numéricas, mas percentuais e absolutamente calibradas com o estado vacinal das populações, grupos etários, comorbilidades, etc. É muito fácil cair na tentação de dizer que começam a aparecer casos com a Ómicron que não apareciam com a Delta, mas quantas infecções temos com uma e quantas tivemos com outra? Com a Ómicron temos cinco, seis, sete vezes mais do que com a Delta. Então, a probabilidade de aparecerem esses casos também é maior.

A dominância da Ómicron significa que o percurso Delta termina aqui?
Foi isso que aconteceu com as variantes anteriores. Por exemplo, no Natal de 2020 e em Janeiro de 2021, tínhamos uma Alpha perfeitamente dominante, com mais de 90% dos casos nos países onde se instalou. Mas de repente perdeu força e foi substituída pela Delta, que chegou a atingir em certos países 100% dos casos. Temos de perceber que o mundo hoje é global, que as fronteiras estão abertas e que, em pouco tempo, podemos observar grandes oscilações na prevalência das variantes que entram e saem dos vários países. A Delta é suficientemente transmissível para, eventualmente, se manter a níveis que não sejam residuais.

“A BA.2, que era uma linhagem da Ómicron da qual ninguém falava, parece que está a ser mais transmissível do que a BA.1 na Dinamarca”.

Tem-se falado só de Ómicron, mas esta variante tem mais do que uma linhagem, não é?
A OMS definiu três linhagens da Ómicron, BA.1, BA.2 e BA.3, sendo que tudo o que estamos a viver actualmente diz respeito à BA.1. Surgiram todas mais ou menos ao mesmo tempo, mas sempre se falou só da BA.1. Agora, estamos a ter um dado curioso. Nestas duas últimas semanas, na Dinamarca, a BA.2 começou a substituir a BA.1. Ou seja, a BA.2, que era uma linhagem da Ómicron da qual ninguém falava, parece que está a ser mais transmissível do que a BA.1 na Dinamarca. Vamos ver se isto acontece nos outros países, nomeadamente em Portugal.

E se acontecer?
Quer dizer que a segunda linhagem da Ómicron é mais transmissível do que a primeira. Não há outra hipótese, mas tal não quer dizer que seja motivo de preocupação, porque continuamos a falar da Ómicron, que é uma variante menos severa. Isto quer dizer que a variante continua a evoluir. A Delta teve mais de cem linhagens. Em Portugal, até há umas semanas, houve uma linhagem da Delta prevalecente só no Algarve, pela associação do turismo com o Reino Unido. Portanto, não é fácil dizer se a Delta vai desaparecer. Há sempre imprevisibilidade.

Na semana passada, Chipre anunciou ter detectado uma nova variante, que denominou “Deltacron”, por ter características fortes da Delta e da Ómicron. Confirma-se?
A acontecer seriam péssimas notícias. Estaríamos a misturar a variante mais severa que tivemos até agora com a mais transmissível. Mas o que a comunidade científica tem assumido publicamente é que há uma enorme probabilidade de tal configurar um erro de análise de resultados, o que é relativamente frequente quando se faz a descodificação das sequências genéticas. Em princípio, foi falso alarme.

Já há dados sobre o impacto que a Ómicron pode ter em termos de sequelas, de longo-covid?
Ainda não se sabe. A variante surgiu no final de Novembro. Contudo, e ainda sem fundamento científico, usando apenas o bom senso, e uma vez que é menos severa no tipo de sintomatologia e no risco de hospitalização, diria que é razoável pensar-se que seja mais suave no longo-covid. Mas temos de pensar nos casos graves, que existem sempre em qualquer variante, e estes poderão ter problemas de longo-covid.

“Não é possível o nosso mundo continuar como está. Isto não é vida em termos sociais, familiares, escolares e económicos. Não é possível continuar desta forma”.

A menor severidade da Ómicron fez especialistas internacionais e nacionais defenderem que se deve repensar o combate à doença, passando a tratá-la como endémica, como uma gripe. Partilha dessa visão ou temos caminho a percorrer?
Partilho a 100% dessa visão, mas não no momento actual. Ou seja, não nesta semana nem eventualmente na próxima. Não tenho grande dúvida de que não há outro caminho a tomar, porque não é possível o nosso mundo continuar como está. Isto não é vida em termos sociais, familiares, escolares e económicos. Não é possível continuar desta forma.

O que há a fazer?
A situação vai melhorar e temos de começar a modificar o modus operandi. Só que ainda estamos numa fase muito crítica. Os números que estamos a observar em termos de hospitalizações e de mortes ainda são resultado dos contágios no Natal e na passagem de ano. Ou seja, uma pessoa infectada tem sintomas ao fim de dois, três ou quatro dias, mas a hospitalização só ocorre uma semana depois disso e a ida para os cuidados intensivos duas a três semanas depois – daí que os especialistas considerem que o pico das infecções esteja a ocorrer agora. Mas dentro de algumas semanas vamos começar a observar um decréscimo no número de casos, das hospitalizações em enfermarias e nos cuidados intensivos e de mortes. A partir desta altura valerá a pena quem de direito debater sobre a forma como se olha para a doença e fazer mudanças.

É esse o desafio?
Se observarmos, de facto, um decréscimo no número de casos, na pressão do SNS e consequentemente na mortalidade, o desafio será ter coragem para mudar a forma como olhamos para a doença e as regras. Pensar-se em encarar a covid-19 como uma doença mais normal do que o que tem sido até agora. Para o bem de todos.

Que mudanças?
Por exemplo, o processo de testagem deve estar focado só nos sintomáticos, passando a depender muito de cada um de nós. Se me sinto mal testo-me. Se der positivo comunico e faço o meu isolamento. Se me sinto bem, porquê testar-me? É esta a mudança que, mais tarde ou mais cedo, vai ter de acontecer. Eu diria que, passando esta fase, o desafio será mudar a forma como se olha para a doença.

“O importante será proteger as pessoas mais vulneráveis. A curto prazo são inevitáveis os reforços vacinais para estes grupos”.

Acredita que a covid-19 se tornará uma doença endémica com picos no inverno e reforços vacinais?
É bastante provável que sim. Foi o que aconteceu com outras doenças respiratórias que, tendencialmente, pioram no inverno. Não se espera o desaparecimento da doença, mas que esta tenha maior incidência no frio, porque as pessoas estão mais debilitadas e vivem mais em espaços interiores. Quanto a processos de vacinação, apesar de ser uma incógnita, imagino que num futuro próximo, em poucos anos pelo menos, as pessoas com comorbilidades ou de faixas etárias mais elevadas terão de manter um reforço vacinal periódico. Quanto ao resto da população poderá não ser necessário, porque já há uma imunidade natural considerável, quer pela infecção quer pelas vacinas. O importante será proteger as pessoas mais vulneráveis. A curto prazo são inevitáveis os reforços vacinais para estes grupos.

Não será necessária uma quarta dose para toda a população?
Tudo depende da forma como as coisas evoluírem nos próximos meses. As coisas estão a correr bem. Houve uma grande adesão às vacinas, mas se chegarmos à fase em que as incidências são muito baixas, mesmo que haja a sugestão para a vacinação, a população pode não se sentir tão motivada a aderir. Agora, para os grupos mais sensíveis, esta quarta dose tem de estar garantida.

O aparecimento de medicamentos específicos para a covid vai mudar a atitude em relação à vacinação?
Acho que não. Os fármacos que estão a aparecer estão muito focados no tratamento da doença em hospitalização. E não penso que o futuro vá no sentido de termos medicação que tomemos de livre vontade, como tomamos anti-gripais. Posso estar enganado, mas penso que a vacinação continuará a ter um papel inequívoco na profilaxia.

Diz que as coisas estão a correr bem, qual é a mensagem que deixa aos portugueses nesta altura?
​​​​​​​Deixo uma dupla mensagem. A primeira é de optimismo. Acredito que a maior parte das pessoas ficou agradavelmente surpreendida, depois do choque da transmissibilidade da Ómicron, com o facto de esta ser menos severa. A segunda mensagem vai para a vacinação periódica. Se se confirmar que esta é imperativa no controlo da pandemia, ou endemia, que os portugueses mantenham a adesão que sempre demonstraram. Não tenho dúvidas de que se não houvesse vacina não estaríamos como estamos agora.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
18 Janeiro 2022 — 00:20

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