1028: Vacina portuguesa à espera de apoio estatal para avançar com ensaios clínicos

– “Cabrita: “Em Portugal temos capacidade financeira para acolher centenas de refugiados“. Então e para financiar a vacina portuguesa, não existe capacidade financeira?

SAÚDE PÚBLICA/VACINA PORTUGUESA

A Immunethep espera financiamento por parte do Governo para poder avançar com os ensaios clínicos.

© SAID KHATIB / AFP

A biotecnológica portuguesa Immunethep estava pronta para avançar com os ensaios clínicos da sua vacina contra a covid-19 em Setembro, mas a espera pelo financiamento por parte do Estado tem impossibilitado seguir com o processo.

“Neste momento, tudo aquilo que podíamos fazer de ensaios não clínicos está feito. Já provámos a eficácia da vacina no modelo animal, já provámos a ausência de toxicidade. O próximo passo seria avançar para ensaios clínicos. O que aconteceu com quase todas as vacinas é que houve um forte apoio do Governo. Apesar dos contactos que houve, do interesse e de algumas reuniões, ainda estamos à espera”, disse à agência Lusa o director executivo da Immunethep, Bruno Santos.

Segundo o responsável da biotecnológica sediada em Cantanhede, no distrito de Coimbra, caso já houvesse garantias de financiamento por parte do Governo, a empresa já poderia estar “a pedir autorização dos ensaios clínicos ao Infarmed para começarem” este mês.

“Não tendo o financiamento, poderemos perder alguns meses”, disse, realçando que são necessários cerca de 20 milhões de euros para a fase de ensaios clínicos.

Para Bruno Santos, a forma mais fácil e rápida de financiar o processo passaria “pela compra antecipada de vacinas, tal como foi feito nos Estados Unidos e na Alemanha”.

Já a possibilidade colocada pelo Governo passou pela candidatura a fundos europeus, tendo a empresa fundada em 2014 concorrido a uma linha de financiamento.

“Caso conseguíssemos 80% de financiamento, temos uma série de investidores que se mostraram interessados e conseguiríamos cobrir os outros 20%, mas o valor a ser apoiado pode não ser esse”, notou.

No entanto, o prazo de decisão para a candidatura submetida apenas termina a 31 de Dezembro, explicou.

“Com todas as incertezas que temos, que são reais, não consigo estabelecer um prazo. Estou dependente de todas as variáveis, mas perderemos aqui alguns meses num período que seria crítico”, salientou.

Para Bruno Santos, depois de todo o desenvolvimento feito pela empresa, que apresentou uma solução que “ainda é válida e que ainda pode ser útil”, é “um bocadinho frustrante” estar dependente apenas da questão do financiamento.

Mesmo numa altura em que muitos dos países ocidentais têm já grande parte da população vacinada, o co-fundador da Immunethep salienta que a vacina continua a ser viável.

“Tem características que a tornam interessante para países em desenvolvimento, pela facilidade de administração, que não precisa de ser por um profissional de saúde, não precisa de uma cadeia de frio e como trabalha o vírus como um todo tem uma cobertura maior das variantes, tornando-a mesmo assim útil para Portugal e para os países desenvolvidos, já que as novas variantes fazem baixar a eficácia de vacinas como a Pfizer ou a Moderna”, realçou.

A covid-19 provocou pelo menos 4.507.823 mortes em todo o mundo, entre mais de 216,98 milhões de infecções pelo novo coronavírus registadas desde o início da pandemia, segundo o mais recente balanço da agência France-Presse.

Em Portugal, desde Março de 2020, morreram 17.743 pessoas e foram contabilizados 1.037.927 casos de infecção confirmados, segundo dados da Direcção-Geral da Saúde.

A doença respiratória é provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, detectado no final de 2019 em Wuhan, cidade do centro da China, e actualmente com variantes identificadas em países como o Reino Unido, Índia, África do Sul, Brasil ou Peru.

Diário de Notícias
Lusa
01 Setembro 2021 — 12:59

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INSA revela que vacinas de mRNA conferem “protecção substancial” aos idosos

– “Em Portugal, desde Março de 2020, morreram 17.743 pessoas e foram contabilizados 1.037.927 casos de infecção confirmados, segundo dados da Direcção-Geral da Saúde.” O que é isso para os “possidónios” e “possidónias” acéfalos indigentes intelectuais e morais?

SAÚDE PÚBLICA/VACINAS/IDOSOS

Vacinas que utilizam a tecnologia mRNA apresentam eficácia entre 81% e 96% contra a morte por covid-19 nos idosos.

As vacinas que utilizam a tecnologia mRNA, caso da Pfizer e da Moderna, apresentam uma eficácia que varia entre os 81% e os 96% contra a morte por covid-19 nos idosos, estima um estudo nacional divulgado esta quarta-feira.

A investigação desenvolvida pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) apurou que, nas pessoas entre os 65 e os 79 anos, a efectividade da vacina contra internamentos foi de 94%, percentagem que baixa para os 82% nos idosos a partir dos 80 anos.

Já em relação aos óbitos associados à covid-19, os investigadores estimaram uma efectividade das vacinas que usam a plataforma RNA mensageiro de 96% para a faixa etária dos 65 aos 79 anos e de 81% para os maiores de 80 anos, adiantou o INSA em comunicado, que contou com a colaboração dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) e da Direcção-Geral da Saúde (DGS) na realização do estudo.

Estes dados, segundo o instituto, revelam que as “vacinas conferem uma protecção substancial contra internamentos e óbitos relacionados com o vírus SARS-CoV-2 após o esquema vacinal completo”.

O estudo permitiu ainda testar a redução da eficácia da vacina até três meses depois da toma da segunda dose no grupo de pessoas com 80 ou mais anos, não tendo os resultados “mostrado evidência de redução da efectividade destas vacinas contra internamentos e óbitos associados à covid-19 durante este período de tempo”, avançou o INSA.

Realizado entre Fevereiro e Agosto, o estudo abrangeu cerca de 1,9 milhões de pessoas com 65 ou mais anos, através do cruzamento e análise dos dados registados em oito sistemas de informação do Serviço Nacional de Saúde.

Das quatro vacinas que estão a ser administradas em Portugal, as da Pfizer e da Moderna, de duas doses, utilizam esta nova tecnologia assente numa molécula denominada RNA mensageiro.

Um outro estudo do INSA, divulgado a 24 de Agosto, sugeriu que estas vacinas são menos eficazes a prevenir a infecção pela variante Delta do coronavírus SARS-CoV-2.

Este trabalho conclui que há “probabilidade significativamente superior de infecção pela variante Delta em pessoas vacinadas”, sensivelmente “o dobro do risco de infecção pela variante Alpha”.

Em Portugal, desde Março de 2020, morreram 17.743 pessoas e foram contabilizados 1.037.927 casos de infecção confirmados, segundo dados da Direcção-Geral da Saúde.

A doença respiratória é provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, detectado no final de 2019 em Wuhan, cidade do centro da China, e actualmente com variantes identificadas em países como o Reino Unido, Índia, África do Sul, Brasil ou Peru.

Diário de Notícias
Lusa
01 Setembro 2021 — 14:56

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1026: Reprogramar as células. Uma estratégia no combate a doenças do envelhecimento

SAÚDE PÚBLICA/ENVELHECIMENTO

A reprogramação das células já existentes no nosso organismo, de forma a torná-las mais eficientes em processos de regeneração, é o foco do trabalho de Lino Ferreira no Centro de Neuro-ciências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra. “No fundo, o que fazemos é enviar-lhes mensagens, de forma a que sejam mais proactivas e eficientes.” E para que a mensagem chegue bem ao destino, o “método de entrega” também é crucial.

Investigador Lino Ferreira
© Fernando Fontes / Global Imagens

O envelhecimento é o maior factor de risco para boa parte das doenças que conhecemos. À medida que vamos ficando mais velhos, a nossa capacidade de regeneração vai-se perdendo e o organismo fica menos capaz para responder a “agressões”. Muito por culpa das células, que à medida que envelhecem vão também elas perdendo propriedades e deixando de cumprir de forma eficaz a função que lhes foi atribuída. Mas, e se pudermos “reprogramar” as células, da mesma forma que corrigimos o código de um software de computador, por exemplo?

Esse trabalho de reprogramação das células é o que move Lino Ferreira nos laboratórios do Centro de Neuro-ciências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra, onde dirige o Grupo de Terapias Avançadas, que tem por objectivo desenvolver novas terapias para doenças associadas à idade, como doenças cardiovasculares e do sistema nervoso central, from the bench to the bedside – ou seja, que possam ser facilmente transpostas para a prática clínica (da bancada de laboratório para a cama do paciente). Com uma particularidade: Lino e a sua equipa apostam em aproveitar os materiais endógenos do corpo para esse trabalho de regeneração e combate ao envelhecimento. Ou seja, potenciar os recursos do próprio organismo.

“A nossa capacidade de regeneração vai-se perdendo com a idade, porque temos processos de envelhecimento nas células estaminais”, refere o investigador. As células estaminais são células com uma enorme versatilidade, que têm a capacidade de se auto-renovar indefinidamente e de se diferenciarem em vários outros tipos de células com funções específicas no organismo. Conseguem reparar tecidos danificados e substituir as células que vão morrendo, sendo fundamentais no tratamento de diversas doenças.

“O que fazemos é enviar mensagens a nichos de células no nosso corpo, de forma que elas sejam mais proactivas, mais rápidas a iniciar o processo de regeneração.”

A importância dessas células estaminais no universo da medicina regenerativa “levou a comunidade científica e médica, nas últimas décadas, a investir na ideia de transplantar esse tipo de células para colmatar lesões”, recorda o cientista. “Fizeram-se, e ainda se fazem, muitos ensaios clínicos baseados nessa ideia: se há esse défice, porque não transplantar células estaminais de forma que possamos ter essas células diferenciadas que vão ajudar na regeneração de um órgão ou tecido?”

Esse foi o paradigma que reinou durante muitos anos. No laboratório que dirige no CNC da Universidade de Coimbra, em Cantanhede, Lino Ferreira tem explorado um outro caminho para alguns casos de medicina regenerativa. “A nossa ideia é que, se calhar, essa não é a melhor forma. E porquê? Porque muitas destas células transplantadas morrem passados alguns dias, elas não conseguem enxertar-se, ligar-se às outras que já existem”, nota, explicando que a razão para esse insucesso dos transplantes tem muitas vezes a ver com as condições dos tecidos existentes, “que já têm isquemia, processos inflamatórios” que dificultam a compatibilidade.

Por isso em alguns casos, em vez de fazer essa transplantação, o que a equipa liderada por este investigador tenta fazer é modular células progenitoras existentes no nosso corpo. Ou seja, “reprogramar” as células já existentes, de forma a torná-las mais eficientes. “No fundo, o que fazemos é enviar-lhes mensagens, a nichos de células no nosso corpo, de forma que sejam mais proactivas, mais rápidas a iniciar o processo de regeneração em determinado local ou função.”

Investigador Lino Ferreira
© Fernando Fontes / Global Imagens

Sistemas avançados de entrega de terapias

Ora, para conseguir fazê-lo há duas tarefas fundamentais que dominam a actividade do laboratório de Lino Ferreira no CNC: por um lado, há que escolher bem a mensagem que se quer fazer chegar às células, quais as formulações ideais (uma mistura de “ingredientes” que pode englobar células estaminais e seus derivados, proteínas ou moléculas envoltas em alguns bio-materiais) para activar ou inibir uma função; por outro lado, há que determinar o modo de entrega mais eficaz dessa mensagem na célula. Além do desenvolvimento de terapias celulares e moleculares, o cientista dedica também uma boa parte da sua investigação, portanto, a criar sistemas avançados de entrega dessas terapias dentro do nosso organismo.

A afirmação da reprogramação molecular como ferramenta ao dispor de uma medicina personalizada requer o aperfeiçoamento destes novos sistemas de entrega de factores de reprogramação nas células, com o objectivo de modular a actividade e/ou identidade celular. E esses sistemas devem ser accionados de forma precisa no tempo e no espaço, por meios não invasivos.

“A aplicação, neste caso, foi em células da pele de diabéticos, mas a tecnologia tem um potencial muito grande, que pode ser relevante noutros contextos, como coração ou cérebro.”

Foi, aliás, um desses projectos inovadores de entrega e activação de factores de reprogramação que, em 2012, valeu a Lino Ferreira uma prestigiada bolsa ERC Starting Grant, atribuída pelo Conselho Europeu de Investigação, a premiar então um projecto denominado Nano Trigger, que consistia na activação de nano-materiais para modular a actividade celular. Agora, viu recentemente validada uma formulação inovadora para a entrega de moléculas, que se revelou eficaz no tratamento de lesões agudas da pele, mas cujo potencial se revela muito mais abrangente.

“A aplicação, neste caso, foi em células da pele de diabéticos, num contexto de feridas agudas, mas o importante é que a tecnologia desenvolvida tem um potencial muito grande não só no contexto da pele, e pode ser relevante também no contexto do coração, no contexto do cérebro. Há um conjunto muito diverso de aplicações em que pode ser utilizada”, descreve o investigador. Sobretudo ao nível das chamadas “doenças isquémicas”, que resultam de falta de vascularização. “E o facto de haver falta de vascularização faz com que os tecidos sejam pobremente oxigenados e fiquem com défice de actividade, de função. Esse foi sempre o foco do grupo, as doenças isquémicas. Mas há um conjunto variado de doenças onde pode ser aplicado este procedimento”, explica.

Activação por luz confere precisão

Estas formulações têm duas componentes importantes: uma é serem baseadas em ARN não codificantes, pequenas moléculas que regulam o ARN mensageiro (cujo trabalho é transmitir a mensagem genética contida no ADN e transformá-la em todas as proteínas que nos permitem respirar, pensar, mexer, viver); a segunda componente importante é o facto de estas soluções serem remotamente activadas por acção da luz.

E porque é que isso é interessante? “Porque permite entregar de uma forma bem mais eficiente essas moléculas dentro das células.” Nos últimos anos, têm surgido diversas estratégias de entrega de fármacos utilizando sequências de ARN não-codificantes para tratar doenças da pele. No entanto, o carácter sensível destas moléculas e a dificuldade de entrada nas células da pele têm dificultado os resultados. Seja porque a nossa pele tem enzimas que degradam o material genético externo ou porque as moléculas têm dificuldade em quebrar a barreira de entrada nas células da pele.

“O facto de estas formulações serem activadas remotamente por acção da luz permite entregar de forma bem mais eficiente as moléculas dentro das células que pretendemos.”

Por isso a equipa coordenada por este investigador pretendia “desenvolver formulações que consigamos controlar de modo a diminuir possíveis efeitos colaterais e que, simultaneamente, aumentem a eficácia intracelular do ARN libertado. É a grande vantagem deste sistema, não só libertamos o seu conteúdo, mas também controlamos esta libertação, sem danificar outras células à volta”.

“Não podemos libertar as moléculas fora das células. E com a acção da luz podemos controlar de uma forma bem mais precisa o tempo certo dessa libertação no interior das células. Isso é relevante porque, se não o fizermos dessa forma, elas, sendo internalizadas pelas células, eventualmente serão degradadas pelos mecanismos existentes nelas”, explica Lino Ferreira.

Além da precisão temporal na libertação destes fármacos, acrescenta o cientista, é fundamental a componente espacial. “Ou seja, nós queremos entregar estas moléculas a determinado tipo de células, neste caso da pele. E não a todas. Só algumas. Só as que estão danificadas ou as que são mais preponderantes no mecanismo biológico de regeneração da pele. Não nos interessa estar a modular as outras células, até porque pode trazer alguns efeitos colaterais que poderão não ser desejáveis.” Portanto, é necessário que esta solução seja de rápida absorção e eficácia, sem provocar respostas indesejadas. Esta formulação sensível à luz permite isso: “controlo sobre localidade e tempo da entrega do seu princípio activo”.

Para chegar até esta solução, a equipa de Lino Ferreira começou por procurar formulações baseadas em nano-partículas biodegradáveis, orgânicas e que não causassem nenhuma ou causassem pouca toxicidade, e desenvolveram uma biblioteca de nano-partículas com essas características que fossem activáveis pela luz – ou seja, quando estimuladas por luz azul, libertam o material que transportam dentro das células antes de serem expulsas pelas mesmas. Depois, utilizando recursos avançados, como microscopia automatizada ou algoritmos de machine-learning, seleccionaram as melhores formulações. De um conjunto de 160 formulações com acção controlável pela luz identificaram seis que se mostraram “bastante mais rápidas e eficientes”.

Moléculas de ARN estimulam regeneração

Com a “mensagem” entregue de forma eficiente no local e no tempo, a acção fica então a cargo do material incluído nas formulações. Neste caso, trata-se de moléculas ARN não codificante de princípio activo inovador, que em modelos animais com lesões agudas na pele promoviam uma cicatrização mais rápida e eficaz, comparando com os animais sem controlo (não sujeitos à terapêutica).

“Estamos a falar de um microARN e de um short interference ARN, dois tipos de moléculas que têm essa capacidade de interferir com o processamento do ARN mensageiro, que é o que leva à codificação das proteínas nas células”, especifica Lino Ferreira. “No caso do microARN, é libertado nas células endoteliais e faz com que elas proliferem e formem vasos sanguíneos. No outro caso é um processo bem mais complexo, que envolve vários parceiros. Já não é importante apenas pela parte vascular, mas também pela actividade dos queratinócitos, que são células diferenciadas do tecido epitelial (pele) que formam a parte mais externa da pele e controlam processos de reepitelização, levando à cicatrização mais rápida da pele”, explica.

Estas formulações terapêuticas regenerativas têm, portanto, uma aplicação muito localizada. “Sabemos que algumas destas formulações são mais internalizadas por determinado tipo de células. Temos algumas formulações que podem ser mais internalizadas pelas células endoteliais, que formam os vasos sanguíneos, outras são mais internalizadas pelos fibroblastos, que são células muito activas para formar a cicatriz, são elas que secretam matriz celular para preenchimento da zona de lesão”, exemplifica. “Isso traz um benefício grande no sentido de actuar nas células que são realmente importantes para este processo de regeneração.”

A inovação do projecto, sublinha o investigador, “não é tanto sob o prisma das biomoléculas que estamos a entregar, mas sim pela formulação, pelo vector que leva essas moléculas”. E aponta o exemplo das actuais vacinas de ARN mensageiro contra a covid-19 para ilustrar a importância destas formulações, que funcionam como “veículo de entrega” dos princípios activos que se quer fazer chegar às células. “Hoje em dia, com a pandemia, é realçada a importância do ARN mensageiro para levar à produção de um determinado tipo de proteína, neste caso de uma parte do vírus, que faz com que se inicie o processo de imunidade, mas também, e isso é muito relevante, a importância destas formulações que transportam o ARN mensageiro. Sem estas formulações não era possível entregar o ARN mensageiro”, refere.

Investigador Lino Ferreira
© Fernando Fontes / Global Imagens

Potencial para aplicação a várias doenças

A eficácia demonstrada por este tipo de soluções poderá, assim, vir a ser bastante útil para o tratamento de lesões graves da pele, associadas a outro tipo de doenças, como a diabetes tipo II, psoríase ou outras doenças do foro inflamatório. Mas a potencialidade é muito mais abrangente. “A pele, digamos, foi uma prova de conceito”, diz. Provada a funcionalidade, o modelo destas formulações pode ser replicado noutros contextos, com as devidas adaptações.

O facto de essas formulações serem entregues através de activação de luz azul, por laser, leva a que a penetração seja mais limitada à superfície. Mas a equipa de Lino Ferreira está já a “trabalhar também com algumas formulações que são activadas por infravermelhos, em que as limitações serão menores do que na luz azul”, e, antecipa, “há um conjunto de outras formulações que ainda não estão publicadas e que permitem outro tipo de penetração muito mais profunda no corpo e abordar a regeneração de outro tipo de células e outro tipo de órgãos”.

De resto, numa outra linha de investigação, o grupo também está a usar estas formulações para libertação de ARN mensageiro. “É ARN mensageiro que nós produzimos em laboratório, fora da célula, e que vai ser entregue dentro da célula, onde vai produzir uma proteína de interesse. E aí estamos a trabalhar, por exemplo, no contexto de doenças relacionadas com fibroses. Não só no contexto da pele, mas também pode ser utilizado no contexto cardíaco, por exemplo.”

A equipa de Lino Ferreira está já a “trabalhar também com algumas formulações que são activadas por infravermelhos, em que as limitações serão menores do que na luz azul

Em Coimbra, onde foi crescendo nos últimos anos uma espécie de hub de investigação dedicado à área do envelhecimento – e que há de ter como ex-libris o Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento (MIA), o primeiro centro de investigação de excelência no Sul da Europa para a área do envelhecimento activo e saudável (com inauguração prevista para 2023) -, Lino Ferreira está entre os principais protagonistas desse ecossistema, liderando também uma Era Chair sobre envelhecimento, um fundo atribuído pelo programa europeu Horizonte 2020 para fomentar o desenvolvimento da investigação em determinadas áreas.

A procura por novas terapêuticas aplicáveis na medicina regenerativa é uma das maiores apostas entre as estratégias de combate ao envelhecimento. “São duas áreas que se cruzam naturalmente”, aponta o investigador. O desenvolvimento de biotecnologia para gerir os recursos endógenos do corpo humano face a ameaças como as apresentadas pelas doenças ligadas ao avançar da idade continuará a ser o foco do seu trabalho, sempre com uma filosofia em “potenciar o que já existe no nosso organismo para chegar à regeneração”.

E todos os avanços e recuos nesse caminho ficarão registados no seu caderno de laboratório, o objecto de eleição deste investigador, natural de Santo Tirso e com um percurso académico que passou por Nova Iorque e Boston (MIT), antes do regresso a Coimbra (onde fez a licenciatura em Bioquímica) como investigador principal. “O caderno de laboratório é um objecto fascinante para mim, porque tem a ideia de construção. Quando fazemos ciência, nós partimos de hipóteses, algumas delas, ou muitas delas, colapsam e vão sendo substituídas por outras hipóteses. E quando publicamos, muitas daquelas ideias que colapsaram deixaram de existir. E as pessoas o que veem são essas hipóteses finais. Há todo um processo de construção que a maior parte das pessoas desconhece a complexidade que envolveu chegar a um determinado destino. Esse é um processo fascinante.” Um processo que fica detalhadamente registado nesse caderno, uma espécie de “livro de viajem”. Ali, Lino regista “o que resultou, o que falhou, porque é que falharam essas hipóteses, o que interessa repetir…”. Porque, lembra, “o ponto de partida e o ponto de chegada são muitas vezes distintos”.

E por falar em ponto de chegada, o que é que o deixaria realizado enquanto investigador? “Essa capacidade de podermos regenerar de forma mais eficiente é transformadora. É uma meta importante.”

rui.frias@dn.pt

Este texto faz parte de uma série de reportagens sobre ciência que o DN está a publicar desde Agosto.

Diário de Notícias
Rui Frias
01 Setembro 2021 — 00:46

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1025: “Vocês não são cavalos”. Contra as ordens médicas, negacionistas tomam o desparasitante Ivermectina em vez da vacina

– Publico esta notícia como aviso geral dado que os negacionistas do coronavírus SARS-CoV-2 – Covid-19, não são apenas estes indigentes que ingerem desparasitantes para cavalos e vacas em vez da vacina adequada, mas todos os outros negacionistas indigentes intelectuais, acéfalos por natureza e desequilibrados psicológicos que, em plena pandemia, em estados de emergência e calamidade nacionais, andam a passear pelos prados, como autênticos Walking Deads.

SAÚDE PÚBLICA/NEGACIONISTAS/WALKING DEADS

Não tomar medicamentos para cavalos parece ser uma coisa óbvia, mas pelos vistos não é. Apesar dos alertas dos médicos, muitos negacionistas estão a tomar um desparasitante para animais para se protegerem contra a covid-19.

Depois da hidroxicloroquina – um medicamento usado no tratamento da malária que se popularizou entre os doentes covid depois das recomendações de Donald Trump e Jair Bolsonaro -, há um novo fármaco que está a ser tomado para tratar o coronavírus contra as recomendações dos médicos.

A Ivermectina é um nome familiar para quem tem cavalos ou vacas, já que é usado como um desparasitante para animais. No entanto, isso não tem parado a corrida à compra por supostamente ser um tratamento alternativo à vacinação e eficaz contra a covid-19.

Nos Estados Unidos, os fornecedores de produtos para animal estão sem stock do medicamento e a Amazon vai pelo mesmo caminho. O Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças também publicou dados que mostram que as pessoas estão a conseguir o medicamento com receitas médicas. Antes da pandemia, a média eram 3600 receitas por semana, em meados de Agosto, já eram 88 mil.

Já doze lojas no Oklahoma relevaram ao canal de notícias KFOR que não têm forma de reabastecer o produto e que até já colocaram sinais a dizer “por favor, não comam”. “A Ivermectina esgota-se horas depois do envio. Já não recebemos envios há duas semanas. Acho que é porque as pessoas estão a consumir“, afirma uma das lojas.

Em Memphis, a situação é semelhante, com as prateleiras cheias nas lojas, à excepção da Ivermectina. “São estão a enviar um certo valor por loja, suponho eu, e quando encomendo normalmente, não estou a receber. Perguntei à minha representante o que se passava e ela disse que toda a gente quer para a covid, por isso estão a reparti-la”, afirma Heather Lewis, dona de uma loja, à imprensa local.

A Modern Pet Food, no Texas, conta à ABC 13 que normalmente vendem 10 pacotes do remédio por mês, mas que esse valor disparou para “entre 50 a 100” nos últimos tempos. “Vimos um crescimento enorme nas vendas”, afirma Trace Menchaca, dono da loja.

Uma estação de televisão local em Las Vegas também conta a história de uma loja onde aparecem pessoas a dizer que estão no “plano Ivermectin”, apesar do sinal pendurado a alertar para “não ingerirem”.

A funcionária do estabelecimento, Shelly Smith, explica que um cliente lhe disse que tem tomado a Ivermectina e que o único efeito secundário que tem sentido é “não conseguir ver de manhã”. Para controlar as compras em massa, a loja passou agora a exigir uma fotografia do cliente com o seu cavalo para vender o desparasitante.

“Não quero que as pessoas tomem um desparasitante para cavalos porque é um desparasitante para cavalos. Precisam de me provar de que têm um cavalo para vender este produto, porque não o devem tomar. Isto não é para humanos“, afirma Smith.

E não é mesmo. A Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) já veio a público recomendar que as pessoas parem de tomar a Ivermectina, que só está aprovada para tratamento em humanos em doses muito diferentes das usadas para animais e só em casos específicos de vermes parasitas, de piolhos na cabeça ou para tratar a rosácea.

A FDA também não aprovou a Ivermectina no tratamento da covid-19 e o remédio não é anti-viral – ou seja, não cura vírus. “Vocês não são cavalos. Vocês não são vacas. A sério, malta. Parem”, escreveu a entidade no Twitter.

Um estudo de Março testou o uso do medicamento em casos ligeiros de covid-19 e concluiu que não houve qualquer benefício. A ingestão pode também causar tonturas, problemas no ritmo cardíaco e reduzir a pressão arterial.

Os negacionistas afirmam que o remédio evita a infecção, mas mesmo que esse fosse o caso, a dose necessária seria tóxica, visto que as versões usadas em animais são muito mais concentradas do que as adequadas para o uso humano.

Apesar dos avisos dos especialistas, o Senador Republicano Rand Paul tem-se juntado à conspiração. Um processo em tribunal no estado do Ohio também acabou com uma ordem do juiz que vai obrigar um hospital a receitar a Ivermectina a um doente com covid de 51 anos, que está a batalhar contra a doença desde Julho

O pedido foi feito pela mulher do paciente. Há também processos semelhantes abertos em Chicago e Nova Iorque que querem obrigar os hospitais a dar o medicamento.

Por Adriana Peixoto
31 Agosto, 2021

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