1024: Médicos de saúde pública defendem terceira dose para idosos com vacina da gripe

– Isto já não é caldeirada a mais de vacinas? A da gripe, ainda se justifica, mas com a terceira dose da Covid-19 junta?

SAÚDE PÚBLICA/IDOSOS/VACINAS DA GRIPE+COVID-19

Os idosos, um dos grupos com elevada incidência de infecções, devem receber a terceira dose contra a covid-19 em Outubro e Novembro, em simultâneo com a vacina da gripe, defendeu hoje Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP).

Centro de vacinação em Lisboa
© Leonardo Negrão / Global Imagens

“O Serviço Nacional de Saúde (SNS) está preparado para vacinar os mais vulneráveis para a gripe todos os anos. Se temos essa possibilidade, é adicionar na mesma altura a vacinação da covid-19. Aproveitando esta oportunidade, protegemos de duas doenças e isso é algo que é fundamental que a Direcção-Geral da Saúde e o SNS organizem para que, no inverno, não haja este problema”, disse à Lusa o presidente em exercício da ANMSP.

Os idosos estão entre os grupos etários que apresentam uma subida da incidência de novas infecções pelo vírus SARS-CoV2, apesar de, segundo o último relatório da DGS, cerca de 97% das pessoas com 65 ou mais anos ter a vacinação completa contra a covid-19.

O último relatório das “linhas vermelhas” da pandemia alerta para a “provável tendência crescente” da actividade epidémica no grupo acima dos 65 anos, avançando que a faixa etária dos idosos com 80 ou mais anos “apresentou uma incidência cumulativa a 14 dias de 149 casos por 100 mil habitantes”.

“Este valor de 149 não é propriamente uma incidência elevada que faça soar todos os alarmes, mas é algo a que devemos prestar atenção e deve ser avaliado pela tutela de modo a perceber o que é que falhou aqui”, adiantou Gustavo Tato Borges.

Segundo o médico de saúde pública, uma das causas para esta incidência de infecções nos idosos, o grupo com a mais alta taxa de vacinação completa no país, está relacionada com a variante Delta, a predominante em Portugal e considerada mais transmissível do que a Alpha.

“O facto de a variante Delta estar a circular é, claramente, uma das causas desta incidência, até porque as vacinas que estão em uso não foram criadas com esta variante em mente, porque ainda não existia na altura”, lembrou o presidente em exercício da ANMSP.

De acordo com o especialista, em causa poderão estar também pessoas “muito vulneráveis com um risco altíssimo de vir a falecer e que, mesmo com uma vacinação bem administrada, poderá não ter sido suficiente para garantir a imunidade”.

Além destas razões, Gustavo Tato Borges admite que o número de infecções entre idosos vacinados poderá estar relacionado “com um pequeno relaxamento nas medidas de protecção e contenção” em contexto familiar, através de contactos com pessoas não imunizadas.

“Há toda esta variante comportamental que também pode ajudar a explicar porque é que os idosos estão a ser um grupo afectado pela pandemia”, adiantou o médico.

De acordo com Gustavo Tato Borges, é necessário que as autoridades de saúde percebam se a incidência nesta faixa etária se deve a uma questão comportamental ou a uma redução da resposta imunitária, tendo em conta que os idosos foram os primeiros a ser vacinados em Portugal.

“Era importante que a DGS, o Ministério da Saúde e a Solidariedade Social se juntassem para perceber o que se passa aqui”, defendeu.

Questionado se esta incidência faz com que seja urgente uma terceira dose da vacina, Gustavo Tato Borges considerou que “fundamental, neste momento, é garantir que há 85% de pessoas completamente vacinadas” no país.

“Precisamos de manter este foco e este ritmo de vacinação naqueles que ainda não foram vacinados. Mas há que também perceber que os mais vulneráveis vão precisar muito provavelmente de uma terceira dose antes da época de inverno”.

Em Portugal, desde Março de 2020, morreram 17.730 pessoas e foram contabilizados 1.036.019 casos de infecção confirmados, segundo dados da Direcção-Geral da Saúde.

A doença respiratória é provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, detectado no final de 2019 em Wuhan, cidade do centro da China, e actualmente com variantes identificadas em países como o Reino Unido, Índia, África do Sul, Brasil ou Peru.

Diário de Notícias
Lusa
30 Agosto 2021 — 17:28

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“Na quimioterapia só 5% a 10% do fármaco chega ao local. Na nanotecnologia não há dispersão, é mais eficaz e menos tóxico”

SAÚDE PÚBLICA/CANCRO/NANOTECNOLOGIA

João Conde, professor de Genética, investigador do Centro de Estudos de Ciências Médicas (ToxOmics), da Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa, defende que as farmacêuticas devem apoiar a investigação e que a nano-medicina é uma aposta de futuro.

© André Luís Alves / Global Imagens

É um dos autores do estudo “Facts and Figures on Materials Science and Nanotechnology Progress and Investment”, sobre a eficácia dos nano-produtos. Como funcionam?
No caso dos tumores, conseguimos colocar nas células cancerígenas uma série de nano-materiais que nos ajudam a que os fármacos sejam mais eficazes, ao mesmo tempo que se poupa as células normais, o que não acontece na quimioterapia. Através da nanotecnologia, podemos colocar todo o tipo de bio-moléculas para que os fármacos não sejam descartados tão facilmente pelo nosso organismo ou transportados para outras células que não estejam doentes.

Significa que essas terapias são mais eficazes para as células cancerígenas sendo menos agressivas para as células normais?
É uma das grandes vantagens. Nos tumores cerebrais, com a quimioterapia, o fármaco é injectado e só uma pequena parte chega ao local, na ordem dos 5% a 10%. Vai acumular-se em outros órgãos, nos rins, fígado, etc. Nestas aplicações não há dispersão, produz menos toxicidade, menos efeitos secundários.

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Qual é a terapia que desenvolve na empresa da qual é co-fundador, a TargTex, criada há dois anos?
Estamos a desenvolver implantes para tratar tumores cerebrais. Estes são muito difíceis de tratar porque, muitas vezes, a quimioterapia e os fármacos injectados na circulação não chegam ao cérebro. Este tem uma espécie de membrana que não deixa entrar uma série de substâncias, ainda bem porque não passam bactérias e vírus mas, por outro lado, impede a entrada dos fármacos. Estamos a desenvolver um gel que é aplicado directamente no cérebro e que difunde qualquer molécula terapêutica, permite-nos ter uma concentração mais elevada do fármaco e é direccionado. É uma medicina de precisão.

É uma espécie de autoestrada da terapêutica, vai mais depressa e directamente ao destino.

É um pouco isso. Conseguimos pôr mais concentração do fármaco num espaço pequeno e, se fosse injectado, a maior parte seria descartada pelo organismo. Fazemos isto para evitar a cirurgia para retirar o tumor e assim não provocamos danos no tecido cerebral.

Esse medicamento já é utilizado?
Descobrimos um novo fármaco que nunca tinha sido utilizado em tumores cerebrais, os glioblastomas, que são mais agressivos (12 a 15 meses de vida), mas que tem uma eficácia superior ao fármaco que é utilizado na quimioterapia que é pouco eficiente, ronda os 20% a 30 %.

Os investigadores são todos portugueses?
A empresa é portuguesa, conseguimos um financiamento da Portugal Ventures de cerca de 2 milhões de euros. Mas a base do estudo envolve investigadores de muitos outros países, EUA, Alemanha, Suíça, Espanha. Levámos cinco anos até chegar aqui. Primeiro, tivemos de descobrir um novo fármaco para tumores cerebrais e compará-lo com os usados, o que se fez através de um algoritmo de inteligência artificial para ver as bases de moléculas terapêuticas que se podem ligar a novos alvos nas células

A Moderna e a Pfizer utilizam esse tipo de partículas, quais são as vantagens em relação à AstraZeneca e à Johnson & Johnson?
Usam nano-partículas, que são muito mais inertes do que os vírus. E, como são feitas com lípidos (e colesterol), dos mesmos materiais que as células, fundem-se com as nossas membranas muito mais facilmente e de uma forma muito mais natural do que os vírus, que são mais agressivos. Além de que essas duas vacinas usam o ARN mensageiro em vez do ADN, que é um subproduto do ADN, e que leva a célula a produzir proteínas virais.

Daí se ter chegado mais facilmente a uma vacina?
Exactamente, nós já utilizávamos estes tipos de nano-partículas e a tecnologia do ARN, que estava a ser desenvolvida para tumores, por nós e outros grupos, principalmente do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts].

Também explica terem uma eficácia mais elevada, acima dos 90%?
A AstraZeneca e a Johnson & Johnson utilizam adenovírus, como as vacinas da gripe, com uma eficácia na ordem dos 60%. O vírus tem de ultrapassar o núcleo da célula e depositar o ADN, depois o ADN é transformado em ARN e este em proteínas virais. O ARN mensageiro já não precisa de ir ao núcleo, fica dentro da célula e faz logo a transformação para a proteína viral, é muito mais rápido.

Já foi vacinado?
Já, com a Pfizer.

Se pudesse escolher, o que faria?
Escolhia a Pfizer ou a Moderna porque confio mais na tecnologia, sei que é mais eficiente. Mas aceitava qualquer uma das quatro aprovadas pela Agência Europeia de Medicamentos. Têm dados publicados.

Concorda em que se avance para a terceira dose da vacina?
Não sou da área da virologia, mas o que sabemos é que estas quatro vacinas estão a ser eficientes, as mortes e as hospitalizações reduziram drasticamente em relação às outras vagas. O que não sabemos é por quanto tempo o nosso sistema imunitário vai ter esta memória para prevenir a infecção e os casos mais graves da doença. Vamos ser infectados, o ideal é que o vírus da doença não se consiga multiplicar, mas só vamos saber com o tempo. Em alguns casos, talvez seja preciso a terceira dose, mas antes há um grande problema para resolver.

A solidariedade para com os milhões que não levaram a vacina…
Não é só um problema de solidariedade, é sobretudo de saúde pública. Mais de metade do mundo não tem acesso à vacina, esses países serão verdadeiras incubadoras deste vírus e novas variantes poderão surgir. Estávamos em confinamento e a variante inglesa chegou, a variante indiana chegou.

Porque é que demoraram a descobrir esses tratamentos?
A nanotecnologia surgiu há vários anos mas só nos últimos 15 é que se tem investido muito e mais na saúde, está presente em outras áreas.

Fala em mais de 3 mil produtos.
A nanotecnologia está envolvida em electrónica, cosmética, construção, agricultura, indústria têxtil, saúde, em várias áreas, com o predomínio na electrónica e na saúde.

Já está a ser utilizada em algum tratamento do cancro?
Ainda não está a ser usada na parte clínica. Os produtos têm de passar os ensaios clínicos e é o que tencionamos fazer nos tumores cerebrais. O problema é que o ensaio de fase 2, por exemplo, pode custar 15 milhões de euros, e é preciso o apoio de grandes farmacêuticas.

Seriam os primeiros a aplicar essa tecnologia?
Para tumores cerebrais e com este gel, sim. O grupo do professor Robert Langer, um dos colaboradores no artigo sobre o investimento em nanotecnologia, usou uma espécie de pastilhas que seriam colocadas no cérebro. Só que, como eram um modelo muito rígido, tinha pouca eficiência, na ordem dos 40%. O nosso gel adapta-se ao tecido e tem uma eficácia de 90%. É bio-degradável e, à medida que se degrada, vai libertando o fármaco.

O que é que falta para avançar?
Temos de aplicar a técnica em modelos de animais mais complexos, porcos, coelhos, para entrar na fase 1, quando se avalia a toxicidade, os efeitos secundários. Segue-se a fase 2: testar a eficiência.

© André Luís Alves / Global Imagens

Esse gel também está a ser investigado pelo seu grupo do CEDOC?
Sim, mais para o cancro da mama e do cólon.

Quando prevê que essa terapêutica chegue aos doentes?
Os ensaios pré-clínicos e clínicos podem demorar dois a quatro anos. Com as vacinas, vimos isto acontecer em tempo real porque se investiu muito dinheiro, muitos recursos humanos e em infra-estruturas.

E quando refere o que se passa em Portugal fala à escala global?
Colaboramos com grupos de todo o mundo, é uma rede de mais de 200 pessoas, não faz muito sentido falar só em Portugal. Os melhores projectos são os que envolvem muitos grupos, investigadores com diferentes valências e experiências.

O que significa que o facto de Portugal investir menos em nanotecnologia não é um problema.
Podemos ter sempre acesso a essas investigações desde que tenhamos essa visão de colaboração. Mas não estamos muito mal, estamos a meio da tabela, tem-se investido muito nos últimos dez a 15 anos. O grande problema do investimento na ciência em Portugal é o facto de não haver um financiamento certo, dependendo muito de bolsas e projectos e que, muitas vezes, são recusados.

Quem investe mais?
Os EUA e a China lideram. Os EUA lideram na investigação e na indústria, como a Inglaterra, a Alemanha, a Suíça e a França. Ao nível de trabalhos publicados, Portugal não está mal. Há cada vez mais grupos e que trouxeram financiamento, eu próprio ganhei há dois anos 1,5 milhões de euros para um projecto com gel para tumores da mama. E tem-se investido em institutos.

A ligação à indústria é o caminho?
É cada vez mais importante. A indústria farmacêutica investe pouco nos investigadores. Nos EUA, as farmacêuticas financiam a investigação para fazer os seus produtos, 80% do dinheiro vem da indústria. Em Portugal, as grandes farmacêuticas estão cá para vender os produtos e não para investir na investigação. É pena, primeiro porque somos considerados dos melhores investigadores do mundo; segundo, temos uma mão-de-obra que não é assim tão cara.

Criou uma empresa, já é uma tendência no país?
Temos sempre de ir atrás de todo o tipo de financiamento, É essencial que os investigadores procurem a indústria farmacêutica, até para perceberem quais são as suas necessidades. Muitas vezes, só querem fazer investigação mais básica e fundamental e esquecem-se das necessidades da indústria.

Essa mentalidade está a mudar?
Está a mudar com os novos investigadores, que também estiveram fora. No MIT ouvia: “Vamos falar com os médicos para saber o que precisam para tratar os doentes.” E voltávamos ao laboratório para desenvolver produtos para eles.

Qual o impacto da pandemia no futuro da nanotecnologia?
A pandemia veio desmistificar o uso de nano-materiais nos humanos. Temos centenas de milhões de pessoas vacinadas com o uso de nano-partículas que transportam o ARN viral e isto prova que, quando foi precisa, a nano-medicina respondeu mais rapidamente do que outras áreas da saúde. Vai levar a um boom na área da nanotecnologia.

Diário de Notícias
Céu Neves
26 Agosto 2021 — 00:13

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1022: Descoberta portuguesa pode ajudar a reduzir covid-19 a uma constipação (e é um segredo bem guardado)

SAÚDE PÚBLICA/COVID-19/DESCOBERTA PORTUGUESA

dragana991 / Canva

Uma equipa de investigadores portugueses descobriu três compostos que podem ajudar a reduzir o impacto da covid-19 a uma mera “constipação”. A pesquisa foi toda “made in Portugal” e, para já, está no segredo dos Deuses.

Cada um destes compostos descobertos pode, “em acção individual”, reduzir “60 a 70% a actividade do vírus SARS-CoV-2”, explica à agência Lusa a investigadora coordenadora da pesquisa, Cecília Arraiano, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa (ITQB NOVA), em Oeiras.

Este projecto aponta numa direcção distinta das vacinas e está em fase de registo de patentes, com perspectivas de poder chegar rapidamente ao mercado. Até porque dois dos compostos estão aprovados para uso em outras doenças pelo regulador americano, a FDA (Food and Drugs Administration).

“A vacina é uma abordagem diferente, porque põe o hospedeiro a lutar contra o vírus e nós lutamos directamente com o vírus, porque atacamos a ‘maquinaria’ interior”, nota a geneticista.

“A vantagem é que [a nossa] é mais independente da resposta imunitária do hospedeiro”, acrescenta Cecília Arraiano, frisando que “a covid-19, que está tão grave, passa a ser como uma constipação“.

“Se uma pessoa não tiver outras complicações, não vai para o hospital com uma constipação”, constata ainda.

Descoberta com “garantia de futuro”

O trabalho desta equipa, que contou com a colaboração do Laboratório Nacional de Referência de Saúde Animal do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), assenta na especialização dos investigadores em RNA e ribonucleases, isto é, as moléculas que controlam os níveis de RNA na célula.

Na base da investigação está a existência de duas ribonucleases no SARS-CoV-2, que desempenham um papel essencial na replicação do vírus.

“O nosso objectivo era pôr o nosso conhecimento de forma a poder ajudar a controlar a multiplicação do vírus e tornar esta doença – que tem sido tão perigosa – mais ligeira”, frisa Cecília Arraiano, destacando a “garantia de futuro” destas descobertas.

“Quando entra nas células, o vírus normalmente pode ter mutações e esta ‘maquinaria’ funcional é sempre conservada, o que dava uma garantia de ser uma forma de atacar com futuro”, nota.

Com a ajuda da colega investigadora Margarida Saramago, Cecília Arraiano conta que o projecto arrancou ainda durante o primeiro confinamento, em Abril/Maio de 2020, com os três fármacos a serem ‘encontrados’ nas bases de dados internacionais, que contêm muitos milhares de compostos químicos.

Tudo em segredo (e “made in Portugal”)

Todo este processo “foi uma grande aventura” para a instituição e os profissionais.

“As minhas colaboradoras fizeram um ‘screen’ e começaram a ver, tendo em conta as características destas ribonucleases, quais seriam aqueles que poderiam – como uma chave numa fechadura – encaixar nos sítios vulneráveis e fazer com que se ligasse e não funcionasse bem”, refere.

A ambição, agora, é que seja rapidamente utilizado pelas pessoas para se poder “voltar à normalidade que havia antes desta pandemia”.

Com a investigação laboratorial terminada nesta fase, o futuro passa pelo registo de patentes e pelo diálogo com as farmacêuticas.

A investigadora coordenadora do ITQB Nova adianta que já foi obtida uma “patente provisória” na semana passada e que dentro de alguns dias devem avançar pedidos similares para os outros dois compostos.

“Até estar tudo seguro e conversado com as farmacêuticas, não podemos divulgar porque, senão, qualquer país do mundo agarra e faz. Como foi tudo ‘made in Portugal’ temos muito orgulho e queremos manter ‘made in Portugal’”, indica a geneticista.

Esta patente provisória já permite encetar conversações com as farmacêuticas, embora seja um processo sobre o qual pendem algumas obrigações, além de estar ainda ‘presa’ por alguns detalhes.

Apesar disso, Cecília Arraiano confirma que serão feitas “três patentes diferentes”, uma por cada composto descoberto. A investigadora acredita também que este tema não passa de uma questão burocrática.

“O que gostávamos era que as farmacêuticas testassem isto (que nós já sabemos que se faz em células de macaco com o vírus) em testes clínicos com pessoas com covid”, frisa ainda.

“Tendo em conta a rapidez com que foram desenvolvidas estas novas vacinas de RNA, em um ano, tenho a grande esperança de que seja também tudo muito rápido”, indica.

“Esperamos mesmo é ver isto no mercado o mais rápido possível“, conclui.

ZAP // Lusa

Por Susana Valente
25 Agosto, 2021

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1021: E se a chave na resposta às infecções estiver num outro sistema que não o imunitário?

SAÚDE PÚBLICA/INFECÇÕES

A capacidade dos vários órgãos em reprogramar o seu metabolismo na forma como reagem à agressão de um vírus, de uma bactéria ou de um parasita pode ser tão ou mais importante do que acção do sistema imunitário na altura de decidir quem morre ou sobrevive. No Instituto Gulbenkian de Ciência, Miguel Che Parreira Soares explora os caminhos desse sistema metabólico.

Miguel Che Parreira é licenciado em Biologia e doutorado em Imunologia pela Universidade de Louvana, na Bélgica, onde cresceu, esteve dez anos em Harvard (EUA), antes de vir para o Instituto Gulbenkian de Ciência, onde estuda os segredos do metabolismo.
© Rita Chantre / Global Imagens

Nos dez anos que passou em Harvard, para onde foi inicialmente fazer o seu pós-doutoramento e onde se estabeleceu como membro da Faculdade de Medicina, Miguel Soares viveu um daqueles “momentos eureka” que marcam os avanços da ciência – e, no caso, a carreira científica deste investigador nascido na Bélgica nos anos 1960, filho de uma das mais conhecidas artistas portuguesas da sua geração (a actriz Lídia Franco) e que desde 2004 dirige o seu próprio laboratório no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras. Aqui, Miguel avança no caminho destapado em Harvard e vai decifrando os segredos de algo tão ou mais importante do que o sistema imunitário na resposta do corpo humano às infecções: o nosso “sistema metabólico”.

Na prestigiada universidade norte-americana, Miguel trabalhava com Fritz H. Bach, descendente de uma família judia austríaca que escapou ao nazismo na II Guerra Mundial e se tornou um dos cientistas pioneiros no campo da imunologia de transplantes. Trabalhava, portanto, “em transplantes de órgãos” quando se deparou com a tal descoberta transformadora. “Apercebemo-nos de que os órgãos transplantados, para não serem rejeitados pelo sistema imunitário, tinham de activar um mecanismo de defesa. No fundo, o órgão tinha de expressar genes – informação contida no nosso genoma – que o ajudavam a funcionar e que não deixavam que o sistema imune o rejeitasse”, recorda o investigador.

Entre esses genes, “havia um fenomenal, que se chama heme-oxigenase-1”, ou HO-1. A particularidade desse gene, descobriu a equipa, era codificar uma proteína que produz um gás chamado monóxido de carbono. O que justifica a famosa expressão de descoberta atribuída ao matemático grego Arquimedes de Siracusa: eureka! “Descobrimos que a produção de monóxido de carbono era essencial para manter o órgão a funcionar.”

Quando somos infectados, o sistema imunitário está a combater o agente patogénico, mas os órgãos vitais têm de continuar a funcionar, senão de nada serve eliminar o patógeno.

A partir daí, abriu-se um mundo de novas vias a explorar que Miguel Soares vai percorrendo hoje em dia, com o epicentro numa ideia que pode revolucionar a forma como combatemos as infecções, sejam elas provocadas por vírus, bactérias ou parasitas, desde a covid-19 à malária ou à sépsis, a infecção generalizada que é uma das principais causas de morte em todo o mundo e sobre a qual o investigador tem vários estudos publicados.

No fundo, o que Miguel vem demonstrando ao longo dos últimos anos é que esse sistema metabólico, ou seja, a capacidade dos vários órgãos em reprogramar o seu metabolismo na forma como reagem perante determinadas agressões, pode ser tão ou mais importante do que o sistema imunitário na altura de decidir quem sobrevive ou não a essas doenças.

Dos transplantes às infecções

Tal como aconteceu com os corações e outros órgãos transplantados em Harvard, também na resposta às infecções parece ser fundamental a capacidade dos diversos órgãos em adaptarem o seu metabolismo, o seu modo de funcionamento, à acção do sistema imunitário. “Mais do que a capacidade de matar o patógeno (ou agente infeccioso), o segredo parece estar na tolerância ao mesmo”, numa espécie de habilidade diplomática para negociarmos com o “invasor” uma forma de convivência em comum.

“Em termos mais práticos: nós temos os chamados órgãos vitais, o cérebro, coração, os rins, o fígado… Quando somos infectados, o sistema imunitário está a combater o agente patogénico, mas os órgãos vitais têm de continuar a funcionar. Se não conseguirem continuar a funcionar, não serve de nada eliminar o patógeno, porque nós morremos. E o que temos vindo a descobrir é que esses órgãos têm de adaptar-se ao que chamamos de stress causado pela infecção e fazer um processo de damage control. Este controlo de danos, para usar uma analogia naval, é tudo o que temos de fazer numa situação de emergência para o barco não afundar. É um SOS. O corpo para de fazer tudo o que é supérfluo para se concentrar no que é essencial”, explica. “A adaptação metabólica é isto.”

Essa ligação entre a reacção aos transplantes e às infecções, como quase sempre acontece na ciência, foi sendo construída peça a peça, como um puzzle. “O que pensámos foi que se este mecanismo de reprogramação metabólica dos órgãos evoluiu ao longo de milhares de anos com o corpo humano, haveria de ter outro motivo que não os transplantes, que são uma coisa recente. Então apercebemo-nos de que onde isto tem mesmo relevância é nas infecções”, explica Miguel Soares.

Os órgãos têm de se adaptar ao stress causado pela infecção e fazer um controlo de danos. Numa analogia naval, é o que temos de fazer numa emergência para o barco não afundar.

Mais: o heme-oxigenase 1, o tal gene que leva à produção de monóxido de carbono, não era o único com capacidade para influir nesta reprogramação metabólica. O investigador percebeu que “há uma rede, uma espécie de máfia de genes” que actua em vários órgãos para regular o metabolismo do indivíduo infectado. Na sépsis, por exemplo, a que Miguel Soares tem dedicado muitos anos de investigação, “há uma série de genes que são altamente induzidos (aumentam a sua expressão) em reposta ao choque séptico”.

Ora, utilizando modelos experimentais baseados no uso de murganhos (vulgo ratinhos), podemos analisar a expressão genética quase em tempo real nos vários órgãos, e através de manipulações genéticas “consegue-se testar funcionalmente se a expressão de um determinado gene é essencial para, por exemplo, o coração deixar de bater durante o choque séptico”. E isso, diz, “é um game changer“. Um dado revolucionário que pode abrir portas a novas terapêuticas “que não se preocupem só em eliminar o patógeno como também em tratar este outro mecanismo de defesa que nos permite, no fundo, sobreviver”, refere.

A sensação de descoberta na ciência pode ser “esmagadora”, como recorda o investigador, desfiando o novelo que foi construindo. “Como é que quase independentemente do sistema imunitário há um outro sistema que decide se vivemos ou morremos? Há de ser importante, tem de ter relevância clínica.” Foi esse o mote para avançar na procura dos segredos que se escondem por detrás deste sistema metabólico e que podem acrescentar ferramentas preciosas ao nosso kit de sobrevivência.

Do trigo australiano ao caso de Maria Tifóide

“Durante muito tempo pensou-se que a forma de lidar com os microrganismos era tentar eliminá-los, mas às vezes não funciona”, diz. “A função do sistema imunitário é sentir a presença de patogénicos e matá-los, eliminá-los. E funciona às mil maravilhas. Tirando em alguns casos”, sublinha o cientista, apontando exemplos como “a sépsis, a malária severa ou agora a covid-19, em que já percebemos que, nas pessoas que passam para as urgências e constituem casos graves, o problema delas não é tanto o vírus mas a resposta do sistema imunitário e o seu impacto no metabolismo”.

Ou seja, frisa Miguel Soares, “a capacidade de a pessoa infectada sobreviver pode não ter uma relação directa com a capacidade de eliminar o agente patogénico”. Mesmo que o sistema imunitário funcione, reconheça o agressor e produza anticorpos contra ele, o doente pode morrer nesse processo, caso a resposta imune afecte o funcionamento metabólico dos órgãos tanto ou mais do que afecta o microrganismo invasor. O que realça a importância dessa via alternativa explorada pelo investigador do IGC, cujo trabalho sobre a “reprogramação metabólica como estratégia de defesa contra doenças infecciosas” já foi reconhecido e premiado por várias entidades nacionais e internacionais, desde a Fundação para a Ciência e Tecnologia à Fundação La Caixa, passando pelas prestigiadas bolsas ERC Advanced Grants, do Conselho Europeu de Investigação, e até pela Fundação Bill e Melinda Gates, além da própria Fundação Calouste Gulbenkian e da Câmara Municipal de Oeiras.

Ideia-base de todo o ecossistema de investigação liderado por Miguel Che Soares é a da tolerância à doença, conceito fundamental, de resto, do processo evolutivo das espécies. “Se nós formos completamente tolerantes a um patógeno, ele já não é um patógeno, não provoca doença. E isto tem que ver com os processos evolutivos”, diz, recorrendo ao exemplo mais actual. “Isto não é como um filme mau de Hollywood. O vírus não nasceu em Marte, quer ser mau e vem atacar-nos. O agente patogénico, neste caso o SARS-CoV-2, o que quer é sobreviver. Ele já estava entre nós há muito tempo, mas estava lá adormecido nos morcegos, algures, porque os morcegos são tolerantes a este e outros vírus da família dos coronavírus, a eles não lhes causa nenhum transtorno. Ou seja, para o morcego ele não é verdadeiramente um patógeno. Evoluíram em conjunto (co-evoluíram) e encontraram ali um equilíbrio. Se calhar o morcego até vive menos uns meses, deve haver um “preço” qualquer que ele “paga”, mas chegaram a um acordo bom. Connosco ainda não chegou a acordo, porque nós nunca co-evoluímos juntos”, ilustra.

Numa septicemia, o metabolismo do nosso corpo reorganiza-se de forma a ser o fígado a fornecer a glicose necessária. Os doentes que morrem têm problemas de glicemia: ou glicose a mais ou glicose a menos.

A ideia de um estado de tolerância à doença começou a desenhar-se ainda em meados do século XIX, num estudo australiano sobre… trigo: “Eles estavam interessados em ter variedades de trigo que dessem mais sementes e aperceberam-se de que, quando infectadas, com a mesma infecção, havia umas subespécies que davam mais sementes, mais trigo, do que as outras. E chamaram a isso a tolerância à doença.” Ora, a planta não tem, que se saiba, sistema imunitário clássico. “Tem um outro sistema de defesa contra a infecção que faz que, mesmo estando infectada, consiga viver com ela. É resiliência, tolerância.” Durante muitos anos pensou-se que isso era um fenómeno exclusivo das plantas, até se perceber que acontecia também com os mamíferos.

Mais uma vez, a pandemia actual é um bom cenário para ilustrar este dilema entre infecção e doença. “Na covid-19, porque é que algumas pessoas têm o vírus mas não têm a doença? Porque têm tolerância ao vírus. As crianças são o melhor exemplo. São quase completamente tolerantes ao vírus”, explica Miguel. E a diferença, diz, não está na carga viral: “Quando se vai aos pulmões delas e se vê a carga viral que têm, é semelhante à dos idosos que morrem. Mas o organismo da criança reage de maneira completamente diferente a este insulto que é ter aquele vírus. Por isso, um morre (o idoso), o outro (criança) quase nem dá por ela.”, explica.

Na história, de resto, tínhamos já um famoso exemplo em “Typhoyd Mary” (Maria Tifóide), uma cozinheira irlandesa a trabalhar para famílias abastadas na Nova Iorque do início do século XX: “Na altura, surtos de febre tifóide infectaram dezenas de pessoas, e mataram mesmo algumas, e ninguém percebia o que se passava. O elo comum era a Typhoyd Mary. O que é que aconteceu? Ela era completamente tolerante à bactéria salmonela. Era portadora, não desenvolvia a doença, mas infectava. Era uma doente assintomática, como acontece agora com vários infectados na covid-19.” A cozinheira Mary Mallon foi mesmo condenada a viver em quarentena forçada durante os últimos 23 anos da sua vida.

Os caminhos destapados por Miguel Soares nesta via metabólica já lhe valeram avanços importantes na compreensão de doenças como a malária ou a septicemia. Quando chegou a Portugal, em meados da década de 2000, para liderar um laboratório no Instituto Gulbenkian de Ciência, estabeleceu uma colaboração com a sua colega Maria Mota que também liderava um grupo no IGC, cientista reconhecida mundialmente pelo seu trabalho com malária, e decidiram experimentar se o gene que leva à produção de monóxido de carbono teria na malária cerebral, que tem elevada taxa de mortalidade entre as crianças, o mesmo efeito protector verificado nos transplantes de órgãos em Harvard.

Passou-se de uma fase em que o problema era o agente infeccioso para outra em que era a resposta exacerbada do sistema imunitário e agora pensamos que a chave está no metabolismo.

“Parecia evidente que nós não teríamos um gene, partilhado por todos os animais e todos os organismos, por ele ter um papel na protecção de transplantes. Tinha de haver ali qualquer coisa antes. Esse gene tem de ter uma função primordial para algo sem o qual nós não estaríamos aqui hoje”, recorda. “E bingo: todos os animais colocados nos aquários com monóxido de carbono a muita baixa concentração sobreviviam e os que ficavam cá fora morriam de malária cerebral.”

Miguel avançou então para a sépsis, à qual passou a dedicar grande parte da sua atenção. Considerada “o cemitério da indústria farmacêutica”, diz o investigador, pelos investimentos avultados sem retorno significativo até aqui, a sépsis é “um assassino silencioso” considerado responsável por até 20% de todas as mortes no mundo. Anualmente, segundo a OMS, são no mínimo 11 milhões de fatalidades atribuídas a esta doença infecciosa (sendo uma estimativa muito conservadora) e que resulta na falência generalizada de órgãos como consequência de uma resposta desregulada à infecção.

A “caixa de Pandora” da reprogramação metabólica

Na sépsis, “o mesmo sistema é importante, mas não é pelo monóxido de carbono. A heme-oxigenase-1 o que faz é agarrar num pedacinho de ferro que vem dentro de um anel chamado heme e libertar além do monóxido de carbono, um átomo de ferro, cortando esse anel. Apercebemo-nos então de que este ferro tem de ser guardado por uma outra proteína que se chama ferritina e descobrimos que a ferritina é absolutamente essencial para nos protegermos da sépsis”, descreve. “E agora entramos no metabolismo. Quando não se conseguia guardar o ferro, a glicose descia e os ratinhos ficavam com hipoglicemia. Assim, descobrimos que este metabolismo do ferro regula o metabolismo da glicose, revelando que as duas vias metabólicas estão intimamente ligadas”, acrescenta Miguel. “Logo, tem de haver aqui uma adaptação metabólica.” Ou seja, “temos de adaptar o metabolismo do ferro para regular outras vias metabólicas, neste caso o metabolismo da glicose, que é essencial para manter os órgãos vitais a funcionar, neste caso o cérebro.”

Durante uma septicemia, o metabolismo do nosso corpo reorganiza-se de forma a ser o fígado a fornecer a glicose necessária. Os doentes que morrem têm problemas de glicemia: uns têm glicose a mais, outros a menos. “Estes mecanismos que regulam a capacidade de o fígado produzir glicose são essenciais: não para matar o microrganismo, mas para fazer que os vários órgãos vitais possam continuar a funcionar”, diz Miguel Soares. “E este equilíbrio metabólico é importantíssimo. É precisamente isto que estamos a descobrir”, refere o investigador, cuja equipa está a estudar a tal rede de genes associados a essa reprogramação metabólica de forma a ser possível desenvolver novas estratégias terapêuticas focadas na prevenção da falência de órgãos. “Estamos a tentar perceber como é que os órgãos se organizam para manter níveis de glicose adequados para que a pessoa sobreviva à infecção, mas sem deixar que os microrganismos também utilizem também essa glicose para se reproduzirem. Esse é o truque.”

Esta abordagem, totalmente disruptiva em relação à forma como se olha para a resposta à infecção, abre uma nova era. “Passou-se de uma fase em que o problema era o microrganismo invasor para outra em que o problema passou a ser a resposta imunológica exacerbada, e agora estamos a entrar numa nova fase em que achamos que o verdadeiro problema está no metabolismo dos órgãos”, descreve o investigador. E isto, diz, “é uma revolução na maneira de aproximar esta temática”. Uma nova forma de abordar o combate às infecções que ganha importância acrescida face a um “dos maiores problemas actuais da humanidade”: a crescente resistência aos antibióticos.

Esta via metabólica abre “uma caixa de Pandora maravilhosa” que permite então alargar horizontes terapêuticos. Ou assim espera o investigador. A ele cabe-lhe esta investigação fundamental, “a escrita do código”, para que outros, dedicados à ciência translacional e à ciência aplicada, possam explorar essas vias terapêuticas. “É como acontece agora com as vacinas revolucionárias de ARN mensageiro contra a covid-19. Se nos anos 60 do século passado os cientistas Sydney Brenner (ex-presidente do conselho consultivo do Instituto Gulbenkian de Ciência) e Francis Crick (ambos prémios Nobel) não tivessem aberto as portas para a descoberta de uma coisa chamada ARN mensageiro e para o que poderia servir, hoje não teria sido possível termos estas vacinas que protegem a humanidade”, ilustra.

“O que eu adorava é que aquilo que descobrimos para os órgãos, para a malária, para a sépsis, pudesse beneficiar a humanidade. Esse é o sonho de qualquer cientista. O que nós encontrámos é tão forte, tão dramático, sobrevive-se ou morre-se, que acho que não pode ser ignorado”, diz Miguel Soares, o “estrangeirado” (nascido na Bélgica, onde viveu 14 anos antes de ir para Harvard durante outros dez) de nome revolucionário (Che, homenagem dos pais ao revolucionário argentino) que espera poder estar a contribuir para um avanço importante na ciência. “Se no meu epitáfio pudesse ter lá escrito qualquer coisa como “descobriu como é que isso funciona”, ou “sem ele se calhar não teria havido a cura para a sépsis”, isso era brutal”, admite.

rui.frias@dn.pt

Este texto faz parte de uma série de reportagens sobre ciência que o DN publica em Agosto.

Diário de Notícias
Rui Frias
25 Agosto 2021 — 00:32

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1020: Leite | amigo ou inimigo? Faz mal à saúde?

SAÚDE/NUTRIÇÃO/LEITE

O leite é, desde sempre, um alimento básico e de consumo quase diário na dieta da grande maioria da população mundial. Apesar da sua popularidade e do uso comum, estudos recentes têm lançado alguma controvérsia relativamente ao seu consumo, quer entre os praticantes de actividade física quer na população em geral.

Neste artigo, vamos falar um pouco sobre os prós e os contras do consumo de leite, como parte integrante da maioria dos regimes alimentares, bem como sobre algumas alternativas que podes considerar como substitutas, seja por opção pessoal, seja pela existência de algum tipo de intolerância.

O que faz do leite um alimento tão importante?

É do conhecimento geral que o leite é, nada mais, nada menos, que uma substância aquosa, nutritiva e de cor branca, produzida pelas glândulas mamárias dos mamíferos fêmeas, com o principal objectivo de alimentar os recém-nascidos, nos primeiros tempos de vida, até que estes sejam capazes de ingerir alimentos de outras fontes externas e de forma autónoma.

Segundo este conceito, e cumprindo o curso natural do desenvolvimento e crescimento animal, nós, humanos, enquanto mamíferos e omnívoros que somos, deveríamos deixar de consumir leite a partir do momento em que somos dotados de dentes e de coordenação motora, que nos permitem o consumo de todo o tipo de outros alimentos, que não o leite, tal como fazem todos os outros mamíferos. No entanto, somos os únicos mamíferos do reino animal que continuam a recorrer ao consumo leite após este período e apesar de já não dependermos dele. E porquê?

De facto, o leite é considerado um alimento integral e um dos mais nutritivos, fornecendo 18 dos 22 nutrientes essenciais ao bom funcionamento do organismo. Entre estes nutrientes temos o cálcio, o magnésio, o zinco, o folato, o fósforo, o potássio, o ferro, o selénio, as vitaminas A, B, E e K, a niacina, a tiamina, a riboflavina, para além da proteína do soro de leite, da caseína e das gorduras.

Quais os benefícios do consumo de leite?

1.  Controla o apetite

Está provado que a ingestão de leite ajuda a controlar o apetite, aumenta a saciedade e, consequentemente, o seu consumo está associado a uma diminuição da quantidade ingerida de outros alimentos menos saudáveis. Alguns estudos mostram que a ingestão de produtos lácteos integrais está associada a um menor peso corporal, podendo mesmo ajudar a prevenir o aumento de peso.

2.  Melhora o desenvolvimento ósseo e dentário

O leite pode ajudar a melhorar a densidade óssea e, assim, reduzir o risco de fracturas. O leite contém, na sua composição, proteínas necessárias à construção e à manutenção do tecido ósseo, dos dentes e dos músculos, para além de suprir quase 30% das necessidades diárias de cálcio, potássio e magnésio. Contém, ainda, vitamina D, que desempenha importantes funções fisiológicas e metabólicas, que incluem a absorção de cálcio e a mineralização óssea.

3. Diminui do risco de patologias associadas com o aumento da glicémia

Diversos estudos provam que beber leite pode ajudar a prevenir o aumento dos níveis de açúcar no sangue, uma vez que as proteínas do leite melhoram o equilíbrio homeostático da glicose circulante.

4. Diminui do risco de patologias cardiovasculares

A gordura do leite pode ajudar a aumentar os níveis sanguíneos de gorduras saudáveis (High Density Lipoproteins ou HDL), que contribuem para a prevenção do desenvolvimento de patologias do foro cardíaco e vascular. Para além disso, o leite é uma boa fonte de potássio, um mineral que ajuda a regular a pressão que o sangue exerce sobre as artérias, evitando a sua fragilização e ruptura.

Mas poderá o leite fazer mal à saúde?

Está cientificamente comprovado que é necessária uma ingestão adequada de proteína, para um maior e melhor desenvolvimento e crescimento musculares, e que o leite é considerado uma das melhores e mais saudáveis fontes proteicas. No entanto, existem outros alimentos igualmente ricos em proteína e mais seguros, como a carne, o peixe e os ovos.

Apesar do leite apresentar uma elevada concentração de proteínas, a controvérsia relativamente à sua ingestão começa quando se consideram aos demais nutrientes que possui na sua composição.

Existem estudos recentes que afirmam que o leite de cada mamífero é apenas adequado às crias da sua própria espécie. Por exemplo, a estrutura e a composição químicas do leite de vaca (o mais consumido pelo ser humano) é apenas adequada às suas crias (os bezerros) e não aos humanos, exactamente pelas características da espécie. Um bezerro cresce dez vezes mais

rápido do que um ser humano nos primeiros meses de vida, pelo que, o leite produzido pelas vacas tem um perfil nutricional que vai ao encontro desta taxa de desenvolvimento mais acelerada. Para além disso, o leite de vaca possui anticorpos, produzidos pelo organismo das fêmeas desta espécie, para a defesa imunitária dos bezerros e que se tornam em antigénios (alergénios) no organismo humano, podendo desencadear distúrbios alérgicos com diferentes níveis de gravidade.

O leite possui, ainda, em grande quantidade, um tipo específico de hidrato de carbono que pode provocar intolerância ao seu consumo, a lactose. Algumas pessoas desenvolvem uma intolerância total à lactose, fazendo uma reacção alérgica grave imediatamente após o consumo de leite, mas outras são portadoras de intolerâncias parciais, conseguindo digerir pequenas quantidades de lacticínios, que contenham um menor teor de lactose, como é o caso do iogurte e do queijo.

Quando a lactose não é digerida, permanece no intestino e é sujeita a um processo de fermentação, pelas bactérias da flora intestinal, que se manifesta em sintomas como náuseas, flatulência, cãibras, distensão e cólicas abdominais ou diarreia, entre 30 minutos a 2 horas após a ingestão de produtos lácteos. Não obstante, a lactose pode ainda dificultar a absorção dos restantes nutrientes ingeridos na alimentação, devido ao quadro de deficiência enzimática a que dá origem.

Em situações que exijam a redução ou eliminação do consumo de leite e de produtos lácteos, ou simplesmente por escolha pessoal de um regime alimentar mais saudável, existem diversos produtos alternativos sem lactose, também eles muito ricos nutricionalmente, que podem servir como substitutos. Entre eles destacam-se o leite de soja, de amêndoa, de coco, de aveia, de caju, de arroz, de quinoa, etc.

Mensagem Final

O consumo do leite não é uma necessidade nutricional premente, existindo diversas outras fontes de proteína, igualmente eficazes e até mais seguras, no que se refere aos riscos de má absorção, de intolerância ou de alergias graves. Para além da carne, do peixe e dos ovos, existem ainda bebidas lácteas de origem vegetal, com um perfil igualmente rico em proteína, hidratos de carbono e gorduras saudáveis.

Mas, obviamente, o consumo moderado e preferencial de derivados do leite, como o queijo e o iogurte, não é desaconselhado e pode ser completamente assintomático, uma vez que o seu efeito no organismo depende de diferentes factores individuais, como o grau de intolerância, o histórico patológico, dos hábitos alimentares e da individualidade biológica.

O segredo é cada um fazer a sua escolha, de acordo com os seus objectivos e a sua opção de estilo de vida, devendo sempre procurar a ajuda de um profissional, para planear uma dieta adequada e personalizada.

Luís Veiga
Atleta IFBB de Culturismo

Tatiana Rasteiro CoelhoTatiana Rasteiro Coelho

Escritor

Tatiana é Mestre em Biologia Molecular e Doutorada em Biomedicina, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra – Portugal, tendo, ao longo da sua carreira de investigação científica, sido autora de artigos académicos publicados em revistas internacionais, na área da Genética e da Biologia Molecular.

A sua experiência, enquanto proprietária de um ginásio e atleta e L-1 Coach de Crossfit, potenciou a sua paixão por todas as vertentes da optimização da performance atlética na prática desportiva, tendo, inclusivamente, escrito alguns artigos de revisão sobre a influência do background genético na performance e resistência físicas, na adaptabilidade ao treino e na resposta à nutrição e suplementação desportiva.

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1019: Mais nove mortos e 2.112 casos e sobem internamentos e cuidados intensivos

ÚLTIMA INFORMAÇÃO NESTE PORTAL APENAS SOBRE A PANDEMIA DO CORONAVÍRUS SARS-CoV-2 – COVID-19

Apenas para “recordar” os números de INFECTADOS DIÁRIOS pelo coronavírus SARS-CoV-2, COVID-19, desde o passado mês de Julho até ao presente, em Portugal:

– 2.112 – 22.08.2021
– 2.676 – 21.08.2021
– 2.507 – 20.08.2021
– 2.554 – 19.08.2021
– 2.983 – 18.08.2021
– 2.118 – 17.08.2021
– 1.135 – 16.08.2021
– 2.217 – 15.08.2021
– 2.571 – 14.08.2021
– 2.598 – 13.08.2021
– 2.708 – 12.08.2021
– 2.948 – 11.08.2021
– 2.232 – 10.08.2021
– 1.094 – 09.08.2021
– 1.982 – 08.08.2021
– 2.621 – 07.08.2021
– 2.377 – 06.08.2021
– 2.581 – 05.08.2021
– 3.203 – 04.08.2021
– 2.076 – 03.08.2021
– 1.190 – 02.08.2021
– 2.306 – 01.08.2021
– 2.590 – 31.07.2021
– 2.595 – 30.07.2021
– 3.009 – 29.07.2021
– 3.452 – 28.07.2021
– 2.316 – 27.07.2021
– 1.610 – 26.07.2021
– 3.396 – 24.07.2021
– 3.794 – 23.07.2021
– 3.622 – 22.07.2021
– 4.376 – 21.07.2021
– 2.706 – 20.07.2021
– 1.855 – 19.07.2021
– 3.677 – 17.06.2021
– 3.547 – 16.06.2021
– 3.641 – 15.06.2021
– 4.153 – 14.06.2021
– 2.650 – 13.07.2021
– 2.323 – 11.07.2021
– 3.162 – 10.07.2021
– 3.194 – 09.07.2021
– 3.269 – 08.07.2021
– 3.285 – 07.07.2021
– 2.170 – 06.07.2021
– 2.041 – 04.07.2021
– 2.436 – 02.07.2021

Coisa pouca e sem importância para uma “gripezinha”…

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/INFECÇÕES/MORTES

Dados da Direcção-Geral da Saúde indicam que há mais 2.112 casos de covid-19 e que estão agora mais 27 doentes internados, dos quais mais sete em unidades de cuidados intensivos.

Está a decorrer o segundo dia de vacinação dos mais jovens e o vice-almirante Gouveia e Melo quis estar presente
© TIAGO PETINGA/LUSA

O boletim epidemiológico da Direcção-Geral da Saúde (DGS) indica que Portugal confirmou, nas últimas 24 horas 2.112 novos casos de covid-19 e nove mortes.

O relatório deste domingo (22 de Agosto) dá conta de que há 708 pessoas internadas com covid-19 (mais 27 doentes face ao reportado no sábado). Nas unidades de cuidados intensivos o número sobe para os 152 (mais sete).

O boletim da DGS dá também conta de mais 877 casos activos e 1 226 pessoas recuperadas da doença e menos 283 contactos em vigilância.

No que diz à distribuição geográfica dos casos, a região do norte é a mais penalizada com 802 e dois mortos. A de Lisboa e Vale do Tejo apresenta menor número de infecções, com 657, mas continua a ser aquela em que morrem mais pessoas, no caso cinco.

Na região centro houve mais 309 casos reportados e um morto, na do Alentejo mais 62 e na do Algarve 198 e um morto. Na região autónoma dos Açores houve mais 26 casos e na da Madeira 58, ambas sem registo de óbitos.

“Os que não se vacinarem, vacinem-se”

O Presidente da República quis esta tarde de domingo visitar o entro de vacinação de Alcabideche e aproveitou para fazer um apelo: “Vacinem-se os que ainda não se vacinaram”.

Ao lado do vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, Marcelo Rebelo de Sousa frisou aos jornalistas que “quanto mais nos aproximar-mos dos 80 ou 85% de vacinação melhor”. E lançou mais uma recomendação também, a de que os cidadãos mantenham os comportamentos de distanciamento social e até a máscara facial até se perceber os números de Agosto e meados de Setembro.

Ele que foi dos primeiros a usar a máscara, será “dos últimos a tirá-la”, quando questionado sobre a eventualidade de deixar de ser obrigatória. Mas remeteu essa decisão para o Parlamento, que reunirá em Setembro. “É uma boa coincidência”, disse já que no próximo mês haverá mais certezas sobre o impacto da vacinação, sobretudo nas camadas mais jovens da população”.

Segundo dia de vacinação dos jovens
entre os 12 e os 15 anos

Decorre este domingo mais um dia de vacinação dos jovens entre os 12 e os 15 anos, depois de ontem terem sido vacinados com a primeira dose 120 mil.

“Este dia supera em muito as expectativas, uma vez que estavam agendados, para todo o fim de semana, cerca de 110 mil, e a previsão é que se ultrapasse os 120 mil no primeiro dia”, disse ontem o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo.

No sábado o vice-almirante foi recebido com aplausos no posto de vacinação de Alcabideche, em Cascais, e confessou-se emocionado. “Não estava à espera. Já visitei muitos pavilhões, mas eu julgo que os problemas recentes fizeram com que os pais também tomassem mais consciência deste processo. Acho que estes aplausos foram mais para me animar e eu agradeço imenso e fico comovido”, disse Gouveia e Melo, aos jornalistas, no final da visita.

Diário de Notícias
Paula Sá
22 Agosto 2021 — 14:41

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