“Irão morrer dez mil portugueses até meados de Março, muito mais do que até agora”

 

 

SAÚDE/COVID-19/MORTES

A modelação da doença feita pela equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa indica que vão morrer mais portugueses nos próximos dois meses por covid-19 do que em dez meses de pandemia, a 16 de Março poderemos ter 20 mil vítimas. Que vamos a caminho dos 6500 internamentos nas unidades hospitalares, 800 só em UCI, e de muito mais do que os 200 óbitos por dia. Nas últimas semanas, a realidade está a antecipar-se aos modelos matemáticos e os cenários previstos poderão agravar-se com a nova variante.

Internamentos em unidades hospitalares aumentou 89% desde o dia 31 de Dezembro até agora.
© Rui Oliveira Global Imagens

Os números são chocantes e os óbitos “a parte triste dos números”, desabafa o professor Carlos Antunes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que integra a equipa que faz a modelação da covid-19 a curto e médio prazo desde o início da pandemia. Carlos Antunes começa por referir ao DN que “ninguém pode dizer com certezas o que vai ou não acontecer daqui para a frente”, mas o que se vê nesta altura é que a própria realidade se está a antecipar aos modelos matemáticos.

Foi o que aconteceu ontem, mais uma vez, quando o boletim da Direcção-Geral da Saúde (DGS) revelou que se alcançou os 218 mortos, os 5291 internamentos em enfermarias e os 670 em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI), porque para esta data os modelos matemáticos previam um valor médio de óbitos diários de 176, só devendo atingir-se os 200 no início de Fevereiro.

A grande preocupação dos cientistas é que os cenários traçados para daqui a 15 dias ou um mês possam ser completamente ultrapassados se a nova variante começar a circular em força no nosso país. “Os cenários que temos agora traçados poderão ser ultrapassados daqui a quatro ou cinco semanas com a nova variante. Os especialistas não têm duvida de que se irá tornar dominante em relação à que já circula, e se agora não estamos a conseguir dominar o contágio, nessa altura vamos ter muito mais dificuldade, pois é sabido que a velocidade com que se propaga é muito maior”.

Provavelmente, todos os cenários serão ultrapassados, o que faz o professor do Departamento de Engenharia Geográfica e Geofísica e Energia da Faculdade de Ciências dizer que, neste momento, estamos a perder tempo com discussões académicas sobre se as escolas devem ou não fechar. Como diz, na ausência da certeza se o aluno é infectado na escola ou em casa, vale o princípio máximo da precaução: o melhor é ficar em casa”.

Previsões da Faculdade de Ciências indicam que vamos a caminho dos 800 a 900 internados em UCI.
© Rui Oliveira Global Imagens

É assim em todo o lado, “exemplos não faltam na Europa sobre o que se deve fazer quando se atinge um tecto diário de dez mil casos: confinamento total e testagem massiva para se apanhar os assintomáticos. Foi o que se fez na Dinamarca e na Irlanda, e em 15 dias baixaram dos sete mil casos para os dois mil“, acrescentando: “Quem não tem visão não tem e mostra que ainda não aprendeu ao fim deste tempo todo o que é uma pandemia”.

Dos 10 mil para 14 mil casos

Os números de ontem voltaram a fazer soar os alarmes na ciência e na sociedade civil. Nas unidades de saúde a pressão não para, sobretudo na região de Lisboa que registou 5012 infectados e 88 mortos. E o que se prevê a nível nacional é que, entre os dias 24 e 30 de Janeiro, se possa atingir os 14 mil infectados. “Trabalhamos com dois modelos em termos de incidência da doença para o número de casos, um aponta para os 14 mil infectados”, refere Carlos Antunes, salvaguardando que “este pico pode ser ultrapassado. Tudo vai depender da dinâmica da doença. E, nesta altura, desconfiamos que haja uma subestimação na identificação de casos, devido ao facto de a cadeia de rastreio não estar a acompanhar a evolução da doença”.

Ou seja, explica, “quando vemos que pode haver um tecto em termos epidemiológicos que não está correto, que é o que está acontecer com o número de infectados – não pode haver uma estabilização no número máximo nos dez mil casos quando os internamentos e os óbitos continuam a subir. E quando há indicadores divergentes é sinal de que algo está mal. Fomos pesquisar e verificámos que há um atraso na realização dos inquéritos de epidemiológicos. Há um número de novos infectados que estão a escapar ao rastreio e a criar novas cadeias de transmissão”.

Ontem, Portugal tinha mais de 135 mil casos activos e mais de 174 mil em vigilância, os que não foram detectados, mas que registaram sintomas foram e serão apanhados nas unidades de saúde, os que não têm sintomas, os assintomáticos ou infectados incógnitos, como lhes chama Carlos Antunes, escapam e podem infectar outras pessoas. “As pessoas não sabem que estão infectados e durante um período infectam outros”, explica.

Esta é a possibilidade avançada pelos modelos matemáticos, mas é também a explicação que há muito vem sendo dada pelos profissionais de saúde pública. “Entristece-me que nem nas reuniões do Infarmed nem nas medidas do conselho de ministros se tenha falado em reforçar as equipas de rastreio e de pandemia. Reforçámos o policiamento na rua, mas isso não permite apanhar os infectados”, diz.

De acordo com a equipa da Faculdade de Ciências há uma subestimação no número de casos de infecção da ordem dos dois mil casos. Se assim é, tal faz com que o número diário não seja na realidade de dez mil, mas de 12 mil, ou que os 12 mil, registados na semana passada, sejam efectivamente de 14 mil. Por isso, Carlos Antunes sublinha que “o cenário traçado aponta para os 14 mil casos diários na próxima semana, mas pode ir até aos 15 ou 16 mil”.

À pergunta sobre até onde pode ir a pandemia no prazo de quatro a seis semanas, o professor afirma que o que fazem são estimativas, que, obviamente, têm erros e que se vão ajustando aos dados diários, mas tais modelos empíricos têm vindo a fazer a projecção da doença para 15 dias, um mês ou mais, em número de casos, de acordo com a curva da epidemiologia, de internamentos e óbitos.

Ontem os modelos foram actualizados após o boletim da DGS, e o cenário da incidência da doença apontou para os tais 14 mil casos de infecção, mas os outros indicadores, como a subestimação na identificação de casos, indicam que deverá ser ultrapassado. “Temos uma modelação que nos dá um pico para o número de casos para meados de Fevereiro, indicando que estes podem chegar aos 16 ou 17 mil”. Mas, reforça mais uma vez, que “tudo irá depender da desaceleração da doença, que é um processo que não é linear. Há um boom e depois começa a crescer cada vez mais devagar”.

Internamentos subiram 89%

Os números tornam-se ainda mais preocupantes quando se olha para a modelação feita para os internamentos e para os óbitos. “No caso dos internamentos e dos óbitos, os modelos tiveram de ser revistos em alta, uma vez que estes continuam a aumentar desde há 15 dias”.

O total de internamentos, (enfermaria e UCI) cresceu 89% desde o dia 31 de Dezembro até agora, um aumento diário da ordem dos 3,4%, enquanto o total de internamentos em UCI aumentou 40%, crescendo 1,85% por dia.

O cenário estimado para os próximos dias é o de que se está a caminho dos 6500 internamentos – só em UCI, devem ser registados 800 a 900. Carlos Antunes refere que os modelos apontam para que a partir dos dias 26 e 27 de Janeiro se atinja os 6000 internamentos, mas é muito provável que esta barreira seja ultrapassada antes e que nessa altura já se esteja nos 6500, mas o pico dos internamentos só deve ser atingido a meio de Fevereiro.

Quanto aos óbitos, estima-se que estes atinjam os 20 mil em meados de março. Nos próximos dois meses, vão morrer ainda mais pessoas do que até agora – o total de ontem era de 9246 – alerta Carlos Antunes.

Segundo os modelos matemáticos irão morrer mais dez mil portugueses até meados de Março. “O tecto para a projecção dos óbitos estava num valor valor médio de 224 por dia. Na segunda-feira, a previsão indicava que seria de 200 óbitos a partir de 24 de Janeiro, e isso já foi ultrapassado”. Para esta semana, o valor médio de óbitos era de 176 mortes e já somámos 218.

Na semana passada, o conselho de ministros aprovou novas medidas de confinamento. Na segunda-feira a Ordem dos Médicos fez um alerta: “Já não se consegue salvar todas as vidas”. À noite, o primeiro-ministro reforçava as medidas. Mas as escolas vão manter-se abertas. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa veio dizer que o assunto vai ser discutido na próxima terça-feira na reunião do Infarmed, mas o professor Carlos Antunes reforça as evidências. “Os grupo estudantis com maior percentagem de infectados são os dos 18 aos 24 anos e dos 13 aos 17, logo a seguir ao da população activa. E à semelhança do que se vê nos outros países há duas frentes de estratégia para combater a pandemia: uma é reduzir os contactos, quanto mais depressa reduzirmos os contactos mais depressa reduzimos a velocidade de propagação – ou seja, se deixarmos de andar de um lado para o outro e de contactar com outras pessoas não transmitimos o vírus. A segunda tem a ver com a capacidade de rastreio para se detectar quem está infectado, isolá-lo e travar as cadeias de transmissão. Se fizermos isto com grande eficácia, conseguimos acompanhar a propagação da doença e controlá-la mais rapidamente”. Portanto, sublinha, “medidas em avulso ou de meio gás, reduzem ligeiramente a mortalidade, mas não controlam o problema ao nível da incidência”.

Neste momento, e com o número de casos diários, o professor da faculdade de ciências diz que perdemos o controlo à pandemia e que já são precisas medidas muito mais musculadas. “Quando chegamos a um nível como estamos agora são precisas medidas muito duras do que em Março para combater a pandemia. Está demonstrado que vamos precisar de oito semanas para atingir o valor antes do Natal”.

Por isso, mais do que se manter a discussão se se fecham escolas ou não a evidência responde. Ou melhor, “se não temos a certeza se o aluno é infectado na escola ou em casa, então deve vigorar o princípio da máxima precaução: o melhor é ficar em casa. Dizem que o custo de fechar é muito elevado, mas o custo de termos os hospitais cheios, sem camas para atender doentes, e do agravamento de mortes, é muito mais elevado”.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
20 Janeiro 2021 — 00:34

 

 

 

574: Cientistas descobrem anticorpo que bloqueia o vírus da dengue

 

 

SAÚDE/DENGUE

Sanofi Pasteur / Flickr
Infecção viral com dengue: quando um mosquito morde uma pessoa à procura da sua refeição diária de sangue, liberta saliva que contém o vírus da dengue que entra então na corrente sanguínea do atingido.

Uma equipa de investigadores descobriu um anticorpo que bloqueia a propagação do vírus da dengue dentro do corpo. Pode ainda permitir novos tratamentos para outros flavivírus, como o Zika e o Nilo Ocidental.

A infecção é provocada por um flavivírus e transmite-se através da picada dos mosquitos Aedes Aegypti, infectados com o vírus, não ocorrendo transmissão de pessoa para pessoa.

Não existe um tratamento específico nem uma vacina para esta doença. Entre 50 e 100 milhões de pessoas são infectadas por ano, com os sintomas a variarem entre febre, vómitos e dores musculares. Nos piores casos, pode mesmo levar à morte.

Como há quatro estirpes do vírus, a construção de anticorpos contra uma das estirpes pode deixar as pessoas mais vulneráveis à infecção por outra estirpe.

O anticorpo descoberto pela equipa de investigadores, chamado 2B7, bloqueia fisicamente a proteína NS1 – usada pelo vírus da dengue para se agarrar às células protectoras à volta dos órgãos -, impedindo-a de se ligar às células e retardando a propagação do vírus.

Além disso, como ataca directamente a proteína, é eficaz contra todas as quatro estirpes do vírus, realçam os autores num comunicado citado pela EurekAlert.

O anticorpo mostrou ser eficaz em ratos, evitando a propagação da dengue. Os resultados do estudo foram publicados este mês na revista Science. O artigo sugere que esse mesmo anticorpo pode oferecer novos tratamentos para outros flavivírus, como por exemplo o Zika e o Nilo Ocidental.

Por Daniel Costa
19 Janeiro, 2021

 

 

 

573: Há 15 dias que aumenta o número de internados: já são quase 5.000

 

 

SAÚDE/COVID-19

Registaram-se 152 óbitos nas últimas 24 horas e há mais 10.385 infectados em Portugal com o novo coronavírus. Estão internadas 4.889 pessoas, mais 236 que ontem.

© AFP

O boletim epidemiológico da Direcção Geral da Saúde (DGS) deste domingo regista mais 152 óbitos por covid-10 e 10 385 novos infectados. Ontem o país bateu o recorde de mortes (166) e de novos casos.

É o 10º dia seguido com mais de 100 mortes diárias. O total de óbitos pelo novo coronavírus em Portugal é agora de 8 861.

Portugal totaliza até agora 549 801 casos de infectados desde o início da pandemia (Março de 2020).

Os internamentos sobem há quase 15 dias consecutivos. De acordo com o boletim deste domingo, há agora quase 5000 pessoas (4 889 pessoas) internadas em enfermaria com covid-19, mais 236 do que na véspera.

Portugal passou assim a barreira dos 4 500 internados e nunca houve tantas pessoas internadas em unidades de cuidados intensivos. Portugal tem este domingo 647 doentes em UCI, mais 9 do que o dia anterior.

A maior parte dos novos casos de infeção está na faixa etária dos 40 aos 49 anos, sendo que as três faixas etárias mais jovens concentram um terço das novas infecções.

Há mais mulheres infectadas (302 185 contra 247 437) , mas a mortalidade é superior nos homens (4 608 contra 4253). A esmagadora maior das mortes regista-se nas faixas etárias acima os 80 anos.

Continua a ser a Região de Lisboa e Vale do Tejo (RLSVT) com o maior número de aumento de mortes (mais 59 nas últimas 24 horas), seguida da Região Norte, com mais 33, em relação a sábado.

No entanto, é a Região Norte a ter, desde início da pandemia, a ter o número mais elevado de infectados (256 208 contra 184 063 na RLVT) e de mortos (3 718, contra 3 174 na RLVT).

Na região Centro já morreram 1 402 pessoas com o novo coronavírus, no Alentejo 400 e no Algarve 119.

Nas últimas 24 horas recuperaram desta doença mais 4 387 pessoas, com um total de 406 929 desde o início da pandemia.

Neste domingo, está sob vigilância um total de 161 120 pessoas, mais 5 719.

Os dados recolhidos entre 2 e 6 de Janeiro dizem que o valor médio do R(t) em Portugal se fixou nos 1,22, o que significa que cada doente covid-19 estava a infectar em média mais do que uma pessoa. Porém, quando esse valor for actualizado deve ser bem superior uma vez que os casos diários têm subido vertiginosamente, passando a barreira das 10 mil infecções diárias.

Médicos alertam para situação “insustentável”

“É absolutamente insustentável o que se está a passar na prestação de cuidados, é uma situação dramática. Acho que é essa a descrição possível”, afirmou o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, lembrando que, “infelizmente os alertas dos hospitais e de todos os envolvidos não são de agora, [já vêm] até [de] antes do Natal”.

Neste sábado, o Hospital Garcia de Orta (HGO), em Almada, apresentava um total de 169 doentes com covid-19 internados, dos quais 18 em cuidados intensivos, com a unidade hospitalar a admitir um “cenário de pré-catástrofe”, caso a situação se mantenha.

O director do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), Daniel Ferro, disse que o hospital de Santa Maria está em “sobre esforço” e que a adaptação aos picos de atendimento “tem limites”, estando a trabalhar além da capacidade instalada.

Para o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, “não é surpreendente que haja de facto pressão”.

“O que acontece é que estamos a atingir um nível insustentável e isso tem muito que ver com aquilo que foi acontecendo”, afirmou.

Embora o país esteja no início de um novo confinamento, “a realidade é que na prática, olhando para a rua e vendo o que se vai passando, há de facto uma grande mobilização das pessoas na rua, etc.” e “acaba por ser difícil combater a pandemia com esta situação”, considerou.

2ª dose da vacina para profissionais de saúde

Entretanto, o Ministério da Saúde anunciou que começam este domingo a ser administradas as segundas doses das vacinas contra a covid-19 aos quase 30 mil profissionais de saúde de contextos prioritários de hospitais e cuidados de saúde primários.

A 27 de Dezembro iniciou-se a primeira fase da vacinação contra o vírus SARS-CoV-2, abrangendo os profissionais dos centros hospitalares universitários do Porto, Coimbra, Lisboa Norte e Lisboa Central, que receberam a vacina desenvolvida pela Pfizer-BioNTech.

Desde então e até sexta-feira, cerca de 106 mil pessoas já foram vacinadas em Portugal continental, incluindo também utentes e funcionários de lares de idosos.

A primeira fase do plano, até final de Março, abrange também profissionais das forças armadas, forças de segurança e serviços críticos. Nesta fase, serão igualmente vacinadas, a partir de Fevereiro, pessoas de idade igual ou superior a 50 anos com pelo menos uma das seguintes patologias: insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal ou doença respiratória crónica sob suporte ventilatório e/ou oxigeno-terapia de longa duração.

A segunda fase arranca a partir de Abril e inclui pessoas de idade igual ou superior a 65 anos e pessoas entre os 50 e os 64 anos, inclusive, com pelo menos uma das seguintes patologias: diabetes, neoplasia maligna activa, doença renal crónica, insuficiência hepática, hipertensão arterial, obesidade e outras doenças com menor prevalência que poderão ser definidas posteriormente, em função do conhecimento científico.

Na terceira fase, será vacinada a restante população, em data a determinar. As pessoas a vacinar ao longo do ano serão contactadas pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Diário de Notícias
DN
17 Janeiro 2021 — 14:17

 

 

 

572: Dentro de 10 anos a covid-19 virá a ser uma constipação ligeira, diz estudo

 

 

SAÚDE/COVID-19

Caso o vírus responsável pela covid-19 se torne endémico, como muitos especialistas defendem, ao longo do tempo e com a maioria da população vacinada, o SARS-CoV-2 poderá traduzir-se numa constipação ligeira nas crianças, sendo que os adultos deverão ficar assintomáticos.

Enfermeira prepara a medicação para um doente com covid-19 no Hospital de Santa Maria, em Lisboa
© EPA/TIAGO PETINGA

Com o mundo de olhos postos nas vacinas como sendo a esperança de que podemos estar a viver o princípio do fim da pandemia, um estudo sugere que ao longo do tempo o vírus que causa a covid-19 poderá traduzir-se numa constipação ligeira quando a maioria da população estiver vacinada.

Caso seja endémico, nunca desapareça, como muitos especialistas defendem, o coronavírus responsável pela pandemia de covid-19 poderá apenas causar “constipação ligeira” em crianças, sendo que os adultos deverão ficar assintomáticos. É, pelo menos, o que indica o estudo publicado pela revista Science, no qual investigadores basearam-se num modelo matemático, que calcula a propagação do novo coronavírus.

Os cientistas consideram que o patogénico tem a tendência de atenuar-se quando a maioria da população estiver vacinada.

“O nosso modelo sugere que esta transformação levará entre um a dez anos”, afirma Jennie Lavine, investigadora da Universidade Emory, nos EUA, e autora principal do estudo, citada pelo jornal espanhol El País.

Tudo depende da velocidade com que o vírus se propaga e como decorre a campanha de vacinação, indica a mesma especialista. É necessário, defendem, os especialistas, manter as medidas para conter a propagação até que o processo de imunização fique concluído.

Diz o estudo que a partir do momento em que o vírus passa a ser endémico “e a exposição primária é na infância, o SARS-CoV-2 pode não ser mais virulento do que a gripe comum”. Logo poderá ter uma letalidade inferior.

Mas esta é uma passagem que deverá ocorrer dentro de alguns anos ou décadas.

Os resultados do trabalho científico levam, por isso, os investigadores a reforçar a “importância da contenção” durante a vacinação contra a covid-19, ao mesmo tempo que são avaliados os “cenários para a continuidade da vacinação na fase endémica”, ou seja, o vírus está sempre presente e poderá ser responsável por surtos sem a gravidade que hoje conhecemos.

O trabalho desenvolvido baseou-se na análise “de dados imunológicos e epidemiológicos sobre os coronavírus endémicos”. Concluíram que a “imunidade que bloqueia a infecção diminui rapidamente, mas a imunidade que reduz a doença tem durabilidade”..

Os cientistas consideram ainda que o SARS-CoV-2 não é tão virulento como SARS de 2001 e o MERS de 2012 e é mais semelhante aos vírus que causam constipação ligeira. Caso se confirme esta posição, quando a maioria da população estiver imunizada, o vírus não deverá causar doença grave devido à vacina.

O que ainda não é claro é se a vacinação impede a transmissão. Resta saber também quanto tempo dura a imunidade quer através da infecção ou da vacina. Em ambos os casos, os especialistas consideram que a pessoa fica protegida de uma forma mais grave da doença.

O mais provável é que “nesta década o vírus seja responsável apenas por picos sazonais no inverno”

“A infecção natural na infância dá imunidade que protege as pessoas mais tarde na vida contra uma doença grave, mas que não evita uma reinfecção periódica”, referiu Lavine.

A cientista afirmou mesmo que a detecção de variantes mais contagiosas, como a do Reino Unido ou a identificada mais recentemente no Brasil, que não representam um aumento da letalidade, poderá reforçar a imunidade e manter o nosso sistema imunitário “actualizado” perante as mutações do vírus.

“O mais razoável é que nesta década o vírus se torne endémico e seja responsável apenas por picos sazonais no inverno“, explica Mark Lipsitch, epidemiologista da Universidade de Harvard, também citado pelo jornal espanhol.

Segundo este epidemiologista, o impacto na saúde pública vai baixar radicalmente quando a imunidade para a forma grave da covid-19 for duradoura, reforçada com reinfecções leves, uma vez que não há uma imunidade total, e quando existir uma ampla cobertura da vacina nas pessoas mais vulneráveis, de modo a que a mortalidade seja muito reduzida.

Diário de Notícias

DN
15 Janeiro 2021 — 20:22

 

 

 

571: Carga viral na saliva pode determinar a vida ou a morte do infectado

 

 

SAÚDE/COVID-19/CARGA VIRAL

A quantidade de vírus na saliva de um doente infectado com o novo coronavírus, pode ajudar a prever o seu futuro. Um estudo da Universidade de Yale conclui que a carga viral na boca está associada à gravidade da doença e pode ajudar a personalizar os tratamentos

© OSCAR DEL POZO / AFP

Os primeiros resultados de um estudo da Yale University (EUA) indicam que a quantidade de vírus na saliva pode ajudar a prever as consequências da doença no infectado com Covid-19.

“A carga viral na saliva nos primeiros momentos está correlacionada com a gravidade da doença e com a mortalidade”, diz a equipa da imunologista da Yale Akiko Iwasaki, que analisou exaustivamente 154 pacientes com Covid-19 no hospital universitário da cidade de New Haven.

De acordo com o El País, a análise destes investigadores mostra que os níveis virais aumentam progressivamente, de um mínimo em pacientes com sintomas leves, a um máximo em pacientes gravemente doentes e em pessoas que morreram de COVID.

A carga viral mais alta na saliva parece estar associada a factores de risco conhecidos, como idade avançada, sexo masculino, cancro, insuficiência cardíaca, hipertensão e doenças pulmonares crónicas.

“Se tirássemos amostras de saliva e analisássemos a carga viral – principalmente no início da infecção, quando a pessoa chega ao hospital – poderia ajudar muito os médicos a prever o prognóstico do paciente e a escolher os tratamentos”, diz o microbiologista espanhol Arnau Casanovas , que participou do novo estudo, que ainda aguarda revisão para ser publicado numa revista especializada.

A equipa liderada por Iwasaki argumenta que a saliva ajuda a prever a progressão da doença muito melhor do que amostras colhidas com um cotonete nasofaríngeo – a já conhecida zaragatoa inserida pelo nariz .

Estes investigadores defendem que estas amostras recolhidas com a zaragatoa apenas refletem a multiplicação do vírus no trato respiratório superior, enquanto a saliva também mostra a situação nos pulmões.

De acordo ainda com o artigo publicado no diário espanhol este sábado, algumas pesquisas mostram que a maior carga viral na saliva também está associada a uma maior quantidade de biomarcadores no sangue da reacção inflamatória característica dos casos graves Covid. Essa carga viral mais alta está ligada a níveis mais baixos de plaquetas, leucócitos e anticorpos específicos contra o coronavírus.

Conclusão prematura?

Elisabet Pujadas , patologista espanhola e pesquisadora da Escola de Medicina Icahn do Hospital Mount Sinai, em Nova York, aplaude o novo estudo. “Traz uma perspectiva valiosa: que a saliva pode ter um valor maior do que se pensava para diagnóstico e prognóstico”, sublinhou ao El País.

A equipe do Pujadas já publicou em Agosto a relação entre a maior carga viral analisada em amostras de nasofaringe e a mortalidade por Covid-19. “É possível que a saliva reflita melhor a infecção do trato respiratório inferior”, afirma.

Pujadas, que trabalha nos Estados Unidos há mais de 15 anos, realça, porém, que a nova análise inclui apenas 154 pacientes, por isso seria “prematuro” concluir que a saliva deveria agora ser usada em vez das amostras nasofaríngeas.

Para Pujadas, a principal lição é que não se devem classificar pacientes Covid apenas com um simples positivo ou negativo. É preciso medir a respectiva carga viral. “Para certos vírus, como o HIV, o padrão de qualidade é a carga viral, porque anos de pesquisa mostraram que ela tem implicações importantes para o risco do paciente e afecta a estratégia de tratamento. O mesmo deve acontecer com a Covid-19 “, afirma Pujadas.

Iwasaki, Casanovas e outros colegas já publicaram um estudo em Setembro que sugeria o potencial da saliva para diagnosticar novas infecções por coronavírus. Uma revisão sistemática de 37 investigações acaba de mostrar que as amostras de saliva podem substituir as amostras nasofaríngeas para o diagnóstico de covid, com a mesma precisão e menor preço.

“Há muito que dizemos que seria melhor usar a saliva como amostra prioritária. É muito mais fácil recolher saliva do que um cotonete nasofaríngeo. Não é preciso uma equipa de enfermagem. Cada pessoa pode cuspir em casa num pequeno tubo. E ainda se evita o risco associado à recolha de uma amostra com o cotonete, porque às vezes as pessoas espirram ou tossem e geram aerossóis “, argumenta Casanovas.

Diário de Notícias
DN
16 Janeiro 2021 — 11:06

 

 

 

570: Revelado como é que o SARS-CoV-2 pode ter passado de morcegos para humanos

 

 

SAÚDE/CORONAVÍRUS

Uma equipa de cientistas da Universidade de Cambridge e do Instituto Pirbright encontrou alterações genéticas significativas no novo coronavírus, o SARS-CoV-2, que podem ser responsáveis pela transição do vírus de morcegos para seres humanos.

Os investigadores descobriram que as adaptações genéticas eram semelhantes às que levaram à epidemia de SARS em 2002 e 2003. Os resultados do estudo foram publicados, em Dezembro, na revista científica PLOS Biology.

“Este estudo usou uma plataforma não infecciosa e segura para investigar como é que as alterações do peplómero afectam a entrada do vírus nas células de diferentes animais selvagens, de gado e de estimação, algo que precisaremos de continuar a monitorizar de perto à medida que outras variantes de SARS-CoV-2 surgem no próximos meses”, explicou o co-autor Stephen Graham, citado pelo Tech Explorist.

A descoberta sugere a existência de um mecanismo comum pelo qual esta família de vírus sofre a mutação e acaba por passar de animais para humanos.

Os cientistas ainda não sabem a identidade do hospedeiro intermediário do novo coronavírus, apesar de o morcego ser um dos principais suspeitos. Isto porque há a sequência de um coronavírus de morcego chamado RaTG13, que é 96% semelhante ao SARS-CoV-2.

Como tal, os autores deste novo estudo compararam os dois vírus, trocaram partes do peplómero dos mesmos e analisaram o quanto é que essa proteína se ligaria ao receptor humano ACE2. Os investigadores acabaram por verificar que as proteínas do vírus RaTG13 com regiões do SARS-CoV-2 ligaram-se de forma mais eficiente ao ACE2.

“Como vimos com os surtos em quintas de martas dinamarquesas no ano passado, é essencial entender quais animais podem ser infectados pelo SARS-CoV-2 e como é que as mutações no peplómero viral mudam a sua capacidade de infectar diferentes espécies”, disse Graham num comunicado divulgado pela Universidade de Cambridge.

Por Daniel Costa
15 Janeiro, 2021

 

 

 

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