Mar 18
2014

549: Esticão inicial depois do Big Bang deixou de ser só teoria

 

Primeiros sinais inequívocos de ondas gravitacionais confirmam teoria da ultra-rápida expansão do universo numa fracção de segundo

i18032014Há 13,8 mil milhões de anos houve uma grande explosão que criou matéria, espaço e tempo e depois um esticão que numa fracção de segundo empurrou tudo o que existia para além do inimaginável, criando o universo que conhecemos. Parece simples mas claro que não é e até ontem, apesar da história rezar assim nos manuais de ciência, não havia provas observacionais dessa primeira expansão ultra-rápida do universo após aquilo que se pensa ser o princípio, essa explosão estranha que não só empurrou a matéria mas a terá criado e foi baptizada de Big Bang. Resultados da experiência BICEP2, no Pólo Sul, prometem arrumar o assunto. Os investigadores, liderados pelo Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, apresentaram os resultados de três anos de observações onde parece haver sinais incontornáveis desse fenómeno em deformações do espaço-tempo gravadas na radiação cósmica de fundo que é possível detectar, microondas emitidas 380 mil anos após o Big Bang. Ainda não é uma detecção directa destes sussurros do espaço-tempo, como lhe chamam os investigadores, mas a equipa conseguiu descartar todas as hipóteses para as manchas que encontrou, incluindo contaminação com poeira cósmica, e acredita que são mesmo as ondas gravitacionais previstas pela primeira vez por Einstein. A comunidade científica não demorou a reagir ao anúncio feito oficialmente numa conferência de imprensa ontem pelas 16 horas.

Orfeu Bertolami, cosmólogo da Universidade do Porto, que nos anos 80 enfrentou muito cepticismo durante as primeiras conversas em torno dos visionários modelos da “inflação” ultra-rápida agora demonstrada, ajudou o i a perceber a relevância da descoberta, que ontem os cientistas não hesitaram em apontar como candidata directa ao Nobel. “Tínhamos evidências da expansão do universo desde os anos 30 mas esta descoberta diz respeito aos primeiríssimos instantes da história do universo. Estamos a falar de uma centena de trilionésimos de trilionésimos e trilionésimos de segundo. Qualquer coisa como zero vírgula 30 zeros.” E este momento é o que importa, já que foi aí, também numa fracção de segundo, que o universo se expandiu numa proporção semelhante a passar de qualquer coisa do tamanho de um fio de cabelo para milhares de milhares de milhões de planetas, de 1 metro para 10 elevado a 30. “Finalmente temos a evidência de que este período de facto aconteceu”, resume. Na radiação cósmica de fundo já havia pistas dessa expansão mas agora percebeu-se que uma polarização na imagem obtida numa frequência e escala precisa tem como única explicação as deformações iniciais. “É um sinal muito robusto e muito limpo”, diz o cosmólogo.

Para Orfeu Bertolami, será impossível detectar directamente as ondas gravitacionais geradas por este fenómeno mas lembra que há projectos em curso com esse objectivo mas mais focados em fenómenos violentos mais recentes como um buraco negro a engolir outro. “As ondas gravitacionais cosmológicas como as da expansão do Big Bang têm uma amplitude ridiculamente baixa. Penso que é impossível à luz do que sabemos hoje.” Fica explicada a origem do universo e confirmado o papel do Big Bang? “Temos de falar do que somos capazes de inferir através das observações. O que podemos dizer é que depois do Big Bang houve uma expansão acelerada e isso leva–nos a descartar muitas teorias. Mas a física que antecede essa expansão ainda é um mistério. Tenho relutância em ir para além do que somos capazes de inferir.”

Mas não tem dúvidas que o dia de ontem ficará para sempre associado a um “salto extraordinário”. Até ontem, sabia-se que a radiação cósmica de fundo dava informação sobre o que aconteceu 380 mil anos após o Big Bang. A detecção de elementos primordiais do universo como hélio 4, demonstrada nos anos 80, dava uma fotografia de como o universo era um minuto depois do Big Bang. “Agora demos um salto de um minuto para uma fracção de segundo. Não estou a ver como é que vamos ser capazes de ir mais longe mas tudo está em aberto relativamente a este início que fez um universo tão homogéneo. Para os teóricos, é um acidente absolutamente improvável.” Resta então a hipótese da criação de Deus? Bertolami sorri: “Penso que Deus não seria capaz de tanta precisão mas mantêm-se paradoxos sobre o que aconteceu antes ou depois, como perceber como é que o universo reaqueceu, pois sabemos que ficou completamente frio depois desta inflação. Mas aquilo que foi proposto pelos teóricos no final dos anos 70 – de que parte do paradoxo do universo ser tão homogéneo no espaço-tempo ficava resolvido com uma expansão ultra-rápida – está demonstrado. Quando começámos a falar disto diziam-nos que era metafísica, que nunca seria demonstrado experimentalmente.”

In Jornal i online
Por Marta F. Reis
publicado em 18 Mar 2014 – 09:40

 

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